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    Sujeito de teste numero 93: Finalmente temos o primeiro indício de estarmos indo pelo caminho certo. O individuo inicialmente recebeu bem o transplante. Apesar de não conseguir usar nenhuma das habilidades, seu corpo não rejeitou de imediato, sinal de que não é uma tarefa impossível, o que, sinceramente, a esse ponto estávamos começando a acreditar. Isso é um bom sinal e reacende o nosso ímpeto. Infelizmente o sujeito não resistiu e foi consumido após algumas horas, mesmo como cientista, não acho necessário detalhar. Foi grotesco. 

    Relatório #9877 

    Tec Tec Tec Tec 

    Hum 

    Tec Tec Tec Tec 

    Huuuuum 

    Tec Tec Tec Tec 

    Huuuuuuum 

    Tec Tec 

    — Ei, da pra parar com o barulho? — Indagou Hans, já perdendo a paciência. 

    — Perdão — respondeu Fynn. 

     

    — Não consegue dormir? — perguntou, já tendo perdido o bom sono que estava a alguns minutos. 

    — Não… acho que estou um pouco ansioso. 

    — Um pouco? 

    — Um bocado. 

    Deitados no quarto que dividiam, Hans virou-se na direção de Fynn que estava olhando para o teto.  

    — Achei que já tivesse se acostumado com essa sensação, digo, você literalmente está elétrico a maior parte do tempo. 

    — Esse é um bom uso da palavra ‘literalmente’… é… eu já deveria ter me acostumado, mas acho que essa é uma situação diferente. 

    — Diferente como? 

    — Já faz algum tempo que eu não luto por outra pessoa além de mim mesmo. 

    — Algum tempo? Mas e as outras lutas que tivemos nos últimos anos? 

    — Essas não contam, só estava me divertindo.  

    — Divertindo? — perguntou retoricamente. — Nos quase morremos algumas vezes. 

    — Sim, emocionante, não é mesmo?  

    — Você é maluco. 

    — Eu sou… acho que sou mesmo.  

    Um minuto de silêncio pairou o ar.  

    — Então, está preocupado com a menina? 

    — Eh… bem… sim, mas não é por isso. 

    — Não? 

    — Digo, ela é uma ótima pessoa e com certeza merece nossa ajuda… mas eu acho que estou nessa mais pelo Li. 

    — Pelo Li? 

    — Vai me dizer que não percebeu?  

    — Não percebi oque?  

    — Quando ele a olhou, ele fez aquela expressão esquisita. 

    — Você é esquisito. 

    — Sim, mas não é isso que está em pauta agora — sorriu Fynn por um instante, mas logo voltando para a uma feição neutra. — É uma expressão que ele faz quando sente dor… um olhar agoniante… como se ele soubesse exatamente o que a outra pessoa está passando. 

    — Não sabia que você notava tanto as outras pessoas. 

    — É um mecanismo que eu criei. 

    — Um mecanismo? — perguntou. — E como funciona? 

    — É instintivo, quando você cresce no mesmo ambiente em que eu cresci, aprende a pisar em ovos sem os quebrar — explicou. — Acho que de tanto prestar atenção nos outros para que não desgostassem tanto de mim, acabei ficando bom em decifrá-los.  

    — Entendi… 

    — De qualquer forma, eu devo uma para o Li, se não fosse por ele nos todos teríamos morrido naquela floresta… ele é uma boa pessoa, consigo sentir isso. 

    — Não vá fazer nenhuma loucura. 

    — Eu? E sou lá o tipo de fazer doideiras?  

    — Falo serio, Fynn… não exagere. 

    — Não vou… 

    — Então, vamos dormir, estou cansado de hoje. 

    — Sim, senhor… obrigado pela conversa. 

    — Tranquilo. 

                                                                                                         

    NHENNNC 

    — O que está fazendo?  

    Na varanda, do lado de fora da casa, Matheus segurava um copo de bebida e enquanto olhava os céus. Apesar de estar anoite, a luz da lua cheia iluminava até os cantos mais escuros. Tarde da noite, foi encontrado por Glória. 

    — Apenas tomando um ar. 

    — Com um copo de conhaque na mão? 

    — Como está Selene?  

    — Dormindo, me surpreende às vezes o quão fácil ela consegue, mas ela disse que quando ela tem ansiedade por conta de algo ruim ela tem sono. 

    — Serio? 

    — É, vai entender. 

    — Cada um com suas particularidades, além disso, não é conhaque, é whisky. 

    — Whisky!? — exclamou Glória. — Como aquele Whisky que você tem guardado há alguns anos? 

    — Esse mesmo… quer um gole? — perguntou, provocando-a enquanto balançava o copo na frente da mulher. 

    — Talvez… um pouquinho — respondeu, estendendo a mão para pegar a bebida. — Qual é a ocasião? 

    — Bem, começamos com o pé direito no torneio… mas acho que eu só queria ficar um pouco mais relaxado.  

    — Está tenso? No que você está pensando? 

    — Você… acha que sou um bom líder?  

    — Acha que eu ainda estaria aqui se não pensasse que fosse? — retrucou. 

    Matheus suspirou, abaixando a cabeça. 

