Índice de Capítulo

    Os aposentos do conde estavam cheios.

    A condessa insistiu em falar com Dara assim que soube de sua chegada, mas não era a única ali. Emelia veio dar apoio a amiga, Mirabel estava sentada ao lado da irmã e até Sam compareceu.

    Siegfried foi o último a entrar e, assim que fechou a porta, recebeu um olhar carrancudo da lady Gaelor; ela não o havia chamado e nem estava feliz com a sua presença, mas não o expulsou.

    Dara estava sentada na cama, bebendo um copo de leite quente. A essa altura, a garota já tinha se lavado e trocado o vestido enlameado e rasgado por um novo, feito de seda e com cheiro de rosas. Os dois trocaram olhares por um momento e então ela prosseguiu com sua história:

    — Eu ouvi eles conversando, quando estávamos fugindo. Alguns deles queriam… Me machucar. Disseram que muitos amigos tinham morrido por minha causa. Dois garotos tentaram me atacar, mas tinha essa mulher loira que era a mais velha deles. Ela não deixou. Disse que eu era uma refém valiosa. Que Eradan me queria ilesa.

    — Eles devem ter te confundindo comigo — disse Emelia. — Me desculpa. Se não fosse por minha causa…

    — Não. E-eles sabiam quem eu era.

    — O que quer dizer? — a condessa interveio. — Como assim ‘sabiam’ quem era você?

    — Uma das garotas, a ruiva. Ela me chamou pelo nome. Pelo meu nome. Dara. Achei que fosse ficar irritada, que ia contar pra todo mundo e depois me matar. Então eu menti e falei que era a Eme, mas ela riu e disse que já tinha me visto antes, na execução do vovô. Foi aí que ela me contou. Disse que eu era uma moeda de troca…

    A garota fez uma pausa, tocou o peito e então continuou, encarando o chão:

    — Disse que eu devia me casar com alguém.

    O quarto ficou em silêncio por um momento, até que Siegfried interveio e perguntou:

    — Quem!?

    — Ela não disse. Na manhã seguinte, um pouco depois da gente seguir viagem, um rapaz veio correndo e disse que estávamos sendo seguidos, então a mulher mais velha pegou cinco das garotas e mandou os outros me levarem pras ruínas. Ninguém mais falou comigo depois disso, mas ouvi os garotos reclamando que não tinham recebido reforços. Um deles falou de uma invasão. Que iam queimar o condado até as cinzas. Disse que estavam perto disso.

    — Uma aliança.

    As crianças o olharam como se tivesse acabado de dizer que dragões são porcos com asas.

    — Isso explica tudo — continuou. — Como tomaram a Torre da Justiça tão rápido. Por que Eradan fez uma oferta de casamento tão ousada. E tá na cara qual foi o preço que os aliados dele cobraram.

    — Eu? — Dara parecia chocada. — M-mas, por quê? Não faz sentido.

    — Faz sim — disse a condessa. — O conde Essel é um velho, bem pra lá dos seus cinquenta anos e só teve uma filha, sua prima, a mãe da duquesa Elsbeth Greenguard. Não tem nenhum herdeiro masculino na sua linhagem direta. O que é a mesma coisa que dizer que o condado de Essel não tem herdeiro nenhum. E então temos o seu pai, o irmão mais novo do conde…

    — N-não, mas…

    — Espera — interveio Emelia —, mas a Dara também é uma garota. Nesse caso, o herdeiro não seria o Dorian?

    Por um momento, o coração de Siegfried parou. Onde estava Dorian? A última vez que o viu, ele estava voltando para o Salão. Na floresta. Sozinho.

    “Porra!”

    Mas a condessa nem se importou:

    — Não existe um único homem nesse reino que daria a vida pra colocar alguém menos poderoso no poder. Dorian é um garoto, é verdade, mas é também uma criança. Ele não tem exército, feitos e nem amigos influentes. Está isolado política e militarmente. Você, por outro lado, é a desculpa perfeita pra se começar uma guerra.

    Dara estremeceu.

