Capítulo 84: Vaias
Dizem que o ódio concentra toda a força de seus músculos, fazendo com que um ser humano ignore os seus limites corporais e consiga exercer até mesmo duas vezes mais força que o normal. A vontade de sobreviver causa o mesmo efeito.
No entanto, outro fato interessante é que uma mãe, para salvar seus filhos, consegue exercer até mesmo cinco vezes mais força do que normalmente. Somos muito mais fortes quando lutamos para salvar o outro.
Teoria da intenção ~ Sócrates
— Que falta de sorte para Selene ter que enfrentar alguém tão poderoso logo no nível 1 do torneio… — lamentou Matheus. — Pelo menos eles só se enfrentarão na semifinal…
— Que papo é esse, líder? Parece até que você já sabe o vencedor — disse Li.
— Argh, eu sei que estou sendo pessimista, mas tem um bom motivo, você já deve ter ouvido sobre os Alados, certo?
— Sim, eu li sobre eles em um livro na biblioteca — respondeu. — Eles costumavam ser reverenciados pelos humanos, mas tudo mudou quando os Alados não vieram ao nosso auxílio na primeira grande guerra.
— Exatamente, não é por nada que eles eram cultuados como descendentes de Yan, apesar de ter aparência humana, a escala de poder desses seres é completamente anormal — explicou Matheus. — Isso se deve provavelmente a longevidade que um Alado pode alcançar, até mesmo os que chegam aos 100 anos ainda são considerados adolescentes… originalmente, esses seres eram os chamados Matadores de Demônios.
— Originalmente? Você quer dizer que eles não são mais?
— Infelizmente, após uma catástrofe em um confronto com uma das Calamidades, que levou a morte de mais de uma duzia de Alados, eles se isolaram nos céus. Por isso é tão surpreendente ver um deles aqui.
Enquanto discutiam, Selene entrou na sala, Li e Fynn foram os primeiros a ir até ela com as duas mãos levantadas.
— Boa!
Ambos deram high fives com a menina, que se virou para Glória, fazendo um sinal de dois com a mão.
— O que achou?
— Parabéns — sorriu a mulher. — Sabia que não teria problemas.
Algum tempo após o fim da primeira fase do nível 1 do torneio, a chave de baixo do nível 2 começou. Nesta, quatro participantes chamaram mais atenção do que qualquer um dos outros. O primeiro foi uma mulher da raça dos anões, Bernadete, da facção chamada de Ordem. O mais interessante sobre ela foi seu método de lutar. Equipada com uma armadura aparentemente muito pesada, a mulher carregava um martelo maior do que seu próprio corpo e um pequeno escudo pouco maior do que sua cabeça. Vendo de longe, ela parecia um bloco de ferro, de perto, no entanto, ela era uma fortaleza impenetrável.
— Eh… ela é bem pequena mesmo para um anão — comentou Li.
— Já viu algum anão antes, Li? — perguntou Matheus.
— Ah, sim, havia um que cuidava da venda dos itens no teste dos deuses.
— Está se referindo ao Berg, aquele anão mercenário? — questionou Selene.
— Ele mesmo.
— Berg… esse nome não me é estranho — sussurrou Matheus.
— Oh, vai começar, todos atentos.
Apesar de pequena e pesada, Bernadete era rápida, para piorar a situação de seu inimigo, ele era um mago e foi rapidamente suprimido. Atirando-se na direção de seu oponente como uma bola de canhão, ela o empurrou com seu escudo e acertou seu grande martelo em seu corpo desprotegido. A força da anã foi o suficiente para quase partir o homem no meio; decerto certo, pelo menos alguns ossos haviam se quebrado.
O segundo participante foi ninguém menos que Xu Wang. Para os que não o conheciam, ele foi uma surpresa, para Li, no entanto, foi um tanto quanto diferente… Desde o início da partida, Xu não utilizou de seus machados e nem de sua mana ardente. Pelo contrário, o berseker lutou utilizando apenas seus punhos, como se para provocá-lo.
Para seu oponente, no entanto, pareceu extremamente frustrante, afinal, como um líder de equipe ele deveria ser capaz de pelo menos causar algum incômodo para outra pessoa disputando na mesma categoria, mas não foi isso que aconteceu. O albino o suprimiu desde o início utilizando apenas técnicas de combate, defletindo seus golpes carregados de chamas somente com suas mãos nuas. A plateia ficou desapontada e alguns até começaram a conversar entre si para se distrair da entediante ‘luta’. No final, Xu não teve uma ferida em seu corpo, para o líder da equipe contra quem lutava, somente uma batalha definiria o confronto; humilhante.
— Não dar ao seu oponente nem mesmo uma luta digna… como eu pensei, não vou muito com a cara desse seu conhecido, Li — disse Matheus.
