Capítulo 16 (Parte 1) - Perseguidores
Sortudo sempre foi um adjetivo que deram a si, e ele mesmo sempre soube de algo: ele é sortudo. Isso é um fato tão profundo em sua vida que fazia parte de sua identidade, é quem Nil Magno Portella é. Mas tinha que admitir: ele estava numa maré de azar.
— Por que logo eu, cabron?! — Gritou ao mesmo tempo que corria com todas as forças que tinha, sem esperar resposta, afinal, a coisa, ou melhor dizendo, a fera descontrolada que corria atrás dele não poderia responder de outra forma a não ser rugidos ou arrancando o seu braço.
Atravessando a mata seca, fazia tempo que tinha se separado de Arya e Émile, e Axel, pobre coitado, provavelmente iria virar o jantar de alguma criatura selvagem. Olhou para trás em plena corrida, vendo aquele monstro se aproximando. Parecia um tigre com todas as características alienígenas que se podia imaginar.
Tinha muitas perguntas na qual precisava de respostas, como do porquê um alíope estava caçando a essa hora do dia, mas isso pouco importaria se ele não sobreviesse. Havia uma árvore pouco a frente dali, aquela era a oportunidade de conseguir tomar mais distância.
Traçou um plano em sua mente e foi, correndo com toda velocidade que tinha, o alíope vinha logo atrás. Ao chegar na árvore, segurou o tronco fino com uma das mãos e a usou ela de apoio para girar ao redor da árvore, dando um chute diretamente na cabeça da fera.
Um ser humano comum teria quebrado a perna com o golpe, como se tivesse chutado uma bola de chumbo, mas não foi o caso de Nil, seu chute foi forte o suficiente para desorientar o alíope por breves segundos, tempo o suficiente para Nil aproveitar e sair correndo.
Estava salvo? Certamente não, mas aquilo foi essencial para aumentar a distância entre eles dois. Se continuasse no ritmo que estava, chegaria na vila que tinha passado a noite, e dali, talvez, pudesse fazer o alíope se concentrar nos corpos mortos.
Após minutos correndo, conseguia ver a vila a vista, e teve uma surpresa: havia um monte de sucateiros. Quase parou de correr por um segundo, mas não tinha esse tempo, a fera estava logo atrás. Teve uma ideia: melhor do que corpos mortos, seria distrair o alíope com vários corpos vivos.
Não levou muito tempo para todos aqueles sucateiros perceberem o homem correndo até eles, e logo atrás dele, nada mais que El Ciego. Apontaram suas armas para Nil, porém pouco serviu; como um bom gunslinger, balas não tinha efeito sobre si, elas nem sequer acertavam.
Nil conseguiu exatamente o que queria, o alíope teve e aceitou com toda a boa vontade do mundo o banquete em sua frente. Mesmo quando era alvejado por pregos e algumas munições, nada fazia contra ele e muito menos o impedia de massacrar a pessoa em sua frente, arrancar as partes de seu corpo como se fossem de papel.
Ele aproveitou a oportunidade e voltou ao mato, deixando o alíope e os sucateiros ali. Alíopes podiam ser criaturas selvagens, mas devem operar como qualquer outra: apenas fazem esforço quando não estão com barriga cheia.
Agora, tinha um trabalho um pouco mais difícil: voltar para a Carreta, pegar sua slinger de volta e, quem sabe, achar o resto do grupo. Tudo isso antes da fera decidir que precisaria de sobremesa.
. . .
Estavam andando em círculos faziam um minuto exato. Axel estava com a slinger em mão e Ramona também. O embate entre eles até então mantinham-se em trincheiras chamadas olhos, atestando sua dominância e tentando achar a fraqueza do oponente. Mas nenhum deles conseguia achar um ponto fraco.
Axel estava machucado, porém, poderia fugir num piscar de olhos, e isso era tudo que Ramona menos queria.
Ramona não conseguiria escapar de sua espada, antes que ela pudesse apontar para Axel, ele precisaria de apenas três passos e estaria no seu raio de alcance. Ao mesmo tempo, não sabia se conseguiria desviar de um tiro daquela distância.
Uma brisa de vento fizeram os dois pararem de andar, foi um sinal: a luta iria começar em breve. Ramona precisava garantir que ele não iria escapar e Axel precisa garantir que não seria acertado pelo tiro. Quando a brisa parou…
O duelo começou.
