Capítulo 136: Um caminho solitário
Em uma casa levemente isolada do centro da cidade, um homem de cabelos trançados, estatura média e usando roupas leves de couro batia a porta. O sol de fim de tarde reluzia na grama, nas pedras e na palha que cobria o telhado.
TOC TOC TOC
Após alguns minutos de insistência, a porta se abriu.
RENNNK
— Ah… é você, a mamãe não está em casa… — disse Maria, bocejando. — Eu estava dormindo, sabia?
— Quando foi que minha irmãzinha se tornou tão cruel… — Matheus respondeu.
— Desde quando você esqueceu meu aniversário.
— Foram tipo duas vezes seguidas e você só se lembrou meses depois!
— Pelo menos eu lembrei…
— Por que eu te falei!
— Meros detalhes!
HMPF
— Posso entrar?
— Não sei, devo deixar o meu irmão ingrato entrar? — provocou, olhando-o com apenas um olho aberto.
— É rapidinho, enquanto a…
— Enquanto o quê? — Uma voz velha soou pelas costas de Matheus, arrepiando-o até a alma.
— Ah… Oi, mãe…
— Hm… — Laura o encarou no fundo dos olhos. Depois de alguns segundos, andou em direção a ele, mas, sem tocá-lo, passou pela porta. — Venha, vou fazer o jantar agora.
— Sim, senhora…
Ao passar por Maria, Matheus fez uma careta para provocá-la, brincando por ela não ter o deixado entrar antes.
— Quer ajuda, mãe? — perguntou.
— Não, você é péssimo na cozinha, só trate de ficar sentado aí.
Colocando as verduras e legumes em cima da bancada da cozinha, Laura começou a corta-los um a um, com precisão e destreza, mas lentamente.
— Então, o que veio fazer aqui? — perguntou.
— Vim apenas visitar vocês…
— Pare de agir como se eu não te conhecesse, você é meu filho — disse Laura calmamente enquanto cortava.
— Mãe…
— Como está a menina? — O interrompeu. — Você me manda cartas para contar as coisas, mas sempre esquece de algo… homens são muito pouco detalhistas…
— Está bem, com o Li de volta, ela parece estar bem confortável.
— Fico feliz, digo, você só me contou o que estava acontecendo com ela depois de já terem resolvido.
— Não queria preocupar a senhora.
— Não saber de nada preocupa mais do que saber de algo ruim.
— Só estou dizendo…
POF
A faca atravessou o rabanete, batendo contra a tábua de madeira e interrompendo Matheus.
— É uma missão, não é? — perguntou, sem olhar para ele.
Matheus não respondeu e logo Laura resumiu sua atividade de fazer a janta. A cozinha ficou em silêncio por alguns instantes, antes de a mulher falar.
— Sabia, o seu pai tinha uma mania…
— Meu pai?
— Sempre que ele ia para uma missão perigosa, ele parava em casa — falou, enquanto ralava uma cenoura. — Ele parava… e me olhava com essa mesma expressão que você tem agora… ele fez isso da última vez também.
— Que expressão eu estou fazendo agora? — perguntou, estranhando. Até ali, não achava que havia feito nada diferente.
Laura largou a faca e olhou na direção do jovem. Matheus, com o tempo, havia parado de visitar tanto assim a sua mãe e sua irmã mais nova. Apesar de nenhum deles ter seu sangue de verdade, ainda eram sua família.
Porém, mesmo sendo um ótimo líder e um guerreiro habilidoso, ele havia falhado em perceber como o tempo era duro com as pessoas ao seu redor; não percebeu quando o primeiro fio de cabelo de sua mãe havia ficado grisalho, nem quando suas rugas de expressão começaram a se destacar em seu rosto. Não percebeu quando sua pele havia começado a manchar e nem quando seus olhos ficaram tão cansados de ver o mundo.
Para ela, no entanto, Matheus ainda era a mesma pessoa. Ainda era o mesmo brincalhão, mesmo tendo se tornado mais sério. Ainda era o mesmo idiota, mesmo tendo se tornado mais sábio. Ainda era a mesma criança, mesmo já tendo crescido tanto. Por fim, ainda era o mesmo filho, mesmo que já não fosse.
Para Laura, ele ainda era e sempre seria.
— Você é um tolo se pensa que pode enganar os olhos de sua mãe, meu filho.
— Eu não…
— É uma missão, não é?
Por mais alguns segundos, Matheus tentou segurar seus lábios, mas falhou miseravelmente.
