Índice de Capítulo

    — Ela esperou por você! 

    O guarda segurou imediatamente a mulher. 

    — Como ousa! — gritou o soldado, mas parou assim que viu a mão de Nasháh se levantar, ordenando-o. 

    — Deixem-nos — disse ele, pedindo a todos que deixassem a tenda. 

    — Por que você não voltou para casa? 

    — O que aconteceu? 

    — O que aconteceu!? — repetiu a mulher. — O que pensa que aconteceu!? 

    Nasháh pensou por não mais que cinco segundos, respirando. 

    — Eu estava lutando por uma cura… 

    — Ela não precisava de uma cura, ela precisava de um pai! 

    — Você não sabe… 

    — Como não sei! — gritou Melanie. — Quem você acha que ficou ao lado dela durante todos esses anos! Quem você acha que escutou ela chamar por você tantas vezes! Quem você acha que a ouviu chorar! 

    — Você não sabe o que está dizendo!  

    — E você é um tolo! 

    — E como você poderia pensar diferente? — retrucou. — Como você poderia saber o que significa ser um dragão?  

    — Estou farta de suas desculpas!  

    — Sabe o que significa não conseguir usar magia? Mal conseguir se movimentar? Estar preso em uma forma humanoide é uma tortura! Como pode chamar isso de viver, um estado patético!  

    Ouvir aquelas palavras enfureceu a mulher, que mal conseguia completar uma frase de tanto ódio. 

    — Como você pode dizer isso! — gritou de volta. — O que a senhora, o que minha irmã Melinda diria se ouvisse essas coisas! Ela também era uma humana! 

    — O que ela diria!? O que ela poderia dizer! — falou Nasháh. — Ela também me abandonou!  

    — Abandonou!? 

    — Sim! Ela abandonou! — repetiu. — O que mais eu deveria fazer, assistir a minha filha morrer sem fazer nada!?  

    — Então você preferiu deixá-la morrer sozinha? — retrucou. — Você era tudo que ela tinha! Minha irmã… 

    — O que? — retrucou, levantando ainda mais a voz. — O que ela diria? NADA.  Ela não pode dizer mais nada, por que está morta! Ela também era pa… 

    — Não diga — Melanie o encarou com os olhos afiados, levantando a voz e o interrompendo. — Não ouse dizer essas palavras. 

    O homem se segurou, mas o que havia saído já estava dito. 

    — Minha irmã te amou mais do que tudo no mundo e mesmo assim ela não te amou tanto quanto aquela menina. Em seus últimos momentos, ela ainda tinha esperança de que seu herói invencível iria retornar no último segundo para salvá-la… esse é o tipo de pessoa que você era para ela… 

    Nasháh rangeu os dentes, segurando a própria língua. 

    — Mas vejo agora o homem que você é… não… não um homem. 

    Melanie apontou para a própria cabeça, como uma Regente de Anima do mais alto nível, aquele tipo de habilidade era simples como tomar água. Um fio de Prana saiu de sua cabeça. 

    — Já que você ama tanto a magia, então tome-a, dragão estúpido. 

    E o fio foi atirado na direção de Nasháh, que, perdido em pensamentos, falhou em reagir. Subitamente, uma onda gigantesca de memórias espalhou-se pela sua mente e seus joelhos foram ao chão. 

    — O que… você fez! — gritou, com as duas mãos segurando a própria cabeça. 

    — Eu não vou carregar esse fardo sozinha, pelo menos uma vez você pode agir como um pai e ser punido pelos seus pecados. 

    Inúmeras imagens percorreram os olhos de Nasháh, que gritou em agonia enquanto a tristeza consumia seu corpo e sua mente. Jihan pôde sentir tudo, milhões de agulhas perfurando cada milímetro da sua pele. 

    — Faça parar! 

    Melanie se aproximou, sussurrando em seus ouvidos. 

    — Você nunca vai esquecer, como um dragão vai viver milênios desejando tirar isso da sua cabeça e nunca vai conseguir! 

    Li imediatamente foi arrastado para fora da tenda, de volta para os corredores do Palácio do Dragão. Passo a passo, ele percorreu o chão empoeirado. O cenário era diferente. Enquanto caminhava, ele via diversas memórias. No início, eram felizes, Vivi corria pelos corredores, acompanhada algumas vezes de Melanie e outras de seu pai. Risadas eram ouvidas em todos os cantos, tanto da menina quanto do próprio homem. 

