Capítulo 33: Fardo
Afinal, o que define um animal?
Em muitos mundos, vida é sinônimo de instinto, de ciclos que se repetem: nascer, crescer, reproduzir e morrer.
Mas os Undeads rompem essa lógica. São criaturas que existem à margem da biologia tradicional, não possuem a necessidade de se reproduzir, nem carregam em seus corpos a urgência ancestral de perpetuar uma espécie.
Por mais que preservem resquícios das características de animais há muito extintos, são organismos mantidos por um sistema externo: os Núcleos Catalisadores.
Fenômenos ambulantes, eles continuam a existir enquanto houver radiação suficiente para sustentá-los.
Então, como era possível uma sociedade minimamente civilizada como a do subsolo existir? Simples: uma força superior e consciente moldava o ambiente ao seu redor, direta ou indiretamente.
No entanto, os dois pilares, Narhma e Osiris, que mantinham a ordem foram comprometidos, e agora a verdadeira natureza faminta dos Bestiais era revelada.
As centopeias gigantes se chocavam umas contra as outras, sem se importar em destruir as próprias carapaças no processo.
A confusão de corpos era bizarra: inúmeras patas, presas e olhos negros colidindo em um frenesi de ódio puro.
Os abutres sobrevoavam o tumulto, derramando o líquido inflamável de suas asas sobre aquelas incontáveis criaturas.
Em um rasante sincronizado, usaram seus bicos giratórios para gerar pequenas faíscas, que desencadearam um enorme incêndio sobre seus antigos companheiros.
Mesmo sofrendo com a dor flamejante, as centopeias gigantes não recuaram; pelo contrário, passaram a abocanhar as aves negras que insistiam em perfurá-las com suas brocas naturais.
Aquele inferno parecia que duraria para sempre, até que a Guardiã resolveu intervir.
Ainda lutando contra a Corrupção que invadia sua mente, ela usou seu corpo colossal para empurrar todos aqueles Bestiais para longe, como se fossem feitos de papel.
Só aquele movimento foi o suficiente para os pilares que restavam para sustentar o templo desabassem terminando de desmanchar a estrutura por completo.
O Caçador de Ossos montou rapidamente em Kaern, que disparou como um relâmpago descendo as escadarias.
Acompanhando na mesma velocidade estava Jasper, algo que surpreendeu até ele próprio.
Mesmo sem conseguir completar a Sincronização, sinto que estou transbordando de poder… não, eu sempre tive essa força. Mas agora tenho a compreensão clara dela.
Jasper alcançou a entrada do Templo quase sem perceber o próprio fôlego. O mundo parecia leve demais sob seus pés, como se cada passo fosse um impulso natural, preciso.
Antes que um sorriso pudesse se formar em seu rosto, ele ergueu os olhos, e então viu.
Estendido sobre o chão de pedra ancestral à sua frente, jazia Osiris. O Ceifador não se movia. Seu corpo, já antes marcado por um cansaço profundo, parecia ainda mais frágil agora, drenado de qualquer resquício de vigor.
A empolgação morreu em sua garganta.
A palidez antinatural de sua carne contrastava violentamente com o negro espesso do sangue que se espalhava sob ele, formando uma poça irregular que escorria pelas fissuras do piso.
— Não… — a palavra escapou dos lábios de Jasper, quase sem som.
Mesmo sem conhecer Osiris há muito tempo, tudo o que aquele Undead havia feito desde a primeira vez em que se viram fora ajudá-los.
Como se respondesse à irritação crescente que subia à cabeça de Jasper, seu olhar pairou sobre duas figuras que aparentavam estar extremamente feridas.
Não demorou para que ele ligasse os pontos e percebesse que Zath e Mirage eram os responsáveis por exterminar o Ceifador.
Jasper avançou um passo, a lâmina negra já vibrando em sua mão. O ar ao redor respondeu de imediato, comprimindo-se ao longo do fio.
— Corte da Ventania… — o sussurro saiu sem som nem forma, assim como a raiva do Vulto Negro.
Assim que a rajada de vento cortante foi liberada em linha reta, Mirage se lançou sobre Zath para tirá-lo da trajetória do golpe.
Ela estava exausta, mas longe de estar em condições tão críticas quanto as de seu comandante, que havia perdido ambos os braços e tivera o peitoral alvejado por rochas lunares maciças.
Essa era uma diferença crucial entre os Undeads: cada um era único em sua capacidade de regeneração.
Mirage e o Caçador de Ossos podiam recuperar membros rapidamente quando bem abastecidos de Miasma; já casos como os de Zath e Osiris exigiam um dia inteiro para que um braço decepado se regenerasse, mesmo sob as mesmas condições
— Wow, isso foi intenso… você está bem, chefinho? Eu não esmaguei nenhum dos seus tentáculos ou coisa do tipo, né? — comentou Mirage, em um tom cômico completamente desconexo daquela situação catastrófica.
Alguns dos olhos do comandante da Dama da Ruína se abriram levemente, analisando a destruição causada por aquela manipulação de vento.
Atrás deles, o chão de pedra havia sido rasgado como papel, um sulco profundo atravessando o templo em linha reta.
O ar permanecia instável, cortado por lâminas invisíveis que dilaceraram tudo o que não havia sido completamente destruído no impacto inicial.
— O Vulto Negro… ele… ele é realmente monstruoso. — murmurou, com a voz rouca pelo sangue acumulado na garganta.
A aviadora da tripulação olhou para trás, encarando por um instante o brilho vermelho dos olhos daquele Bestial, que ela só havia visto antes em gravações.
— Verdade… é bem mais assustador de perto. Mas se ele está aqui nos atacando, quer dizer que nosso peixe de aquário falhou em sua missão. — O tom na voz de Mirage vacilava enquanto colocava Zath em uma posição mais confortável.
Mirage respirou fundo e se ergueu, seu corpo gelatinoso ondulando enquanto se reorganizava.
Uma parte de sua forma viscosa começou a se condensar, alongando-se e solidificando-se em uma adaga dourada que brilhava com reflexos metálicos. Seus olhos faiscavam determinação; não havia mais brincadeiras.
Cada centímetro de seu Núcleo Mutante estava carregado com a energia radioativa restante, vibrando com um poder concentrado que prometia velocidade extrema.
— Mirage… — os sussurros fracos de Zath mal chegavam aos ouvidos de sua aliada.
Com um movimento rápido, quase um borrão, ela impulsionou-se para frente, acelerando de forma quase impossível de acompanhar, a adaga dourada traçando um arco letal no ar.
— É agora… — declarou, com a voz firme, enquanto toda a força que restava em seu Núcleo Mutante era canalizada para um único objetivo: finalizar o Vulto Negro.
A energia que escapava de seu corpo formava um rastro luminoso, e cada impulso parecia dobrar sua velocidade.
— Mirage!
Quando o grito de seu comandante finalmente alcançou a Undead gelatinosa, já era tarde demais…
Seu ataque final, que deveria ceifar a vida de Jasper instantaneamente, foi simplesmente esquivado, não por movimentos mirabolantes ou velocidade superior, mas pelo garoto apenas mover levemente a cabeça para o lado.
Era puramente reflexo e previsão de alguém que tinha o próprio vento como aliado.
— Mesmo que você fosse dez vezes mais rápido, o resultado seria o mesmo… porque não importa o quão veloz alguém seja: se avançar em linha reta, bem à minha frente, nada pode me atingir.
Antes que Mirage pudesse processar o choque de descobrir que o Vulto Negro não era apenas mais uma experiência que havia escapado dos laboratórios de Skarneth, mas sim um Desperto racional, Jasper já erguia sua lâmina contra ela.
O coração do garoto batia em um ritmo frio e preciso. Os dois inimigos estavam à frente, feridos, expostos. Um único movimento bastaria.
Mas então, seu Sentido do Vento gritou.
O fluxo atrás dele se dobrou de maneira antinatural, como se algo pesado estivesse rasgando o ar à força.
Jasper sentiu um arrepio subir pela espinha no exato instante em que tentou se virar.
Um impacto brutal o atingiu pelas costas. O chão de pedra explodiu sob seus pés quando ele foi arremessado para frente, a lâmina quase escapando de suas mãos enquanto o ar lhe fugia dos pulmões.
Antes que pudesse reagir, algo o prensou contra o solo com uma força esmagadora.
Jasper sentiu a pressão de dedos ósseos se fechando como uma armadilha de urso. Era impossível. Sua mente se recusava a aceitar o que seus sentidos confirmavam.
— Por quê…? Eu pensei que você estivesse do meu lado, Caçador — murmurou, rouco, enquanto tentava desesperadamente não ser esmagado, forçando as palmas contra o solo.
O Caçador de Ossos o ergueu do chão, suspendendo-o no ar com uma única mão, como se o ele não pesasse mais do que um fardo descartável.
Seu sorriso torto estava lá, sob as placas ósseas rachadas, o mesmo de sempre: enviesado, quase divertido.
— Eu te falei que mantinha as coisas úteis por perto — comentou, num tom perigosamente leve — Chegou a hora de você provar o seu valor… como moeda de troca.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.