Capítulo 515: Flow
Mais uma vez, dentro de todas as vontades, existe aquele chamado em seu corpo. Algo que te obriga a caminhar mesmo sem saber para onde está indo. Nessas horas, sua mente relaxa e deixa a emoção tomar conta de qualquer coisa ao seu redor.
Mesmo que haja um motivo para compreender, Vick entendia melhor do que outro presente o que era aquele momento e situação para Dante. Um inimigo que ele não conseguiu vencer, sendo colocado novamente em sua frente, como um fragmento.
Moonlich assombrou seus sonhos por muitos dias. Sendo aquele desgraçado capaz de anular sua habilidade, o deixando ainda mais perturbador. Agora, um estranho inimigo tinha a mesma armadura, dizia ser próximo, como um mestre.
Ele tinha praticamente a mesma raiz, então… Dante tinha todo o direito de estar no estado atual.
Analisar era sua principal funcionalidade. Muitas décadas atrás, quando foi entregue a Render, ela já vinha captando sensores neurais, capacidades físicas, guardando informações sobre o biotipo dos humanos.
Era fascinante. Muitos não superavam medos, traumas. Observou alguns humanos caírem de joelhos quando confrontados. Choravam e clamavam ajuda dos outros, se arrastando como insetos para nunca vencerem de verdade seus inimigos.
Render, o pai de render, antes dele… todos tinham situações onde suas mentes bloqueavam esse avanço. A trava humana estava exatamente onde a coragem morria, dando liberdade para os receios se aproximarem.
O que há depois? Morte.
Era o que Vick sabia. Além do medo, apenas a morte aguardava as mentes perdidas.
Por isso, naquele momento, quando algo entrava no campo de visão de Dante, Vick entendia o quão diferente era aquele humano. Porque no trauma da derrota, no medo da morte, no receio de não ter mais para onde caminhar, ele mostrava um sorriso tão genuíno que seu inimigo, o Felroz que aprendeu como Moonlich, desconsertado.
Era o sorriso de quem tinha entrado no estado da mente que Vick viu somente uma vez.
Flow.
O Flow não era apenas uma técnica de combate. Era o momento em que o humano deixava de temer o fim e passava a habitar o agora de forma absoluta. Pela primeira vez em décadas, os sensores de Vick detectaram algo que ela não conseguia rotular direito.
Foi em um piscar de olhos. As chamas que clareavam noite adentro se fundiram com a espada do Felroz. Ele recuou o braço quando Dante se aproximou, apenas para tentar desviar de algo que nem mesmo ele conhecia.
Como um humano poderia ser mais rápido do que seus sentidos? Como um humano poderia desafiar criaturas que foram forjadas para batalhas? Como um humano teria coragem de enfrentar uma imensidão daquelas criaturas que tinham mais coragem do que milhares de humanos?
Vick lembrava da análise que fazia quando Render enfrentava seus inimigos. Não era medo, era respeito. Por isso, assemelhava sempre aquele puro poder concentrado em técnicas como uma maneira de subjugar o oponente até que ele entendesse a diferença de força.
Render sempre olhou para seu próprio pai procurando uma maneira de deixá-lo envergonhado. Queria que seu mestre, aquele que o ensinou, o encarasse como uma verdadeira arma. Para isso, foi até os confins para lutar contra aqueles que ameaçavam sua família.
Por isso, somente por isso, o que analisava agora na cara daquele Felroz que encarava Dante não era respeito.
A espada de fogo rasgou o ar em diversas posições. Os dois dividiam o espaço, como se fosse uma dança feita apenas para matar, tentando achar uma maneira de achar o outro e descartar o que era mais importante: a própria vida.
Dante desviava enquanto soltava uma risada, seu rosto foi pego com algumas chamas chamuscadas, mas não o queimou. Ele girou no próprio eixo, como Render fazia antigamente, mas não atacou diretamente. Só encurtou o espaço, deixando pior para que a lança fosse usada, e forçasse seu oponente a usar a espada.
Por isso, o Frok teve que largar a primeira arma. E foi uma escolha bem abaixo da média. Antes dela tocar o chão, Dante usou a perna para acertá-la. A lança girou no ar acertando a costela do Felroz e ele cuspiu um xingamento cheio de raiva.
Mas essa raiva nublou seu próximo movimento. Porque a mente de Dante não só calculava os golpes, ela calculava qualquer coisa que se mexesse em sua direção. Era por isso que Vick o achava tão interessante, tão abissal… tão diferente do pai.
Render era calculista, sabia o que fazer para deixar seu oponente encurralado. Sua espada se mexia com excelência, se mexia com precisão para desatar os nós que o oponente tinha pra ele. Dante apenas sorria, entrando em combate sem ao menos deixar que saibam o que ele quer.
O primeiro soco acertou a costela de antes. Frok reagiu com a espada, cortando para frente, liberando uma rajada junto, mas ela aumentou de repente, e se dissolveu em seguida. Sequer tocou o humano.
E isso o deixava apreensivo.
Render transmitia confiança. Seu filho é… convicção.
A espada acertou o vazio novamente, centímetros do ombro de Dante, que subiu com a palma aberta, acertando o ombro de Frok. O Felroz reagiu mais rápido que antes, puxando as chamas para sua armadura e bloqueou um chute em sua perna.
Os dois continuaram a trocar golpes, cada vez mais intensos, mais rápidos. No entanto, Vick não tinha dúvidas. A cara do inimigo também lhe informava o que precisava desde cedo. Ele não consegue ir além disso.
Por isso era tão distinto a maneira como os dois lutavam.
Quando a espada veio de cima para baixo, Dante esticou a sola do seu pé, bloqueando a lâmina antes dela subir, antes de ganhar força. O rosto dele se contorceu enquanto o humano ria. E o preço de um bloqueio era um golpe seco, direto no seu rosto.
Um baque firme e forte, o arrastando para trás.
— Está ficando divertido, não acha? — Dante nem respirou direito. — Consegue sentir como é uma luta de verdade?
Frok engoliu em seco ao ver a pressão se originando ao redor de uma pessoa que tinha sua Energia Cósmica oscilando. Era como se ele estivesse e não estivesse ali.

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