    À medida que andava, as lembranças também avançavam. A garotinha ia envelhecendo lentamente e perguntava pelo seu pai, que já não aparecia mais. Em alguns momentos, Jihan via cenários em que Melanie esperava calmamente do lado de fora do quarto da menina, enquanto ouvia soluços de choro vindo de dentro. Em outros, a própria mulher chorava sozinha, sentindo-se incapaz. 

    Em dado momento, o cenário alterou-se por completo, as paredes estavam sujas, a tinta havia se desgastado. Os quadros haviam sido rasgados e as estátuas destruídas. Já não era colorido e iluminado, e sim escuro e cinzento. Aquele palácio já não aparentava ser de um nobre, mas sim ter sido destruído por uma guerra, ou pela tristeza. 

    Continuando até o fim do corredor, ele chegou até um salão, que possuía um trono no fim. No trono havia um homem sentado, esse homem não o encarou, olhando para baixo, ele perguntou: 

    — Satisfatório o suficiente?  

    Li não respondeu. 

    — Agora você sabe a história de Nasháh. 

    — O que aconteceu? 

    — Foi a última vez que vi Melanie, naquele dia na tenda — respondeu. — Ela me passou uma cópia de suas próprias memórias, de todos os momentos em que esteve com minha criança. 

    — Então as memórias que vi… foram dela? 

    — A maioria… 

    — Por que você simplesmente não apaga? 

    — Hahahaha! — gargalhou fracamente. — Quem me dera fosse tão fácil! Não foi uma simples transferência, foi uma maldição, uma tão forte que o custo são pelo menos duas décadas de vida da pessoa que a usa, uma que só pode ser usada por pessoas próximas ao pináculo do poder! 

    — Uma maldição? E não existe uma maneira de retirá-la de si? 

    — Só existe uma maneira de tirar de mim algo tão forte… mas… eu não sei — Nasháh abaixou a cabeça. — Só ela sabe… a única regra é ter que ser algo possível… ou ela teria morrido pelo rebote no momento em que a aplicou. 

    — E o que aconteceu depois? 

    — O que há para acontecer depois? — retrucou a pergunta. — Eu só estava naquela estúpida guerra para que recebesse ajuda dos malditos humanos para curar a criança… o que mais há para se ter depois de tudo? 

    — Isso ainda não respondeu minha pergunta… como você acabou na minha mente? 

    — Ainda insiste em me questionar, garoto? — rebateu o homem. — Não me atormentou o suficiente? Tudo que fiz até agora foi para te ajudar, é assim que me retribui? 

    Li pensou por um instante, aquela tristeza, a agonia, eram definitivamente verdadeiras, ele pôde sentir coisas que o teriam destruído mentalmente caso tivesse sentido por si mesmo. 

    — Me desculpa. 

    — Não preciso das suas desculpas, garoto — respondeu. — Só saiba disso, eu também não desejo estar em sua mente. 

    SNAP 

    — Espe… 

    E num estalar de dedos, Li foi mandado para fora das memórias, acordando pela manhã. Enquanto isso, sombras apareceram em volta de Nasháh. 

    — Você está se envolvendo demais com o garoto! — disse uma. 

    — Tem ideia de que pode acabar conosco? — falou outra. 

    — Talvez devêssemos tomar o controle à força! — bravejou uma mais. 

    — Talvez devêssemos matar o menino! — gritou a primeira. 

    — Não tem nada demais em mostrar as minhas memórias para ele. 

    — Elas não são suas — uma voz rouca soou na escuridão. — Sabe muito bem disso. 

    — Se pensa que nosso acordo ainda está de pé, está muito enganado! 

    — É mesmo? Talvez eu deva matar o garoto agora mesmo. 

    Nasháh se calou. 

    — Viu, sei muito bem que se importa com ele, pode ter o controle do fragmento nesse momento, mas não preciso de mais do que 5 segundos para acabar com isso — avisou. — Por que se calou? Acha que não sei que foi tentado a contar-lhe a verdade? Não me tome por um tolo, dragão. Pode ter pulado fora, mas meus acordos são eternos, terá o que deseja assim como eu. 

    — Não preciso de nada vindo de você… Além disso, quero ver você tentar, sei muito bem que não causaria mal algum a ele, isso te mataria junto! 

    — Ora… sabe que o conceito de morte é irrelevante para mim, dragão… uma de minhas vidas pela do garoto… que mal terei em esperar mais um milênio… você, pelo contrário, parece achar uma troca nada vantajosa. 

    — Eu não vou mais jogar seus jogos, monstro! 

    — Hahaha… você nunca parou… 

    Assim que falou, as sombras ao redor deram risada enquanto desapareciam uma a uma, deixando Nasháh sozinho no trono em um salão destruído pelo tempo. 

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