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    Los muertos se van cuando el olvido los sepulta

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    — Listo! 

    — Listo?

    — Ah, quero dizer, pronto! 

    O quarto da estalagem era simples: duas camas de lençóis ásperos, uma escrivaninha capenga e uma janela de madeira que deixava entrar a luz morna dos lampiões de Mélia. Do lado de fora, ainda se ouvia o murmúrio distante da feira fechando, mas ali dentro o mundo parecia menor, mais lento, como se a viagem tivesse ficado esperando do outro lado da porta. 

    — Terminei de desembaraçar, agora só preciso escovar e fazer a trança.

    — Obrigada, senhori… digo, Glória.

    — É um prazer, você tem o cabelo mais bonito que eu já vi, sabia? 

    — Mas seu cabelo é lindíssimo! 

    — Acredite em mim, lá em casa, o meu nunca ficou desse jeito nem em dia de festa. 

    — O senhor Patriarca dizia ser vaidade cuidar demais dele… — respondeu a menina, baixinho. — A gente só podia pentear rápido, de manhã, antes das orações.

    A escova parou por meio segundo. Depois continuou, no mesmo ritmo de antes.

    — Então, agora vamos pentear devagar — disse a mulher, simplesmente. — Do jeito mais demorado que existir.

    Lisa não respondeu, mas seus ombros, levemente encolhidos como sempre, desceram um pouco. Pela janela, um lampião de runa piscou antes de se firmar. A escova seguia seu vai e vem, e a cada passada a menina afundava um pouquinho mais no gesto, como quem se aquece perto de um fogo que demorou a vida inteira para encontrar.

    — Senhorita, de onde você é?

    — Eu? — perguntou retoricamente. — Bem, eu sou de um lugar bem distante… nasci num país chamado México. Minha mãe é mexicana e meu pai é de um lugar chamado Bolívia. Vim para Erebus quando tinha apenas cinco anos.

    — Você sente saudade de casa? — Perguntou.

    — Bem… é complicado, já voltei para minha cidade algumas vezes, mas eu tenho quatro vezes o tempo aqui do que tenho lá… não faz tanto sentido mais. 

    — Entendi…

    — Pronto, terminei! 

    Lisa se levantou e deu uma volta, puxando sua longa trança para a frente do corpo.

    — Olhe só, que hermosa eres! 

    — Oh, ficou lindo! — exclamou. — Muito obrigada, senhorita Glória, você definitivamente vai ser uma ótima mãe.

    Por um instante, o comentário de Lisa fez com que Glória arregalasse os olhos, que ficaram marejados. Quando percebeu, a menina se aproximou.

    — Me desculpe, eu disse alguma coisa?

    — Não… — respondeu, limpando as lágrimas. — Você não fez nada, minha querida.

    — Mas… você está chorando…

    Olhando-a com uma expressão triste, Glória a puxou para perto.

    — Venha cá.

    E a abraçou, deitando-a em seu colo.

    — Sabe, minha pequena, eu não vou ser uma mãe tão cedo.

    — Não? — questionou, confusa pela súbita confissão.

    — Sim… — respondeu, respirando fundo para continuar. — Na verdade, eu já quase tive um bebê há alguns anos… mas eu a perdi…

    — Sinto muito… — Lisa entristeceu-se por tê-la lembrado de uma memória ruim.

    — Não sinta, querida — disse Glória com extrema ternura. — Sabe de uma coisa, se minha filha fosse igual a você, eu seria a mãe mais feliz do mundo.

    Lisa a olhou, pega de surpresa pela declaração, mas falou rapidamente com sinceridade.

    — Eu… se eu tivesse uma mãe como você, eu seria a filha mais feliz do mundo! 

    Glória a abraçou ainda mais forte do que antes, afundando-a em seu peito, e assim ficaram por alguns minutos.

    Após algumas semanas dividindo quarto e conversando, Lisa e Glória haviam compartilhado muitas experiências. Especialmente devido à mulher ter cuidado dela diversas noites, onde a sacerdotisa sofria de pesadelos intensos.

    — Senhorita Glória, você me permite perguntar sobre uma coisa? 

    — Sim, claro… — respondeu, curiosa pelo que Lisa teria que pedir permissão para falar.

