Índice de Capítulo

    Baret odiava admitir, porém, ela acabou criando um laço com a cama daquele hotel. Podia ser uma cama dura, daquelas que se acordava com dor nas costas, mas tinha algo que não poderia negar: não houve em toda sua vida uma cama que lhe desse um sono tão tranquilo. Talvez o fato de saber que, mesmo com todos os pormenores, a Carreta Fogueteira tinha começado com o pneu direito. 

    — Até mais, querida. — Baret deu um beijo na cama, e circulou o colchão com seus braços. — Isso não é um adeus. Logo eu volto bilionária. Vou fazer questão de pôr você no meu palácio… no meu terceiro quarto, o primeiro precisa ser um mais macio. 

    Relutantemente, afastou-se da cama, pegou suas malas e saiu do quarto de camas, indo até à sala de estar. Quincas Borba estava lá, sentado num dos sofás, mexendo no celular. Baret sentou-se na frente dele. 

    — Vendo o quê? 

    — Corrida de cavalos. Parece que dá para faturar uma grana legal com as apostas… Vi uma propaganda aqui de uma cara que conseguiu comprar um carro com o dinheiro que ele ganhou,  por isso tá ensinando o método! Mas agora to sem dinheiro para comprar o curso dele. Tô tentando aprender sozinho por enquanto. 

    — Você sabe que isso é golpe, né? 

    — Claro que eu sei! — Quincas sorriu. — Por isso mesmo que quero aprender! Já pensou em como isso ajudaria a Carreta? Se eu fizer um curso desses sobre alguma coisa, posso pedir para Émile divulgar no canal dela!

    — Não acho que ela daria palco para isso — disse Baret. Apoiou os cotovelos no joelho e decidiu colocar mais lenha na conversa. — E faria curso do quê?

    — Ah, sei lá! Tem que ser algo que gere interesse, né? Talvez curso de como virar gunslinger? Tipo, dizer que vou ensinar como achar uma arma?

    — Essa é boa! Só que noventa por cento do curso seria você ensinando o povo a como ficar foda o suficiente para talvez, muito talvez, conseguir desafiar um gunslinger para um duelo. Bom, eu consegui provar que é possível. 

    — Não seria uma ideia ruim! — Quincas deu uma risada leve junto a um bater de mãos. — Até falaria para combinarmos de fazer o cursinho junto, mas já estou com combinados demais. Preciso cobrar a Arya de fazer o foguete de papelão. 

    — Falando nela, sabe quando vai chegar?

    No exato momento que Baret falou isso, o elevador parou no andar que estavam. Ao abrir de portas, Arya saiu com um sorriso no rosto e uma mala de mão. Estava com as roupas mais casuais possíveis, contrastando a forma formal e super arrumada dos dias anteriores. 

    Ao seu lado estava Émile, usando roupas simples também, embora o significado de “simples” para ela fosse muito diferente do que todos daquele andar. Tinha também apenas uma, embora grande mala de mão, quase do seu tamanho. 

    — Bom dia, pessoal! Espero que não tenham esperado demais! — disse Arya, cheia de energia. Sentou-se em um dos sofás, ao lado de Quincas. 

    — Que nada! Ainda falta tempo até a hora marcada — respondeu Quincas — Só tô meio preocupado com essa mala aí da Émile. O Axel falou para gente maneirar na bagagem, não falou?

    — Você tá brincando, né? Essa já é a bagagem reduzida! Tamanho mini-ultra-mega reduzida! Sabe o quanto foi difícil ir de trinta e três malas para uma só?! — Émile sentou numa poltrona e cruzou os braços com expressão de cachorrinho bravo. 

    Todos deram uma risada sem graça, afinal, era a única ali com aquele problema. 

    — Isso me lembra, Quincas, tu é o único aqui sem mala. Você realmente não tem nada pra levar? — questionou Baret. 

    — Tive uns probleminhas quando eu estava a caminho de Romaniva, sabe? Nada demais, só acabei perdendo minha mochila. Não tem problema! Minhas roupas são tudo o que eu preciso; às vezes, nem isso. 

    — Isso quer dizer que você não trocou de cueca até agora? 

    — Claro que troquei! — Do bolso esquerdo das calças, Quincas tirou uma cueca box verde, deu um sorriso largo e falou: — sempre tenho uma reserva guardada! Não é a primeira vez que perco minhas coisas, então aprendi esse truque. No bolso de trás, eu carrego outro par de meia. 

    — Ah… é… até que não é um truque ruim. 

    Um silêncio tomou conta do local por alguns minutos. Foi apenas uma questão de tempo, entretanto, para algo acontecer: pouco a frente do elevador, o espaço se distorceu por alguns metros. Um portal se abriu um segundo depois, do outro lado, estava Axel e Nil, na garagem onde a carreta estava. 

    Todos ficaram um tanto surpresos, mas se levantaram, pegaram suas bagagens e atravessaram o portal. 

    — O horário combinado não era daqui a uma meia hora? 

    — Olha, Baret — Axel começou a falar com um tom cansado — Eu até estava pensando em atrasar uma hora para poder tirar um cochilo, mas o Nil chegou mais cedo e eu me recuso a ficar sozinho com ele. — Quando todos atravessaram o portal, ele guardou sua slinger na bainha, desligando o feitiço. — Beleza, passei a noite toda trabalhando nisso, mas tá pronta! E eu gostaria de explicar do porquê essa belezinha aqui é cúmulo das motorhomes

    — Carretas — Baret corrigiu. 

    — Motor… Quer saber? Tanto faz, não vou discutir com gente burra. Primeiramente vamos ao que mais me orgulho: o purificador de água. Sabe qual o principal problema de um motorhome? A água! Essa porra gasta fácil, então eu instalei tanto um purificador de água quanto um coletor de umidade. E caralho! Esse negócio funciona que é uma beleza! Não só faz a água ficar potável numa questão de segundos, como consegue coletar 99% da umidade do ar na medida que se move. Então não vamos ter que nos preocupar com água e nem com banho!

    — Pô, tenho que elogiar isso! — Quincas se aproximou, circulando a carreta. — Água é complicada nas terras selvagens! E te garanto que dormir de boca seca é uma desgraça!

    — Próxima coisa: a energia. A carreta é 100% elétrica, e como não vamos ter muito acesso a combustível nas viagens, eu instalei um painel solar no topo e um pequeno moinho de vento pra auxiliar. Pelos meus cálculos, num dia comum… deve levar umas doze horas para a bateria ir de zero a cem por cento. 

    — Ok, mas quanto tempo esse negócio anda? Quantos quilômetros por porcento?

    — Meio difícil saber, né, jumenta? Depende de peso, condição da estrada, o quanto vocês tão sugando da energia… Muitas variáveis. 

    — Nenhuma estimativa? Esperava mais de…

    — Uns 4 quilômetros. 

    — Tá falando sério? Essa porra só anda 300 quilômetros?! 

    — Como eu disse, muitas variáveis! O motor desse negócio tava destroçado, tive que me virar com o que eu tinha! E você tem que considerar que a “carreta” vai carregar seis pessoas e sua caralhada de bagagens, carregando seus celulares, tomando banho quente, ouvindo rádio e fazendo comida; esses “só” 300 quilômetros vira coisa para um senhor caralho. 

    Baret revirou os olhos e sentou-se numa cadeira, aceitando sua derrota no argumento. Axel deu uma tossida e continuou apresentando os detalhes da Carreta, desde os vários compartimentos que havia, tomadas, como a mini-cozinha e o banheiro funcionava. Até mesmo o vidro e pneus eram da mais alta qualidade, ambos eram a prova de balas.

    Acima de tudo, era impressionante, ninguém ali poderia negar que embora fosse um espaço pequeno, era usado em sua eficiência máxima. Não havia um centímetro que não era usado de forma eficiente, ou sem um propósito futuro. Havia, entretanto, um problema que não poderia deixar de ser notado:

    — Então, Axel… — Arya aproximou-se um tanto tímida. — Eu notei uma coisa. 

    — Fala. 

    — A cama no fundo, consegue caber três pessoas, né? E aí no sofá, cabe mais uma, né?

    — É. — Axel confirmou com a cabeça. 

    — Mas isso só dá para quatro pessoas dormirem. Ainda faltaria lugar para duas pessoas. 

    Axel confirmou com a cabeça mais uma vez e foi até um compartimento dentro do motorhome. Tirou de lá um saco de dormir, jogou no chão do motorhome, que servia de pequeno corredor da “sala” para o “quarto”. 

    — Com isso dá para cinco pessoas dormirem. Em relação à sexta… Infelizmente não tem jeito, vai ter que ser na cadeira de motorista! Que olha só, que péssimo… Não consegui fazer ser capaz de deitar! Nossa, é quase um sinal dizendo que o grupo deveria ter cinco pessoas em vez de seis! Realmente um acaso do destino…

    O sarcasmo foi tão ruim que todos ali o olharam com um misto de vergonha e decepção. Axel pouco se importou, seu ponto continuava forte ao encarar Nil por um segundo, que por sua vez, apenas respondeu com um sorriso provocativo. 

    — Bem, a gente dá um jeito! — Baret disse. Pegou uma das suas malas e continuou: — agora vamos arrumar as nossas coisas! Simbora!

    Fizeram conforme o mandado. Cada um arrumou suas malas conforme era possível, colocando as roupas em compartimentos, em armários. Numa questão de uma hora de organização, a Carreta estava pronta. Espalharem-se pelo carro: Baret e Quincas ficaram nos bancos de motorista e passageiro, respectivamente; Arya, Émile e Nil, sentaram no sofá e Axel, tentando garantir que não seria ele que dormiria na cadeira, marcou território na cama, ao mesmo tempo que compensava as horas que não tinha dormido. 

    — Você sabe dirigir isso, Baret?

    — Quincas, eu sei dirigir um carro. 

    — Eu sei, mas… deve ser diferente quando é uma “carreta”. É como montar num cavalo e num burro. Similar, mas diferente!

    — Relaxa! Além disso, vi um monte de vídeos na internet em como dirigir esse tipo de coisa. — Olhou ao redor do painel e da marcha, mexeu em alguns botões, colocou a marcha para trás. — Beleza… Hora de começar a jornada. 

    Pisou no acelerador e o carro foi para trás, jogando todos para frente. Baret quase bateu no volante, se não fosse pelo cinto de segurança. Quincas, que não estava usando o cinto, bateu a cabeça contra o para-bisa. Os três que estavam no sofá caíram um em cima do outro. Já no quarto com a cama, apenas um grito deixou claro o que aconteceu:

    — QUEM FOI QUE JOGOU A PORRA DUM TIJOLO NO ACELERADOR?! 

    — Foi mal! — Baret respondeu. — Errei a marcha, essa é na minha conta!

    — Eu, hein! Se quer me matar, era só não me resgatar! — Émile falou, sendo a mais esmagada dos três. — Ai, merda! Meu celular! A tela trincou! Porra, Baret! Até você?!

    — FOI MAL! As marchas são esquisitas, tá? — Baret apertou mais alguns botões e mudou mais algumas configurações, até finalmente achar o ponto certo. A carreta começou a andar de forma leve, sem mais enrolações, a jornada tinha começado. 

    Passava pelas ruas e chamava a atenção de todo pedestre, todos olham e pensavam: “que lata velha é essa?”. Mas Baret não se importava com os olhares, para si, era só mais um incentivo e confirmação que as coisas estavam dando certo. 

    Passaram em mais algumas lojas para comprar o que faltava, desde garrafas de água e algo para comer como café da manhã. Após comerem uma boa refeição, o destino agora era até a saída da cidade. As coisas não foram conforme o planejado quando ficaram presos em um engarrafamento num viaduto. 

    — Que porra é essa? Mas já?! — Baret reclamou. 

    Esperaram alguns minutos, mas o trânsito não melhorava. Inconformada com o silêncio, Baret ligou o rádio num canal de música eletrônica. Quincas fez um olhar de estranhamento. 

    — Que monte de barulho é esse?

    — Gelo Negro de Parold, um clássico do século XXII!

    — Clássico? Isso é um monte de barulho um em cima do outro! — reclamou. Colocou a mão no controle do rádio e ajustou a frequência, até achar algo que fosse do seu agrado. 

    “O berrante tocava em sintonia da minha gaita 

    Lembrava as lágrimas que escorriam da sua cara

    Maria volte para nossaaaa casaaaaa!”

    — Muito melhor, música de verdade!

    — Que velharia é essa? — questionou Baret. 

    — Velharia? Essa música tem só vinte anos! Tocado por Marquinhos Atoa, uma lenda! — Quincas batia o pé contra o chão no ritmo da música, até que uma mão por trás dele trocou a frequência do rádio. 

    “Baby, baby, baby, oh”

    Like, “Baby, baby, baby, no”

    Like, “Baby, baby, baby, oh”

    I thought you’d always be mine, mine”

    — Apreciem, de fato, um verdadeiro clássico do século XXI! — Quem tinha feito isso era Émile, com um sorriso no rosto, cantarolava o ritmo da música. Sua onda foi cortada quando Baret desligou o rádio.

    — Sem Justin Bieber no meu rádio. 

    — Qual é! Ele é tipo, top dez cantores do século XXI! E não sou eu falando! Veio de uma pesquisa feita por…

    — Nem vem que não tem. Eu não aguento mais escutar a voz dele! Sério, desde o boom de conteúdo do século XXI, só escuto a voz desse cara! É na internet, é na TV, é no rádio… Chega!

    — Então quer dizer que tu escutou bastante para enjoar? — Émile questionou com tom provocativo. Baret deu uma corada. 

    — Ok, admito! Um tanto quanto viciante no começo, mas enjoa rápido, tá?

    — Hehe, te passo outras músicas dele depois!

    — Prefiro ficar surda.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota