Capítulo 6 (Parte 1) - Por que homens vivem menos?
Quando o tremor ocorreu, o trem parou imediatamente. Isso era apenas sinal que a situação era crítica. Chyou passou correndo por Loid, que ainda estava tentando entender a situação, mas não levou muito tempo para recuperar os sentidos. Ele tirou a mão do coldre na cintura, e apertou alguns botões que haviam logo no apoio de mão de sua cadeira.
Um par óculos embutido com um headset saiu do encosto de mão. Colocando os óculos, um display de realidade aumentada apareceu em sua frente, contendo uma visão não só da câmera de diversos soldados, mas como capacidade de comunicação instantânea com eles.
Podia ver a situação mais esperada e de longe a menos desejada: uma armadilha.
A ponte que estavam prestes a passar tinha sido simplesmente varrida do mapa. Não somente isso, foi justamente quando os primeiros dois vagões do trem estavam atravessando a ponte, apenas para serem jogados desfiladeiro abaixo.
A pior parte, não era essa. No outro lado da ponte, apenas uma mulher: de cabelo branco, chapéu de vaqueira, e rifle em mãos, logo a frente do sol se pondo. Não há pessoa no mundo que não soubesse quem seria tal pessoa, não pela aparência, mas pela pura e mais simples aura que transmitia.
Ninguém menos que Raimunda, a grandiosa Loki. Ao lado dela, um drone grande o suficiente para carregar uma pessoa em grandes distâncias.
Loid deu apenas um suspiro. Apertou um botão ali e aqui na realidade aumentada.
— Chyou, situação.
Pelo comunicador dos óculos, a soldada respondeu em prontidão:
— Pelo que parece, os dois vagões caíram no desfiladeiro, os nossos gunslingers estavam ali…! Suas ordens?
— A queda é alta, mas um gunslinger deve ser capaz de sobreviver o impacto. Mande uma equipe para lá imediatamente.
— E o que faremos com… ela? Sabe que não é qualquer uma.
— Estou enviando um sinal de ajuda, reforços devem chegar em alguns minutos. Vou liberar os drones de combate, deve ao menos desgasta-lá. — Mexia pelo display com uma velocidade assustadora. Não se contentou em ficar parado, levantou ao mesmo tempo, e foi em direção ao vagão da frente. — Eu irei dar apo…
— Não! — Chyou interrompeu. — Senhor, é arriscado demais!
— Mas apenas você… contra a Loki… — Abriu em seu display a câmera de Chyou, que já estava em cima do trem. Vindo em direção a ela, estava Raimunda, em cima do drone e pronta para lutar.
Não havia tempo para pensar, a decisão precisa ser feita.
— … Você perderia?
— Não. Eu venço.
Loid deu um sorriso ao ouvir aquelas palavras. Preparou os drones e os ativou no mesmo instante. Voaram como se fosse um enxame de insetos de aço, disparando centenas de tiros em direção à inimiga.
Mas ela estava pronta desde o início.
Os disparos foram simplesmente ignorados pelo campo de força que o drone que estava em cima emitia. Mirou sua slinger contra os drones, e usando o próprio feitiço, criava explosões grandes o suficiente para destruir dois ou mais de uma vez só.
Tudo isso durou apenas alguns segundos, sendo necessários apenas seis tiros para acabar com os dez drones de combate de Benzaiten.
“Como esperado…”, Loid pensou.
Não havia mais o que esperar, então era hora de dizer as palavras que precisavam ser ditas.
— Chyou, você tem permissão para usar sua slinger.
A soldada sorriu de leve, com a primeira condição de sua slinger sendo cumprida. A condição de apenas conseguir segurar sua própria arma especial com permissão do presidente de Benzaiten, sendo isso o suficiente para chegar a 120% de sua capacidade normal.
Sacou suas duas armas: a slinger de suas costas em sua mão direita, e seu outro rifle idêntico na mão esquerda. Uma forma única de usar sua arma, utilizando um combo akimbo em seu rifle de combate. Mirou em direção à inimiga.
Raimunda sorriu e pulou do drone. Sabia que um campo de força barato não seria o bastante para conseguir parar a bala de uma slinger, a depender do feitiço. Aterrizou no vagão do trem a apenas alguns metros de Chyou. Rolou para amortecer a queda. Ambas apontaram a arma uma a outra.
Loki não disparou, prevendo exatamente o que aconteceu: Chyou usou sua arma na mão esquerda para bater contra a carabina de Raimunda, tirando de sua direção. Por outro lado, Chyou disparou a arma, mas já era tarde demais quando percebeu que Raimunda conseguiu dar um tapa de baixo para cima contra a slinger de Chyou, desviando das três balas que a acertariam. Ambas se olharam no olho por um único segundo, tentando entender a estratégia uma da outra.
Loki não se importou de não estar mais com a arma apontada diretamente ao rosto de sua inimiga, pelo contrário, sorriu. Disparou sua slinger, e com sua reação rápida como um relâmpago, ativou o seu feitiço de explosão quando a bala ainda estava a um metro de distância.
