Capítulo 2: Rio Carmesim
O prazer da destruição lenta agora permeia os olhos negros de Moshe. O rio destrói todo e qualquer futuro. Força o passado a retornar. Olin devorou ossos e carne para moldar a própria essência. Destruiu a fortaleza de madeira somente com uma investida. Um ser sanguinário. O amálgama de rostos desfigurados. A primeira das maldições que estas terras conhecerão.
— Não… — Moshe murmurou diante da dor alheia.
Sente cada gota de sangue contaminar a fonte da vida de seu povo. Cada desvio da correnteza faz parte das suas veias, porém o controle lhe foi arrancado. Pois o que moveu o rio é tudo, menos humano.
Moshe…
Escutou a voz de uma mulher aflita o chamando.
Príncipe estrangeiro…
Um homem, engasgado com as próprias palavras, o chama com repulsa.
Poupado do sangue…
Uma anciã carregando o choro de muitos derrama seus pesares.
Condenado a vagar longe de seus semelhantes…
Uma voz firme disposta a morrer pelos seus.
Príncipe dos mortos…
Purificador…
Os olhos que carregam o futuro…
O dilúvio de vozes invade a mente mergulhada em desespero. Fileiras de pessoas surgem à margem do rio. Rostos desconhecidos com vozes sufocadas pelo sangue. Apenas uma característica que une todos os corpos mutilados e de olhar triste. Não era a cor da pele, o cabelo ou sexo. São os olhos.
Ouça-nos…
Dourados como a areia, vazios como o deserto.
Só por um momento…
A serpente enfim completou sua armadura carmesim, escamas triangulares formadas a partir da seiva da vida. Agora há muito barulho fora da residência de Adraug, seus homens surgem com lampiões e lanças.
Nós o salvamos…
Nós destruímos seu inimigo…
A serpente, ainda faminta, devora soldado por soldado. Os mais abastados de sorte foram decapitados e poupados de toda visão infernal. Os mais desafortunados, agonizam entre as pilhas de carne que já foram seus semelhantes.
Agora…
A única parte reconhecível de Adraug era sua mão decepada com somente dedos suficientes para empunhar a espada. A margem do rio intestinos se fundiram a carcaças de botes. Rastros de uma pescaria entre pai e filho.
Ajude-nos…
O choro das recém viúvas e órfãos alcançam o peito aterrorizado. A incapacidade de agir permeia o príncipe. O tão prestigiado rio tornou-se lar da morte, do sangue inocente. A besta reptiliana insaciável se ergue contra vontade de seu mestre.
Nos salve…
Moshe sente cada gota formigando na sua mente. Até ver os escravos fugindo ilesos. Nenhum Ivrit é alvo, a serpente os poupa. Todo sangue é Qabil.
Eles são o inimigo…
Antes que seu coração vacilasse, as pernas se colocaram em ação. Aharon tornou-se leve como uma pluma. Os olhos ensolarados do príncipe não podem evitar de encontrar com os nublados olhos dourados do servo.
— Aharon, respire! Fiz uma promessa a sua mãe de o devolver com vida! — as lágrimas não tardam a vim. — Não ouse fazer Joquebede chorar. Eu vou salvar você, ao menos você.
O povo em pânico, aos poucos, dá lugar aos guardas. Homens portando lanças e espadas. Nossos protetores da honra, sim, eles podem salvar um homem. A esperança em meio a escuridão.
— Traidor — o ferro rasga a carne.
Ivrits caem sem vida ao chão. Mortos após os poucos segundos de liberdade.
— Desgraçados — porque tão cruéis, não veem que são tão inocentes quanto eles?
Pedras são lançadas. De repente toda força restante se esvai do corpo. Os gritos vieram do povo, estão alegres pelas mortes. E estão furiosos por Moshe ainda estar respirando. O príncipe não entende.
Não minta para si…
Três lanças estáticas encaram o príncipe e seu servo. Ao lado dos agressores, a serpente carmesim se ergue. Ela o envolve. O protege.
Seu coração pediu por isso…
Mais sangue foi derramado. O bote da serpente varre os guardas e degola inocentes. Não há distinção entre homem, mulher, idosos ou crianças. Todos estão mortos. Seus corpos agora fazem parte do rio.
“Ivrit”
Em algum momento essa palavra foi dita e grudou no consciente de Moshe, afinal, ele é um. Porém, diferente do resto, é livre para fazer o que quiser. Seus semelhantes têm os mesmos olhos dourados, mas não a mesma liberdade.
“Qabil”
São aqueles que ocupam desde as classes mais altas até às mais simples, claro, sempre acima dos inferiores Ivrits. Todos são livres para moldar o próprio destino.
Por quê
Evitou esse questionamento até o presente momento. Conscientemente ignorou todos os olhares de ódio. Limitou-se a solidão. Tinha as melhores refeições. As melhores vestimentas. Mas a verdade é que odeia essa vida. Onde cada Sol que nasce vê semelhantes se tornarem refeição de abutres. Onde escuta a carne sendo rasgada. Onde cada monumento leva sangue em seu alicerce.
Revolte-se…
Sim, já desejou ver esses malditos escravistas sendo chicoteados. Não pode esconder o quão bem se sentiu ao ver Adraug reduzido a uma mão mutilada. O quanto desejou ver cada grão de areia tingido de vermelho.
Siga seu coração…
Até mesmo aquele falcão não era um presente. Ele é o símbolo do maior Deus Qabil, Shammalah, então o destruir é o mesmo que destruir parte dessa escória.
Destrua a todos…
Não, não, não. Moshe olha ao redor. Há tantos corpos. Tantas vidas. Como pode condenar crianças a morte. Não, não, não. Precisa parar essa carnificina.
Parar?
Pois veja…
Com teus olhos…
A…
Dor…
A serpente os engoliu. A correnteza é novamente moldada a bel prazer da vingança. O rio se acalmou e nunca mais se agitará como hoje. Os corpos mutilados foram arrastados para o fundo e nunca foram encontrados. O brilho carmesim refletido das águas é trocado pela rápida proliferação de rãs. Os pequenos anfíbios fogem da água avermelhada saltando até casas próximas.
A segunda maldição foi lançada sobre Otige.
Moshe e Aharon foram levados pelas águas. Há um teto rochoso acima de ambos e um dos braços do rio Olin a direita e à esquerda uma bifurcação. Uma única tocha ilumina o local.
— Aharon… — Moshe chama seu amigo, o corpo dói.
Sente cada músculo rasgar ao menor movimento. Os dedos afundam na areia fria. Cerra os dentes. Mas falha ao tentar se levantar. Restando somente observar o reflexo na água, vê o rosto infeliz e um homem coberto de sangue inocente.
Podemos salvá-lo…
Aharon solta um gemido ríspido. Seu abdômen ainda sangra. Seus olhos são como barragens quebradas. Ele tenta se levantar, mas a vontade de viver já foi abandonada.
Podemos salvar a todos…
Se assim…
Você permitir…
— A culpa é minha — os lábios forçam um sorriso inexpressivo. — Eu sabia que isso ia acontecer, eu sabia que deveria ter ficado longe. Mas eu… eu…
Venha até nós…
— Se eu… Se eu… Droga! Ela deveria estar viva, não eu! Eu deveria ter morrido! EU! EU!
— Aharon… — Moshe rasteja próximo a ele. — Precisamos… nós precisamos ir…
— Não! Me deixe aqui, logo tudo vai acabar. Me deixe morrer. Me deixe sangrar até meu pecado ser expurgado. Só… Só me deixe aqui…
— Cala a boca, eu vou te ajudar. Pode resistir se conseguir — mordendo o lábio para controlar a dor, se levanta e o encara nos olhos— Nós dois iremos voltar ao castelo. Iremos explicar tudo que ouve. Iremos confortar Joquebede. Entendeu?