    — Seus filhos serão da linhagem Essel. Se seu marido tiver um exército grande o bastante, isso é tudo o que importa. Seja lá quem for que te quer, sabe disso e aposto que já tem o poder pra tomar o condado, só falta uma desculpa. Mas isso não faz sentido…

    A condessa ficou pensativa por um momento e andou pelo quarto, inquieta, antes de continuar:

    — ‘Minha esposa é a herdeira legítima do conde Essel.’ Mesmo que digam isso, a Isabella ainda está na frente na linha de sucessão, e sua filha é a duquesa, então é claro que as terras passam pra ela quando o seu pai morrer. A linhagem direta tem a melhor reivindicação, mesmo que seja uma mulher viúva. Um garoto de um ramo menor já teria alguma dificuldade em roubar essa reivindicação, mas uma garota? Mesmo te usando, a duquesa nunca vai aceitar a legitimidade desse governo, e o príncipe Helmut não está em posição de contestar isso. Mesmo que vençam, vão chamá-los de traidores e executá-los. A menos que…

    Siegfried foi o primeiro a entender:

    — A menos que eles não estejam do lado do príncipe Helmut.

    A condessa pareceu até assustada de ouvir em voz alta o que estava pensando, mas ele seguiu em frente:

    — Se não me engano, o conde Essel apoiou a família Graylock desde o começo, o que faz dele um traidor aos olhos dos lealistas do Rei Negro. E a duquesa Greenguard também. Isso me parece uma desculpa boa o bastante pra tirar ela da linha de sucessão. ‘Minha esposa é a herdeira legítima do conde Essel, porque ele e sua filha são traidores.’

    — Espera — disse Mirabel. — Se eles não estão do lado do rei Helmut, isso não quer dizer que são nossos aliados? Por que ajudariam um rebelde? Quero dizer, eles sabem que o Eradan tá atacando a gente, né?

    — Eles não se importam — respondeu Sam. — Precisam da Dara, mas não da gente. Se pedissem ela em casamento, teriam que nos dar algo em troca, mas se a sequestrarem…

    Então todos os olhos se voltaram para a garota assustada sentada na cama.

    “Um traidor dentro do exército do Rei Negro. Isso vai ser divertido.”

    — Ainda não sabemos disso — insistiu a condessa. — Não temos provas de nada. Eradan já tentou buscar apoio dos nobres antes e todos o ignoraram. Talvez seja só um pirata qualquer ou mercador rico querendo uma garota fácil. Está cheio deles por aí, acham que podem limpar a sujeira do seu sangue se puserem um bebê na barriga de uma donzela nobre. Não importa.

    Então foi até o centro do quarto, bem ao lado de Siegfried, e observou seus filhos e sobrinhos:

    — Até que o meu marido volte, vocês quatro estão proibidos de deixarem este salão! Terão uma escolta o tempo inteiro e voltarão pra este quarto depois da janta, entenderam!?

    Nenhum deles respondeu, mas todos pareciam concordar. De repente estavam muito cientes da sua posição. Não eram mais crianças, eram moedas de troca. E alguém estava tentando roubá-las.

    Siegfried já estava indo embora para arrumar as escoltas, quando Dara se levantou em um salto e gritou:

    — Espera! E-ele tem que ficar aqui!

    A condessa era boa em esconder suas emoções, mas o rapaz já estava bastante acostumado com o desprezo dela para notar a raiva silenciosa na pausa que fez antes de responder:

    — Ele é o capitão da guarda. Seu lugar é lá fora.

    — Ele me salvou!

    — Ele não precisaria, se tivesse feito bem o seu trabalho, não é mesmo?

    — E qual a melhor forma de nos proteger, do que aqui dentro, tomando conta da gente? Se alguma coisa acontecer, ele já vai estar aqui.

    — Se alguma coisa acontecer, eu espero que ele esteja lá fora, resolvendo isso. Não aqui dentro, se escondendo com as mulheres e crianças.

    No fim, a condessa venceu.

    Mas na manhã seguinte, Siegfried acordou no chão do salão e encontrou Dara dormindo aninhada em cima dele, com a cabeça descansando em seu peito e a mão deslizando por baixo da sua blusa.

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