Capítulo 1: O Príncipe
Mire abaixo dos céus. Deixe a luz entrar sem dificuldade nos olhos, aceite por completo a iluminação. Então o falcão irá se revelar. O próprio avatar do deus Sol estará exposto, aceitando o desafio de um mortal. Shamallah abençoará os astutos e irá devorar os maliciosos.
— Mais uma vez — o príncipe mantém a determinação.
O vento, indelicado, arranca as gotas de suor do seu rosto. Sua túnica branca gruda ao corpo, dificulta o movimento suave das mãos. O gorro parcialmente banhado a ouro está jogado no chão, por não servir para nada além de ferver sua cabeça nua.
— Droga, droga, droga — o príncipe se lamenta enquanto observa outra flecha se desfazer em pequenas gotas antes de atingir o solo, deixando as pequenas folhas no jardim reluzentes.
A ave limpa os céus com o bater de suas asas, moldando e destruindo nuvens a seu bel prazer. Agora somente o azul compõe a visão do desafiante frustrado.
— Arrogante — esbraveja enquanto alonga os braços.
Já são dias de tentativas intermináveis. O ambiente se tornou parte de si, qualquer mudança do vento pode ser sentida no pulsar de seu sangue. Cada gota de suor é fundamental para se localizar. O falcão é ardiloso, raramente se coloca em risco desnecessário. Nunca longe da vista, porém nunca perto o suficiente.
Inspire. Expire. Concentre-se.
Água dentro do recipiente cobre seus pés rugosos. Foram necessários cinco servos para carregar a bacia de prata cheia até aqui. Somente para haver munição suficiente.
— Eu não vou errar dessa vez — a bacia treme até formar um pequeno redemoinho.
Do centro uma haste se ergue. Com a mão direita a puxa, sólida ao toque. Um punhado de gotas flutua para formar a ponta em formato de seta. A flecha está feita, com o comprimento de uma lança e transparência do céu. A arma perfeita.
— Mais uma vez — o arrependimento de aceitar uma tarefa como essa amarga em sua memória.
Estende as mãos nuas agarrando o ar, os braços bronzeados assumem a pose de um arqueiro. Inspire. Expire. Aguarda o perfeito segundo onde o falcão irá se descuidar, ficando exatamente abaixo do Sol. Tensiona a linha. Deixou a luz queimar um pouco os olhos e prendeu a respiração. Esvazie os pulmões. Soltou a linha imaginária e a flecha voou sem dificuldade, graciosamente rasgando os céus.
O falcão habilmente sai da trajetória da flecha, assim como em tantas outras tentativas. Porém, ao subestimar o adversário, cai em um simples truque. Sim, o príncipe está finalmente sorrindo. As flechas nunca precisaram seguir um trajeto comum.
— Peguei.
A flecha se divide em duas, logo em quatro partes, depois em oito, dezesseis, trinta e duas até se transformar em uma teia. O animal não conseguiu reagir, aceitando sua derrota. As mãos do vitorioso, esbranquiçadas pelo constante contato com a água, executam uma bela dança enquanto guiam a rede aquática até próximo do palácio novamente.
— Grande estratégia, senhor — Aftí, um servo pouco robusto, surge segurando uma grande bandeja prateada. — Suponho que seu desafio está completo.
Há tempo não experenciava um sorriso tão reluzente de seu senhor, sentiu-se refrescado com a imagem. Somente com a ponta dos dedos equilibra um verdadeiro banquete frutífero, assim como todos os dias antes desse. Especialmente hoje as frutas são devoradas com vontade, uma fome vencedora.
— Obrigado, já estava cansado de encarar o Sol — agradece com meia maçã entre os dentes.
A cada duas mordidas a fruta é devolvida a bandeja e outra é pega somente para ter o mesmo destino e assim até restarem poucas frutas intocadas. Com um simples movimento de sua mão ordena que Aftí se vá junto com as sombras.
—Tão pequena — Matí, uma serva até então silenciosa, caçoa da ave.
— É mais do que o suficiente — Moshe não tarda em verificar o estado da ave dentro da gaiola de água.
Bicadas são distribuídas como resposta as mãos descuidadas. Um ser como ele se recusa a ficar preso, independentemente de quantas joias o aguardem em sua futura cela cilíndrica.
