Capítulo 4: Olhos do Céu
A areia ofusca o dourado e adere a pele. O sangue sobre seu corpo agora é somente uma casca escura. E no vazio, somente acompanhado pelo velho dromedário e Aharon, Moshe ri. Gargalha como uma criança.
Devo estar alucinando
Não trouxeram comida, água ou roupas. Passaram três dias desde sua fuga. Compreende que sair sem rumo e mantimentos é a morte certa, e talvez seja melhor assim. Evitou dormir, as mortes ainda o assombram. Ainda escuta as vozes em agonia, implorando misericórdia. Permitiu-se somente desmaiar de exaustão.
Você não morrerá…
Ignorou. Não há diferença se realmente escutou algo. O calor é impiedoso, talvez Seti realmente fosse reencarnação do deus Sol e agora o pune.
— Ei, creio que ele não aguenta outro dia de viagem — Aharon diz, sem se importar com o estado do amigo. — Vamos…
A montaria geme uma última vez e de repente há areia queimando o rosto de ambos. Moshe encara o Sol. A queda doeu, mas o dromedário em cima da sua perna não. Como pode algo ser tão macio e tão rígido ao mesmo tempo.
— Perdão, meu velho — o pobre animal não resistiu. Arrastou outra vida para o abismo.
Sem dificuldades retira sua perna debaixo do animal. Ileso. Sim, ileso. Desde que foi invadido por essas vozes, nenhum arranhão permaneceu na sua pele.
És abençoado…
Pois haverá inúmeras almas em seu leito…
Orando…
Sim, orando pelo peregrino…
Não importa. O Sol está no trono, punindo os infiéis. Não há o que fazer. Sente algo pulsar. A palma de sua mão parece sensível. Seu estômago se contrai. Se contorce como um rato envenenado.
Não nos ignore…
Não nos descarte…
Pois somos um com sua carne…
E seremos um com sua alma…
— Moshe, droga, me escuta — Sharon continua preso a carcaça da montaria. — Tira isso de cima de mim.
Moshe não contém as lágrimas, salgadas e dolorosas. Os olhos incham. O coração pulsa cada vez mais rápido. Não sente seu braço.
Sinta a vida se esvair…
O animal sofre quando o ar entra, se alivia quando o expele. A pulsação está fraca. O sangue não chega a todas as partes do corpo. Logo morrerá.
Beba seu sangue…
A garganta seca. O ar não passa. A mão passa sobre o pelo. Há tanta vida apesar da iminente morte. A pele é tão frágil apesar da rigidez.
Sacie-se…
Eu vou morrer.
Sobreviva…
Eu vou morrer.
Não resista…
— Calem a boca — a testa se encontra com a areia quente. — Calem-se, me deixem à mercê de Deus! Me deixem morrer aqui!
— Esqueça as vozes — de repente duas mãos apertam seus ombros. — Nós vamos encontrar um lugar para viver. Você vai ficar bem.
A voz não o alcança, abafada pelo coral de risadas. Sim, todos rindo de si. Deus? Que Deus? Aquele que habita no trono solar? Não. Ele é impiedoso e cruel. Então algum outro de seus irmãos ou filhos. Não. Além de injustos, são mais fracos que o Sol.
Então com quem falava nas noites solitárias…
Quem o respondia em meio as estrelas…
De quem era a mão acolhedora sempre disposta a abençoar um pecador...
— Deus! — Aharon o vê gritar e sucumbir a loucura. — Deus!
Sim. Sem nome. Sem rosto. Sem voz. Mas sempre consigo. É loucura, sim. Deus do seu povo. Insanidade de um homem prestes a morrer, pois desafiou o deus Sol. Mas agora entregou sua vida a esse ser enigmático. Afinal, nada tem mais a entregar se não a última centelha de vida.
— Moshe — não reconhece quem o chama.
É distante. Obscurecido. Afogado pela escuridão. Porém resiliente.
— Moshe —a voz não está mais desacompanhada.
Sabe que está sendo levado para dentro do abismo. Não há por que resistir. O calor árido transforma-se em frieza. O silêncio transforma-se em dor. Cada alma ceifada agoniza de dor, presa no último suspiro.
— Moshe! — todas rogam seu nome.
Nome do salvador. Do destruidor. Do assassino. Do rei. Do fugitivo.
— Moshe!
O coral se multiplica como grilhões se arrastando. Porém o calor ressurge na forma de luz. Tão pura. Radiante. Não fere, somente envolve.
— Moshe. — é… tão linda.
Não tem forças para tocá-la, não que o faria. É um assassino. Um homem coberto de sangue.
— Consegue me ouvir?
Sim. Cada sílaba ressoa de uma harpa solitária. Tão gentil é sua canção. Tão doce sua preocupação. Porém a luz vira-se e a sombra ressurge.
Acorde…
A luz trespassa o telhado de palha. Há peles de animais cobrindo seu corpo. Seu corpo. O coração bate, o sangue flui. Não está com sede ou fome. Está limpo. Não há mais sangue sobre sua pele.
Permanece vivo
Um bafo quente umedece o braço direito. Fraco e lento. Pacífico. Ao virar o rosto vê uma mulher de longos cabelos brancos. A pele é como seda, frágil e exuberante. Os lábios estreitos deixam escapar um suspiro.
— Senhorita? — um toque suave é posto no ombro da mulher, porém ela continua a deleitar o próprio sonho.