— Deveria ter me deixado morrer, eu merecia a execução. Eu deveria ser punido pelo meu pecado — não há mais lágrima alguma para escapar de seus olhos— Eu assumo os crimes, eu te forcei a fazer tudo isso. Você vai continuar sendo o príncipe. Vai voltar para sua vida. Por favor, por favor, me deixe morrer.
— Pague seu maldito pecado em vida. Só foi um erro, esquece isso.
— Um erro? Só um erro? Você é idiota? Eu matei a Rehlum, se não fosse por mim ela estaria viva. Estaria rindo com aqueles lábios grossos. Observando o céu como sempre fazia. Se imaginando cheia de filhos. Ela… ela… Droga… Eu a matei… Eu a matei…
Era a espada de Adraug que estava ensanguentada. É somente nisso que deve se apegar.
— Não fale, por favor. Vamos curar seu ferimento e descansar em algum lugar longe daqui
Não fuja…
Estávamos à sua espera…
Por todos esses anos…
O local é familiar. Ao analisar umas das bifurcações vê ranhuras feitas a tempos. Não são naturais, são desenhos. Péssimos, mas cheios de carinho. Aqui é onde, na infância, ele e Ozymandias brincavam de noite. Evitavam o caminho à esquerda. Sussurros e gritos vinham dali.
Venha…
Mas agora precisa atender essa ânsia presente no seu peito. Aharon não vai sobreviver se eles voltarem ao castelo. Não há mundo que o deixe morrer. Deve isso a ela. O coloca de pé. Cada passo sente a visão embaçar. Seu espírito está no limite.
— Moshe? — Aharon aponta para uma das paredes mais à frente.
Há musgo se proliferando, um musgo negro e fétido. Ele se move de acordo com a luz, escondendo-se entre as rachaduras. Os guiando por um caminho sem saída.
Apague a chama…
Assim o príncipe fez.
Una-se a nós…
Confuso, oferece a mão. Já não há luz para o proteger. O musgo se contorce para fora das rachaduras. Mãos, centenas de dedos sombrios abocanham sua face. Deslocam sua boca e rasgam pela garganta. Os olhos infestados transbordam o líquido negro da agonia.
Ó receptáculo…
A caverna se vai. O Sol volta a queimar. A brisa fresca. Uma tarde amena. Por que está na parte de cima novamente?
Seu coração pulsará por nós…
Há uma multidão se formando. Ivrits. Tantos quanto nunca vira.
E nos alimentaremos sua alma…
“Liberdade” gritou um deles. “Liberdade” seguiram os outros. Carregam armas consigo, cegas e enferrujadas. Grande parte roubada de plantações.
Aceite quem é…
Há uma grande silhueta negra vindo para cá. A poeira esconde os detalhes, mas o som é familiar. Camelos. Sim, inúmeros. O grito de guerra os revela. A montaria de Otige.
Aceite quem eles são…
“Fujam” tentou alertar. Mas percebe que sua boca está colada. Perfeitamente unida. Seu corpo imóvel. Os olhos perfeitamente direcionados para o espetáculo.
Sangue deve correr…
A brutal infantaria cruza o rio com facilidade. O rio está raso. Desaparecendo sob os cascos das montarias.
Se espalhar…
Está no passado. Onde ocorreu uma seca. Em um passado onde a fome assolou a todos. Sua mãe lhe contou cada detalhe. Mas por que não se lembra do exército marchar contra Ivrits.
Veja…
Foi um ataque planejado. Sabiam sobre a revolta. Sabiam onde e quando atacar. O ponto mais frágil sempre é a moral, Seti lhe ensinou isso. Logo, as crianças foram as primeiras a serem pisoteadas. Os pequenos crânios e tórax estilhaçados.
Príncipe…
Os homens brutalmente empalados na segunda investida. Não houve combate. Não havia chance. O exército Qabil não usou seus dons divinos, não precisavam. Afinal estavam ali apenas para executar.
Veja…
As mulheres foram poupadas da morte imediata. Conduzidas até suas casas e obrigadas a ver seus caçulas morrerem. Os minúsculos corpos ficaram estirados nos berços durante horas. Não houve funeral. Os corpos serviram de alimento para os crocodilos. O rio Olin aos poucos aumentava o nível. A cada dia que o massacre continuava mais água corria sobre o deserto. Ele tornou-se tão vermelho quanto hoje.
Sabe onde estava, príncipe?
Não responde. Sua boca não está mais selada, porém as palavras somente servem para o sufocar. Olhar a pilha de corpos lentamente se decompor até restar somente o fedor da carne pútrida… desejou morrer. Não quer mais um segundo sequer nesta eterna punição.
Sua mãe o protegeu…
Astuta…
Agora está ajoelhado, parcialmente dentro do rio. A vegetação mais alta se move silenciosamente entregando duas figuras. Uns criança por volta dos seus cinco anos e sua mãe. Ele carrega uma cesta de palha, onde o mais novo da família repousa em silêncio.
Não os reconhece?
Família…
O pequeno trio adentra o rio parando somente quando a mãe se encontra completamente submersa. A cesta é deixada à deriva. Carregada somente pela fraca correnteza. O pequeno não chora, como se soubesse de seu destino.
A mulher mergulha e grita, chora, soca o vazio. As lágrimas são devoradas pelas águas, mas não a tristeza. Ela sufoca independente do ar que entra nos pulmões. Destrói com fogo o frágil lar que reside em nossos corações.
— Mãe? — sílabas pesadas escapam de sua boca.
Sim…
— Quer dizer que…
Exato…
O que acreditou por todo esse tempo?
Não houve resposta. Os olhos mentem, não a alma. Viu cada dor, cada memória. Cada lança o atravessou, cada sabre o cortou. Sua alma foi mutilada pelos Qabil.
Pelo faraó…
Ele me roubou o colo de minha mãe.
A liberdade de seu povo…
O sorriso do meu irmão.
A vida de inocentes…
Andou até Aharon. Se culpa. Poderia ter o ajudado mais. Sabia do seu pecado, sabia do amor que nutria por uma mulher compromissada. Estava cego pelo ouro. Sim, o maldito ouro e prata ensanguentados.
— Irmão — milhares de vozes voaram até o rosto pálido do ferido — eu vingarei a todos. Todo sangue derramado será vingado.
Aharon clamou forças para sua alma. Treme. Seu dom é somente a iluminação. E só isso pode fazer. A luz azulada atinge Moshe… não, atinge o ser que o possui. Um tumor negro se estende pela face e adentra cada órfico do rosto. Se esconde. Os olhos negros do príncipe já não habitam o brilho ensolarado.
— O… eu… Mo… — não há o que dizer, não tem força.
A criatura o toca e algo cobre a ferida aberta. Gosmento. Disforme. Maligno. Frio. Sente isso invadir suas veias. Expandi-las. Destrui-las. Reconstrui-las. Isso não é cura. É maldição.
— Irá viver. Esconda-se. Voltaremos em breve.
A pluralidade de vozes não afeta a compreensão da fala. O eterno eco da morte. A iminência da dor segue cada sílaba.
— Devolva o Moshe, desgraçado da escuridão — se sente revigorado.
— Ele está aqui conosco — a multidão para e somente resta a conhecida voz de seu irmão. — Eu vou matar o faraó. Eu o farei sangrar sobre as areias assim como ele fez conosco. Nós destruiremos tudo…eterno eco da morte. A iminência da dor segue cada sílaba.
— Devolva o Moshe, desgraçado da escuridão — se sente revigorado.
— Ele está aqui conosco — a multidão para e somente resta a conhecida voz de seu irmão. — Eu vou matar o faraó. Eu o farei sangrar sobre as areias assim como ele fez conosco. Nós destruiremos tudo…

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