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    Harley segurou os ombros dela, mas seus olhos ainda estavam na mancha escura que não desaparecia.

    — Tudo bem com você?

    Ivana passou o antebraço pela boca, limpando o resíduo escuro que ainda manchava sua pele. Seco e irritado, o gesto parecia censurar o próprio corpo por uma falha imperdoável.

    — DETESTO… ISSO…

    A voz saiu rouca, menos firme do que ela permitiria em qualquer outra circunstância.

    Ele já a vira atravessar sombras piores. Nunca com aquele custo. Harley não comentou. Apenas sustentou o peso dela quando o equilíbrio vacilou novamente.

    — Reclamações… anotadas.

    O tom era baixo. Prático. Agora era ele quem sustentava parte do peso dela e forçou o movimento.

    — Vamos discutir meus defeitos quando não estivermos sendo caçados.

    Atrás deles, a areia continuava a vibrar. As criaturas não haviam recuado. Avançavam em formação linear pelas dunas, comprimindo o espaço exatamente na direção por onde os dois haviam emergido, e a distância diminuía rápido demais.

    Harley sentiu o peso de Ivana ceder por um instante.

    — Precisa que eu te carregue?

    — ESPEREI POR ISSO POR MUITO TEMPO… — respondeu Ivana soltando uma respiração curta, quase um riso — MAS VOCÊ FUGIU.

    Ao abrir a boca para retrucar, o chão atrás deles explodiu. Duas das criaturas foram projetadas pelo ar, arremessadas com força brutal. 

    Harley entendeu o mecanismo na mesma fração de segundo em que outra era impulsionada: quatro Cobradores ancoravam os apêndices no solo enquanto outros comprimiam os próprios corpos entre eles. A tensão acumulada liberava-se de uma vez, transformando carne e exoesqueleto em projéteis vivos.

    Girando no ar, as formas se fixavam em posição, extensões abertas moldadas em lâminas prontas para impacto.

    A terceira aterrissou à frente deles, absorvendo o choque sem dispersão e já reposicionando os apêndices para bloquear a rota de fuga. O solo vibrava enquanto, atrás da nova linha formada, os corpos das criaturas se tensionavam outra vez.

    O jovem Ginsu ajustou a postura, meio passo à frente de Ivana. A visão ainda trazia um leve atraso: resquício do que atravessara, mas firme o suficiente.

    Foi então que percebeu o padrão se repetindo. Desta vez, o padrão se ampliou.

    Quatro impactos reverberaram ao redor. Enquanto Harley acompanhava a queda das criaturas lançadas, algo se moveu sob a areia ao seu lado. O solo cedeu de repente, dissolvendo-se sob seu pé. A areia tornou-se espessa, prendendo sua perna até o joelho.

    Um apêndice emergiu em curva apertada e se enrolou ao redor da panturrilha, puxando-o para baixo enquanto a pressão do solo aumentava ao redor da coxa, tentando arrastá-lo para dentro da terra.

    No instante do contato, um frio drenante atravessou seu corpo. A energia sombria começou a ser sugada pela criatura ao mesmo tempo em que a areia se fechava ao redor da perna, restringindo seu movimento e puxando-o cada vez mais fundo.

    O jovem Ginsu reagiu com violência, girando o corpo e rompendo a perna para fora da sucção antes que fosse enterrado ou drenado além do ponto de retorno.

    Harley ainda arrancava a perna da areia quando algo cruzou o ar acima dele.

    Do alto, outra criatura despencava com o corpo aerodinâmico, apêndices recolhidos contra a carapaça, preparados para se abrir em lâminas.

    Ele rolou para fora da trajetória enquanto o impacto atingia o solo com um choque surdo e, em vez de se despedaçar, o corpo deslizou pela superfície, sobre areia que parecia ter perdido todo o atrito.

    Outras três caíram logo depois. Quando os apêndices se abriram, oito hastes avançaram ao mesmo tempo, não em movimentos caóticos, mas em vetores calculados que se fechavam com precisão geométrica, comprimindo o espaço até deixar apenas um corredor livre. 

    Exatamente onde queriam que Harley estivesse.

    Ivana se desfez um instante antes do fechamento. Seu contorno se partiu em filetes escuros que se espalharam junto à areia, cruzando as linhas de ataque tal qual reflexos estilhaçados sobre vidro negro. Os apêndices encontraram apenas vazio.

    Ela ressurgiu no ponto onde as trajetórias convergiriam. A lança já vinha em movimento, descrevendo uma curva curta e violenta que varreu rente ao solo e atingiu as bases que mantinham os Cobradores ancorados à areia. As conexões cederam quase ao mesmo tempo.

    Quatro criaturas perderam estabilidade de uma vez, os apêndices se chocando entre si numa descoordenação abrupta que rasgou a formação e abriu uma brecha estreita no cerco.

    Ivana não olhou para Harley quando falou:

    — NÃO PRETENDO FICAR VIÚVA POR DESORGANIZAÇÃO TÁTICA.

    O jovem Ginsu se reposicionou ao lado dela antes de responder. A visão ainda trazia um leve atraso, resquício do que atravessara, ainda assim firme o bastante para acompanhar o ritmo.

    — Fico aliviado. Ainda não me preparei para virar uma memória trágica.

    Um dos Cobradores contraiu o próprio corpo e comprimiu o exoesqueleto antes de expelir uma rajada compacta de areia negra que avançou em estilhaços impulsionados por pressão interna.

    Ivana se fragmentou no instante anterior ao impacto, mas desta vez sua divisão não foi mera evasão. Três silhuetas surgiram em sequência curta, separadas por frações de segundo. A rajada atravessou duas delas, desfazendo as formas como reflexos rompidos, enquanto a terceira se solidificava alguns metros adiante.

    Harley a encarou por um instante.

    — Você acabou de…

    Ivana virou apenas o suficiente para responder.

    — EVOLUÇÃO É UMA NECESSIDADE.

    Outro Cobrador já descia sobre o ponto onde ela havia reaparecido. Harley cruzou o espaço aberto pela confusão e chegou ao lado dela no momento em que a criatura mergulhava.

    Ivana cravou a base da lança no solo. A sombra sob o Cobrador se abriu em uma fissura vertical no próprio terreno: estreita, profunda e silenciosa. O corpo da criatura perdeu coesão imediatamente e começou a se desfazer em névoa escura, arrastado para dentro da abertura por uma força invisível.

    Em poucos segundos não restava nada. Não havia destruição ali. Apenas deslocamento.

    Ivana puxou a arma de volta com um movimento seco.

    — PELO MENOS UM DE NÓS DECIDIU NÃO ENVELHECER MAL.

    Harley quase riu, e então percebeu a mudança. A formação havia se alterado outra vez. A linha frontal recuava milimetricamente enquanto a retaguarda avançava, comprimindo o espaço em um ângulo mais estreito. Não era mais um cerco nem um ataque direto, mas um redirecionamento deliberado.

    Estavam sendo conduzidos. E, atrás da massa coordenada de corpos, algo maior começava a se mover, deformando a areia com um peso que não pertencia a nenhum dos Cobradores.

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