Ramona apontou a arma rápido o suficiente para não dar chance de Axel se aproximar, mas tempo o suficiente para ele atirar em pleno ar e fazer um portal. Um portal não para longe, e sim próximo, para uma árvore no seu campo de visão.
Axel avançou para a árvore e cerca de trinta metros de distância e fechou o portal no mesmo momento. Tomou cobertura na árvore e torceu para que Ramona não tivesse visto para onde ele tinha ido. Mas ela viu, ou melhor, conseguiu deduzir onde ele estava baseado no que ela viu no seu lado do portal. Mirou sua slinger e não hesitou: atirou, apenas para acertar o tronco da árvore.
— Hah! Que burra! — gritou, tentando de alguma forma fazer a inimiga perder um pouco de paciência e tomar qualquer tipo de decisão precipitada. Mas nada. Estava prestes a sair dali correndo quando, no mesmo momento que apressou o passo, sentiu algo pelo seu corpo, parou no mesmo momento. — Urgh! Hã?!
Havia algo contra a sua pele, algo ácido, mas fino, tão fino quanto um fio, como se tivesse sido por um instante amarrado por fios feitos de ácido. A pele que teve contanto ficou queimada, já a roupa abriu buracos como se tivesse derretido. Tudo isso, num mero e breve segundo, foi o suficiente para Axel compreender o feitiço.
“Ela cria uma área de efeito com fios invisíveis… Se eu me movimentar bruscamente, eles começam a ter esse efeito ácido… Mas talvez…”
Decidiu arriscar, e se movimentou lentamente. Foi como previu: o efeito apenas funcionava se o movimento fosse brusco demais. Não levou muito para o ar ficar mais leve, uma prova que tinha saído da área de efeito.
Ramona obviamente não ficou parada. Enquanto Axel tentava sair dos fios, ela corria para contornar a árvore e poder dar um tiro certeiro. Axel não teve tempo para pensar, atirou no chão e criou um portal para algum lugar no seu campo de visão, pulou nele sem hesitar e o fechou.
Deitou-se na grama alta e se escondeu, precisava traçar uma estratégia ou pelo menos fazer Ramona ficar minimamente confusa, ou com guarda aberta. Ela estava lá, a mais ou menos doze ou treze metros, olhando ao redor e tentando achar Axel.
A verdade se pôs a tona: estava lento e confuso. Não deveria ter ido para aquela árvore, deveria ter se aproximando quando tinha chance e tentando corta-lá. Ainda não era tarde para tentar, mas as chances tinham baixado.
Então precisava distraí-lá.
— Odeio fazer isso, mas… — apontou para Ramona o cano de sua slinger. Sua slinger ter uma lâmina bem grande, como de uma katana, porém, não mudaria o fato que era um revólver. Colocou o dedo no gatilho, e sem hesitar, atirou.
Ramona se virou na hora quando ouviu o disparo, mas nenhuma bala acertou ela. Um único segundo depois, outro disparo e, então, ficou sobre uma penumbra que rapidamente se expandia. Bloqueou o golpe vindo de cima com perfeição, usando a slinger como escudo.
Esperava um portal de muitas direções, mas não diretamente acima dela.
Colidiam suas slinger como se fosse uma luta de espadachins, ou melhor dizendo, Ramona tentava ao máximo bloquear os golpes enquanto Axel tomava toda ofensiva que era possível. Percebendo que uma abertura não apareceria tão fácil, decidiu criar ele mesmo: fez um movimento de estocada com o alvo sendo o rosto de Ramona, que foi facilmente bloqueado, fazendo a lâmina deslizar.
Axel sorriu; apertou o gatilho da arma e disparou em direção ao nada.
O súbito estouro perto de seu ouvido e a camada de gás em seus olhos foi o suficiente para perder a compostura, criar uma abertura perfeita. Axel aproveitou, apontou a lâmina ao céu e preparou um corte vertical.
Ela não ficou parada esperando a morte, ainda que brevemente surda e cega, pôs um plano em ação: amoleceu seus braços e apertou o gatilho da slinger, fazendo o recuo do disparo ser forte o suficiente para fazer o braço de Ramona mexer a força, fazendo arma apontar sozinha para a barriga de Axel.
