Índice de Capítulo

    — Nosso pai agora tem conselheiros. — Micaela Novae tinha uma mão no rosto, olhando para baixo, para o chão. — Ele não faz nada sem perguntar aos outros. Não está mais tentando melhorar mais como antes. A mamãe…

    Silver era o mais irritado, como sempre. Ele bateu a mão na mesa improvisada que tinham feito ali no meio de Kappz, e levantou olhando para a direção de casa. Sempre tratava tudo com raiva e adrenalina, nunca pensava direito.

    Por isso seu pai sempre o repreendia, mas como ele poderia ser diferente se o próprio Atechi Novae fazia o mesmo? Era o reflexo do pai em uma idade mais nova. Vinigo conseguia vê-los sem ao menos diferenciar a faixa etária.

    — Os conselheiros mandam agora — disse Silver. — Eu disse que tínhamos que forçar um acordo com aqueles acampamentos que visitei. Tínhamos mais a ganhar lá do que aqui. A Zona Cega também. Mas… eles querem voltar para cá? Para esse pedaço de lixo.

    Kappz sempre foi tratada assim. Por isso, os guardas ao redor, armados dos pés a cabeça, ficavam atentos mesmo que fizessem uma pausa e aparentemente nada estivesse fora do lugar. Vinigo, na verdade, ocultou a informação de que a cidade não tinha mais a mesma intensidade de ataques de Felroz como antes.

    Qualquer informação que soltasse agora seria torcida para outros propósitos. Só comia um pedaço de pão com um pouco de café ruim, ignorando os dois irmãos.

    — Disse que eles são fortes — voltou Silver a encará-lo. — Acha que vão aceitar nosso acordo sem reclamar? Somos grandes, mas não podemos…

    — Não vão aceitar. — Os dois o encararam. — Eles criaram a Cuba do zero. Eles possuem algo que não temos, e estão na vantagem. Por que aceitariam nos doar algo sem terem algo em troca? É idiotice pensar nisso.

    — A ideia é ruim? — perguntou Micaela. — Muito ruim?

    — Pior do que pensam. Os conselheiros do pai não fazem ideia do que estão enfrentando. Essas pessoas têm um senso de dever maior do que qualquer outro que encontramos. Eles são pessoas capacitadas que enfrentaram todas as aberrações da cidade para terem um pouco de segurança. Se chegarmos falando que precisamos de energia e água, eles vão nos doar?

    — Pode apostar que não.

    Os três giraram a cabeça para cima, e os guardas puxaram suas armas de uma vez, ouvindo a nova voz vindo de cima de um dos prédios caídos. Lá, puderam assistir uma mulher desmontar do que parecia ser… aquilo é um Felroz?

    O outro homem desmontou e havia outro velho em seus ombros.

    — Clara. — Vinigo se levantou. — Como você…?

    — Te falei da primeira vez que veio até aqui, Vinigo. Essa cidade tem olhos e ouvidos. — A posição dela também era vantajosa. O homem ao lado dela, que tinha sido colocado no chão e usava uma bengala, Vinigo também o conhecia.

    Era Jix, conselheiro direto dela. E o outro… Vinigo lembrava que tinha sido ele quem havia retornado por um portal, e era o nome que todos se apoiavam antes de uma tragédia na Zona Cega. O Recruta Dante.

    — Essa é a Clara? — Micaela se levantou, analisando. — Parece ser mais nova do que tinha dito, Vinigo.

    — Sim, um pouco. — Ele mesmo achava isso. — Clara, nós viemos para conversar. Temos algumas propostas que nosso pai enviou. Algumas que podem ser benéficas se forem ouvidas e analisadas. Poderia nos receber?

    — Já estou te recebendo. Aqui e agora. E o último acordo que queria não chegava nem perto de ser vantajoso. O que quer dessa vez?

    Silver tomou a frente como sempre fazia.

    — Nós precisamos da energia e da água. Temos muitos problemas relacionados ao básico. Vinigo veio aqui tratar com você uma maneira de dar certo, mas jogou na nossa cara que não somos nada pra vocês. Esse lugar, seja o que fizeram com ele, não é somente de vocês. Queremos também o Hospital, o Lagmorato que está lá vale muito para nossa medicina. Temos doentes deitados faz meses e não sabemos como tratá-los.

    Ao lado de Clara, o tal Dante soltou o comentário para Jix:

    — Esse ai quer tudo mesmo. Só falta querer levar a cidade pra ele.

    — Todos eles são assim no começo, Dante. Lembra do Aquário Feudal?

    O Aquário Feudal era realmente uma cidade gigante, mas a notícia da sua destruição causou um problema tão grande que até mesmo eles sofreram. A população se dividiu em vários meios, e centenas foram para os Novae.

    Comida, água, trabalho, tudo ficou um caso de um dia para o outro. Mas, Vinigo soube quando esteve em Cuba na primeira vez, que foram alguns deles que destroçaram o Aquário em um estalar de dedos.

    Marcus, Leonardo, Heian e um homem que não estava lá quando chegou. E ali na sua frente, aquele homem se mostrava sem um pingo de preocupação.

    — Nós viemos atrás de um acordo que pode beneficiar a todos nós — disse Micaela ainda admirando Clara. — Somos fortes.

    — Nós também somos — cortou Clara imediatamente. — Existe uma diferença imensa para quem não tem nada a fazer para aqueles que procuram problemas. Querem tudo isso, então vão até o Reservatório e peguem. Vão até a Hidrelétrica e puxem alguma fiação para suas casas. Não precisam de acordo para isso.

    — Parece que não entendeu. — Silver deu mais alguns passos para frente. — O que estamos querendo não é só a manufatura que está lá. Precisamos do que vocês sabem. Por isso viemos. Um acordo que pode…

    — Garoto, não tem nada na cidade de vocês que é benéfico pra gente. — Clara mostrou um olhar cruzado para Vinigo. — Achei que tivéssemos chegado em um consenso da última vez. Por que não informou sobre o que conversamos?

    Vinigo teve que se levantar agora. Ele respirou fundo e levantou o pão.

    — Porque o que temos hoje não chega nem perto do que vocês tem. Nossa casa está sendo constantemente atacada por criaturas estranhas, diferentes dos Felroz. Nossa remessa de comida está acabando e o que os conselheiros e meu pai, que deveriam tomar conta da cidade, apenas acham que temos que vir aqui e resolver qualquer coisa para as pessoas confiarem na gente. Eu conheço bem as terras e sei que nossa melhor alternativa seria vir negociar com você.

    — O que está fazendo? — Micaela rapidamente perguntou. — Não deveria falar isso para gente de fora.

    — Por quê? — Vinigo respirou fundo e olhou para os dois. — Se querem forçar um acordo com eles, então vão em frente. Clara me acolheu, me mostrou como a cidade dela funcionava e como eu poderia apresentar isso para nosso pai.

    — E por que não fez? — Clara perguntou do outro lado.

    — Porque o homem que comanda aquela cidade não é mais o meu pai.

    Vinigo encarou dois dos guardas e o aceno de cabeça foi o que precisavam. Ambos sacaram as espadas, apontando para os demais. Silver e Micaela ficaram atonitos, sem entender nada. Mas as lâminas prateadas obrigaram os outros a ficarem sem se mover.

    — Clara, meu pai tem sido um homem bem peculiar durante toda a minha vida. Faz algum tempo que ele começou a apresentar ações que nunca foram típicas dele. Minha cidade, minha casa, o que tivemos que construir pode ser destruído se não pudermos fazer nada para entender. Por isso, eu estive esse tempo fora para entender o que acontecia dentro do conselho.

    Ao lado de Clara, Dante deu uma risada, apontando:

    — Isso que é um climax interessante, não acha?

    — Impressionante — respondeu Jix. — Os jovens de hoje em dia são todos muito corajosos.

    Vinigo deu mais alguns passos a frente, olhando para a mulher que o acolheu durante meses, para então pedir com todo seu coração:

    — Gostaria que me ajudasse, por favor. Se aquele lugar ruir, então o legado que minha mãe deixou seria destruído.

    Clara ainda era impassível, como sempre. Os olhos dela não ondulavam por nada agora. Antes, quando esteve na Cuba, ela sempre questionava suas decisões, sempre hesitantes e sussurrando sozinha pelos cantos.

    Aquele sentimento foi desdobrado. Agora, o que tinha era presença.

    — Sinto muito saber disso, Vinigo. Sua mãe ficaria orgulhosa de ouvir suas palavras, mas o que acontece fora dos domínios que possuo não é um problema que eu tenha que resolver. Se precisar de um conselho, eu darei, mas se o que veio procurar é ajuda das pessoas que moram aqui, então sinto te informar, não vai acontecer.

    Dante olhou pra Jix, ainda rindo:

    — Ela tá poderosa agora.

    — Você deu esse poder a ela, lembra?

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota