Capítulo 518: Notícias
O céu negro era perturbador para quem não tinha sequer noção de onde estava. Olhar para as estrelas era o mesmo que pensar que talvez o pior acontecesse, mesmo que um fio de esperança pudesse deixar todos sorrindo sobre a mesa.
Lutar contra as adversidades da morte era pesado e frio. Ter centenas esperando palavras suas deixava o peito de Clara mais pesado do que costumava ser no dia a dia, enquanto passava suas horas resolvendo problemas que nem mesmo sabia se poderiam ser consertados de verdade.
— O Hospital foi uma expedição que falhou — disse Leonardo sentado a mesa. Com ele, Clara, Marcus, Heian e Jix. — O lugar é um labirinto. É mais fácil nos perdemos lá dentro do que acharmos uma forma de ganhar.
— Os Felroz também são mutantes com Pedras Lunares — respondeu Marcus. — O Mentiroso conseguiu anular completamente Juno e Arsena, e mesmo explodindo as árvores, ele se escondeu nas paredes e depois no teto.
Clara não tinha enfrentado essas bestas, mas os detalhes de como conseguiram ultrapassar eram vividos. Não precisava estar lá para entender a grave situação. A moral deles não era nada ali. E ela não tinha o que oferecer pra isso.
Odiava a sensação da derrota na garganta. Depois da Cuba ter sido erguida com toda a ajuda possível, a única fraqueza que poderiam ter era a moral reduzida. Os olhos baixos enquanto comiam em uma mesa bem no centro também não ajudava.
Eles não perderam ninguém na batalha, mas voltaram como se centenas tivessem morrido diante seus olhos. E as pessoas sentiam isso. Clara podia ver os olhares constantes, questionadores, os sussurros baixos.
Há respostas que não precisavam de perguntas.
— Uma batalha é uma batalha — disse Jix com o pedaço de carne enfiado no garfo, molhando na sopa. — Tivemos a nossa primeira depois de muito tempo e acabou por ter sido um pouco pior do que imaginávamos. Seria prudente imaginar que as pessoas pensem de nós agora, mas podemos manter um pouco dessa energia pra frente.
— Não temos como voltar lá sem um planejamento adequado — respondeu Marcus, secamente. — Mesmo que os outros sejam habilidosos, limpar o Hospital de uma só vez vai levar mais tempo ainda.
— Perdemos, mas não fomos derrotados — corrigiu Leonardo. — A experiência dos mais jovens também consta. E Simone ficou feliz por conseguir forjar alguns remédios baseados em ervas. Nossa próxima ida vai ser melhor.
— O que você acha? — Jix perguntou a Clara.
— Não temos como fazer nada além de esperar. Como eu disse quando chegaram, a situação é difícil porque precisamos de mais do que só algumas pequenas vitórias. O clima está bom, mas a ociosidade faz com que fiquem nervosos. — Ela levantou a cabeça. Os olhares disfarçados, de alguns que questionaram nos últimos dias sobre o Hospital. — Temos mais do que alguns que estão impacientes. Agora eles pensam que podem fazer melhor do que nós conseguimos, mas são impulsivos e arrogantes.
— Como Degol e Meliah eram — acrescentou Marcus num sorriso de lado. — Se quiser, eu posso…
— Não. — Clara ergueu a mão gentilmente. — Eles tem o direito de questionar. Mesmo sendo imprudentes, podem ajudar com as coletas ou caças. Não queremos que as coisas fiquem piores do que já estão.
Leonardo também tinha um olhar para eles.
— Já tentei conversar com eles uma vez. Não são filiados a nenhum dos instrutores que temos. Sempre parecem irritados e querem aprender a lutar a todo custo. Juno e Arsena podem não gostar muito, mas eles não são ruins.
— E por que elas não gostariam?
— Porque as duas são mulheres — respondeu Clara. — As duas são muito habilidosas. Eles vieram da Zona Cega, e devem ter algum tipo de dificuldade em aceitar regras. Pediram para ir ao Hospital, certo?
— Sim. — Heian tinha ficado quieto até aquele momento. — Eles gostam de duelar entre si, mas são raros os momentos que pedem para serem instruídos. Eu ouvi um deles comentar que poderia vencer Dante e alguns outros concordaram com aquilo.
Heian viu os olhos se elevarem para ele, e depois todos deram risada.
— Ah, como a mente dos mais jovens são afiadas — comentou Jix sendo preenchido naturalmente por paz de espírito. — Eu tinha essa mesma ideia e rebeldia quando era mais novo. Sinto um pouco de saudades desses pensamentos.
— Se fosse algo normal, eu concordaria — disse Marcus. — Eles vão ser surrados se pensarem que o velho não tem força.