    — Bem… é sobre o líder…

    — Se sua pergunta for o motivo de eu estar incomodada com ele, já te adianto que não posso te dizer.

    — Hm… então… por que a senhorita é tão sensível em assuntos relacionados a ele?

    HMPF

    — Bem, touché, você me driblou bem nessa — respondeu Glória, brincando. — O que posso dizer… eu e o Matheus temos um histórico complicado… é uma longa história.

    Lisa permaneceu sentada após ouvir a resposta, aguardando a continuação como um cachorrinho que aguarda seu petisco. Glória, percebendo que não escaparia dessa situação, resolveu contar para ela.

    — Certo, por onde eu começo… Há alguns anos, antes de eu entrar para a Arcádia, eu era uma pessoa completamente diferente de quem sou hoje… admito que eu era um pouco difícil de lidar — explicou. — Havia algumas coisas que eu não aceitava de forma alguma e eu estava certa, mas fiz as coisas de forma errada… bem, não errada errada, mas errada do tipo não me garanti que não haveria retaliação.

    — Não sei se estou conseguindo acompanhar…

    — De qualquer forma… no fim das contas, eu iria ficar presa ao nível de novata para sempre se continuasse naquela equipe… mas o Matheus… ele viu o potencial em mim; quando nós nos conhecemos, ele ainda era um novato, mas ele me disse que se tornaria um líder de equipe em pouco tempo, e, quando isso acontecesse, me levaria junto com ele… e foi isso que ele fez… dia após dia, noite após noite, ele trabalhou para cumprir sua promessa comigo.

    — O líder realmente é esse tipo de pessoa…

    — Sim, e não só a mim que ele ajudou, Fynn, Hans, até mesmo o Jihan pode servir de exemplo.

    — Li?

    — Exatamente — confirmou. — Pode não parecer, mas a maioria dos líderes de equipe tende a optar pelo caminho mais tranquilo de uma ascensão lenta. Poucos estão dispostos a juntar tantos personagens problemáticos em sua própria equipe… mas Matheus nunca ligou para isso.

    Glória acariciava lentamente a cabeça de Lisa enquanto falava.

    — As ações dos novatos quase sempre refletem em seus respectivos líderes — disse a mulher. — Pense bem, quem estaria disposto a ter pessoas como o “Assassino de Amarílis” e “A decepção dos Arkerman” em seu time? 

    — Realmente… parece complicado liderar uma equipe dessa…

    — Mas Matheus consegue; ele não é poderoso como a Kali ou a Lorena, mas suas habilidades de liderança certamente não ficam atrás de nenhuma das duas — explicou. — Ele não apenas salvou a mim, como a outros… me diga, Lisa, você gosta do Jihan? Digo, a idade de vocês não é…

    — De forma alguma! 

    Glória se espantou com a rápida negação da menina.

    — Eu vejo o Li como um irmão mais velho… se é que é assim que é ter um. Acredito que ele me enxergue como uma irmãzinha, ou algo assim.

    — Ele provavelmente vê dessa forma mesmo… — concordou, rindo. — Bem, talvez você entenda mesmo assim, mas é difícil não se sentir atraída por alguém como o Matheus.

    — Foi assim para você, senhorita?

    — Foi… ele é incrível definitivamente… mas…

    — Mas?

    — Por algum motivo, sempre faltou alguma coisa para ele… piorou quando eu perdi o bebê, mas ele nunca me abandonou e nem me deixou na mão… ele sempre esteve ali.

    — Faltou alguma coisa…? — Lisa pensou por um instante. — Você acha que ele encontrou essa coisa? É por isso que vocês estão agindo dessa forma?

    — Lisa…

    — Você não precisa falar se não quiser…

    Glória respirou por alguns momentos.

    — Eu… genuinamente espero que não… se for realmente isso, espero que ele nunca encontre o que está procurando.

    RENK

    — Quem está aí!? — A mulher imediatamente exclamou quando ouviu um barulho de madeira rangendo na porta do quarto.

    Levantando-se, Glória foi até a porta do quarto e a abriu. No chão, apenas dois potes de comida estavam empilhados e ninguém nos corredores.

    — Quem…?

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