Capítulo 78.1 ❃ Negócios e Mistérios no caminho a Cidade das Trocas.
6º dia do mês, Grande Inverno. Grande Floresta de Arrow [Periferia] – 02:30 AM.
Em um local afastado, separado por uma considerável distância do acampamento montado pelos moradores do vilarejo, um pequeno grupo de soldados vestindo armaduras metálicas completas enfrenta uma alcateia de Lobos da Noite.
As armaduras dos soldados são verdadeiras obras de arte, ornamentadas com entalhes e adornos em aço polido. Refletem os brilhos prateados das luas no céu, as luzes turquesa e avermelhada. Cada soldado carrega uma espada longa e um escudo torre, — este último ostentando a insignia de um vulcão em chamas.
Enfrentando a alcateia, os soldados se dividem em grupos de três, encarando cada Lobo da Noite com coragem. Os lobos, menores que o encontrado anteriormente por Isabel e Lukas, possuem olhos amarelados que parecem brilhar no escuro da noite.
Suas garras são afiadas como navalhas e suas presas como estacas de aço.
Cada investida deles é mortal, mirando os membros dos soldados para incapacitá-los.
Os sons de lâminas chocando-se e escudos sendo golpeados preenchem o ar noturno.
No cenário, uma carruagem destruída atrai a atenção.
Seu teto foi arrancado, expondo os bancos ornamentados revestidos de felpudo vermelho. As rodas estão destroçadas e as portas foram arrancadas.
Próximos a ela, cavalos mortos exibem marcas de mordidas e garras, — provavelmente infligidas pelos lobos da noite.
Sentada no banco do cocheiro, uma mulher de longos cabelos negros com mechas cacheadas, presos em um rabo de cavalo, encara a cena com olhos afiados de coloração vermelha.
Ela veste uma deslumbrante armadura que lembra aço, com entalhes de chama por toda a superfície. Seu torso, esculpido como uma armadura de um vestido, é adornado com placas metálicas de ébano que alternam entre tons de vermelho e vinho. Luvas de couro com malha e ombreiras, também da cor ébano, complementam seu visual. Seu cabelo, segurado pelo rabo de cavalo, é emoldurado por um laço fofo de cor vermelha.
Acompanhada de uma capa vermelha, ela segura uma espada longa negra com runas vermelhas na superfície, usada como apoio para sua cabeça enquanto observa a luta dos companheiros.
Sua expressão reflete uma profunda concentração e desânimo.
Durante sua jornada até Nakkie, seus cavalos foram mortos por Lobos da Noite, deixando sua carruagem parada.
— Argh… Francamente… que tédio… — Sua expressão de enfaro é evidente enquanto seus olhos percorrem preguiçosamente o conflito entre os soldados e os Lobos.
”Quanto tempo eles irão demorar para derrotar logo esses lobinhos sem graça? Me falaram que na região sul de Nakkie, seguindo sua rota até a cidade, tinham visto um grande Collurso mutante de dez metros, mas não esperava que apenas esses lobinhos estragassem minha viagem…”
A mulher sabe que poderia eliminar os cinco Lobos com facilidade usando sua espada, mas compreende que isso não resolveria o problema da carruagem e dos soldados.
Um pesar profundo toma conta dela enquanto expira com desânimo. No entanto, algo inesperado ocorre na batalha, rompendo a monotonia de seus pensamentos.
Um dos soldados avança contra o Lobo da Noite, empunhando seu escudo, desferindo um golpe poderoso na besta mágica. Logo atrás, outro soldado investe com sua espada pronta para apunhalar o monstro.
O lobo, longe de ser uma presa fácil, tenta se recuperar do ataque com o escudo e esquivar-se da investida do próximo soldado.
Todavia, um terceiro soldado cai sobre a besta vindo de cima, impedindo qualquer tentativa de fuga, e sua espada é cravada com precisão no meio da cabeça do Lobo da Noite.
— Yeh!
— Isso! Eu disse que essa tática era infalível!
— Claro que era, achou mesmo que eu iria pular por cima dessa besta se não fosse?! Hahahah!
— Certo, chega de papo furado, vamos ajudar os outros… — Os três soldados celebram a vitória sobre a fera, correndo em seguida para ajudar seus companheiros.
— Opa, opa! Parando aí vocês três! — A mulher na carruagem, observando a cena, decide não permitir que os soldados auxiliem os outros.
— Esqueceram do que se trata essa luta? Eu dividi todos os grupos para enfrentar um lobo da noite e fortificarem sua resistência e força. Se não fosse por isso, acham mesmo que eu ficaria aqui apenas olhando essas cadelinhas vivas depois de terem destruído a minha carruagem?
— Sim, senhora! Entendemos. Não tivemos olhos para apreciar o seu capricho, peço que nos perdoem.
— Argh… vocês são muito sérios… — Em seus olhos, essa situação é uma oportunidade de aprimorar o desempenho dos combatentes. Ela separou cada trio para lidar com um Lobo da Noite, planejando que os melhores grupos saiam vitoriosos, enquanto os outros sofram as consequências de uma derrota contra a besta.
Logo em seguida, um segundo trio consegue derrotar o próximo Lobo da Noite, comemorando sua conquista.
As armaduras deles estão manchadas de sangue e pedaços de carne da fera, um testemunho da feroz batalha que acabaram de travar.
De repente, um uivo forte ressoa por todo o local, ecoando como um último lamento de uma fera prestes a ser derrotada.
Os Lobos da Noite, que estavam engajados na luta com os soldados, abruptamente cessam seus ataques e recuam alguns passos. Levantam suas cabeças e ficam atentos ao uivo, um som que os compele.
Com determinação, eles abandonam a luta e correm em direção ao som misterioso.
Os soldados, — alguns exaustos, outros perplexos, observam confusos essa mudança súbita de comportamento dos lobos.
— Que estranho… por que será que esses lobos pararam de nos atacar assim que esse uivado surgiu? Comandante, tem alguma opinião sobre?
A mulher, apoiada em sua espada, comenta que esse som é típico dos Lobos da Noite Alfa:
— Mmm… Provavelmente o ataque dessa noite pode ter sido orquestrado por um Lobo da Noite Alfa. Isso explicaria como nossos cavalos foram atacados primeiros e depois a carruagem. Lobos da noite comuns não teriam tal entendimento para bolar algo assim, além do mais, após este uivo, acredito que este alfa tenha percebido que a luta conosco não seja vantajoso e chamou os lobos de volta…
Sem aviso, um estrondo retumbante, acompanhado por um clarão azul no céu, irrompe pelos arredores.
O solo treme sob os pés dos presentes.
”Mas que caralhos…” A mulher rapidamente se põe de pé, atentamente encarando a direção do som de trovões, que coincide com a origem do uivo anterior do Lobo da Noite Alfa.
Um dos soldados, notando a expressão da mulher, pergunta se talvez um mago esteja travando uma batalha contra o Alfa naquela direção:
— Comandante, este som de raios… será que algum tipo de mago estava enfrentando o Alfa esse tempo todo…?
— Talvez… Eu… — Enquanto observa o céu claro e repleto de estrelas, ela relembra cada momento do estrondo dos raios, acompanhado pelo inusitado clarear dos céus.
”Com certeza deve ser algum tipo de mago divergente… mas qual mago desse porte estaria fazendo nesse local. Sua magia é a mais refinada que eu presenciei até hoje, mesmo de longe, senti suas flutuações de mana… Com certeza foi um feitiço extremamente poderoso” Ela se questiona sobre qual mago poderia dominar o atributo raio com tamanho domínio. Esse som concentrado era, sem dúvida, o mais impressionante que já ouvira.
”Será que algum mago nobre estava passando por aqui e foi surpreendido também pelos lobos da noite? Ou será que seja algum tipo de aventureiro de plaqueta de Platina? Porém, algo está errado… por que não há mais feitiços sendo lançados? Será que ele matou o Alfa ou…”
Ela vira seu olhar para um dos soldados, confirmando suas suspeitas:
— Você está certo, soldado. Com certeza há algum mago divergente do atributo raio naquela área lutando com o Alfa esse tempo todo. Creio que minha teoria anterior esteja meio errada, o uivo de agora a pouco deve ter sido a convocação do Alfa para lhe oferecer apoio…
— Então isso significa que esse mago divergente está derrotando o Alfa, não é? Isso é uma coisa boa! Comandante, a senhora… — O soldado demonstra contentamento com a notícia, mas a expressão séria persiste no rosto da mulher.