Embora não tenha sido forte o suficiente para machucar, foi forte o suficiente para desnortear Chyou. O sorriso de Raimunda expandiu-se ainda mais, quando revelou um segredo: uma faca na manga, pronta para perfurar o pescoço da soldada. Com aquela abertura, era impossível dela desviar, mas…
— Desvie. — Quando ouviu isso do seu comunicador, seu corpo seu mexeu sozinho, ignorando qualquer desnorteio que poderia ter. — Use a granada. Afasta-se.
As ordens foram cumpridas com absoluto exito e numa velocidade sem igual. Chyou soltou a arma esquerda, que era segurada pela bandoleira, pôs a mão em seu cinto, deixando uma de suas granadas de fumaça cair. Uma cortina de fumaça expandiu-se no momento do impacto. Usando um jogo de pés, conseguiu afastar-se o suficiente para ser impossível de se ver.
“Isso foi rápido demais para ser possível!”, Raimunda pensou. Estava correta, aquele tempo de reação foi mais rápido do que um gunslinger poderia normalmente alcançar. Com exceção de desviar de balas comuns, que é uma maior questão de instinto do que velocidade em si, a reação de um gunslinger é apenas um pouco mais rápida do que a de um humano comum.
Mas Chyou parecia ser uma exceção, com uma velocidade de reação quase instantânea. Porém, não era um feito de Chyou, e sim de sua segunda condição:
“Enquanto estiver segurando uma slinger, eu devo obedecer todas as ordens do presidente de Benzaiten”.
Em resumo, aquilo era um feito de seu condutor. Como de um homem controlando os seus bonecos.
Chyou não perdeu tempo. No momento que se afastou, mirou sua slinger para a cortina de fumaça, confiante que Raimunda não teria como desviar. No momento que apertou o gatilho, ouviu um som de explosão, e a fumaça toda foi dissipada.
Raimunda não tinha pernas rápidas o suficiente para desviar, mas o seu braço era rápido o bastante para apontar sua arma para baixo, disparar e usar a explosão como força motriz para sair da direção dos disparos de Chyou na marra.
Com Loki sendo jogada para o lado do vagão, Chyou perdeu Raimunda de vista. Quando isso ocorreu, a soldada gritou para dar continuidade em seu plano.
— Quando eu erro uma bala na qual eu tinha intenção de acertar, o meu feitiço cria uma nova bala no recarregamento seguinte, embora ela não dê dano! Esse é o me…! — Tentou gritar, mas foi interrompida quando Raimunda apareceu no lado esquerdo do vagão, tentando acertar mais disparos contra ela.
Ter ficado mais algum tempo escondida talvez fosse o melhor, mas ela não poderia deixar Chyou concluir mais uma condição de essência, aquilo que define as capacidades sobrenaturais de um gunslinger: explicar o funcionamento do seu feitiço. Já era tarde demais. A condição foi concluída de uma forma ou de outra.
“Tem mais coisa aí!”, pensou Loki “Apenas um feitiço que cria munição que não causa dano é fraco demais. Tem mais coisa…!”.
Chyou usou sua outra arma, a comum, e disparou sem parar contra Raimunda, enquanto apontou sua slinger para o céu, sem fazer nada com ela. Não foi grande trabalho para Loki desviar dos disparos comuns, mas ela tinha completa noção do problema que tinha se metido.
“Se ela apenas apontou para o céu… Merda, ela consegue fazer uma recarga sem tirar o carregador?! Essa filha da puta tem até que bastante cartas na manga! Qual o próximo? Vai me dizer que consegue recarregar a slinger mais de sete vezes também?”
Quando a rajada de balas comuns parou, pulou do vagão de trem em direção a Raimunda, que ainda estava tentando se recompor. A aterrissagem seria perfeita, se não fosse….
Loid recebeu uma informação em seu display e teve que falar o mais rápido possível:
— Cuidado com o tiro!
O tempo para Chyou parou. Ela conseguia ver, o disparo vindo de uma direção a quase quilômetros de distância. Não era uma bala comum. Era a bala de uma slinger. Mas a ordem de desviar do tiro foi dada e precisava ser cumprida.
A bala que acertaria sua cabeça foi contida as custas da mão esquerda. Soltou o rifle comum numa velocidade surpreendente e colocou a palma da mão em frente ao lugar que seria acertado. E quando a bala já estava atravessando a sua pele, Chyou fechou a mão com força e elevou o braço por alguns centímetros.
Seria impossível desviar da bala. Seria impossível parar a bala. Mas desviar sua trajetória ainda era uma possibilidade. Foi o suficiente, aos custos da mão esquerda ser perfurada, seus ossos, dilacerados; ela conseguiu sobreviver ao que seria uma bala letal.
Mas o problema não era mais esse.
Com o timing perdido, Raimunda teve tempo o suficiente para se recuperar e apontar sua arma para sua presa, que por conveniência, estava no meio do ar, completamente exposta.
Conseguia perceber. Ela estava mirando mais ou menos na região do seu útero. Tentar girar para desviar não funcionaria. E a gravidade não seria rápida o suficiente para fazer Raimunda simplesmente errar. A última opção, a que mais evitou, seria usar sua própria slinger como escudo.
Jogou sua própria slinger em direção da bala, quando já era tarde demais para Raimunda esperar um único milésimo de segundo.
Aquela seria aposta de sua vida.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.