Capítulo 125: Memórias (10)
— Estive ignorando todo esse tempo, você sabe de coisas que eu não sei, idiomas que não conheço, tem um conhecimento que nunca ouvi falar… — Se levantando, ele continuou a falar. — Nasháh… pode ser sincero comigo, quem é você realmente?
O homem o encarou por alguns segundos, esperando que Li desistisse por conta própria, mas ninguém melhor do que ele mesmo sabia que isso não aconteceria.
— Você é menos ingenuo do que aparenta.
— Posso confiar facilmente nas pessoas, mas isso não faz de mim uma pessoa burra.
— É… — concordou, soltando um riso curto.
— Então, quem é você?
Nasháh pensou por um instante, indisposto.
— Vai ficar satisfeito se eu lhe disse quem é Nasháh?
— Não seria você?
— Sim, sou eu — respondeu seriamente.
— É o suficiente.
O olhando novamente, ele finalmente cedeu.
— Que seja então.
O cenário ao redor, que até então era como um quadro branco, mudou completamente e Li se viu em um quarto escuro. Diferente do que costumava ser o seu pequeno quarto numa despensa em um porão, esse era grande, lustroso; possuía uma cama enorme e finas cortinas de seda penduradas na janela que nesse momento se encontravam fechadas. Deitada naquela cama ornamentada, uma garota repousava sua cabeça sobre os travesseiros fofos.
“Onde estou…” pensou Li, mas não obteve nenhuma resposta.
Subitamente, ouviu o barulho da porta abrindo e virou-se para trás. Quem entrava era uma mulher mais velha, vestindo trajes que lembravam um uniforme.
— Senhorita, hora de se levantar!
— Ahn… Melanie… ainda é cedo…
A pequena menina esfregou os olhos de cor vermelha com suas mãos e reclamou.
— Bem… achei que gostaria de acordar mais cedo, afinal, seu pai está retornando.
— Ah, é mesmo!
Rapidamente, ela tirou o lençol que cobria suas pernas e as arrastou para a borda da cama.
— Rápido, Mel, me arrume!
— É pra já senhorita!
“Por que ele está me mostrando isso?” pensou Li.
A empregada penteou seus cabelos ruivos com uma linda escova enquanto a menina cantarolava. Depois de arrumá-la, Li viu se surpreso, pois a mulher pegou a criança no colo e a pôs em uma cadeira com rodas.
— Provavelmente em mais alguns anos você não vai precisar mais dessa cadeira, senhorita, mas até lá, peço perdão por ter que carregá-la dessa forma.
— Não precisa, Mel… eu gosto de quando você me pega no colo — A garota lhe deu apoio. — Agora vamos, vamos, quero ver meu pai logo!
— Certo, vamos!
Passando pela porta, enquanto empurrava a cadeira, Li parecia ser magneticamente teleportado para determinada distância da menina a cada vez que ela se afastava, então, por conta própria decidiu seguir logo atrás, afinal, eles não pareciam conseguir enxergá-lo ou senti-lo.
Acompanhando-os durante um tempo, Jihan passou por diversos grandes corredores, similares a um palácio, decorados e ornamentados com metais raros, joias e obras de arte; apesar disso, não conseguia ver o que habitava nesses quadros e nem compreender as estatuas, como se ele tivesse um problema sério de vista e elas estivessem distantes demais para que fosse enxergado. O lugar, no entanto, era bem colorido e iluminado, como em um sonho de princesa.
Finalmente, após uma duzia de minutos andando, eles alcançaram o jardim, onde uma grande plataforma se erguia, levantada aos céus por algumas poucas dezenas de escadas.
“Parece um heliporto para um helicóptero gigantesco, que forma estranha…”
Não demorou muito para ele compreender o porquê daquele formato.
— Olhe, ele está chegando! — gritou a menina.
Li fitou o horizonte, mas nada conseguia ver, pelo menos não nos primeiros segundos. Bem longe, um pequeno ponto vermelho se aproximava, parecia ter o tamanho de uma mosca, depois de um ovo, um cachorro, e quanto mais tempo se passava, maior ficava aquela criatura. No fundo, Jihan sentiu um palpitar em seu peito, um som que ele bem lembrava.
