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    Juno não se lembrava da última vez em que sentira algo tão próximo de conforto. Havia um calor silencioso em estar cercada por pessoas em quem confiava — gente que carregava, nos gestos e nos olhares, o mesmo pacto não verbal de proteger aquilo que consideravam importante. Aquilo a fazia lembrar de quando ainda fazia parte de um grupo, antes que o mundo tivesse se tornado tão afiado.

    Vinigo não era uma ameaça. Ela sabia disso. Pela forma como ele observava, como escolhia as palavras e evitava o confronto direto, só queria consertar algo quebrado em casa. Mas não encontraria respostas ali. Ainda assim, todos se moveram juntos quando ouviram falar do inimigo — sem hesitar, sem perguntas.

    Quando o viu partir de mãos vazias, levando consigo apenas o peso de uma derrota moral amarga, Juno deixou os ombros cederem um pouco. O corpo finalmente aceitou o descanso que a mente ainda recusava.

    — Estava com receio deles? — a voz de Veronica veio áspera, quase cortante. — Nem cem deles seriam capazes de te derrotar.

    — Não é isso. — Juno não virou o corpo. As pessoas já começavam a retornar para a Cuba, em pequenos grupos. Arsena e Magrot acenaram de longe; ela respondeu erguendo a mão, um gesto simples. — Ainda estou pensando naquele dia.

    Veronica hesitou. Houve um silêncio breve, pesado.

    Dinamite passou por elas com vários dos seus, vindos da Zona Cega, a voz ecoando pelo espaço aberto:

    — Ei, menina dos raios. Quer treinar depois?

    Juno sorriu. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

    — Me espera no pátio. Vou te fazer comer poeira de novo.

    Dinamite gargalhou e seguiu andando. Os que vinham com ele trocaram olhares rápidos, meio incrédulos diante daquela naturalidade com algo tão violento quanto o treino. Quando se afastaram, o silêncio voltou a se espalhar, lento, ocupando os espaços deixados.

    Juno sentiu o desejo antigo se reerguer dentro dela. Queria ser mais forte. Queria ser alguém em quem Clara pudesse confiar de olhos fechados — como confiava em Marcus, em Jix, em Dante.

    Ela os avistou então. Clara, Dante e Jix parados em outro prédio. Os dois mais velhos ainda sentados, conversando sem pressa, como se o tempo lhes pertencesse. Clara permanecia ereta, calma, quase imutável — um lembrete silencioso de que a Cuba era forte porque pessoas como ela existiam.

    — O Rastro não vai sumir — disse Veronica.

    Enquanto falava, o corpo dela começou a mudar. Carne e ossos se desfizeram em filamentos esbranquiçados, que se retraíram e penetraram novamente em sua forma, como fios retornando ao tear.

    — Se quer aprender a lidar com essa sensação — continuou —, vai precisar enfrentar um monstro do mesmo tipo.

    Veronica inclinou a cabeça, os olhos fixos em Juno.

    — Eu te empresto minha habilidade.


    Ela voltou por último. Em vez de usar os raios para se movimentar, aproveitou o tempo para caminhar. Os prédios destruídos e as casas destroçadas pelo tempo, consumidas pela vegetação era a paisagem habitual da cidade.

    O cheiro das flores, das árvores, do tempo que armava para chover pouco, lembrava de quando parou ali em Kappz. Sua mente se dividia em algumas lembranças, do Capitão e dos seus antigos aliados, até o Rastro e sua quase morte.

    Não fazia ideia de que seriam dias tão intensos. Quanto mais tempo passava, mais a Cuba se desenvolvia. Duna era uma máquina estranha que gostava de pensar fora da caixa e trazia muitas inovações.

    Ouvia o som de marteladas e também de algum objeto elétrico furando as pedras quanto mais perto da Cuba. Duna queria criar uma espécie de córrego, ligando o esgoto para que não haja problemas com o cheiro ruim. E também estava preparando a estufa gigante, com Rupestre, um pouco mais distante.

    A Cuba tinha se tornado independente. Comida, energia, pessoas…

    — Aquele velhote tinha dito que precisava de mim para algo. — Veronica se desgrudou do seu corpo novamente, materializando-se em carne e ossos. — Não se preocupe, não estarei longe. Sua Energia Cósmica atual consegue me manter nesse corpo por muito mais tempo.

    — Cuide-se.

    Veronica não se mexeu, ainda fitando-a.

    — Sua mente se torna mais fraca se suas dúvidas chegam primeiro que as perguntas. Existe diferente nelas. Afie sua mente fazendo o que seu corpo pede. — Ela deu de costas, partindo na direção dos sons de construção. — Só existe uma pessoa na Cuba que pode nos levar ao extremo, garota.

    Eu sei disso, respondeu mentalmente.

    Seus pés a levou até o pátio externo da Cuba. Ali, os moradores já se reuniam para tomar café, conversar sobre as coletas e outros, que seguiam a ronda, seguir suas rotas para verificarem se tinham Felroz espalhados.

    — Ei, Juno. — Tifany se aproximou correndo. Era uma das garotas que treinava com Leonardo e Gerhman. — Eu soube do que aconteceu lá fora.

    — Só uns desavisados. — Ela sorriu. Tifany era um ano mais nova, e um olhar puro e tranquilo. — Viu Clara e Dante por ai?

    — Clara entrou para conversar com o senhor Leonardo e Marcus. O senhor Dante está no pátio dele. — Ela segurou as duas mãos, prendendo a ansiedade. — Vai treinar? Posso ir ver? Por favor, por favor.

    — Vai ficar pior do que Dinamite se continuar querendo treinar assim. — Juno deu uma risada e concordou. — Dante treina sozinho, mas não sei se você consegue aguentar o ritmo dele. É muito diferente.

    Tifany não parecia sequer com medo.

    — Eu já vi ele treinando os outros. Até o senhor Leonardo diz que é difícil vencer ele mesmo sem habilidade. — Ela a encarou, extremamente curiosa. — Consegue me dizer como ele era antes? A força dele era imensa mesmo como todo mundo diz?

    — Sendo sincera, é até difícil descrever. — Juno lembrava a primeira vez que enfrentou. — Ele conseguiu me imobilizar com alguns golpes, e estava se segurando tanto que qualquer movimento errado eu poderia morrer. Teve vezes que ele fez o céu se abrir. E limpou um Lagmorato com Marcus sozinho, isso eu não vi, mas todo mundo diz que ele lutou contra um Felroz Mutante e venceu na base dos punhos.

    A garota parecia prestes a se derreter nas histórias. Juno também gostava de ouvir e contar elas. Mais ainda, gostava de vê-lo. Assim que abriu as duas portas de ferro que dava para o pátio de treino de Dante, isolado e restrito para quase todo mundo, deu de cara com uma cena inesperada.

    Dinamite e Secure trocavam movimentos. Corriam e usavam suas habilidades para se locomover mais rápido, mais precisamente, e mais letal do que antes. E seu inimigo, era o próprio Dante. Os dois punhos erguidos e as pernas separados, com um pequeno impulso, desviou do soco de Dinamite, segurando seu pulso em seguida e seus sentidos focaram onde Secure apareceu.

    Secure conseguia trocar de lugar com qualquer coisa que tinha Energia Cósmica, e isso também colocava Dante como um lugar de troca.

    Secure trocou de lugar com Dante. Dinamite foi solto e respirou pesadamente.

    — Isso é estranho — Juno ouviu Dinamite comentar, enquanto ela e Tifany se aproximavam. — Ele parece mais forte do que antes.

    — E mais rápido também — completou Secure, o peito subindo e descendo com dificuldade. — Já gastei boa parte da minha Energia Cósmica só pra escapar dos movimentos.

    Os dois se preparavam para avançar de novo quando Dante mudou a postura. Ergueu o braço com rapidez e acenou, a voz tranquila demais para alguém em combate:

    — Juno, Tifany. Vocês chegaram bem na hora.

    Os rapazes viraram a cabeça, soltando de uma vez o ar preso no peito. Quando perceberam que aquilo era uma pausa improvisada, se jogaram sentados no chão. O suor escorria de suas testas, pingando no concreto quente.

    — Desculpe atrapalhar, senhor — disse Tifany depressa, inclinando levemente a cabeça. — Queríamos treinar um pouco. Podemos ficar para assistir?

    — Assistir? — Dante riu, um som curto e fácil. — Juntem-se a eles. Venham com tudo. Um pouco de treino nunca fez mal a ninguém, não é?

    Juno adorava isso nele. Não importava a hora ou o lugar, ele mostrava que treinar era tão importante quanto respirar ou comer. A sensação de pertencimento era único, que apenas uma pessoa teria capacidade de entender perfeitamente.

    Era por isso que desejava caminhar na mesma estrada daquele que a ensinou. Por isso que sem perceber, os raios começavam a se libertar de seus poros, aos poucos, clareando sua visão e deixando sua mente afiada.

    — Não vou pegar leve, Dante — ela deixou avisado e se atirou para frente.

    O chão levantou poeira quando seu corpo se riscou no ar em um tom azulado. Os punhos dela foram cobertos por uma armadura fina elétrica azul, e vendo seu inimigo mobilizar os dois braços para confrontá-la, soube que seu corpo ainda não tinha se recuperado completamente.

    Mas era impossível avançar sem força. O sorriso, a aura, a presença, a força e energia que o homem na sua frente exalava era como um chamariz para quem quisesse lutar. Era como se Dante fosse o único capaz de segurar tudo o que ela poderia entregar numa luta.

    O corpo reagiu com os raios, acelerando os membros e acertando fortemente onde deveria ser o tronco. E encontrou a palma de Dante aberta. O choque fez o ar se mover, mas o homem não saiu do lugar.

    Da última vez, ele não conseguiu segurar direito.

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