— Senhor, poderia observar melhor? — a serva cobre os ouvidos após o falcão gritar. — As… as asas.
A grade translucida está tingida de vermelho. Ao se debater no ar suas asas foram perfuradas, buracos carmesins transbordam dor.
— Vamos tratar dele lá dentro — Moshe, o príncipe de olhos dourados, se enche de culpa ao ver o avatar do Sol sangrar como um porco abatido.
— A destruição carnal da maior das santidades — essa voz tão calma e rígida. O cheiro de óleo importado e o pior de tudo… — como ousa cometer tal pecado.
O porrete, pior que ele somente o som ecoado logo após Ozymandias “corrigir” o meio irmão. Moshe se limita a aceitar Matí massagear o galo latejando e crescendo no topo da cabeça.
— Avisei que era uma má ideia — ela caçoa.
— Porque não o impediram.
— Ozymandias, eu…
— Senhor. Eu sou seu senhor, não chamei pelo meu nome como se fossemos iguais.
Os olhos dourados da serva não hesitam só encontrar com os vermelhos de Ozymandias, herdeiro do trono. Uma ação que deve ser corrigida.
— Vamos nos apressar e terminar o ressaltante dos nossos deveres — Aftí ressurge puxando a companheira para longe — Certo, Matí?
— Certo. Perdoe-me por minha indisciplina — ela abaixa a cabeça e se afasta.
Os servos asseguram a própria segurança deixando os príncipes a sós.
— Comece a falar — Ozymandias, como prega a tradição, veste as suas roupas cerimonias. Uma larga túnica, um dia branca, onde deve ter todos os antigos faraós bordados. Moshe imaginava que era uma cortina, muito feia, quando mais novo. Sua opinião não se alterou, somente aprendeu a fechar a boca.
— Primeiro, você está fedendo. Te cobriram com merda de no… — outra pancada.
O bastão translucido tem a textura de vidro, porém é mais denso que qualquer metal que já tocou. Um grande desperdício de dom divino, visto que ele usa somente em momentos cerimoniais.
— Mais respeito, estou coberto com o legado de grandes imperadores passados.
No entanto isso não retira o cheiro azedo preencher os corredores e destruir os dias perfeitamente tranquilos.
— Certo, perdão — Moshe se põe de pé.
— Mas sério irmão, o que pensa estar fazendo? — o falcão se força a ficar sobre as duas patas, o corpo treme até a fadiga. — Isto é de uma crueldade desumana com um ser tão belo quanto ele.
Por instinto o mais novo se prepara fisicamente para outra golpe, provavelmente nas costas. Ele raramente acerta somente um lugar nas suas broncas. E dessa vez ele está bem irritado.
— Ele não vai mais conseguir voar, nunca mais tocará os céus — a pancada não veio. Ozymandias segura a ave com cautela.
— Mas ele agora poderá viver em um lugar fresco e nunca passará fome. Talvez ainda consiga planar. Ele vai poder dormir a hora que quiser — o sermão acabou, então as palavras deslizaram de sua boca com facilidade.
— Por melhor que pareça, não se compara com a liberdade de tocar as nuvens. Nada nessa vida irá substituir todas as sensações que a liberdade te proporciona — com suavidade acaricia a ave. — Nada.
Moshe se mantém silêncio, entende o erro e a futilidade em tentar se defender. Ozymandias é um homem que merece ser respeitado, mesmo que se cubra com vestimentas espalhafatosas. Na verdade, não é isso que incomoda Moshe, mas sim na diferença física que há entre ele e todos os outros nobres.
Ozymandias tem poderosos olhos vermelhos em contraste a sua pele negra, um Qabil da maior classe. Assim como o restante dos nobres. Não há um que não compartilhe essas características, com a exceção de Moshe. Ele compartilha a pele branca e olhos dourados, como um Ivrit serviçal.
— Não me olhe assim, compreendo a bondade por trás dessa ação. Porém deve ser mais cauteloso quando for executar algo assim.
— Peço perdão, era para ser meu presente para você e Filopar. Queria que o deus vivo, senhor do Sol, tivesse o avatar dele no salão do trono. Não tive a intenção de o ferir.
— Mas o fez.
— Sim, eu fiz.