ROAAAAAAAAAAR
Um rugido se espalhou pelos céus, empurrando os ventos em todas as direções inclusive na dos que estavam no chão. Os cabelos da menina balançavam e bagunçavam como se nunca tivessem sido penteados, mas ela não se importava, ao invés disso, sorria e dava risadas.
A empregada pelo contrário suspirou.
— O senhor Nasháh poderia ser um pouco menos espalhafatoso em seus retornos.
“Nasháh!?” Li exclamou em seus pensamentos. Olhando para os céus, tudo que ele podia ver se aproximando era uma criatura similar a um lagarto de asas, um dragão gigantesco, que facilmente alcançava os vinte metros de altura com chifres que eram maiores do que o próprio homem.
Porém, assim que tocou a plataforma, seu corpo rapidamente diminuiu, e no momento em que pisou no primeiro degrau, já não era uma pata de dragão e sim a perna de um homem.
“Mentira…”
O homem desceu apressadamente pelas escadas e pegou com extrema facilidade a menina em seus braços, beijando todo seu rosto.
— Meu bebê, eu senti tanto sua falta.
— Papai, sua barba ta arranhando!
Nasháh não possuía a aparência que ele tinha em seus encontros com Li no plano mental, eles ainda possuíam certas semelhanças, mas ele parecia mais velho, barba por fazer, cabelos ainda brancos e um olhar cansado, mas gentil.
— Minha filha, Vivi, eu quase morri de saudades.
— Haha, você não tem como morrer, você é um dragão.
— Sim, mas dragões ainda podem morrer de saudades!
— Você é bobo, papai.
Virando-se para a empregada, o homem perguntou.
— Obrigado por tomar conta dela, Mel, ela se comportou bem?
— Sim, meu senhor, a senhorita Vivi é adorável, educada e um amor, ela lembra bastante a senhora.
— Sim ela é! — disse o homem, abraçando-a com toda a força novamente.
— Pai, me conta como foi a sua aventura dessa vez?
— Claro, meu bem, tenho várias histórias para te contar, o invencível Nasháh dominou todo o campo de batalha!
— Como sempre, você é invencível!
Li viu toda a cena surpreso, mas não pelos motivos óbvios. Um aperto crescia em seu peito. Ele ouvia calmamente a história do dragão guerreiro que dizimava seus inimigos e trazia paz para o reino, porém, o aperto não passava, aumentava, se transformava em angústia e agonia. Aquelas histórias tão coloridas e cheias de risadas pareciam causar nada mais do que tristeza.
— Nasháh… — sussurrou. — Essas não são memórias felizes… certo?
Assim que perguntou, o aperto em seu peito se tornou mais forte, e forte, até se tornar sufocante, como se seu coração estivesse sendo perfurado. Todos congelaram, enquanto o mundo perdia lentamente a sua cor colorida e se tornava cinzento.
O cenário subitamente mudou, dessa vez Li apareceu em um campo de batalha, rugidos e gritos eram ouvidos por todo o canto. Diversos corpos estavam espalhados pelo chão e o cheiro de podridão intoxicava todo o ambiente. Avistando uma barraca, ele sentiu que deveria se aproximar e assim o fez.
— Senhor, tem uma mulher querendo falar…
Um soldado dentro da tenda tentou comunicar com Nasháh, que estava com olheiras fundas e um rosto um tanto quanto acabado, nada similar ao que se esperava de um dragão, muito menos de um tão forte. Mas antes que pudesse falar algo, a pessoa que o soldado se referia invadiu a tenda, indo rapidamente em direção ao homem.
SLAP
Sentindo o tapa, todos os outros homens, cujos rostos estavam borrados, viraram-se em direção à mulher, Li a reconheceu no mesmo momento, era Melanie. Nasháh virou-se furioso, mas assim que seus olhos se encontraram com os da empregada, eles imediatamente perderam o restante da cor que tinham.
O sentimento de tristeza agoniante penetrou a alma de Jihan, percorrendo o seu corpo e tomando sua mente. Nem mesmo nos seus piores momentos ele havia sentido algo igual.

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