Move as mechas com as costas da mão para que o rosto fique visível. E… É belíssima. O rosto arredondado por pouco não cabe na palma de sua mão. Pergunta-se como chegou a tal local. Novamente observa o redor. Os sentidos ainda estão confusos. A luz por vezes é muito forte, outras fraca demais para revelar o que as sombras escondem. O calor indica que o deserto ainda o aguarda. O único sentido ainda intacto é o olfato. O cheiro ainda permeia a pele. Ainda o enjoa. O sangue inocente permeia a pele. Sabe que está limpo, mas ainda vê. Enxerga claramente escorrer entre os dedos.
— Obrigado — sussurrou enquanto se esforça para movimentar as pernas.
Do lado de fora da tenda há várias vozes se misturando, talvez esteja em alguma cidade. Não importa. Precisa encontrar Aharon e continuar fugindo. Ozymandias é muito eficiente em seus deveres, inclusive o de se vingar. Provavelmente ele está organizando suas forças ignorando o luto.
— Larguem-na — uma voz cansada finalmente é ouvida.
A luz embaça a vista. A areia volta a esquentar os pés. A fraqueza se esvai. A alma pulsa, solitária. Sem vozes ecoando atrás de seus olhos. Move o corpo com leveza.
— Outro Ivrit? — exclama um homem.
A pele coberta por roupas sujas. Sabres erguidos contra um velho homem ajoelhado, implorando por misericórdia. Há seis mulheres afastadas tratando um homem.
— Patifes — as sílabas escorregam de sua língua.
Os panos rasgados mal cobrem o rosto. Porém os olhos são claramente visíveis. Dourados como areia. Dois Ivrits. Talvez sejam escravos fugitivos.
— O que está fazendo aqui? — um deles fala comigo, com a ponta da lâmina repousando no chão. — Seus olhos, eles…
— Saiam — as palavras ressoam com frieza. — Ou irei eu mesmo julgá-los.
A presença de água é abundante. Corre sob pelo véu árido. Sente o frio, a potência. Mas não consegue alcançar. Sua fraqueza não é somente física, seu espírito se contorce exausto.
— Quem vo… — o segundo intervém posicionando o lado cego do sabre na garganta do companheiro.
— Euqone, reze para que não nos encontremos de novo — as palavras direcionadas afetam o senhor ainda ajoelhado. — Caso continuem resistindo, nosso próximo encontro terminará em sangue.
Os olhos dourados voltam-se ao príncipe renegado antes de ambos desaparecerem entre as dunas. O suspiro cansado relaxa o corpo. Precisa fugir. Fugir, sim, para o mais longe possível. Mas antes as palavras dos agressores ressoam na mente.
“Euqone…”
Os olhos dourados vagam pelo ambiente. Um poço com seis baldes. Há seis mulheres consolando o velho senhor e tratando um sujeito desacordado. Seis filhas levantando o pai. Há oito dromedários. Oito côncavas para uma família.
— Obrigado, muito obrigado — o senhor geme ao tentar se abaixar, Moshe o detém receoso. — Príncipe de Otige, você é um bom homem.
— Como… — encarou os olhos do senhor, brancos.
Sim, como as nuvens que vagam irrestritas pelas nossas leis. Como seus cabelos finos e a barba volumosa. Seu sorriso é contagiante. As mulheres, que descobriria mais tarde serem suas filhas, abandonaram o pavor e acompanharam a alegria do pai.
— Fique o tempo que sua alma necessitar.
— Mas…
Independentemente de sua confusão ou do recente ocorrido, a família começou a ajeitar os pertences. Os itens quebrados são guardados para um futuro indefinido entre a restauração e a destruição. Os intactos continuarão sendo arduamente utilizados até terem o mesmo fim.
— Senhor, perdoe-me, porém não posso ficar aqui. Tenho que ir para longe, muito longe daqui.
— Yitro — ele respondeu.
Moshe lançou um olhar confuso. Buscou a resposta ao seu redor e…
— Sou o patriarca desta humilde residência.
Como ele sabe de sua posição? O que mais ele sabe sobre si? O massacre que realizou? O fato de ser um fugitivo? Moshe logo percebe que somente os desertos o cercam. Está longe de tudo e todos.
— Não me importo com o que lhe ocorreu antes de chegar aqui e agradeço por ter nós ajudado. Porém agradeceria se auxiliasse minhas meninas. Elas são esforçadas, porém estão exaustas — três das mulheres puxam os baldes cheios do fundo do poço enquanto as outras levantam o maltrapilho, elas revezam entre si. Os olhos são acinzentados se comparados com os brancos do pai. — Yuhiwohi tem testado nossa fé.
Moshe permaneceu em silêncio. Conheceu inúmeras pessoas como Yitro nos corredores do palácio, sabe muito bem quando seguir a maré. Somente agora sente o desconforto no corpo, as roupas lhe são apertadas e somente servem para poupar sua dignidade.
— Seu amigo logo irá se recuperar — tentou ignorar esse fato, no entanto o maltrapilho no chão é Sharon. — Ele teve a mesma coragem de enfrentá-los, porém não a mesma sorte.
Sorte. Não, não foi sorte. Toca o rosto, procura alguma deformidade. Aqueles homens, por que estavam apavorados ao verem seu rosto? O que essas malditas almas fizeram contigo? O que…
— Não faça uma expressão tão amarga — Yitro o aconselha. — Descanse mais um pouco, a cama lhe fará bem.
As palavras sopradas o acalmam. Assim como o rio Olin o acalmava. Ao ver aquelas mulheres se esforçarem tanto, decidi ajudá-las. Por um instante considerou usar seu dom, não vale a pena. Não dará essa satisfação as almas parasitas. O Sol logo o fará esquecer dos problemas, talvez na quarta ou quinta vez que trouxer o balde cheio do fundo do poço. Talvez quando estiver perdido entre conversas com as mulheres. Fato é que a noite mais uma vez caiu e o dia mais uma vez raiou em completo silêncio.

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