— Então devemos arcar com o erro e seguir em frente, não?
— Diz como se fosse fácil — um de meus pensamentos escapa dos meus pulmões. — Perdão.
— Mas devemos aceitar os nossos pecados, não?
Ele apenas sorriu, um sorriso doloroso. Sua máscara nobre caiu e revelou a tristeza trancafiada em seu íntimo. Verdadeiramente angustiado. Moshe perceberia muito tardiamente que, no fim, seu irmão estava sofrendo de um mal que logo o alcançaria.
— Vou dizer que algum mal caráter machucou o falcão, então não se preocupe com nosso pai. Apenas rente não causar mais problemas.
O silêncio do mais novo é o suficiente. As grades da então nova moradia do falcão são pouco espaçadas e decoradas com joias diversas em contraste com o dourado predominante do item. Obra de um ardiloso comerciante do Norte. Para completar um belo pano bordado à mão é jogado sobre a gaiola. O tecido vermelho se molda como água em uma jarra, o material fino de tom escuro deixará a ave livre da luz forte e com acesso às brisas recorrentes dentro do palácio. Os desenhos em dourado sobre o vermelho o transformaram em algo apresentável, uma excelente ideia de Matí. Algo que raramente é bem-visto na corte.
— E, irmão, quero falar algo com você, — a voz treme como de uma criança com medo de confessar que quebrou um vaso — quando tudo tiver se acalmado.
Seu passo, antes elegante, agora está inquieto. Impreciso. O corpo não suporta o peso do coração. Se algo o aflige, s deve deixar escapar junto com o ar dos pulmões. Caso contrário, será lentamente consumido.
— Certo.
Moshe finta o chão, o vazio da própria mente. Tudo soou confuso. Ozymandias deveria estar reluzente, não acinzentado. O que falaram para ele?
— Para de se mexer… — um sussurro inoportuno chega até a mente distante do príncipe.
— Não precisam se esconder — Moshe encontra os olhos esverdeados de Aftí e os azulados de Matí. — Está tudo bem.
Ambos saem de trás de um pilar, novamente uma memória distante volta a sua mente. Pois se recorda de quando, junto a Ozymandias, espiaram o treinamento do faraó. Ver a calmaria ser deixado no lado de fora junto aos limites morais, foi extraordinário. Uma exibição limpa do poder bruto de Otige.
— Vá limpar os aposentos dos convidados, os deixe brilhando — Aftí empurra sua companheira.
— Mas…
— Só vá, sem queixar-se.
Ela, a contragosto, obedeceu. O silêncio tomou o salão até a certeza de que ela se foi se confirmar. As duas mentes maquinam jeitos de resolveram a atual situação.
— Ele vai ficar bem — poucas são as palavras que vem até Aftí. — Afinal ele é o futuro rei de Origem.
— Melhor ainda, ele e meu irmão. Eu sei que ele vai ser o maior faraó.
— Certo — Moshe passa o braço sobre o pescoço do serviçal, o aproximando seu rosto. — Deveria ser mais brando com Matí . É uma boa mulher, com toda certeza será uma ótima mãe.
— Suas roupas estão no seu aposento, senhor. Não demore — Aftí se esquiva do assunto — Por favor nos chame caso precise de mais alguma coisa, é melhor não se atrasar e irritar ainda mais o mestre Ozymandias.
— O que foi Aftí, me parece que está tentando se livrar da minha presença— os olhos esverdeados se arregalam e suor se faz presente no rosto avermelhado. — Está planejando algo?
— Nã… não, é só que…
— Tire o dia de folga — o gorro é gentilmente erguido, revelando o duro cabelo dourado. Uma pequena chave é escondida entre os cachos — Avise-a também. Divirtam-se.
Uma piscada nada discreta é dada. Não há qualquer outro servo presente, raramente gostam da companhia de seus olhos dourados. Ao menos tem liberdade suficiente para vadiar por todo o palácio.
— Muito obrigado, um dia irei retribuir o favor.
— Pois recusarei, seus serviços são mais que suficientes — desleixadamente, o príncipe se retira do salão.