— Bom, Dante ficou bem mais fraco do que era. — Leonardo comeu um pedaço de carne molhada. — É normal que pensem que podem vencer, ainda mais vindo da Zona Cega. Os guerreiros de lá são todos lunáticos, mas depois que ouvi que as criaturas abissais do Farol começaram a subir de vez em quando, eles estão se questionando se vir para dentro da cidade é uma boa ideia.
— Existe um problema. — Clara respirou fundo. — A Zona Cega é o lar de duas cidades imensas. Cuba não conseguiria segurar a quantidade de gente que viria de lá, ao mesmo tempo que não teríamos recursos. Hoje, eles conseguem sobreviver da caça e também dos recursos que pegam fora da cidade, mais a leste, nós não podemos fazer isso para eles.
— E nem faremos.
Clara tinha uma ideia do movimento de cada uma civilizações que tentava sobreviver ao redor dela. Ao norte, oeste e leste, a condição era pior em níveis absurdos do que eles passavam dentro de Kappz.
Obter o Hospital, a Prisão e a Hidrelétrica eram as missões mais importantes. A sede e fome não atormentavam mais, mas a sensação de desespero ainda não tinha desaparecido do coração. Nos meses que Dante retornou, ele conseguiu ajudar a mapear alguns lugares e Rupestre também fez o necessário para que não houvesse surpresas quando estivessem coletando comida ou recursos.
Se pudessem manter um pequeno grupo de trabalhadores criando mais e mais habitações ao redor da Cuba, em alguns meses teriam algo parecido com Iglu. Uma habitação criada circularmente com habitações, refeitórios, pátios.
E aos poucos, remodelariam o aspecto do que era a cidade.
Clara foi tirada de seus pensamentos quando um som de baque ecoou vindo da porta de entrada. Leonardo e Heian se levantaram na mesma hora. Um rugido alto apareceu, ecoando para dentro com força.
Eles sacaram as armas. Clara nem tinha percebido um raio agarrando na lateral de uma das vigas, e Juno trouxe Arsena com ela em alta velocidade. Também entraram em posição de combate, esperando pela movimentação do inimigo.
— Por que estão tão assustados? — a pergunta de Jix chegou a todos eles quando o rugiu cessou. — Esse é o som da Lilo.
Clara girou no assento, ouvindo uma risada depois ecoar e uma voz penetrar dentro da Cuba silenciosa e apreensiva.
— Perdão, perdão. Eu achei que seria maneiro tentar. — Era familiar para todos. Uma voz risonha e cheia de energia. Ele voltou. — Me jogar de uma altura dessas pode não ser a melhor coisa pra fazer, mas foi divertido.
Dante passou pela porta de entrada da Cuba olhando para Lilo ao seu lado. A criatura caminhava com um olhar questionador, tentando parecer convicta. Clara já tinha acostumado a ver a conversa entre eles, mas algumas pessoas se assustaram.
— Vamos, deixe de bobeira. — Ele esticou a mão e o Felroz se atirou, diminuindo o tamanho e subindo para os ombros. Ela se posicionou, olhando para frente. Dante parou ao ver que havia praticamente mais de vinte pessoas prontas e preparadas para um combate. — Ei, ei. Voltei pra casa.
Ao levantar as duas mãos pro alto, em sinal de rendição, uma risada surgiu no meio dos moradores. Depois mais um. Dante soltou uma risadinha e abaixou a mão quando as crianças começaram a correr na direção dele.
— Tio Dante!
Dante abaixou e pegou umas três crianças juntos, puxando para cima.
— E ai, pequeninos. — Apertou um pouco e fez cócegas, os fazendo rir e soltar gargalhadas. — Se comportaram quando eu estava fora? Hein?
O pessoal que tinha um olhar assustado já tinha se aproximado de Dante com clareza e brilho. Eles perguntavam onde ele estava, a demora, sobre as descobertas dele. Clara tinha mais do que certeza que Dante era diferente por causa daquele sorriso no rosto dele que nunca desaparecia.
Ele falava, gesticulava, deixava Nick e Lilo com as crianças e abraçava os mais velhos e apertava a mão dos que conheciam. Até os jovens que tinha dito que queriam desafiá-lo chegaram para falar com ele e foram bem recebidos.
A diferença era tão alarmante que o recinto parecia estar mais iluminado.
— Ele parece diferente, você não acha? — perguntou Jix. — Como se… tivesse voltado ao normal.
Os outros avaliaram, mas chegaram no mesmo resultado. Dante ainda não tinha Energia Cósmica, dava pra sentir de longe.
— Ele nunca precisou disso pra parecer forte. — Clara lembrava da primeira vez que encontrou Dante no meio da lama de Felroz, numa noite escura e sem luz alguma. Era somente aquele olhar, mesmo nos escombros, que carregava uma convicção tão firme que arrastava o medo para longe.
— Confiança — disse Marcus com o rifle baixo. — É o que ele parece ter recuperado.
Confiança…

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