Ensinamento de hoje tem haver com o capítulo, e é importante:
Kevyn é o único Calamith que mantém seus olhos ativos o tempo todo.
Não, isso não é uma escolha, ele nasceu assim e inicialmente, se ninguém o desse essa energia pra manter eles ativos, ele provavelmente morreria ainda um bebê.
No entanto, por causa disso, eles também custam um pouco menos do que o normal, sendo 50% menos.
A vantagens em desvantagens, mas isso ainda é desgastante para ele.
Capítulo 156 — Deus sem Divindade.
Dois dias se passaram e Aycity nunca esteve tão feliz. No entanto, algo há de se perceber: Ela não estava treinando. ( Com Kevyn )
Em um belo dia e ao acordar em seu quarto, a garota encarou o teto enquanto se escondia sobre sua coberta. “Desculpa Kevyn, tô sujando o quarto todo de neve”, riu.
Em seu levantar, ela viu Humbra e sem entender, perguntou:
— É a terceira vez que acordo e te vejo, quer alguma coisa?
— Meu Deus não precisa de mim, você é considerada o príncipe dele, então… estou te escoltando.
Aquela afirmação trouxe uma conclusão diferente para a garota, que corou e desviou o olhar.
— Certo, vamos!
「☸」
Sobre a mesa da cozinha, Aycity comia seu café da manhã feito pela sua princesa. Por outro lado, o grande general aparentava estar descansando na cadeira.
— Ei! Humbra! Você chamou Kevyn de Deus, mas por quê?! — ela gritou animada.
As pupilas do esqueleto lentamente surgiram da imensidão escura, e com seriedade, respondeu:
— Porque ele me criou à sua semelhança, ele é meu criador.
— Hm… Estranho você dizer isso, afinal, você é um esqueleto.
Os pontinhos nos olhos do general se apagaram, um momento leve e equivalente. Conforme o frio e calmo, vento adentrou as frestas da madeira velha, o monte de ossos respondeu:
— Eu não preciso que você acredite, mas se está curiosa, meu mestre não consegue ver toda sua beleza.
— Então… Você sabe?
— Sim, afinal, você e o meu Deus são bem parecidos.
Piscando duas vezes, a menina compreendeu de outra forma e desviou o olhar um pouco corada.
— Não entenda errado, não estou te chamando de deusa, é que o Kevyn não consegue enxergar como eu e você.
Uma abertura foi criada, vendo aquilo como uma oportunidade, Aycity lentamente voltou a olhá-lo, conforme suas pupilas tremiam junto a sua mão que segurava a colher, sua voz aos poucos engasgou, querendo sair enquanto um frio em sua barriga percorria.
Aceitando sua coragem, pateticamente ela apertou o utensílio de metal e disse:
— P-por que?
O esqueleto pôde não sentir toda a timidez dela, como se por um breve momento, aquela pergunta respondesse algo muito além do que poderia compreender.
Ainda assim, o general levemente ergueu suas mãos e cruzou seus braços.
— Os olhos do meu Deus são feitos da mais pura energia. A mesma que percorre o meu e o seu corpo, a que usamos para desferir ataques, carregarmos pesos, gerar buracos de minhoca, criar distorções da realidade.
De maneira quase incompreensível, a garota arregalou seus olhos em excitação. E monte de ossos continuou:
— Por isso, ele não enxerga, o que meu Deus verdadeiramente vê é a energia que flui pelo ar, presente em seres vivos, que há além do céu. Alguns falariam que a energia não poderia ser vista, por ser algo abstrato como uma hipotética moeda de troca… Mas o meu Deus pode ver até mesmo o ato de mexer um braço, a energia cinética dessa ação, a medida dos átomos se curvando.
Arrepiou, Aycity se arrepiou. Quase não conseguindo se conter, ela corou e perguntou: — Então ele vê todos os seres vivos de maneira igual?!
Humbra percebeu o quanto aquilo a animou, ainda incompreensível, ele respondeu:
— Sim, mas… Por causa disso, ele sempre está distante. E quando ele cobre os olhos, no fim só está mentindo para si mesmo que todos são daquele jeito…
— E não são?
— Quando impede o fluxo de energia, você acha que ele enxerga normalmente, ou vê tudo embaçado?
Ela cerrou as sobrancelhas. — São lentes de contato, diria que fica normal, não? Eu não sei se entendi muito bem… Humbra…
— Eu diria que normal, mas… vou simplificar. Então: “Para o meu Deus, o mundo nunca está parado. Ele não vê uma mesa, mas a tensão da madeira, a vibração dos átomos, a memória da energia que a formou. Ele não enxerga apenas você… mas o calor do seu sangue, o tremor dos seus músculos, o brilho pulsante da sua vida. Para ele, não existe feio ou bonito, existe apenas intensidade, existe apenas fluxo. É por isso que, quando olha para você, ele vê algo que nenhum outro ser pode ver… A coreografia infinita da energia que te mantém viva”.
Humbra despertou as órbitas vazias, como se quisesse lembrar do que descrevia. Então encarou o breve escorrer de uma gota d’água pelo copo de vidro que ao longe se estendia na mesa.
— E é justamente nisso que mora a beleza. Ele não vê sua pele, seus cabelos ou seus olhos como eu vejo, como o mundo vê. Ele vê o espetáculo silencioso que existe por trás disso, a dança invisível que prova que você é única e irrepetível. Para ele, cada pessoa é como uma constelação em movimento. O problema é que, quanto mais ele contempla, mais distante fica daquilo que nós chamamos de realidade comum.
Aycity o fitou em silêncio, sentindo que cada palavra penetrava sua alma, como se desnudasse algo em sua própria alma.
Humbra baixou o tom de voz, quase como um sussurro:
— Então, quando você pergunta por que, eu te respondo assim: O meu Deus não vê a beleza que o mundo mostra… ele vê a beleza que o mundo esconde. E é por isso que, para ele, todos são igualmente divinos, e igualmente inalcançáveis.
— Isso não torna todos os Calamith’s iguais e divinos? — Ela fez contato visual.
Sem ao menos hesitar, o general respondeu: — Não. Meu Deus é o único Calamith que não pode e não consegue desativar seus olhos. Por isso, desde que nasceu, ele vê o mosaico irreal da não realidade.
— Ele enxerga cores?
— Sim.
Ainda sem compreender o quão grande aquilo era, a patética garota bateu sua mão contra a mesa e cerrou seus dentes em um frustração sem precedentes.
Com um objetivo em mente, clareado como uma iluminação transcendental, ela abriu a boca e ressoou:
— Humbra, eu prometo fazê-lo enxergar o mundo.
— Hm?! Não deveria!
— Mas eu vou! Quero que ele enxergue o quão linda eu sou!
Determinação interminável.
Com pesar, o grande monte de ossos soltou uma leve risada. “Meio que você já o fez fazer isso, não?”, contudo, com um cansaço eminente, ele abaixou a cabeça e respondeu:
— Só não o machuque, príncipe “humano”.

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