— Sim, senhora.
— Uma perigosa?
— Sim… senhora.
— É ele?
Nesse ponto, ele não conseguiu falar a verdade.
— Não, mãe, não é.
Maria cerrou os olhos no mesmo momento e virou-se, tornando a cortar os legumes.
— Você vai voltar vivo?
— Que tipo de pergunta é essa, mãe? — perguntou retoricamente. — É claro que vou!
Maria parou com as perguntas e concentrou-se em finalizar seu trabalho.
— Sabe, eu acho que já vou… — disse Matheus, se levantando.
— Poderia… poderia passar a noite aqui hoje? — perguntou sua mãe, com uma voz um tanto quanto fraca.
— Claro, mãe… eu posso sim.
— Aproveite que está levantado e vá pôr a mesa então, vou terminar de fazer a comida.
— Sim, senhora — antes de sair da cozinha, ele continuou. — Mãe…
— Sim?
— Sabe que eu amo a senhora, não é?
Parando em um corte, ela respirou por um segundo e respondeu:
— Sim, meu filho, eu também te amo.
Após o jantar, todos foram dormir. Matheus deitou-se em seu antigo quarto e demorou a pegar no sono. Mesmo dormindo pouco, acordou antes que o sol nascesse e levantou-se, indo até um quarto ao lado enquanto ainda estava escuro.
Abrir a porta daquele quarto não a fez ranger, pelo contrário, ao entrar no cômodo, notou que estava completamente limpo, provavelmente era o lugar mais limpo de toda a casa.
Aquele lugar não era qualquer lugar, mas sim o antigo escritório de Gabriel. Indo até uma das estantes, Matheus puxou um livro, assim que o fez, um buraco de um metro quadrado abriu-se na parede de pedra ao lado.
Dentro do buraco havia um baú. Abrindo-o, notou algo esquisito que não deveria estar ali. Junto ao par de pistolas feitas de uma pedra esbranquiçada e anormal, havia um bilhete.
— O que é isso? — estranhou. O papel estava novo, como se tivesse sido colocado recentemente.
“Volte.”
Em letras bonitas, delicadas, mas trêmulas, apenas uma palavra estava escrita. Ele não precisava pensar nem por meio segundo para saber de quem era aquela caligrafia. Mordendo o lábio fortemente, ele pegou o conteúdo da caixa e guardou em uma bolsa, logo depois se direcionou à porta de saída. Assim que abriu a porta, um certo alguém apareceu no corredor.
— Irmãozão? Onde está indo no meio da noite?
Matheus virou-se na direção de Maria.
— Eu que te pergunto, por que você está acordada a essa hora?
— Bem… a mamãe… — a criança olhou para baixo. — A mamãe estava chorando…
Mesmo que sua garganta estivesse apertada, ele engoliu a seco e continuou a conversa.
— Ela estava?
— Uhum…
— Sabe de uma coisa? — disse ele. — Vem cá.
— O que foi?
— Só venha…
Mesmo estranhando, Maria se aproximou. Matheus rapidamente a agarrou e a abraçou antes que ela pudesse reagir.
— Ei, me larga!
— Só… só um pouco…
Ouvindo a voz trêmula do irmão, ela parou de se debater.
“Por que todo mundo está agindo dessa forma…” pensou a criança.
— Poderia me fazer um favor? — perguntou Matheus, soltando-a.
— O que?
— Pode cuidar da mãe por mim?
— Eu já faço isso!
— Sim — riu levemente. — Sim, você já faz.
— Você vai voltar? — perguntou subitamente.
— Por que a pergunta?
— Sabe, a mamãe sempre fica triste quando você vai em missões, então imagino que você esteja indo em uma agora.
— Você é bem esperta, sabia?
— Claro que sou!
— Haha, sim, vou voltar… ei, e se quando eu voltar, te ensinasse um pouco de manipulação de Prana?
— Vai me ensinar a usar a mana!?
— Pran… ah, sim, isso mesmo!
— Mas eu não consigo… só consigo usar o que tenho no corpo…
— Não te impede de treinar até que seus vasos sejam liberados…
— Sério mesmo?
— Seríssimo!
— É uma promessa então — disse ela, estendendo o mindinho.
— É uma promessa — concordou, estendendo o dele. Virando-se, passou pela porta. — Diga à mamãe que a amo.
— Ela sabe!
E assim, continuou andando, sem virar para trás.

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