— Qual é o problema… comandante…? Será que não é um mago poderoso…?
— Argh… eu não sei… Meu coração está desconfortável. Esse feitiço de raios de agora foi incrivelmente poderoso, a pressão magica liberada foi realmente enorme, mas… algo não está certo. Esse ultimo ataque foi forte o suficiente para varrer esses cinco Lobos da Noite de uma vez, então… se esse mago está lutando com um alfa, por que ele não está lançando mais destes raios?
— A senhora está supondo que… esse ultimo ataque…
— Sim, pode ter sido um último recurso contra o Alfa.
O soldado fita sua comandante incrédulo.
Em sua mente, os magos divergentes são seres de grande poder, capazes de realizar feitiços extraordinários ao combinar diferentes atributos mágicos. Ele jamais imaginaria que um deles estaria em tal apuro.
Retirando seu elmo, revela um semblante marcante, com cabelos ruivos dourados e olhos âmbares que brilham sob as luas.
Ele se dirige à comandante, pedindo permissão para se juntar aos companheiros e ajudar o mago:
— Comandante, nos de a ordem de ajudar nosso companheiro mago que está em apuros. Se juntarmos nos quinze, com certeza iremos eliminar essa ameça em um instante!
— Não permito. — Porém, ela nega seu pedido.
O soldado a encara com incredulidade, surpreso que ela não esteja disposta a ajudar alguém em perigo, especialmente considerando que o mago, de certa forma, os auxiliou contra os Lobos da Noite.
— Minha comandante, por favor, reconsidere! Nós… — O homem tenta argumentar, mas é cortado por ela.
— Fique quieto! Não faça escanda-los! Nenhum de vocês conseguem nem ao menos lutar de frente contra um lobo da noite sozinhos, como vocês tem a audácia de se pôr em perigo desse jeito por causa de um estranho? Nem sabemos que ele é um aliado ou não!
— Mas comandante, mesmo que não seja alguém bom, eles nos ajudou agora pouco! Com certeza…
— Droga! Há merda em sua cabeça, soldado? Acabei de dizer que vocês não são páreos para um Alfa com a força que vocês têm! Por que continua insistindo em jogar suas vidas fora!? Se não dá valor a vida, torne-se meu escravo e lute ao meu lado, será muito mais útil do que morto!
Um choque de realidade inunda a mente do soldado. Anteriormente, ele acreditava que seu pedido negado tinha como objetivo suprimir a ajuda necessária, mas agora compreende que, desde o início, a recusa visava preservar sua segurança e a de seus companheiros.
— Per-Perdoe-me comandante! Este subordinado não teve olhos!
— Não seja tão sério. — A comandante, habilmente, desce da carruagem determinada a seguir na direção para onde os lobos fugiram.
— Se nem um mago divergente consegue lidar com esse Alfa, com certeza a algo de estranho nessa criatura…
”Talvez esteja relacionado com o relato do Collurso mutante que ouvi antes de vir…” Um pensamento nebuloso invade sua mente enquanto tenta unir as possibilidades. Embora não tenha posto os olhos no Collurso Mutante, os relatos daquela fera terrível aterrorizaram a todos. Se o Lobo da Noite Alfa foi, de alguma forma, afetado por essa característica, a situação poderá se tornar alarmante.
— Vigiem o local, eu irei lá, dá uma olhada. Verei se ele ou ela precisa de uma mãozinha… e talvez… se eu salvá-lo… irei pedir uma compensaçãozinhaa~…!
O soldado sorri levemente, lembrando-se da propensão de sua comandante em exigir “recompensas” ou “favores” por suas ajudas. Enquanto ela se afasta, ele a chama de volta para informá-la de que deixou sua espada na carruagem:
— Minha senhora! Sua espada, ela está…
— Ah! Certo, quase ia esquecendo da minha Morgan! — Com um gesto de mão habilidoso, ela atrai a espada em sua direção, fazendo-a voar até suas mãos. O brilho negro da lâmina corta o ar, conferindo-lhe um toque sobrenatural.
Ela a agarra com firmeza, preparando-se rapidamente para o confronto iminente.
— Melhor eu ir logo! — Seus passos ganham ímpeto enquanto ela dispara em direção ao perigo.

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