Ao passar pelos extensos corredores, as risadas cessam e dão início a sussurros. Escondem suas bocas para que nenhuma palavra seja entendida pelo estrangeiro. Moshe sabe, entende o mal-estar que gera. Afinal todos aqui compartilham algo em comum. O que diferencia um Qabil de um Ivrit são os olhos e somente isso. Se arrancasse os olhos de qualquer um aqui, nenhum ser conseguiria dizer se ele era livre ou escravo.
Não há lógica continuar em um local como esse
Não tardou em seu aposento, onde uma muda de roupa já havia sido separada e grande pedaço de pão repousava na janela. Joquebede logo veio à mente, uma serva de idade avançada. Uma Ivrit de passos lentos e sorriso meigo.
— Yuhiwohi — agradece como ela agradece a seu Deus.
A pronúncia arrastada e torta o faz rir sozinho. Afinal, ambos não deveriam ser tão diferentes. A três dias realizou oferendas a Shamallah, uma bacia de laranjas, um pato assado e alguns topázios. Rezou pela prosperidade do irmão. Pelo que sabe, os Ivrit sacrificam animais. Principalmente cordeiros. Por terem somente um deus os itens são mais homogêneos.
Ao sair trancou a porta como quem tranca um cofre, cansou-se de intrometidos e piadas sem graça envolvendo a destruição de móveis.
— Estarei fora por um tempo — disse rispidamente a um dos guardas.
— Como quiser, majestade — ele respondeu somente com ironia da alma que ria oculta pela íris vermelha. Nada irá expor seu nojo, pois o príncipe é poderoso demais para ser incomodado.
As vestes completamente brancas sobressaltam sobre os olhos dos mais humildes. A longa capa é um complemento espalhafatoso, porém os mais novos adoram. As sandálias são simplórias pois onde caminha é abundante essa mesma simplicidade.
— O escolhido dentre os nossos chegou — muitos anunciaram.
— O melhor dentre os piores — outros ironizavam.
A realidade enoja muitos Qabil que transitam entre bairros. O príncipe gargalha junto dos seus. Os alimenta com ouro nobre. Trata dos feridos e dos anciões. E os mais novos? Eles o idolatram a ponto de serem castigados por heresia, pois o veem como um messias.
Aqui é belo
Sim muito belo. A sujeira das ruas não marca suas vestes, pois são puras como as almas aqui. Infelizmente poucos são os homens e mulheres jovens que habitam estas ruas, a grande maioria está a uma centena de metros sendo alvos de chicotadas e trabalho forçado. Os homens levantam imagens deuses que nunca responderam seus chamados por ajuda e edifícios que nunca habitarão. As mulheres cuidam de filhos alheios que logo as desprezará, e submissa a qualquer ordem Qabil.
— Ficamos agradecidas — um casal de anciãs cumprimenta Moshe. Ambas com muita dificuldade conseguem caminhar uma dezena de passos ou chamar alguns dos netos, porém sua sabedoria é infinita. — Aceite isso, uma pequena recordação.
Um pequeno ser de madeira coberto de cola e pelos. Demorou a assimilar, porém Moshe reconheceu o objeto como um cordeiro. Mesmo achando um presente exótico guardou consigo. Não fará desfeita de algo tão precioso.
— Agradeço ao gesto, voltarei assim que possível.
A contragosto das crianças, partiu. O palácio visto de mais longe causa uma imagem opressora, como se renegasse sua mera existência. Quer voltar para aquele pequeno local aconchegante, porém sua presença por si já causa desordem. Os boatos de uma rebelião crescem entre as castas mais nobres. Punem seus medos com mais dor. A três semanas diminuíram um quarto da comida e negaram folgas para as cerimonias religiosas. O faraó fez pessoalmente o decreto, alegando que nenhum Ivrit merece ser tratado com ainda mais dignidade do que um verme.
— Onde esteve? — e claro, isso se aplica a Moshe. — Isso é comportamento de um príncipe?
— Não faça perguntas as quais já tem respostas, e sim, isso é o comportamento de um príncipe — Moshe retruca sabendo que ele já o venceu.
— Não ouse manchar o nome da minha linhagem se aproximando de escravos — a grande coroa dourada conjunta as vestes vermelhas são símbolo de força e poder, e somente um ser pode as vestir. O faraó, Seti. — Vá para seu maldito quarto e não ouse olhar nos olhos de ninguém.