Mas isso não era o suficiente para escapar. Ambos perceberam isso.
Um disparo e um corte; foi isso que ocorreu. O peito de Ramona foi cortado e Axel levou um tiro na barriga que atravessou seu corpo. Ambos encaram-se por um instante de calmaria, queriam ao máximo aproveitar aquela abertura para finalizar o oponente, mas toda a força que tinha estava sendo usada para se manterem de pé e conscientes.
Como se estivessem concordando com um armísticio, deram passos para trás e caíram de joelhos no chão. Axel estava sangrando bastante, enquanto a pressão de Ramona caia a toda velocidade.
Provavelmente morreriam se ficassem ali, e sabendo disso, Axel sorriu.
— S-sabe… — Deu uma risada dolorida, mais e mais sangue saia de sua boca para cada letra que dizia. — Eu não fugi… pois… não queria pensar que perdi para gente burra…
Ramona não respondeu, mas seu olhar e respiração pesada deixava bem claro a dúvida.
— Mas, quer… saber? Eu me contento com empate! — Ficou sua slinger no chão com um sorriso no rosto e apertou o gatilho. Um portal foi criado no mesmo momento, e antes que Ramona pudesse fazer qualquer coisa, ele sumiu de vista.
Com respiração pesada e sangrando, Ramona bateu a mão no chão, repetidas vezes.
— Filho da puta! Eu vou matar esse cara! — A cada soco que dava, sua respiração ficava mais pesada, sua visão, um pouco mais escura. Precisava parar o sangramento o mais rápido possível. Deitou de barriga para cima e rasgou a camisa, deixando a pele respirar.
O corte era vertical, indo do começo do peito até metade da barriga. Não teria condições de fechar o ferimento com tecido, e muito menos deixar ele aberto. Meteu a mão no estojo de munição real que tinha e pegou todas que tinha, eram apenas três balas.
Talvez fosse a maior desvantagem de criar a próprio munição do absoluto nada: se acostumar tanto a essa habilidade que deixa de carregar o básico. Abriu o estojo da munição e espalhou toda a pólvora que tinha pela ferida, até ficar completamente coberta.
Não tinha tempo para hesitar, precisava fazer isso o mais rápido possível, antes que muita pólvora entrasse em seu sistema sanguíneo. Pegou sua slinger e colocou o cano da arma próxima ao seu peito, apontando para o nada. Deu um único suspiro e apertou o gatilho.
As breves chamas borrifadas pelo cano da arma foram o suficiente para fazer a pólvora sofrer combustão. As chamas queimaram por alguns segundos, selando a ferida em queimaduras. Com tapas e mais tapas, conseguiu apagar as chamas, e ficou ali, deitada, respirando fundo.
Seu corpo estava suando que nem um porco e seus olhos estavam pesados como aço. Sua consciência foi se esvaindo. Ela tinha certeza que seria apenas um sono tranquilo. O motivo?
Ramona já sabia desde criança que era dura de matar.
. . .
O plano era sair de Romaniva e ir até alguma vila próxima; depois, era darem um jeito de consertar a Carreta e ir embora dali; depois, tornou-se voltar o mais rápido possível para a mata e garantir que Axel não seria morto por algum bicho.
E seguindo o padrão estabelecido, o plano mudou mais uma vez sem planejamento comum, quando, de repente, a frente da vila estava cheia de sucateiros armados.
— É claro que iria dar merda… — Baret comentou — Como diabos eles nos acharam?
— Não nos acharam, eu acho. Talvez tenham vido por outros assuntos, mas, é certeza que deve ser alguma coisa importante para não terem chegado atirando.
— Claro que não iam, são quarenta contra uma vila inteira!
— De toda forma, é melhor a gente dar no pé. — Quincas já estava começando a andar em direção contrária, mas notou que Baret se mantinha parada, olhando de longe aquela confusão. — Baret?
— Quero saber o porquê deles virem aqui, talvez seja importante.
— Nana-nina-não. O importante agora é vazar antes que dê problema para nós. Para cada segundo que ficamos aqui, maiores são as chances do Axel se ferrar!
— Tá, vai à minha frente então. Depois eu te alcanço.
— Pô, isso não é um bom plano… Pra que tu quer ficar?
