Índice de Capítulo

    Arrumando o último prato, Kevyn tapou suas panelas e andou até a mesa. Sentando-se enquanto o vento frio e o cheiro de terra molhada infiltraram-se pela fresta da porta entreaberta.

    Direcionando seus olhos até a garota à sua frente, o rapaz sorriu e fechou seus olhos para comer. 

    As escleras nos olhos de Aycity se tornaram negras, e ela observou o príncipe inquietamente ao mesmo tempo que sua perna esquerda se moveu sem parar.

    “É verde…”, ela pensou e fechou suas pálpebras ao perceber que Kevyn abriria seus olhos.

    — Aycity, o que achou?

    Levando a colher até a boca, ela sorriu.

    — Sua comida me faz querer chorar… princesa.

    — Sou eu quem quero chorar, Aya…

    — Nada, nada. — Desviou o olhar.

    Emburrada, a patética garota pensou: “Seu maldito, pare de desviar de mim!”, ela bufou e franziu os lábios com raiva.

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Mais tarde, sobre o céu estrelado do não iluminado ambiente onde morava, Kevyn encarou a planície pela janela de seu quarto. 

    Suspirando tão leve, ele encarou o chão deprimido, mas ainda animado de alguma forma. O que ele queria ele conseguiu, então por que estar triste?

    Talvez não fosse sobre tristeza, assim como o céu azul escuro com o brilho da lua, ele perdeu seu “sol”.

    Gradualmente o som de passos vieram a se aproximar, passo por passo, Aycity estava lá. Na porta do quarto ela observou o príncipe, ela percebeu que Night havia sumido também e, preocupada, se perguntou: “Eu não a vejo… Night não pode ter…”, incrédula de seu próprio pensamento, ela se aproximou e quis abraçá-lo… mas não poderia.

    Não por pureza, não por qualquer coisa hostil. Dessa vez, o único problema era a intimidade… 

    Depois de tanto tempo, eles já não estavam tão próximos… não é?

    O cabelo do garoto levemente se mexeu, a garota percebeu e sabia que eram as orelhas dele tendo espasmos tênues.

    — Aya?

    Dando um pulinho, ela segurou o próprio braço e encarou o canto. — E-eu… não quero dormir sozinha…

    Se virando, Kevyn conseguia entender aquele sentimento. “Ela… merece”, pensou e se espreguiçou. 

    — Então? — O encarou.

    Sem dizer nada, o menino caminhou até sua cama, entrou no lençol e o ergueu para que ela pudesse entrar em seu quente cobertor.

    — Venha, eu te protegerei.

    Ela corou… Seu pior erro, na verdade.

    Aycity sorriu, ela realmente queria aquilo, ela o manipulou para aquilo. 

    Pateticamente esperta demais, conseguiu o que queria e entrou no abraço dos lençóis, agora junto a sua princesa dragão.

    — Hihihi! Fuh… é realmente é bem quente.

    Encostando ombro a ombro, os dois olharam um para o outro com tênues sorrisos bobos. Querendo aproveitar ainda mais, a menina fechou seus olhos e disse:

    — Eu quero uma historinha!!

    Cheio de sono, Kevyn quase fechando seus olhos acenou com a cabeça e se levantou para ir pegar seu livro favorito…

    Vendo-o ir, a garota se enrolou bastante e esperou que ele voltasse. “Esse colchão é tão macio e confortável! Parece ser da melhor qualidade…”, uma tristeza muito grande surgiu… 

    Mas para sua alegria, sua princesa retornou com um livro em mãos. Tão animada, ela fechou os olhos para poder ouvi-lo.

    Sentando-se ao lado de Aycity, o garoto deu um peteleco em sua testa e abriu o livro: “O rei dos 200 anos”, com certa nostalgia, perguntou:

    — Posso ler um pequeno trecho?

    — Sim, sim — sussurrou.

    「✦」

    Há eras, quando o mundo ainda era uma tela em branco, nasceram duas entidades primordiais: o Dragão da Luz e o Demônio do Vazio.

    Ambos eram poderosos, mas completamente opostos: o Dragão carregava o brilho dos sóis e a esperança da criação; o Demônio, o silêncio mortal do abismo e o caos da destruição.

    Eles se encontraram numa planície sem tempo, onde o céu se confunde com o mar.

    O Dragão, majestoso e flamejante, irradiava vida; o Demônio, sombrio e silencioso, trazia consigo a sombra da morte.

    De início, eram inimigos jurados: o Dragão buscava proteger o equilíbrio, o Demônio, devorar tudo para instaurar o vazio.

    Por eras, travaram batalhas que abalaram mundos, o rugido do Dragão ecoava como trovão, enquanto o Demônio consumia o que fosse com sua fome infinita.

    Porém, a cada luta, uma verdade cruel emergia:

    O Dragão percebia que sua luz se enfraquecia sem a escuridão que lhe dava contraste e significado. Assim quando debaixo de uma árvore. A maçã cai sobre sua cabeça e você descobre a gravidade.

    O Demônio descobria que sua escuridão precisava do fogo do Dragão para não se dissipar em nada absoluto. Afinal, até as chamas geram sombras.

    Assim, sem saber, eles se tornaram parasitariamente ligados, cada um existia por causa do outro, embora se odiassem.

    Eram cascas vazias, sombras uma da outra, dependentes e feridos, num ciclo eterno de luta e sobrevivência.

    Com o tempo, suas essências começaram a se misturar:

    O Dragão ganhou momentos de escuridão, seu fogo queimava com um toque sombrio.

    O Demônio, por sua vez, brilhou com uma luz fria, refletindo os tons do sol que nunca conhecera.

    Os papéis se inverteram: o caçador tornou-se caçado, o mestre virou servo.

    A luz e a escuridão perderam suas fronteiras, como a noite que abraça o dia no crepúsculo.

    Sabendo que um sem o outro não poderiam existir, decidiram cessar a batalha.

    Não por paz, mas por reconhecimento de que o fim de um significaria o desaparecimento do outro.

    Então, selaram seu destino: seriam eternos adversários, ligados num ciclo de destruição e criação… a harmonia e o kháos. Dicotomia.

    Dizem que até hoje, nas sombras do mundo, eles lutam e coexistem.

    Que sua batalha é o ritmo do universo; luz e trevas, vida e morte, monstro e servo; todos cascas vazias que se alimentam e se destroem mutuamente, mantendo o equilíbrio precário da existência.

    「✦」

    Kevyn fechou o livro e o deixou em cima da cômoda ao lado da cama. Sorridente, ele deu suas considerações finais:

    — O vermelho e o branco representam a mesma coisa… eles afastam… a barreira e o espaço. O que você achou? — No momento que fitou-a, já estava desacordada. “Pelo visto foi uma boa história”, sorriu.

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Em poucos segundos ele também dormiu, mas quando a lua chegou ao topo do céu, Aycity acordou e com suas escleras virando negras mais uma vez, ela deslizou seus dedos pelo lençol e encarou sua princesa com curiosidade. “É azul-esverdeado”.

    Sentindo um desconforto, um breve acordar. Ao abrir seus olhos, Kevyn olhou através do olhar de sua nova parceira…

    Intrinsecamente, o príncipe não sentiu medo, o que fosse estar acontecendo podia ser só um sonho, então, ele voltou a fechar seus olhos e a dormir.

    Assustada, a garota soou um com medo, mas fechou os olhos e se deitou: “Quase fui descoberta”.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota