Capítulo 21 (Parte 1) – Prova de confiança
O clima na Carreta Fogueteira não estava dos melhores. Baret estava eufórica, Quincas estava bêbado, Arya estava preocupada, Nil estava desconfiado, Axel pensativo e Émile mal parecia estar prestando atenção. A receita perfeita para o caos.
Baret não se importou. Ou melhor, não estava sequer prestando atenção em como todas as pessoas ao seu redor pareciam se sentir. Ela tinha algo em mente e não iria dar para trás agora. Deu um passo para frente e anunciou:
— Eu reuni vocês hoje porque, como eu já falei por mensagem: a gente tá sendo fodido pela porrinha da Kawadark. Não conseguimos achar trabalho, e se a gente continuar assim, vamos ficar sem dinheiro.
Arya levantou a mão e disse:
— Eu não estou exatamente nadando em dinheiro, mas eu acho que eu tenho o suficiente, dependendo de quanto precisarmos… Creio que o Nil deve poder ajudar também.
— Hah! E tu acha que eu vou dar mais dinheiro pra vocês? — Nil perguntou. — Todos os seus problemas vão ser resolvidos na marra do: “Nil, me dá dinheiro!”? Se não conseguem…
— Mano, cala a boca! — Axel se intrometeu. — Primeiro que ela salvou a tua vida, então você deve essa a Arya! Segundo que, se tu vai ficar de má vontade pra ajudar o grupo, ta fazendo o quê aqui? No primeiro dia dessa porra eu paguei a taxa de inscrição do Quincas!
— E até onde sei, te pagaram depois. Não vi um centavo do dinheiro que estão me devendo.
— É, me pagaram, mas eu não ficaria de birra se é for questão essencial pro time. Eu fiz o orçamento, dá para fazer essa bugiganga andar com uns quatro mil. Talvez três, se eu conseguir achar uma geladeira na promoção… Não vai ser o ideal, mas dá para sair dessa cidade.
— E por que só não usa seus portais pra ir num ferro-velho qualquer e pegar o que a gente precisa? Afinal, eles sempre são úteis! Vai lá, faz bonito! Vai com certeza fazer algo tão incrível quanto esse cabelo — Nil ironizou.
— Ah, lá vem o especialista! Sabe do que eu preciso? Dum compressor de bateria de, no mínimo, sétima geração. Esse modelo só saiu há cinco anos, então você não vai achar num lixão! Mas claro, você é o cara que sabe das coisas, não eu! Vai ver nesse seu braço mecânico tem tudo que a gente precisa! E NÃO FALA DO MEU CABELO!
— Tá se achando demais para quem…
Um soco na lataria da Carreta, junto ao balanço, foi o suficiente para calar a boca de todo mundo. Olharam para o Quincas, responsável por aquilo.
— Beleza! Agora que calaram a boca, dá pra deixar a chefia falar?! Não sei se sabem, mas é ela que dá as ordens!
— Valeu, Quincas. Sinceramente, eu até iria pedir dinheiro de vocês, mas o Nil não tá errado. Não dá pra depender dele pra tudo. Além disso… Minha ideia mudou depois que aquela puta chegou metendo o dedo na minha cara. A gente precisa de trabalho, mas isso não vai rolar enquanto a gente estiver sendo tratado como lixo e não dar o troco.
— E qual é a porra do plano, “chefia”? — Axel perguntou.
Baret sentou no sofá. Cruzou as pernas e disse:
— A gente vai botar fogo na casa da Kawadark e destruir cada centímetro de equipamento que ela tem.
Um silêncio tomou conta do lugar. Nem mesmo Quincas, o maior apoiador de Baret no momento, achou uma boa ideia. Axel foi o primeiro a protestar:
— Tá brincando, né? Isso é uma péssima ideia!
— Por que seria? É porque é ilegal? Eu até poderia argumentar que ninguém precisa saber, mas eu tô é pouco me fodendo. Do que sei sobre ela, é que ela se diz uma ancap que esconde dinheiro no colchão. Se a gente invadir a casa dela, a gente rouba o dinheiro e dá um fora. Fogo depois.
— Mas ninguém sabe quem ela é de verdade. — Nil pôs mais um argumento na mesa. — Muito menos onde ela mora. Adorei a ideia, mas… É impossível.
Baret estava prestes a responder, mas a pessoa mais calada, mesmo que em um tom desanimado, respondeu:
— Na verdade, tem sim. — Era Émile. Cabisbaixa, com os olhos vermelhos de choro. — Acho que sei um jeito de descobrir onde ela mora.
— E seria?
Émile suspirou.
— Faz uns dois anos, mais ou menos. Ela fez um vídeo mostrando o seu setup e acabou vazando um pouco a janela do quarto dela. Isso foi o suficiente pros fãs conseguirem descobrir em qual prédio ela morava. Por sorte, não descobriram o nome, só o endereço do prédio.
— Mas ela continuou morando ali? — perguntou Arya.
— Não. Uma semana depois o cenário dela mudou e ela reclamou que teve que se mudar. Eu não sei como é em Romaniva, mas… Em Orfenos, esse tipo de mudança exige documentação, e uma cópia tem que estar em cartório, não é?
— E a documentação precisa ter o endereço antigo! — Baret se levantou, animada. Um caminho havia se abrido diante dos seus olhos. — Se acharmos esse documento, a gente consegue descobrir o novo endereço dela! Émile, você é um gênio!
— Ah… de nada. Mas eu não acho que fazer um incêndio é uma boa ideia.
— Ok, ok, o incêndio pode ser debatido, mas acho que ninguém aqui é contra roubar o dinheiro dela, não é? Pera lá, talvez ela tenha o equipamento que a gente precisa! Ela tem cara de trocar a geladeira toda bendita hora.
— Então a nossa solução é furto? — Axel questionou, incrédulo. — Isso vai dar merda. Realmente acha que ela não vai descobrir que foi a gente?
— Talvez até descubra, mas provar é outra coisa. Qual é, ela ta roubando nosso trabalho! Pelo menos vamos dar algum prejuízo pra ela também!
— O problema é que precisamos de um documento que não é de acesso público. Não é só roubar a casa dela, vamos ter que roubar um cartório também. Alguma ideia de como fazer isso?
Baret não respondeu de primeira. Abriu um sorriso largo e olhou para Quincas, que retribuiu com um sorriso mais largo ainda.
— Podem deixar comigo. Para ser sincero, eu tenho uma boa ideia do que fazer.
Todos olharam para Quincas. Eles não tinham nem ideia do que ele estava prestes a fazer.
. . .
O cartório estava com uma cara nova desde os ataques na conferência diplomática. O fluxo de documentos mais que triplicou, a demanda por segurança aumentou quase proporcionalmente. Até mesmo as paredes tinham sido pintadas. Quincas, ou melhor, Ednaldo Madeira Filho, olhou aquilo impressionado. Coçou a barba de lenhador falsa e ajeitou os cabelos loiros longos.
Após dar uma olhada ao redor, sentou-se num dos bancos sem pegar senha. Misturou-se, esperou as pessoas esquecerem que ele estava ali. Após alguns minutos, pegou o celular e mandou mensagem. Numa questão de segundos, um homem de camisa regata e jeans rasgada entrou, de “cabelo” loiro e óculos juliet. Sua cara era de poucos amigos.
Pegou uma senha com pouco cuidado com a máquina e encarava feio qualquer um que desse uma olhada. Quando chegou sua vez, já bateu na mesa e falou:
— É a quarta vez nessa semana que vim aqui, então apressa e faz a papelada combinada.
A moça de atendimento olhou estranho; olhou para os lados, tentando ver se algum dos seus colegas sabia ao menos do que aquele homem estava falando. Quando percebeu que estavam tão confusos quanto ela, tomou a coragem de perguntar:
— Qual o processo?
— Como assim?! De novo isso? É sempre assim! Me pedem o processo, eu dou, diz que os papéis precisam de uma assinatura ali, de uma assinatura aqui, falam para eu ir a outra firma do governo e voltar, ai me repete isso?!
— Senhor, não tenho como te ajudar sem saber qual o processo é.
— Deixa eu ver se isso refresca sua memória: primeiro você me pediu para conseguir assinatura do síndico do prédio que estou me mudando. Depois me falou que eu precisava da assinatura do meu síndico antigo por alguma porra de motivo!
— Errr… — A moça tentava forçar sua memória o máximo podia, os olhares de todos, desde os civis aos guardas, faziam ela ficar ainda mais desesperada. — É questão de protocolo, moço. É requirido o endereço antigo para casos que mandam intimações para endereço errado…
— Me poupa! Tá bem claro o problema aqui: o dono do meu apartamento te pagou para você ficar me enrolando com essas burocracias inúteis!
— Senhor, eu jamais…
— Tá me dizendo que se eu for lá para trás, onde TODOS os documentos estão, eu vou achar o endereço antigo de qualquer pessoa? Que isso acontece com todo mundo?!
— Hã…
— VOU ACHAR OU NÃO?!
— Vai! Vai achar! Mas moço, isso é documento sigiloso. Por favor, me dê o número do processo que eu vou te ajudar da melhor forma possível. — A atendente já estava com os olhos cheios de lágrimas.
— Quer saber? Esquece. O dono do meu apartamento conseguiu o que queria. Cansei! — Se virando para trás, o homem foi até saída. Mas antes, parou no banheiro e entrou lá. Depois de um minuto, saiu e foi embora.
Todo mundo se olhou, pensando a mesma: “Que maluco”, mas Ednaldo estava mais do que feliz. Axel tinha feito seu papel de forma perfeita: tinha confirmado que os documentos que precisava estavam ali naquele cartório. Agora o próximo passo de seu plano era com ele.
Se levantou dos bancos e pegou uma senha. Ficou alguns minutos na fila, até correr desesperado para o banheiro. Estava exatamente como combinado: cheio de papel higiênico na privada, completamente entupida. Estava perto de vazar.
Saiu correndo até um dos atendentes no meio do atendimento, e falou em tom desesperado:
— Oi, oi, oi! Olha, por favor, pode me deixar usar o banheiro dos funcionários?! Por favor!
— Senhor, o banheiro é…
— Eu sei! Mas aquele cara, eu acho que ele entupiu o banheiro! Por favor, eu to sentindo que… Ai, não vou aguentar ir para alguma loja do lado! Por favor, eu só não quero sujar o chão de marrom… Talvez de verde!
O atendente tremeu só de pensar na possibilidade. Chamou um dos guardas e disse:
— Leva ele pro banheiro de trás, por favor.
— Obrigado!
Foi levado com pressa pelo guarda até o banheiro. Conseguiu dar uma olhada na estrutura do cartório: atrás das mesas de atendimentos, havia corredores labirínticos de vários e vários armários de arquivos, cada um com um tipo de etiqueta diferente.
Após cruzar a sala de funcionários, chegou ao banheiro. Era perfeito: o vão da porta era longo o suficiente. Entrou no banheiro e sentou no vazo, e começou a tocar um áudio do celular que fazia os piores sons possíveis. A próxima etapa se iniciou: tirou a peruca e a barba falsa. Do bolso, sua slinger, uma garrafa pet e uma fita adesiva.
Amarrando a garrafa-pet na ponta da slinger, aquilo serviria de silenciador improvisado. Havia, é claro, um problema a solucionar: seu feitiço apenas funcionaria no primeiro objeto que sua bala toca. O próprio ato de encostar no fundo da garrafa pet e rompê-la ativaria seu feitiço. Fez um furo no fundo da garrafa com o dedo, e outros furos na garrafa. O objetivo era garantir que o gás liberado iria para outros pontos.
Não era o melhor arranjo, mas se o guarda fosse para longe o suficiente, o silenciador improvisado funcionária junto aos sons de peido.
Em uma questão de alguns minutos, o guarda perguntou:
— Tá tudo bem?
Quincas não respondeu. Em meio ao desespero, o guarda tentou abrir a porta, mas não conseguiu, nem estava disposto a quebrar a porta para isso.
— Merda! Moço, segura firme, eu… vou chamar ajuda!
O guarda saiu correndo. Pouco antes de seguir o plano, Quincas sussurrou para si mesmo, baixinho, em tom divertido:
— Literalmente merda.
Era sua deixa. Sem parar o vídeo, mandou uma mensagem para o Axel voltar ao cartório e distrair o guarda que tinha buscado ajuda, pôs o celular no bolso e atravessou a fita adesiva no vão da porta. Mirou sua slinger para ela e atirou.
Trocou de posição com o rolo de fita adesiva, indo para fora do banheiro. Seu plano tinha sido um sucesso até então: o banheiro estava trancado pelo lado de dentro, o som do tiro mais pareceu um peido e, principalmente, estava infiltrado.
Por garantia, correu até a sala dos funcionários. Estava vazia. Pegou um uniforme que parecia estar disponível e, embora não fosse do seu tamanho, iria dar a ele alguns segundos de tolerância se fosse pego por algum funcionário.
Foi até o labirinto de arquivos, enquanto ouvia de longe uma gritaria que só podia ser causada por Axel. Seu trabalho agora era achar o bendito documento entre milhares. A única informação que tinha era o endereço antigo de Kawadark: Rua Coronel Verdeiro, 761d, Ed Chuva de prata, provavelmente entre o sétimo e nono andar.
Tentou olhar os arquivos mais próximos ao banheiro. Perca de tempo, eram só sobre casos de divórcio. Depois tentou olhar nos armários que tinham a etiqueta “endereço”. Mais perca de tempo ainda, só envolviam coisas do governo.
— Como que alguém se localiza nessa bodega? — Quincas cochichou para si. Ouvindo a discussão calorosa na recepção ir esfriando, mesmo com Axel tentando prolongar de alguma forma, viu que não teria muito tempo.
Apressou. Abria cada arquivo sem se importar em deixar evidência para trás. Foi quando estava ouvindo passos perto de si que achou a gaveta dos arquivos desse tipo. A etiqueta era “mudanças”. Começou a procurar, mas infelizmente, estava tudo organizado em ordem alfabética pelo nome da pessoa, e não da rua.
Foi tarde demais.
— Quem é o senhor? — perguntou um atendente logo atrás. Quincas se levantou no susto, respirou fundo e se virou, dando uma risada. Por sorte, o atendente tinha um crachá com seu nome: João.
— Pô, João! Que susto!
— Hã? Errr, eu não te conheço. Nunca te vi por aqui.
Quincas precisou pensar numa desculpa o mais rápido possível.
— Meu nome é Cláudio. Sou da TI, então trabalho de casa. Vim hoje porque tô fazendo uma… investigação.
— Uma investigação?
— É! Vem aqui, vem! — Sinalizando para se aproximar, João relutantemente chegou mais perto. Quincas puxou um arquivo aleatório e tirou dela uma folha. — Não sei se sabe, mas os arquivos do governo tem uma marca especial para sinalizar o que é do governo e o quê é falsificação.
João fez cara de estranhamento e respondeu: — Óbvio? Isso é conhecimento padrão, é a assinatura digital. O que tem demais?
Quincas não esperava essa resposta. Na velocidade da luz, pensou em uma desculpa e disse, confiante:
— É, sim… É claro! Só que meus superiores estão reportando que algumas assinaturas digitais estão tendo um problema… Fica entre a gente, ok? Mas é o seguinte: dependendo do tipo de impressora que é usa, o papel pode dar um probleminha e fazer que uma assinatura que estava OK acabe ficando com cara de falsa.
— Sério? Isso daria um caos. Ia fazer parecer que a circulação de documento falso fosse enorme.
— E não é?! Então eu tô olhando nesses arquivos aqui pra ver se eu acho alguma assinatura que parece levemente suspeita pra levar pra casa e ver se ela é do tipo que eu te falei. Se eu descobrir a origem do problema…
— Entendi… Posso pedir pro meu chefe avisar pra todo mundo não te incomodar.
— Não precisa! Só finge que não to aqui e fica show! Só preciso achar uns documentos, depois saio!
— Recomendo sair pela porta de trás, lá na frente deu uma discussão enorme, um guarda acusou um escandaloso de fazer um cara desmaiar no banheiro ou coisa assim.
— Cada maluco, né? — Quincas se ajoelhou novamente e começou a procurar os arquivos. João voltou a fazer o que estava fazendo, sem suspeitar de Quincas que, internamente, estava aliviado. Após mais dez minutos de procura, achou o que parecia ser o documento certo: Fernanda Lira, da Rua Coronel Verdeiro, 761d, Ed Chuva de prata, Apt 501 para Rua Michel Cordeiro, 813e, Ed Lago Imperial, cobertura.
Ele não era nenhum especialista, muito menos conhecia a cidade direito, mas sua intuição dizia que o nome do edifício e o fato dela morar na cobertura indicava bastante dinheiro no bolso, e parecia combinar com uma criadora de conteúdo daquele nível.
Pegou o documento, guardou no bolso e, sem escrúpulos, saiu pela porta da frente.

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