— Precisamos de informação sobre a tal mãe. Se ela é uma gunslinger, é uma oportunidade boa demais… Vai que ela tem um dos números?
— Entendo isso, mas… A gente podia meio que deixar pra depois, outro dia, talvez.
— Não tem outro dia! Agora, shhhh, eles vão começar a conversar!
Embora fosse difícil de ouvir, era possível pegar partes das conversas quando gritavam. O assunto não poderia ser outro do que eles, a Carreta Fogueteira. Os sucateiros tinham deixado sua ameaça bem clara: ou a vila entregava qualquer membro que tinha ido para lá, ou ocorreria um massacre.
— Eles tão blefando — Quincas comentou com voz baixa — quarenta contra uma vila inteira? Nem se forem malucos…
— Que blefe merda, hein.
— É mais sobre o que vem depois. Mesmo que ocorra uma luta e esses aí morram, o resto da gangue pode vir e a tal da mãe pode aparecer…
— … Isso seria perfeito.
— Hã? Não, definitivamente não, seria um banho de sangue.
Baret se virou e olhou para Quincas com os olhos brilhando, tinha em sua cabeça um plano perfeito. Um plano tão bom quanto o que usou para vencer Josh.
— Pensa: temos pelo menos três gunslingers. Só com isso já temos uma puta vantagem, junto do pessoal da cidade… Se fazermos uma defesa sólida, vamos ter um número mínimo de baixas. E aí o pessoal da vila ganha uma slinger, nós um possível número e, além disso… Talvez algumas peças? A gente não tem muito dinheiro, então mesmo se conseguirmos voltar pra Romaniva, não vamos ter dinheiro pra consertar a Carreta.
Quincas quase concordou com a cabeça, ele entendia a lógica por trás e conseguia imaginar como isso seria benéfico, ao mesmo tempo, conseguia sentir na pele o risco.
— Não vem comigo?
— Já disse que não, Quincas. Vai à frente, eu vou dar um jeito aqui.
— Você é quem manda.
Quincas saiu correndo para a esquerda de Baret, iria tentar contornar o conflito e entrar na mata, e então voltar para a Carreta. Baret ficou ali, parada, encarando os sucateiros em frente ao pessoal da vila. Estavam falando baixo demais para ouvir daquela distância, porém, pelas expressões que faziam e na medida que mais e mais pessoas se aproximavam, estavam a beira de um conflito.
Respirou fundo e olhou ao seu redor, não havia ninguém próximo, ninguém que estivesse olhando a ela. O que estava prestes a fazer seria horrível, sabia disso, mas não poderia jogar aquela oportunidade fora, tinha em mente algo que poderia ser bom para todos.
Tirou seu revólver do coldre e mirou. Mirou contra um dos sucateiros. Não estava realmente preocupada em acertar, o som do tiro deveria ser o suficiente para fazer a tensão dentre os grupos estourar em um conflito. Os sucateiros estavam em total desvantagem, sem cobertura algum para se proteger, em números muito menores. Se tivessem apreço a vida, iriam correr o mais rápido possível.
Sem mais delongas, ela apertou o gatilho.
O sucateiro caiu de joelhos com o tiro que levou na perna antes mesmo do som do disparo chegar aos ouvidos de todos ali. Por cinco segundos, todos ficaram confusos. Olharam ao redor, perguntaram o que estava acontecendo, alguns até mesmo já começaram a correr e se jogar ao chão. Foi o início do sexto segundo que as pessoas entenderem: haveria um tiroteio.
Armas foram apontadas, coberturas foram tomadas e gritos foram ouvidos, em seguida, os disparos. A maioria não era as balas de pólvora, essa ficava para as armas de pregos e até mesmos arco e flecha de sucata. O conflito não durou muito, os sucateiros mal tiveram chance. Os que não foram alvejados por disparos correram para a mata.
“Aí merda, eles tão indo pra mata! Não pensei nisso, porra!”
Levantou-se e tentou correr, mas caiu no mesmo momento. As pernas estavam trêmulas, sentia calafrios pelo corpo todo e uma vontade enorme de vomitar.
— Porra… Agora… não…
Após alguns minutos de respiração pesada e tontura, sentou-se no chão. Não iria conseguir levantar por um bom tempo.
— É com você, Quincas.

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