Capítulo 21 (Parte 2) – Prova de confiança
— A gente tá falando de um dos prédios mais luxuosos de Romaniva! — Axel gritou.
— E? Você não é o doido dos portais? Não tem como dar o seu jeito de fazer um portal na cobertura, a gente entra, pega as coisas, vaza? — Baret questionou em tom provocativo.
— Não é assim que as coisas funcionam, porra! Eu tenho limite de alcance, portal criado a partir do meu campo de visão é de quarenta metros. Esse prédio tem mais de 80!
— Sem falar que é um dos prédios com maior nível de segurança da cidade. Reconhecimento facial, portas de titânio que fecham no primeiro sinal de perigo… Entrar nesse prédio és una mierda. — Nil complementou, sentado no sofá com uma cerveja na mão. — Mesmo que entrássemos no prédio de alguma forma, sem a permissão dela, é impossível chegar na cobertura.
Axel fez uma cara no mesmo momento. E todo mundo viu. Não tinha como escapar das perguntas.
— Pensou em algo, Axel?
— Não é nada, Baret. Só uma ideia de como entrar na cobertura… Mas não tem como fazer um avião improvisado com o que a gente tem. — Sua fala não convenceu Baret. Ela sabia que tinha algo a mais.
— Para de falar merda, me diz logo o que rolou.
Um dilema bateu no coração de Axel: revelar sobre seu encontro secreto com Kawadark, e sua proposta, ou manter ela escondida? Era verdade que poderia utilizar esse encontro para entrar no apartamento, mas ele queria isso?
Com os olhos escondidos pelos óculos, encarou Nil. Olhou aquele sorriso irônico dele, aqueles trejeitos de quem achava estar no comando. Os seus ombros não pareciam carregar peso algum, e isso era o que mais lhe incomodava.
Axel decidiu que não iria ficar quieto.
— Nil, você lembra de Rodrigo Lira?
A perguntou pegou todos da Carreta fora de guarda. Mas curiosamente, Nil foi o que esbanjou menos reação. Ele deu nos ombros e, após tomar um gole de cerveja, respondeu:
— O nome não me traz lembrança alguma. Eu deveria saber quem é?
— … Isso pra mim é resposta o suficiente.
Sem mais pestanejar, foi até a porta da Carreta.
— Tá indo pra onde, Axel?! A reunião aqui não terminou! — Baret foi logo atrás dele, junto de Quincas, Arya e Émile. Ele se virou, encarou com expressão neutra e questionou:
— A gente precisa de dinheiro, essa é nossa prioridade, não é? Então eu vou arranjar a porra do dinheiro.
— Hã? Não, eu já falei que nossa prioridade é arrebentar com…
— Caralho, mulher! Tem um sonho ou não?! Se você quer achar a porra dos códigos das slingers, que tal priorizar essa merda em vez de uma filha da putinha qualquer?
— Tsc, não é você que tá se fodendo direto! É orgulho mesmo, foda-se, eu admito! Não vou deixar alguém apontar o dedo na minha cara e dizer o que eu posso ou não fazer!
— Beleza, mas…!
— Acho que ele só não está muito a fim de roubar. — Nil se meteu no meio. Se apoiou na porta da Carreta e tomou um gole da cerveja, com aquele sorriso irônico de sempre. — Ele é certinho demais pra isso, não quer se envolver com gente como a gente.
— Eu ajudei a roubar a porra do governo!
— Ah, nesse caso é demais roubar uma mulher. Vai ver ele é fã.
Axel revirou os olhos. Colocou a mão no bolso e começou a andar, sem se importar mais. Quincas e Arya tentaram falar alguma coisa, mas ele não deu ouvidos. Quando viram, ele já tinha saído de vista.
— Porra, hein, não precisava provocar ele! — Quincas reclamou. — Agora a gente perdeu nossa maior mobilidade!
— Ah, ele vai voltar! — Nil se sentou novamente no sofá. — E se não voltar, não vai ser uma perca tão grande. Dá para confiar em alguém que sai só por isso?
— Tsc… — Baret pareceu incomodada, mas decidiu não comentar. Se sentou no banco de passageiro e disse: — a gente precisa dum plano. Queria poder só explodir tudo, mas…
— Acho que eu tenho um jeito. — Émile chamou a atenção de todos. — Não cobre todos os problemas, mas… o principal é entrar no prédio, não é? Não precisa ser pela Kawadark. Outro morador pode deixar a gente entrar.
Quincas ficou com os olhos brilhando quando entendeu o quê Émile estava propondo.
— Se só tem gente rica naquele prédio, acho que eles deixariam outro rico entrar… Principalmente a irmã do CEO da Water Inc!
— Exato. — Émile confirmou.
Baret colocou na mão no queixo e pensou. Logo em seguida, questionou:
— Tem certeza? Orfenos e a Water Inc. tão num puta dum silêncio, não tão? Pensei que você não conseguiu contato com eles até agora.
O coração de Émile apertou, chegou a doer quando ela confirmou com a cabeça. A voz ficou um tanto trêmula quando respondeu: — É. Não consegui. Mas isso não importa agora. Talvez eu não tenha conseguido contato, mas ninguém de fora sabe disso. Se houve alguma pessoa com algum contato com a Water, talvez eu consiga agendar uma reunião.
— Me parece um plano sólido — Baret comentou. — É realista o suficiente, pelo menos. Mas e depois: a gente entra, e faz o quê?
— Pô, se a pessoa que nos receber morar exatamente embaixo da cobertura, a gente pode fazer um buraco no teto e entrar na cobertura.
— Mas aí é contar demais com a sorte — Baret disse. — Não tá fora de cogitação, mas e se não for?
— Não dá pra… sei lá, contratar… Como que se chama? Hacker? É, contratar um hacker?
— Quincas, com que dinheiro? Tu acha que vão fazer um trabalho desse sem pagamento adiantado? — Baret ergueu a sobrancelha. Quincas pensou um pouco, mas antes mesmo de responder, Baret continuou: — Onde caralhos vamos achar um hacker? Conhece, carai?
— Errrr… Nil?
— Não.
— Émile?
— Também não.
— … Arya?
Ela só negou com a cabeça.
— Tá! Talvez precise ser na marra: eu abro o elevador a força, escalo até a cobertura com o meu feitiço, e se tiver uma porta trancada… — Do bolso, tirou um grampo de cabelo. Deu um sorriso e falou: — Uso isso.
— Um grampo?
— Um grampo! Esse bichinho aqui abre qualquer coisa se tivermos o tempo necessário. Já abri um cofre de banco com isso!
— Hah! — Nil deu uma risada. Levantou-se e foi até a porta. — Isso me parece o suficiente. Agora que está resolvido, eu tenho minhas coisas pra resolver.
— Quem disse que tá resolvido? — Baret perguntou.
Nil não se importou. Saiu da Carreta sem dar mais detalhes. Quando tomou distância o suficiente, abriu o celular e ligou para um grupo.
— Sou eu. Preciso que achem um cara pra mim. Ele tem um moicano de merda, uma espada e óculos escuro. Quero notícias para ontem.
Desligou o celular e começou a andar. Estava sentindo cheirinho de merda, e quando sentia aquele cheiro, é porque sabia que não podia confiar em alguém a fazer as escolhas mais espertas.
. . .
Não levou muito tempo para chegar no local combinado. Era uma cafeteria perto do centro da cidade, todas as ruas levavam a ela. Em meio a multidão, Axel achou a mulher com o vestido de cor limão. Conforme o combinado.
Era uma mulher completamente diferente sem a maquiagem e peruca.
Cabelo castanho-claro, maquiagem leve, vestido moderado. Deu um suspiro e foi até ela, sentou-se na frente.
— Podia ter sido mais claro sobre o que queria. Não fiquei surpresa de ter me ligado, mas no mesmo dia? Algo aconteceu, certamente. Então, decidiu aceitar minha proposta.
— Eu tô inclinado a fazer. Mas eu quero saber: o quão rápido você vai fazer esse seu cancelamento?
— Hunf, não é tão rápido assim. Um cancelamento exige preparação, sabia? Tenho que mandar fazerem os memes, ativar os bots. Esse seu vídeo é só o pontapé inicial, é apenas para fazer as pessoas falarem sobre o Nil. Ele não vai ser o que vai por ele na cadeia.
— O Nil é um gunslinger. Você sabe muito bem que gunslinger não vai pra cadeia. — Fazendo o gesto de corte de pescoço, Axel fez cara feia. Kawadark deu uma risadinha.
— Apenas preferi evitar uma palavra tão feia. Se quer uma estimativa, uma semana. É só isso que queria saber?
Axel bateu a ponta dos dedos na mesa por alguns segundos. Olhou pela janela, vários carros estavam passando. O dia escuro não parecia que terminaria tão cedo, e tudo que queria, é que abandonasse essa paisagem o mais rápido possível.
— Me diz: isso é por justiça mesmo, ou só vingança?
A expressão de Kawadark se fechou. Apoiou a cabeça ao punho e disse: — Faz diferença? Justiça é justiça, não importa quem usa a espada. Eu vou fazer o que muitos querem, as pessoas sequer vão ver o meu rosto por trás.
Ele não pode discordar.
— Mas vou ser sincera com você. É, sim, pessoal, mas isso não muda nada. Ele não foi o primeiro que cancelei e nem será o último. Eu só finalmente tenho o que preciso para fazer essa justiça. Nada mais.
— Beleza. Eu faço. Mas eu tenho duas exigências. Primeiro: você vai se retratar com a Baret.
— Como é? — Kawadark sequer acreditou no que tinha ouvido. — Está louco? Isso destruiria minha imagem.
— Não é você que usa bots? Apenas faça um post aleatório defendendo ela com uma conta aleatória e faça bombar com bots. O resto, a internet faz. Goste ou não, a reputação dela influencia a minha, e eu quero ter reputação o suficiente para ter trabalho.
— Só farei isso após eu fazer o cancelamento de Nil.
— Tanto faz. Agora tem a segunda.
— E qual é?
Axel ajeitou os óculos. Deu um sorriso, e exigiu, com toda a confiança do mundo:
— A entrevista vai ser no seu apartamento.

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