Capítulo 73.2 ❃ A Evolução.

Um silêncio funéreo invade a sala de aula, abarcando todos que ali se encontram.
Nem um único som é emitido, nem pelos rapazes, nem pelas crianças que frequentam a escolinha. Qualquer adulto que invejasse a energia inesgotável das crianças ficaria feliz com a quietude e a paz presentes no local. Entretanto, o silêncio não decorre da paz, mas sim do espanto e confusão que paira no ar.
Ambos os rapazes estão completamente perplexos com as falas de Anastácia a respeito da situação de Isabel. A ideia de uma garotinha de dez anos passar da infância para a adolescência da noite para o dia é algo radical e confuso para eles. Mesmo não sendo especialistas em ciência corporal, eles entendem que a puberdade não funciona dessa maneira.
Entreolhando-se, compartilham a mesma confusão diante das palavras de sua amiga. Apesar do silêncio pairando no ambiente, suas mentes estão a mil com pensamentos e questionamentos emaranhados.
Coçando a barba falhada em seu rosto com uma expressão sem graça, Trevor tenta compreender o que acabou de ser dito por Anastácia.
A ideia de Anastácia sobre Isabel amadurecer rapidamente parece algo ilógico para Trevor. Ele sabe que a magia é capaz de alterar o corpo de várias maneiras, já que estudou vários métodos para fortalecer o físico ao lutar sem mana. No entanto, nunca ouviu falar de algo que pudesse fazer alguém crescer em maturidade de um dia para o outro.
Todavia, ainda que pareça absurdo, a intensidade da magia que Trevor sentiu emanar de Isabel faz com que ele não possa descartar completamente essa possibilidade.
— Olha… Anastácia… eu não sou muito prático com o estudo da fisionomia corporal, pois me qualifico apenas para magias. Mas eu acho que a puberdade não funciona desse modo…
Com as bochechas infladas de ar, Anastácia franze a testa e sente-se subestimada por Trevor. Tudo o que ela desejava era uma explicação, mas ser tratada com desdém era algo que nunca imaginara acontecer.
— Hmph! Vim até aqui para achar uma conclusão, afinal vocês são os professores desse local. No entanto, acho que superestimei vocês.
Uma expressão de desapontamento se manifesta no rosto de Anastácia, enquanto se prepara para sair da sala sem dar ouvidos às palavras de Lukas. Enquanto isso, Trevor sente-se culpado por tratar o assunto levianamente, algo que ele não pretendia fazer. No entanto, devido à sua insegurança, que se manifesta em forma de suor escorrendo pelas suas costas, as palavras não fluíram como ele desejava.
Com passos apressados, Anastácia sai do local, fingindo estar com um semblante enraivecido, mesmo que, na realidade, não esteja com raiva. Ela justifica que essa é a atitude correta a se tomar, afinal, ela própria não acreditaria se lhe contassem sobre a situação de Isabel.
‘’Não sei o que fazer agora. Se nem os meninos acreditam em mim, não há outra escolha. Terei que contatar os meus pais…’’
— Um momento!
Uma voz masculina, de repente, irrompe nos ouvidos de Anastácia, interrompendo abruptamente sua saída da escola.
Com o intuito de ouvir algo semelhante de Lukas, Anastácia para abruptamente e vira-se, esperando uma possível resposta. Ela já imagina que ele diria algo igual a Trevor, e por isso, precisa fazer com que ele compreenda a sua indignação imaginária.
Franzindo as sobrancelhas, a ferreira decide impor seus pensamentos ao rapaz.
— Olha aqui, Lukas, se você pensa que vai…
— Não, não… Não vou caçoar do que disse. Afinal, eu acredito em você.
Anastácia é completamente tomada de surpresa pelas palavras do rapaz de óculos, e rapidamente para de falar. O enrugamento em sua testa desaparece e uma expressão refrescante toma conta de seu rosto quando ela abre a boca.
— Vo-você acredita em mim?!
— Mas é claro. Por que não acreditaria em você?
— Bom…
Esfregando as mãos uma na outra, como que para bater as pontas dos dedos indicadores, ela se manifesta.
— É que o Trevor meio que me fez pensar que vocês não iriam fazer isso…
— Fracamente…
Com ajeitar dos óculos em seu rosto, Lukas expõe sua insatisfação por ser comparado a seu companheiro por Anastácia.
— … Me comparar com esse “brutamontes”, é o ápice do equívoco. Espero um pedido de desculpas apropriado. E, por favor, faça tudo por escrito…
— Eh?
Um sentimento de perplexidade toma conta de Anastácia ao ouvir as palavras de Lukas, que revela sua insatisfação com a comparação feita entre ele e Trevor. Momentaneamente, ela fica paralisada, alheia à situação ao redor, — antes de explodir em risadas ao entender a cena.
— Como é!?
Trevor infla o peito em resposta às palavras arrogantes de Lukas, mas permanece em silêncio ao perceber o que o rapaz acabara de fazer por Anastácia, — que os encanta com um sorriso perolado.
”Veja só… Lukas, você percebeu que ela está realmente preocupada com isso e a fez rir. Certamente você é um rival verdadeiramente à altura…”
Agora que a atmosfera tensa se dissipou graças ao sorriso de Anastácia, Lukas assume uma expressão pensativa. O fato de Isabel aparentar ser mais madura é algo novo e intrigante para ele. Embora Trevor compartilhe seu conhecimento sobre magias capazes de alterar a aparência física de um mago, Lukas não tem conhecimento de qualquer outra que faça o corpo amadurecer.
”Se existisse um feitiço ou habilidade que ajudasse a amadurecer o corpo, existiriam inúmeras pessoas atrás disso. O fato de esperar que o núcleo de mana interno de estabilize e comece a produzir mana é o maior empecilho de um mago aprendiz, que sempre anceia em começar a praticar magia. No entanto, acá está Anastácia nos dizendo o oposto do que já sabemos que é impossível…”
Lutando para compreender a situação que Anastácia trouxera até eles, Lukas se encontra em confusão. Nenhuma resposta é clara, forçando-o a pedir esclarecimentos diretamente para a ferreira.
— Anastácia, se incomodaria se eu fosse vê-la pessoalmente para tentar entender a situação? Pois mesmo que perca seu tempo tentando nos dizer, será completamente inútil se eu não ver por mim mesmo o que é.
Enquanto seus olhos contemplam o céu, Anastácia reflete sobre o pedido de Lukas. Embora não seja um assunto sério, ela considera que Isabel já não tem mais o corpo de uma garotinha inocente. De fato, até ela própria ficou encantada com a transformação que ocorreu em sua filha, deixando-a um tanto desconfiada sobre a ideia de levar dois homens para o quarto da garota.
Contudo, para a situação ser resolvida, ela terá que ignorar esse porém por hora.
”Acho que não tem problema se eu levá-lo para ver a situação dela… Mesmo que ela seja muito bonita para os padrões desse lugar, não acho que os meninos vão agir como animais selvagens perto dela. E, também, agora ela é uma ‘adolescente’, não uma ‘mulher’, então não encontro problemas nisso… Só terei que fazê-la vestir algo mais comprido, afinal suas roupas ficaram um pouco… curtas…”
Depois de refletir sobre o pedido de Lukas, Anastácia concorda com sua solicitação e o convida a acompanhá-la até sua casa.
— Claro, venha comigo.
Por outro lado, Trevor…
— E-e… eu ficarei na escolinha… Preciso dar uma olhada nas crianças antes de levá-las para suas casas…
Enquanto Anastácia e Lukas caminham para a casa dela, Trevor, ainda incomodado com o que aconteceu com as crianças, se oferece para investigar se algo mais está acontecendo com elas.
— Muito bem. Se qualquer sintoma aparecer nelas, por favor, me diga imediatamente.
— Certo…
”Sintomas?”
Uma pergunta passa pela mente de Anastácia, mas ela sente que este não é o momento apropriado para fazê-la. Ela deseja compreender o que está acontecendo com as crianças, mas decide deixar essa questão de lado até que o assunto de Isabel seja resolvido.