— Não sei por que ele está agindo dessa forma, quando o conheci toda luta era uma diversão para ele… Xu está parecendo outra pessoa.
— Humpf, espero que o Fynn de uma surra nele — disse Gloria, que acabará de chegar, junto a Selene e Hans. — De qualquer forma, você viu aquele cara? O de asas.
— Sim, foi uma surpresa para nos também — respondeu Li.
— Você deveria tê-lo visto de perto, ele parecia uma estátua, completamente sem expressão — disse Selene. — Urgh, me dá calafrios só de lembrar daquele rosto estoico.
— Não vai me dizer que está com medo? — brincou Matheus.
— De forma alguma! Eu e a Pepper vamos acabar com a raça dele! — declarou a mulher.
— Melhor assim; e você, Hans, o que você acha? — perguntou o brasileiro.
— Hm… honestamente não sei ao certo… a família Arkerman tem um grande histórico com os Alados… nunca gostei muito deles.
— Histórico?
— Sim… mas nada que valha a pena ser dito…
— Ah! Vejam quem está entrando na arena 1 — disse Matheus.
O terceiro participante que se destacou foi o campeão do nível 1 no ano anterior, Gundogam, da facção de Bestialia. Era a primeira vez que Li via um homem besta. Parte de sua aparência lembrava a de um humano, mas, as presas em sua boca, as orelhas sob o cabelo em formato de juba e a grande largura de seu corpo lembravam um urso.
— Provavelmente não foi assim que você imaginou que um homem besta seria, mas homens besta são uma sub especie de Demi-humanos, sua proximidade com animais é puramente aleatória, por isso alguns são mais parecidos com humanos e outros mais parecidos com bestas — explicou Matheus. — Mas um lado nunca é muito mais dominante que o outro.
— Entendi…
— Dito isso… o único momento onde homens besta demonstram sua verdadeira natureza é durante uma caça…
Assim que Matheus disse isso, a batalha começou. Gundogam rapidamente partiu para cima de seu oponente, sem utilizar de armas, apenas com garras que saiam de suas grandes mãos.
— O estilo de luta deles é muito semelhante ao seu, Li — disse Gloria. — Eles raramente utilizam de armas, pois na visão da raça, a maior arma que existe é seu próprio corpo.
Do início até o fim, o oponente da fera não teve chances, mesmo tentando defletir suas garras com seu arco, quando Gundogam se aproximou a batalha já havia acabado. Seu inimigo não esperava que a flecha que atingiu o peito do urso não causasse dano algum, pelo contrário contrario, apenas acelerou sua investida.
— Agora… a última batalha de nível 2…
— É vez dele…
— Pensando bem, eu nunca cheguei a ver o Fynn lutando a sério — comentou Li.
— Não sei se algum de nos já o viu lutando a sério de verdade… talvez o líder? — Gloria olhou para Matheus, o olhar do homem estava um pouco aflito. — O que foi? Está preocupado com ele?
— Não… estou preocupado com o oponente dele…
— O que você quer dizer? — perguntou Li, achando esquisita a atitude do homem.
— Bem… Fynn não tem o melhor controle do mundo, eu realmente espero que não chegue a isso, pelo que sei ele nem mesmo ira usar sua arma principal.
Com o anúncio do nome de ambos os lutadores da última partida da noite, a plateia vaiou.
— O que está acontecendo? — perguntou Selene, confusa. — Por que eles estão vaiando?
Na arena, o oponente de Fynn era um homem alto de armadura cinzenta, em seu peito estava pintado o brasão da facção de Entropus. Apontando sua espada na direção de Fynn ele disse em voz alta.
— Assassino de Amarílis, você desonra esse torneio sagrado estando aqui, vou removê-lo rapidamente em nome de Kepler!
— Droga… — lamentou Matheus.
KABRUM
Um estouro aconteceu onde os pés de Fynn estavam e num instante súbito ele desapareceu e apareceu na frente do homem de armadura.
— Buh! — gritou, encostando no símbolo de Entropus. Assim que tocou a armadura do homem, um trovão percorreu todo o caminho de onde ele estava a pouco até onde parou, acertando o peitoral do seu oponente e atirando-o numa explosão para mais de uma dezena de metros para fora da arena.
— O que é isso, ele falou aquilo e não aguentou nem uma faísca? — debochou. — Patético.
Mesmo Li, que assistia atentamente sem tirar os olhos do homem, teve dificuldades de acompanhar a velocidade com que ele se movimentou.
— Fynn sempre foi tão forte assim?
— Sim… — disse Matheus. — Ele tem dificuldades em controlar o poder que tem, mas quando ele fica assim… não tem oponente que o supere.

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