Pai sanguíneo de Ozymandias. Os olhos carmesins por vezes transbordam para sua pele branca, como agora, onde humilha o único ivrit livre do reino. Somente para reforçar sua autoridade. Moshe o vê sair sorrindo. A multidão o observa. Eles riem. Conspiram. Envenenam o ar.
O príncipe corre, contendo as lágrimas e a raiva. Se sente pequeno. Frágil. A única certeza que habita seu coração é que Ozymandias e Tuya são sua família. Ozymandias foi seu irmão desde o primeiro contato assim como Tuya foi sua mãe desde o primeiro olhar. Ambos nunca necessitaram do sangue para unir.
Ao chegar novamente ao seu pátio particular, nada mais que um local esquecido por todos os deuses, retira grande parte das vestes. Restando somente a túnica branca. A raiva contida quer sair. O resto da água da caça ao falcão se transforma em lâminas.
Por um instante prende a respiração, pondera se deve lançá-las contra si ou contra tudo ao redor. Desiste, tudo se torna uma breve garoa em pequeno espaço. Nenhuma das duas opções faz sentido. Afinal o Sol finalmente toca a linha do horizonte e ele é… belíssimo. O jeito que colore a realidade com tons alaranjados, é vibrante.
Sem Aftí e Matí é solitário. Porém os imaginar sorrindo livres derrete suas preocupações. Eles são tão únicos quanto Moshe. Dois estrangeiros do norte, dois Erophis. Olhos azuis e verdes, cabelos dourados. Os servos Ivrits não receberem bem as regalias dadas aos estrangeiros. Então a cada dia mais e mais acontecimentos ruins foram atribuídos aos dois. A reputação foi a ruína em poucos meses. Não tardou para Matí e Aftí serem resignados para cuidar do príncipe silencioso, afinal um trio de esquisitos se entendem melhor do que ninguém.
Foi uma benção divina.
O príncipe nunca poupou a audição dos céus com seus agradecimentos, principalmente enquanto sua mente vagava solitária. Sim, é isso. Não deve sofrer por conta de tudo. Deve apenas se lembrar de tudo de bom, deve somente esfregar na cara desses deuses que pode sim viver feliz.
— É sempre bom vê-lo de bom humor — Moshe se levanta assustado. — Não deixe que nada apague esse brilho na sua alma.
É Tuya, sua mãe e rainha de Otige. Sua pele negra exalta os olhos vermelhos. O rosto apresenta rugas da idade. Diferente do príncipe, ela gosta de cobrir a cabeça nua com perucas diversas. A cada dia veste uma.
— Aconteceu algo? — ele se dirige principalmente a serva atrás de sua mãe, Joquebede.
Uma Ivrit cujo tempo cobrou seu preço. As marcas do trabalho e estresse tingem seu corpo. E agora a preocupação transborda de sua alma.
— Não é nada demais, nós somente estamos em busca de Aharon. Ele saiu para realizar algumas tarefas durante a noite de ontem. Pensávamos que estaria contigo — Tuya diz enquanto aprecia a despedida do Sol.
— Ele falou algo com você? Qualquer coisa — Joquebede agarra as mãos de Moshe, seus olhos vacilam. — Por favor…
— Me perdoe, mas não o vejo desde ontem. Eu posso procurá-lo pelo reino — ambas negam minha ajuda com um aceno. — Eu também estou preocupado com ele.
— Descanse, pois será uma longa semana — Tuya faz referência ao casamento de Ozymandias que ocorrerá dentro de uma semana. — Então descanse e deixe os guardas fazerem o serviço.
— Certo — Moshe sorri e volta a apreciar o pôr do Sol.
A rainha sempre sorri de forma meiga. Os olhos Carmesim sempre focados em um alvo, raramente perde a compostura. Um dos pilares de Otige. Por outro lado, Joquebede tem o sentimentalismo como característica, realiza cada ato com grande paixão. No entanto sofre com a mesma intensidade.
— Eu vou irritar Ozymandias — o príncipe sabe que os guardas não moverão um grão de areia por Aharon, por que um servo valeria tanto esforço para um Qabil?
Droga. Moshe sabe exatamente onde ele está e o odeia por isso. Ele envergonha sua mãe e toda sua linhagem.
— Não saia do palácio. Seti já está irritado com você — Tuya não o poupa de seu olhar acusador. — Evite chamar atenção até o casamento.
Ele beija sua face e se curva levemente para Joquebede, uma mania ruim. Servos são os que se curvam. Dana-se. Parece ser o certo, logo é o certo. Mas o sorriso de ambas é tudo que precisa antes de sentir a areia fria sob os pés descalços. Sente-se invencível. Afinal, é o príncipe destas terras.
Corra…
Pois já tarde…
Vozes perturbam seu inconsciente. Mas nas ruas os plebeus estranham a figura de olhos dourados correndo contra o vento. Se assemelha a um escravo fugitivo no ápice da insanidade, porém se veste como um nobre. Sua túnica branca, tecida sobre as cinzas do rio, se destaca entre todos aqueles panos baratos. O corpo liso também se destaca. A falta de pelos é visto como uma heresia entre os escravos e benção entre os livres. Não tarda para todos se recordarem quem é, o príncipe adotivo. A maior das punições divinas. A vergonha nacional.
Ouro de tolo, diziam.
Moshe passa pelos vendedores raivosos, nobres segurando as perucas e guardas ranzinzas.
— Quietos! — o chicote rasga o vento, o sorriso e a carne. — Eu tenho o direito da palavra, da vida e da morte. Vocês devem permanecem em silêncio.
Escravos. Jaulas com seus semelhantes empilhados. Sente as lagrimas pesarem os olhos, o vazio se soma e consome a alma. Vê ratos devorando os mortos e mordendo pés infantis. Os olhos dourados ainda brilham. Olham para o céu clamando por um salvador. Chorando por liberdade. As nuvens rugem e sangram. Porém quem a omissão escolhe é condenado a apenas a observar e chorar.
Finalmente o brilho da água chegou a seus olhos. O rio Olin corta o reino em dois e conecta todo território. Em épocas de abundan, como essa, o comércio, agricultura e lazer são atividades diurnas e noturnas. Quando Ipah desejar novamente a seca, ela virá.
— Seu verme! — Moshe hesita, a centímetros da sua mão está uma porta de madeira. — Como você ousa manchar minha honra, maldito escravo.
Toda casa é feita de madeira, grandes troncos foram transportados pelo rio até aqui. Uns verdadeiros fortaleza para o mais competente dos homens, aquele cujo faraó demonstrou admiração.
— Droga, seu desgraçado. Desgraçado — Adraug. — Desgraçado. Desgraçado.
A luz das velas é acompanhada pelo cheiro de sangue. Aharon está no chão sobre o próprio sangue. As feridas cobrem todo o corpo, profundas como seus olhos tristes. Adraug ferve em ira golpeando-o com seu chicote. Salivando como um cão.
— Não ouse se intrometer, estou de acordo com as leis divinas. Entendeu? Eu posso fazer isso! Eu tenho o direito — berra. — Esse homem corrompeu minha casa e sujou minha dignidade, ele não irá sair ileso. Não enquanto meu orgulho como homem está manchado. Não ouse arrancar meu direito a vingança. Não ouse trair a vontade dos deuses.
O príncipe engole seco, parou cerca de cinco passos do homem furioso. Desvia o olhar em uma tentativa de controlar o vômito já próximo dos lábios. Pode ver o rio Olin correr vagarosamente pela janela. Os pés descalços tocam o líquido quente avermelhado. O arrepio frio corre pela espinha.
— Aharon… — as palavras saíram como um sopro. — O que… o que você fez.
Seu amigo de infância e servo leal o reponde com um olhar vazio, apático. O que sente é muito maior que os graves ferimentos em seu corpo.
— “Os infiéis devem ser punidos em vida para que na morte suas penas sejam reduzidas” — o agressor finalmente para os golpes para recitar uma das leis sagradas. — Não me atrapalhe, Ivrit.
Há poucos metros está o corpo de Rehlum. Foi perfurada inúmeras vezes, seu belo vestido está maculado com sangue. Em seu rosto há tristeza. Não houve tempo para que as lágrimas caíssem. Nas suas costas reside a lâmina de Adraug.
— Adraug… — o cheiro do sangue o sufoca. — Adraug, o que…
— O que Principe? Diga! Quer que eu passe por mais humilhação, quer desonrar ainda mais minha família? Quer que eu erga o corpo dessa vadia para ti? Quer que eu peça perdão por exercer meu direito? Uma das leis divinas — ele saliva a cada pergunta, os olhos vermelhos perderam a honra. — É isso que quer, príncipe? Proteger um criminoso e humilhar um homem que protege seu lar? É isso? Me responda!
— Adraug, o que você fez? — ódio é o que sente.
Mas Adraug não esboçou medo. Claro que não, ele riu. Brevemente, gargalhou antes de voltar a sanidade. O olhar frio do general retornou com o mesmo vigor. Seu chicote novamente rasga a carne do servo.
— Minha mulher pecou, pois, foi ludibriada por esse maltrapilho. Ele rastejou como uma serpente e injetou seu veneno nela. Eu não a matei, foi ele. Ele a fez enfrentar a justiça divina. Entende o que esse homem fez? Esse maldito servo me tirou tudo, a honra, a minha família e minha felicidade. Ainda assim irá ficar ao lado dele, majestade?
— Como príncipe deste próspero reino, exerço meu direito divino e lhe condeno a prisão — Olin começou a se agitar mais do que o normal. — Se entregue para seu julgamento, pois, se o que fala é real, não há motivos para se preocupar.
— Não — uma resposta esperada para um ser asqueroso. — Me recuso a deixar esse verme mais um segundo vivo. Me recuso a participar de um julgamento falso. Eu sou um homem livre, diferente dele. Diferente de você.
Não hesite…
— Adraug…
— Vai embora chorar para sua rainha, diga o que fiz. Melhor, pode espalhar por todo o reino o que fiz. Destrua o que resta da minha dignidade, mas não me impeça de matá-lo.
Mate…
O rio se ergue como um obelisco. Moshe sabe que ele está certo. Está seguindo as leis que os céus deixaram a nós mortais. Leis cruéis que tornam a morte algo leviano. Tornam um cadáver um estorvo.
— Você sempre foi escória — a lâmina é lentamente tirada do dorso de Rehlum. — Uma desgraça infectando nosso país. O povo sabe, príncipe. E hora ou outra, irá reagir. Você não é nada além de um verme como esse servo e a essa vadia morta.
Ele se aproxima de Aharon. O metal facilmente atravessa o abdômen. Morrerá em pouco tempo. Somente acompanhado do homem que o matou e seu melhor amigo.
— Logo acabará — o general se senta sobre o sangue.
— Bastardo — o odeia. — Como pode matar a própria mulher e torturar Aharon?
É ignorado. Não vale a pena continuar discutindo inutilmente. Ele sabe que sairá impune. Não só isso, receberá honrarias e simpatia.
Eu tenho que matar ele…
Dana-se a lei divina. Dana-se a tudo. É a primeira vez que o vê como uma besta imunda. A primeira vez que o ódio permeia o dourado de seus olhos. Não sente medo da morte. Somente ódio. O maldito ódio o preenche.
Mate…
Pense unicamente em matar…
O mate…
Pensou ser o grito da multidão, mas tudo além da porta está silencioso. As vozes carregavam dores. Eram arrastadas e melancólicas. Não era uma ordem, mas uma súplica. Uma prece
Mate…
Olin se agita. Não simplesmente ficando tortuoso ou erguendo-se fragilmente. A correnteza se tornou traiçoeira. Primeiro os pescadores sentiram a correnteza se inverter, levando os barcos consigo. Gritos desesperados foram disparados para os que residiam nas margens, porém era tarde. Serras afiadas sugiram na água despedaçando madeira, carne e ossos. Em instantes rochas densas foram transformadas em cascalho. Nas margens foram feitos viúvas e órfãos.
Mate…
— Para o carmesim de seus olhos somente a morte é aguarda, pois a serpente d’água já se ergueu… — manchas negras escondem o brilho dourado nos olhos do príncipe.
Adraug olha pela janela a poucos metros de si. A serpente d’agua se erguer, assumindo o mesmo tom vermelho que corre dentro de suas veias. Os olhos têm contornos de crânios humanos. Sua língua e presas são ossos infantis cruzados. As escamas são moldadas pelo sangue inocente.
Mate…
— Mate todos…

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