A residência da ferreira finalmente surge à vista do casal, mas algo chama a atenção de Lukas quando ele olha diretamente para uma das janelas.
Uma sensação de familiaridade atravessa sua mente enquanto ele fixa o olhar na janela em questão. Anastácia fica confusa com a expressão de Lukas, mas logo entende quando segue o olhar dele e percebe que ele está observando a janela do quarto de Isabel.
”Não entendo muito bem como isso funciona, mas parece que ele consegue sentir o mana dela, ou algo do tipo. Afinal, eu nem mesmo disse em que quarto ela dorme…”
Ao contrário dos pensamentos da ferreira, Lukas conclui suas suspeitas sobre a mana que havia sentido anteriormente.
”Não queria acreditar, mas com certeza era a mana dela… Como isso é possível? Será que o núcleo da besta mágica amplificou o poder mágico dela? Ou talvez…”
— Lukas, você entra também?
Observando fixamente a janela por um longo período de tempo, Lukas finalmente percebe que Anastácia já havia entrado em sua casa e estava esperando por ele na porta.
— Perdão, apenas fiquei um pouco… como posso de dizer? Extasiado com o poder dela…
— Bem… se você está assim aqui fora… nem sei como vai se sentir quando se aproximar dela…
— O que quer dizer com isto?
— Eh, ah… er… N-nada de importante. P-por favor, entre.
Com um ar de incerteza, Lukas obedece Anastácia e adentra a residência da ferreira. A loja está completamente mergulhada na escuridão, não tendo nenhuma utilidade naquele momento devido à hora tardia.
Avançando para o fundo da loja, Anastácia e Lukas sobem as escadas em silêncio, um atrás do outro. Ao chegarem ao topo, Lukas se adianta para remover seus sapatos e os coloca no canto, um degrau abaixo do último, o que chama a atenção de Anastácia.
Ao se preparar para indagar o motivo de seu gesto, Lukas rapidamente decifra a expressão no rosto de Anastácia e antecipa a resposta.
— Não me sinto confortável em dividir o mesmo lugar que vocês. Talvez seja apenas uma frescura minha, mas penso que ao por os calçados juntos de duas damas, sinto-me invadindo o espaço pessoal destas.
— Mmmm… se você acha isso…
Sem se importar muito com a resposta enigmática de Lukas, Anastácia segue em direção ao final do corredor e para em frente ao quarto de Isabel, batendo na porta com leveza e aguardando uma resposta da garota.
TOC! TOC!
— Mãe Anastácia? A senhora trouxe o professor Lukas para entender minha situação?
De dentro do quarto, uma voz abafada é ouvida, compreendendo imediatamente a situação. Não só a identidade da visita, mas também o motivo pelo qual ela está ali. Lukas exibe um semblante surpreso, enquanto Anastácia simplesmente assente em resposta.
— Sim, eu o trouxe para ver o que aconteceu com seu corpo. Você não se importa, não é?
— Claro que não, por que me importaria? A senhora parece está muito preocupada com isto. Então compreendo suas ações.
— Muito bem. Entrarei agora.
Ao se virar para o seu lado, Anastácia pede que Lukas aguarde para avaliar a situação de Isabel antes de tomar qualquer atitude.
— Certo, Lukas, antes de entrar, irei primeiro enquanto você aguarda aqui. Não é nada sério. É que…
Com um sorriso de compreensão no rosto, Lukas capta a mensagem implícita de Anastácia e responde prontamente.
— Tudo bem, eu espero até se sentir confortável com isso.
— Eh? Ah… okay…
Anastácia sente uma pontada de admiração ao perceber a compreensão infinita de Lukas ao seu lado. Não hesitando por muito tempo, ela adentra no quarto com rapidez e fecha a porta atrás de si.
Passados alguns minutos, um grito repentino ecoa do quarto, fazendo com que Lukas se assuste do lado de fora.
— O QUÊE!!? MAS O QUE É ISTO!?

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