Capítulo 1 - Contos do Corno Casado
“Dizem que criamos nossa ratoeira quando Oppenheimer criou a bomba nuclear. Eu discordo. Nossa primeira ratoeira foi uma pedra nas mãos de Caim.” — Leonardo Tálio.
Embaixo do sol escaldante e por cima de pouca grama seca, em frente às várias casas de tijolos, havia uma pequena plateia em silêncio. Estavam parados fazia alguns minutos, esperando sem descanso. A maioria estava de pé, outros haviam desistido e se agachado ou sentado no chão de barro. Tossidas ali, tossidas aqui.
Não tinham muita variação em suas roupas, usavam o maior uniforme que pode haver na história: jeans e camisa branca, do tecido mais barato. O único ali que destoava com as roupas, usando calças e camisas coloridas, era também o único com celular na mão. Com o modo câmera ativo, ele decidiu quebrar o silêncio:
— Ela vem ou não vem? — reclamou. — Meus viewers tão esperando! A gente tá esperando há o quê? Dez minutos?!
Um homem, à frente da multidão, vestido de terno e gravata, com uma pequena plaquinha escrita “juiz”, suspirou. Deu um gole de água na sua garrafinha, tossiu um pouco e respondeu com voz rouca:
— Eu sei lá. Era para ter vindo faz um tempo… Ei, Josh! — Voltou seu olhar para outro homem, também em frente de todas aquelas pessoas. — Não quer que eu cancele logo este duelo? Te dou a vitória por WO e fica por isso mesmo.
— Ela vem. A filha da puta vem — afirmou com firmeza na voz.
“Mas que saco, hein?” Pensou o Juiz, limpando o suor de sua testa. Já não estava aguentando mais o calor daquela vila, e não ajudava que Josh parecia emitir um calor infernal com sua raiva.
Josh era a definição de rato de academia: o braço era maior que a cabeça careca e as roupas quase estouravam com os músculos querendo sair. O mais assustador, entretanto, não era a musculatura. Havia duas armas em seu coldre: na esquerda, um revólver normal, já na direita, uma pistola que aparentava ser comum, mas emanava uma aura que fazia todos perceberem: era uma arma slinger e ele era seu portador, um gunslinger.
O juiz deu um suspiro, cruzou os braços e esperou mais um tempo, já imaginando em como preencheria os papéis de relatório sobre o duelo que nunca ocorreu. Um segundo antes de dar a vitória ao gunslinger, uma voz feminina vindo da multidão pôde ser escutada.
— Opa, opa! Foi mal, galera, foi mal! Trânsito tava foda! — Saindo do meio do povo, veio uma mulher. Pele pálida com cabelos negros pintados em verde neon, apenas dando evidência da cor original pelas raízes do topo da cabeça. Tinha os olhos rubros e um estilo de vestir-se único: camisa social, gravata, shortinho e por cima disso tudo, um casaco marrom ao estilo do final do século XXII, com linhas verdes e vermelhas estampadas. Na cintura, o coldre com revólver indicava ser uma pistoleira, mas o ar de normalidade ditava que não se tratava de arma slinger.
A maioria das pessoas se sentiram aliviadas, o duelo iria acontecer. Josh não partilhava do mesmo sentimento de calma, seus olhos ficaram raivosos e jogou todo o ar que tinha nos pulmões para fora.
— BARET! SUA FILHA DA PU…
— Tá, tá, sem gritar, beleza? — O interrompeu e logo em seguida, aproximou-se do juiz. — Pode marcar minha presença, aí já vamos acabar com isso de uma vez.
Josh quase sacou a pistola, mas o rápido movimento de mão do juiz mandando-o se acalmar o fez ao menos esperar um pouco mais. O juiz ajeitou a roupa e direcionou seu olhar cansado para a garota.
— Baret Leone, é?
— A própria! — Deu um sorriso longo.
— Posso saber o motivo do atraso? Foi você que escolheu a localização do duelo, não dava para colocar num estádio perto de casa? — perguntou em tom claro.
O sorriso grande tornou-se malicioso. Fechou os olhos e apontou a mão para trás das costas, onde Josh estava.
— A esposa do dito cujo em vossa frente certamente será capaz de explicar em melhores detalhes as vinte e cinco formas na qual ela pediu por mais rodadas de prazer. Por consequência, meu descumprimento com o horário marcado. Já o local… — Antes de terminar, foi interrompida pelo grito da raiva.
— COMO QUE É? MAS DE NOVO?
Boa parte da plateia deu uma risada, enquanto o juiz viu o combustível que Baret estava jogando na fogueira de Josh. Ela virou o rosto e olhou para o careca com desdém.
— Tu toma chifre uma vez e espera não levar de novo? Mermão, é trouxa por acaso? — Deu de ombros. — O golpe tá ai, cai quem quer.
— Vai se fuder! VAI SE FUDER! Aceitei o duelo para te ensinar uma lição sobre se envolver com mulher dos outros, mas agora já era para ti! Vou te enterrar em cova rasa!
— Blah, blah, blah! — Provocou mais ainda. — Vamos logo com isso, tenho que pagar a conta do motel.
Sabia que não tinha mais como adiar. O juiz mandou a multidão se afastar e colocou os concorrentes um na frente do outro, a três metros de distância. Em frente à plateia e no meio dos dois pistoleiros, o juiz tirou um dispositivo do bolso, do tamanho de uma bola de bilhar. Colocou-o no chão e o ativou. Uma extensa parede semi-visível se levantou, impedindo que qualquer coisa passasse para o lado dos espectadores.
— O duelo agora pode começar. Antes de se matarem, temos algumas formalidades para terminar. — Tirou o celular do bolso e leu um texto em voz alta. — “No presente momento, ocorrerá um duelo mortal entre Baret Leone e Josh Amaldoa. Ambos assinaram previamente um documento de aceitação de mortalidade. Algum dos dois desiste do duelo, antes que ocorra?”
Silêncio.
— Muito bem. — Fez algumas anotações, em seguida, continuou: — Baret, você é a desafiante, poderia me dizer seu armamento?
— Revólver calibre .38 de defesa pessoal padrão da Powder Inc., algumas granadas de fumaça e uma faca de combate.
— Hah! — O homem em sua frente soltou uma leve risada. — Tu vem desafiar um gunslinger com um revólverzinho de defesa pessoal com cinco tiros no tambor? É mais fácil pular da ponte, sabia?
— Tua mulher me disse que esse revólver aqui já é melhor que tua pistolinha.
— Tsc. — Não respondeu. Já estava com tanta raiva que sua cabeça só deixaria ser liberada de uma forma: matando. Não poderia, entretanto, ser de qualquer forma. Ainda havia um orgulho remanescente em si, tinha algo que precisava fazer. Ao invés de pegar sua slinger, pegou o seu revólver comum, abriu o tambor e de lá tirou cinco dos seis tiros que tinha. Fechou o tambor e colocou a arma de volta no coldre.
— Hm? Tá fazendo o quê? — questionou Baret.
— É desperdício de dinheiro ter que usar mais de uma bala em você — disse em voz rouca de ódio — e de energia, se eu usar a slinger. Você não merece ver meus feitiços, na real nem merecia ver minha slinger em primeiro lugar! Então… uma bala. Só isso que preciso.
— Ô juiz! Isso aí tá valendo?
— Não tem regra nenhuma que diz que não pode — respondeu, dando de ombros.
— Então beleza.
Deu um sorrisinho. Esse era o plano dela. Era uma vantagem bem-vinda, ou melhor dizendo, era uma confirmação: seu oponente estava subestimando-a justamente como ela gostaria. Se Josh não usasse sua slinger, sua arma especial, as chances de vitória dela estavam maiores que nunca.
— Pois bem, estão prontos? Beleza. Para finalizar de vez as formalidades: esse é um duelo oficial, originalmente proposto pela senhorita Baret e aceito pelo senhor Josh, gunslinger registrado de Romaniva e de número: 21823. Por favor, fiquem em posição.
Já estavam frente a frente, cada um com suas mãos próximas ao coldre. No momento em que o juiz anunciasse o começo do duelo, era uma pura questão de velocidade e sorte. As regras eram simples, mas não apenas uma cópia dos duelos do velho oeste, dos quais se limitavam a apenas um único tiro, não; se não houvesse morte no primeiro disparo, o duelo seguia livremente até algum dos dois morrer.
Mas aquilo não era um duelo justo, Baret sabia disso. Aquele homem era um gunslinger, alguém sobre-humano que poderia desviar de balas a partir de certa distância, vencer dele com um único tiro não era uma opção.
Se ela quisesse matá-lo, teria que chegar perto de alguma forma. O fato de estar subestimando-a, dizendo que iria usar um único tiro para vencer era uma vantagem que precisava explorar. O verdadeiro problema seria no momento que ele pegasse a sua slinger. Se ele puxasse tal arma, se ele usasse algum feitiço, não importa o que fosse, o resultado seria previsível: Baret morreria.
O seu olhar afiado fitava o homem à sua frente. O duelo já tinha começado. Josh respondia seu olhar com ódio, uma vontade inominável de destruir aquele rostinho bonito, aquela mulher que tirou tantas coisas dele. Não poderia passar impune e mais ainda: não poderia tirar mais nada dele. Era uma simples questão de honra matar aquela mulher com um único tiro.
Ele não era burro, sabia que as granadas de fumaça não tinham sido trazidas por acaso. Ela certamente planejava sobreviver ao primeiro tiro no momento em que a arma foi sacada. Nesse caso, Josh tinha que somente tirar essa estratégia dela.
Não importava qual fosse o plano da garota, ele era mais rápido, mais forte e mais experiente. Ele era um leão e ela uma ratazana. Tinha que ser assim, precisava mostrar isso ao mundo. Precisava.
Um silêncio se instaurou, o único barulho que podia ser ouvido era o do vento assobiando. As mãos dos dois estavam próximas ao coldre. Moviam-se lentamente, como se os seus dedos flertassem com o gatilho da arma.
Um estado de foco se pôs sobre Baret, o mundo tinha se reduzido apenas a isso: uma linha reta onde estava seu inimigo. Era uma pura questão de superar o que estava em sua frente. Sobreviver ou morrer, era sobre isso que seria seu primeiro tiro.
O vento parou, e então…
— FOGO! — O juiz decretou.
0.219 segundos, esse foi o tempo necessário para Baret sacar seu revólver e atirar contra Josh, com o alvo sendo a trajetória provável do tiro inimigo. Se as duas balas colidissem, conseguiria sobreviver à primeira trocação. Mas…
Ele meramente desviou do disparo de Baret com uma facilidade quase natural. Josh nem sequer tinha sacado seu revólver, sua mão ainda estava próxima da cintura em uma questão de centímetros.
Uma armadilha.
Sua estratégia de sobreviver ao primeiro tiro foi destruída porque ele não tinha dado o primeiro tiro. Num reflexo quase instintivo, usou a mão esquerda e soltou uma das granadas do seu coldre. A cortina de fumaça elevou-se, escondendo Baret pouco a pouco.
Desesperada para ganhar um pouco de tempo, a garota disparou mais duas balas em direção ao oponente e a mesma cena se repetiu: Josh movimentou o rosto e deu uma leve, porém rápida virada de lado e desviou.
A intenção de fato não era acertar, naquela distância seria impossível. Quando a fumaça estava alta o suficiente, se jogou ao lado, garantindo que seu oponente não teria como saber exatamente sua localização. Embora sua situação fosse ruim, o plano ainda deveria funcionar.
“Três tiros” pensou Josh, encarando a parede de fumaça ali à frente. Ainda não tinha sacado seu revólver. Pelas regras, deve-se disparar sua arma no exato momento que ela for sacada. Então, ficou pronto para atirar no momento que ela saísse. “É um revólver padrão de cinco tiros. Ela já deu três disparos e recarregar a arma em meio a essa fumaceira não seria uma boa escolha… Ela só tem mais dois disparos.”
Três segundos de silêncio, até que finalmente Baret saiu correndo da cortina preta. Deu um disparo no momento que foi vista e quando conseguiu se locomover mais um metro, deu seu quinto disparo contra o homem.
Josh desviou, mas com um custo: isso o atrasou um pouco, pouco o suficiente para Baret se aproximar do homem, tão perto que sua arma foi apontada para a cabeça dele, a alguns centímetros de distância.
O homem não suou frio e nem piscou os olhos. Ele contou os tiros, foram exatamente cinco. Aquela arma apontada era meramente um blefe. Para si, aquela visão ficou em câmera lenta: conseguia notar a outra mão dela, a esquerda, atrás da cintura puxando a faca que tinha em seu coldre.
“É uma estratégia decente,” Josh pensou, “mas já era pra você, otária”. Não importava o quão rápida ela fosse em sacar sua faca, nunca seria tão veloz quanto ele.
Baret estava no raio de alcance. 0.197 segundos, era esse tempo que ele precisava para sacar sua arma e destruir o funeral dela. Mas antes que pudesse fazer isso…
Sua cabeça explodiu.
Um sexto disparo veio da arma de Baret, o impacto a queima-roupa fez mais do que um buraco em sua cabeça, seu rosto foi plenamente desfigurado pelo tiro. O corpo do homem caiu duro no chão.
Baret estava ofegante. Tudo aquilo durou apenas alguns segundos, mas foi um verdadeiro esforço e uma adrenalina sem tamanho. Qualquer erro e seria ela que teria a cabeça estourada. Ainda assim, uma alegria bateu em seu coração.
Virou-se sorridente para o juiz. Ele estava boquiaberto enquanto a plateia gritava em loucura.
— Bem… — hesitou por um segundo para dar o resultado, nem mesmo acreditava no que estava prestes a falar — Baret é a vencedora do duelo oficial. Você pode pegar seu prêmio.
— Beleza! — Em vez de simplesmente pegar a arma slinger de Josh que estava no coldre, pegou do próprio bolso duas luvas e as vestiu. O juiz estranhou isso, se a slinger não tiver contato com a pele da pessoa, é impossível forjar um pacto com a arma.
Mas ela continuou. Agachou-se para perto do cadáver e pegou a arma.
— Ok, vamos ver… — E então, simplesmente começou a analisar ela. Olhou cada centímetro da arma, dentro de seu cano, seu carregador e seu cão. Parecia estar procurando algo. — Ala! “#B69”, nice. — Soltou a arma no chão e pegou um caderninho no bolso, anotando o que viu.
O juiz não entendia o que estava acontecendo, e com sua curiosidade atiçada, decidiu se aproximar da garota. Fez o questionamento que qualquer um faria:
— O que está fazendo?
— Eu? Estava analisando a arma. Suspeitava que a arma tinha uma parte das coordenadas do tesouro, e é como eu pensei: o número é sempre diferente. Minha teoria tá certa… — Estava absorta em seus pensamentos que, embora tivesse respondido o juiz, nem sequer olhou para a cara dele. Suas anotações eram seu único foco.
— Hã? Tesouro? Pera… Tá falando daquele tal tesouro…?
— Do Leonardo Tálio, criador das slingers? Esse mesmo. Só preciso dos números, então pode colocar a arma como prêmio de torneio ou sei lá. Pode pegar pra ti também, se você quiser.
— Você não vai pegar essa slinger para você?
— Claro que não, pô! Por que tu acha que eu quero o tesouro? Para pegar a primeira slinger, duh! Se é pra virar uma gunslinger, tem que ser com a arma mais forte! Imagina ficar amarrada a vida toda com essas armas normais? Bleh! — Fez uma expressão de nojo, e em seguida, acrescentou um detalhe: — E eu li a Constituição toda! Em nenhum momento diz que sou obrigada a pegar a arma.
— Você é maluca? Tu… Tu desafiou o Josh só pra ver a arma dele por uns números? Só por isso? — Estava tão incrédulo que não conseguia conceber aquela situação.
— Tsc, não é minha culpa. Eu puxei papo com ele num bar e descobri que a slinger dele tinha uns números, e ele não me falava quais de jeito nenhum! Até me bateu quando eu tentei roubar pra dar uma espiadinha! — Fez uma cara de nojo, lembrando a situação. Não percebeu, porém, que estava começando a falar até mais do que deveria. — Então eu precisava de um jeito, aí me veio a brilhante ideia: e se eu duelar com ele, matar ele e pegar a arma para analisar?! Aí foi moleza, só precisei dormir com a esposa dele e depois, bem, você sabe.
— Cara, tu sabe que vai todo mundo te odiar por isso, né? Até te achei esperta por pegar um modelo de revólver conhecido por ter cinco tiros e modificar o tambor para caber seis, mas agora…
— E tu acha que pedi pro duelo ser numa vila por quê? Aqui ninguém usa internet, eu acho…
O juiz soltou apenas um suspiro e apontou para o lado. Baret virou a cabeça em dúvida. Seu coração parou no momento que viu uma das pessoas da plateia filmando tudo aquilo com um celular.
— V-v-você tá filmando?! — Levantou na hora, e foi até ele.
— TÁ AO VIVO! 30 MIL ESPECTADORES!
— O QUÊ?! ME DÁ ISSO! — Num movimento rápido, pegou o celular daquele homem e começou a correr enquanto o streamer ia logo atrás dela gritando “dá meu celular!”. Começou a ver os comentários, eram maldosos, odiosos, por assim dizer.
“Assassina talarica!”
“Matou uma pessoa só por uns números pra achar um tesouro imaginário. lol”
“Ela não sabe que toda slinger é igual em nível de poder? Que burra lmao”
“Já tá nos trendings topics do Actua”
“Ela roubou o celular dele?! KKKKK”
Seu sangue esfriou e sentiu a sua testa ficar encharcada de suor. Suas pernas cederam, a fazendo cair no chão de joelhos. Aquilo doía mais do que qualquer bala ou tiro de bazuca. O seu maior medo tinha se tornado realidade, e pior ainda, um empecilho para vida toda:
Tinha sido cancelada.

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