Índice de Capítulo

    Ensinamento de hoje tem haver com o capítulo, e é importante:

    Kevyn é o único Calamith que mantém seus olhos ativos o tempo todo.
    Não, isso não é uma escolha, ele nasceu assim e inicialmente, se ninguém o desse essa energia pra manter eles ativos, ele provavelmente morreria ainda um bebê.
    No entanto, por causa disso, eles também custam um pouco menos do que o normal, sendo 50% menos.
    A vantagens em desvantagens, mas isso ainda é desgastante para ele.

    Dois dias se passaram e Aycity nunca esteve tão feliz. No entanto, algo há de se perceber: Ela não estava treinando. ( Com Kevyn )

    Em um belo dia e ao acordar em seu quarto, a garota encarou o teto enquanto se escondia sobre sua coberta. “Desculpa Kevyn, tô sujando o quarto todo de neve”, riu.

    Em seu levantar, ela viu Humbra e sem entender, perguntou:

    — É a terceira vez que acordo e te vejo, quer alguma coisa?

    — Meu Deus não precisa de mim, você é considerada o príncipe dele, então… estou te escoltando.

    Aquela afirmação trouxe uma conclusão diferente para a garota, que corou e desviou o olhar.

    — Certo, vamos!

    「☸」

    Sobre a mesa da cozinha, Aycity comia seu café da manhã feito pela sua princesa. Por outro lado, o grande general aparentava estar descansando na cadeira.

    — Ei! Humbra! Você chamou Kevyn de Deus, mas por quê?! — ela gritou animada.

    As pupilas do esqueleto lentamente surgiram da imensidão escura, e com seriedade, respondeu:

    — Porque ele me criou à sua semelhança, ele é meu criador.

    — Hm… Estranho você dizer isso, afinal, você é um esqueleto.

    Os pontinhos nos olhos do general se apagaram, um momento leve e equivalente. Conforme o frio e calmo, vento adentrou as frestas da madeira velha, o monte de ossos respondeu:

    — Eu não preciso que você acredite, mas se está curiosa, meu mestre não consegue ver toda sua beleza.

    — Então… Você sabe?

    — Sim, afinal, você e o meu Deus são bem parecidos.

    Piscando duas vezes, a menina compreendeu de outra forma e desviou o olhar um pouco corada.

    — Não entenda errado, não estou te chamando de deusa, é que o Kevyn não consegue enxergar como eu e você.

    Uma abertura foi criada, vendo aquilo como uma oportunidade, Aycity lentamente voltou a olhá-lo, conforme suas pupilas tremiam junto a sua mão que segurava a colher, sua voz aos poucos engasgou, querendo sair enquanto um frio em sua barriga percorria.

    Aceitando sua coragem, pateticamente ela apertou o utensílio de metal e disse:

    — P-por que?

    O esqueleto pôde não sentir toda a timidez dela, como se por um breve momento, aquela pergunta respondesse algo muito além do que poderia compreender.

    Ainda assim, o general levemente ergueu suas mãos e cruzou seus braços.

    — Os olhos do meu Deus são feitos da mais pura energia. A mesma que percorre o meu e o seu corpo, a que usamos para desferir ataques, carregarmos pesos, gerar buracos de minhoca, criar distorções da realidade.

    De maneira quase incompreensível, a garota arregalou seus olhos em excitação. E monte de ossos continuou:

    — Por isso, ele não enxerga, o que meu Deus verdadeiramente vê é a energia que flui pelo ar, presente em seres vivos, que há além do céu. Alguns falariam que a energia não poderia ser vista, por ser algo abstrato como uma hipotética moeda de troca… Mas o meu Deus pode ver até mesmo o ato de mexer um braço, a energia cinética dessa ação, a medida dos átomos se curvando.

    Arrepiou, Aycity se arrepiou. Quase não conseguindo se conter, ela corou e perguntou: — Então ele vê todos os seres vivos de maneira igual?! 

    Humbra percebeu o quanto aquilo a animou, ainda incompreensível, ele respondeu:

    — Sim, mas… Por causa disso, ele sempre está distante. E quando ele cobre os olhos, no fim só está mentindo para si mesmo que todos são daquele jeito…

    — E não são?

    — Quando impede o fluxo de energia, você acha que ele enxerga normalmente, ou vê tudo embaçado?

    Ela cerrou as sobrancelhas. — São lentes de contato, diria que fica normal, não? Eu não sei se entendi muito bem… Humbra…

    — Eu diria que normal, mas… vou simplificar. Então: “Para o meu Deus, o mundo nunca está parado. Ele não vê uma mesa, mas a tensão da madeira, a vibração dos átomos, a memória da energia que a formou. Ele não enxerga apenas você… mas o calor do seu sangue, o tremor dos seus músculos, o brilho pulsante da sua vida. Para ele, não existe feio ou bonito, existe apenas intensidade, existe apenas fluxo. É por isso que, quando olha para você, ele vê algo que nenhum outro ser pode ver… A coreografia infinita da energia que te mantém viva”.

    Humbra despertou as órbitas vazias, como se quisesse lembrar do que descrevia. Então encarou o breve escorrer de uma gota d’água pelo copo de vidro que ao longe se estendia na mesa.

    — E é justamente nisso que mora a beleza. Ele não vê sua pele, seus cabelos ou seus olhos como eu vejo, como o mundo vê. Ele vê o espetáculo silencioso que existe por trás disso, a dança invisível que prova que você é única e irrepetível. Para ele, cada pessoa é como uma constelação em movimento. O problema é que, quanto mais ele contempla, mais distante fica daquilo que nós chamamos de realidade comum.

    Aycity o fitou em silêncio, sentindo que cada palavra penetrava sua alma, como se desnudasse algo em sua própria alma.

    Humbra baixou o tom de voz, quase como um sussurro:

    — Então, quando você pergunta por que, eu te respondo assim: O meu Deus não vê a beleza que o mundo mostra… ele vê a beleza que o mundo esconde. E é por isso que, para ele, todos são igualmente divinos, e igualmente inalcançáveis.

    — Isso não torna todos os Calamith’s iguais e divinos? — Ela fez contato visual.

    Sem ao menos hesitar, o general respondeu: — Não. Meu Deus é o único Calamith que não pode e não consegue desativar seus olhos. Por isso, desde que nasceu, ele vê o mosaico irreal da não realidade.

    — Ele enxerga cores?

    — Sim.

    Ainda sem compreender o quão grande aquilo era, a patética garota bateu sua mão contra a mesa e cerrou seus dentes em um frustração sem precedentes. 

    Com um objetivo em mente, clareado como uma iluminação transcendental, ela abriu a boca e ressoou:

    — Humbra, eu prometo fazê-lo enxergar o mundo.

    — Hm?! Não deveria!

    — Mas eu vou! Quero que ele enxergue o quão linda eu sou! 

    Determinação interminável.

    Com pesar, o grande monte de ossos soltou uma leve risada. “Meio que você já o fez fazer isso, não?”, contudo, com um cansaço eminente, ele abaixou a cabeça e respondeu:

    — Só não o machuque, príncipe “humano”.

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