    — É… já faz um bom tempo que entramos em Arcádia.  

    — Pode apostar que faz. 

    Mesmo com as palavras de Glória, o homem permaneceu com o mesmo semblante. 

    — Não fui convincente? 

    — Não é isso, perdão… só estou começando a duvidar um pouco de mim mesmo. 

    — Por que agora? 

    Ouvindo a pergunta, ele a encarou por um instante. 

    — Se vai falar sobre aquela maldita floresta de novo… 

    — Não… é só que… eu não acho que sou bom o suficiente pra isso — confessou. — As pessoas continuam confiando em mim, mas será que elas estão certas? 

    — Você é um idiota, sabia? 

    — Que… 

    — Do que importa o que as pessoas pensam? — questionou Glória. — Se elas confiam ou não em você? Por acaso pediu isso a alguém em algum momento? Acho que não. 

    — Mas… 

    — Cale a boca e escute — repreendeu-o. — Se não for você, quem será? O Fynn? Hans? O Li é só um garoto.  

    — E você?  

    — Não comece com isso, autopiedade fica feio em você. 

    — Fica bem em alguém? 

    — Matheus… não precisamos de alguém que faça nossas vontades, seja nosso melhor amigo o tempo todo e sempre procure entender somente o nosso lado e você não é essa pessoa — explicou. — Um líder não toma sempre a decisão que queremos e sim aquela que precisamos e se tem alguém aqui que é capaz de fazer isso é você. 

    Sem que ele percebesse, Glória se aproximou, pegando a sua cabeça e a enterrando em seu peito. O homem não reagiu. 

    — Confie um pouco mais em si mesmo, assim como nos confiamos — finalizou, soltando-o e entrando para dentro da casa. 

    Vendo-a entrar, ele deu somente um leve sorriso. 

    — Talvez ela esteja certa… pera, cade o meu copo?  

                                                                                                         

    — DROGA!  

    CRAC 

    Em um beco estreito iluminado pela luz da lua, um enorme homem gritava aos céus enquanto bebia uma garrafa após a outra.  

    — Eu achava que esse ano era o meu momento, que pelo menos nas semifinais eu conseguiria chegar, mas que raios de torneio é esse… gênios e gênios para todo o lado… eu estou cansado disso…  

    Forte, alto e musculoso, seus únicos traços negativos eram seu rosto extremamente desavantajado e sua falta de cabelo. 

    — Treinei, treinei, treinei até meus cabelos caírem, o que caralhos tenho que fazer para melhorar.  

    Enquanto reclamava, seus olhos fundos de bebida se encheram de lagrimas.  

    — Droga… se continuar assim eu vou ser descartado… 

    CRASH 

    Subitamente um som de uma lata de lixo caindo ecoou pelo beco. 

    — Quem está aí!? 

    O álcool no sangue do homem pareceu ter desaparecido em um segundo quando ele rapidamente levantou do chão onde estava sentado. 

    MIAU 

    De dentro da lata caída, um pequeno gato rolou para fora, miando para o homem grandalhão. 

    — Ah… — sentando-se novamente, ele bateu os dedos no chão, fazendo com que o gato se aproximasse. Pegando-o, o colocou em seu colo. — Você não deveria comer lixo, pode te fazer mal. 

    — Patético… 

    Um calafrio percorreu a espinha do homem quando ele ouviu uma voz maliciosa pronunciar aquela palavra. Diferente de antes, ele não se levantou, evitando qualquer movimento brusco. 

    — Achei que fosse encontrar alguém com sede de vitória, disposto a fazer qualquer coisa por ela… ao invés disso, eu encontro… isso? 

    — Quem é você!?  

    — Isso importa? Sou alguém que pode lhe dar o talento que tanto almeja, o poder para alcançar uma vitória que nem mesmo enxerga, mas… estou bastante desapontado. 

    — Talento? Por que você faria isso?  

    — Por que…? Preciso ter motivos? — disse a voz, ecoando pelo beco. A lua parecia ter sumido e apenas a escuridão restava. — Me diga, os homens precisam de motivo para matar uma barata, uma lesma ou uma mosca? Não precisam, eles fazem por que decidem que tais seres são nojentos, fazem por que podem e por que decidem que sim… Não preciso de motivos para fazer o que faço… apenas posso e por isso quero. 

    — Por que eu?  

    — Por que… eu sinto seu desejo de vencer… estou errado? 

    Levantando-se após um instante calado, o homem grandalhão colocou o animal no chão. 

    — Não… não está.  

    Seus olhos pouco a pouco tomaram um tom avermelhado e sua mente foi tomada por um intenso desejo de sentir alguma coisa.  

    — Sim… assim está melhor… 

    BAM 

    Da escuridão, uma maça pesada com espinhos caiu a sua frente, afundando o chão de pedra. Assim que encostou na arma, uma energia ameaçadora tomou conta do lugar. O gato, assistiu assustado o que estava acontecendo, mas não foi capaz de reagir quando tentáculos roxos agarraram seu corpo, fazendo com que desaparecesse quase imediatamente. Quando recobrou os sentidos, o homem sentiu-se bem, melhor do que havia se sentido em qualquer momento de sua vida e sozinho, gargalhou aos céus. 

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