Índice de Capítulo

    — 24 homens — repetiu Siegfried depois de receber a contagem de Elly. — E mais sete feridos que não vão servir pra nada até o verão. E quanto ao Dorian? Alguma notícia dele?

    — Nada ainda, senhor — respondeu a sargento. — Enviei um grupo até a floresta pra procurá-lo, como ordenado, mas eles ainda não voltaram.

    — Então estamos reduzidos a vinte soldados. Metade do que tínhamos algumas semanas atrás. Como perdi tantos?

    — Não foi sua culpa, capitão.

    — Tudo o que acontece aqui é minha culpa! Aqueles malditos rebeldes nunca deviam ter chegado tão longe, eu não podia perder tantos homens, a Dara nunca devia ter sido capturada e era minha responsabilidade manter o mensageiro vivo…

    — Capitão…

    — Aumente as patrulhas noturnas, quero duplas rondando cada canto desses muros. Divida os turnos em três por três a partir de agora, não vai ter mais folga. Todos os homens que puderem andar estão em serviço de vigília. Também vamos cancelar os treinos matinais, não quero ninguém desmaiando de exaustão no serviço.

    — Sim, senhor.

    Enquanto Elly se virava e ia embora para cumprir suas ordens, Siegfried ficou para trás, encarando a paisagem branca ao seu redor. O vento matinal gelava seus ossos e os flocos de neve cortavam sua pele como finas agulhas de gelo.

    “Vinte homens.”

    Cerrou os punhos e sentiu o sangue ferver. O conde confiou a ele sua casa, mas o que receberia quando voltasse? Meia guarnição, um crime de guerra e o seu sobrinho desaparecido. Deixou escapar um sorriso, mas não de felicidade.

    “A condessa vai falar por horas.”

    A maioria dos guardas se mantinha leal e até as servas pareciam ainda tê-lo em alta estima, mas alguns deles já estavam sendo cooptados pela lady Gaelor.

    Claro, tinha capturado os rebeldes, mas foi ela quem ordenou as execuções, por isso levava o crédito. Havia também uma facção separada se formando entre os guardas; alguns deles ainda eram leais a Igmar e estavam se aproveitando do ressentimento dos outros para virá-los contra seu vice-capitão.

    Aparentemente, Walder tinha acabado de engravidar uma das servas antes de morrer e Erik era um rapaz bastante popular; embora tenha sido a condessa quem o expulsou do Salão, ainda haviam aqueles que o culpavam por essa decisão:

    — Ela não teria feito isso, se ele não estivesse cego — diziam.

     A única coisa boa que tinham para dizer a seu respeito era o fato de ter ‘perdido’ Dorian.

    “Melhor do que nada”, brincou.

    Já estava voltando para o salão quando viu Emelia atravessar o pátio em direção à casa de banho e a seguiu.

    A condessa não confiava mais nos guardas, por isso ordenou que as servas também ficassem de olho em seus filhos, mas mesmo elas tinham os seus próprios deveres a cumprir e agora a jovem estava sozinha.

    Siegfried a encontrou quando estava começando a se despir, com a parte de cima do vestido baixa até a cintura e os pequenos seios nus. Quando o viu, cobriu o peito com as mãos e recuou:

    — S-Sieg? O que você–?

    — Precisamos conversar!

    Ele não esperou uma resposta. Trancou a porta e se aproximou dela, que recuou até ficar de costas contra a parede. Quando o rapaz finalmente parou, estava tão perto que podia sentir a respiração pesada dela em seu peito e o cheiro doce de amêndoa no seu cabelo.

    Era a mais alta das garotas, mas cinco centímetros mais baixa que ele e parecia ainda menor encolhida daquele jeito.

    — Agora — ele disse —, fale da Gwen!

    — Hã?

    — No dia da invasão, você disse que ela tinha um plano… Ela é uma rebelde?

    — E-eu…

    Por um momento, a garota o olhou nos olhos e o rapaz pôde ver o seu rosto corado, mas seja lá o que ela viu nele, a deixou muda e a fez fitar o chão com muito interesse, fugindo do contato visual.

    — E-eu não… Não sei do que cê tá falando… — disse, enrolando as palavras enquanto deslizava o corpo lentamente para o lado, tentando escapar.

    Siegfried bateu a mão na parede ao seu lado, bloqueando seu caminho, e ela tomou um susto quando parou de se mover.

    — Eme!

    — Ah! Ah!

    — Eu preciso saber! Oito dos meus homens estão mortos, a Dara quase foi sequestrada e o Dorian tá desaparecido. Se você sabe de alguma coisa, tem que me dizer! Foi ela!? Foi a Gwen que ajudou eles a invadirem?

    — Por favor…

    — O que ela te contou!? Qual era o plano!?

    — …

    — Eme!

    — O meu pai!

    — …

    — E-ela ia matar o meu pai… Nunca devíamos ter traído o rei Helmut, disse isso a ele. Disse um milhão de vezes. Até uma criança pode ver que o Rei Negro é maligno. Olhe o que ele fez com o nosso reino.

    — Do que você tá falando?

    — Ela é uma assassina. A igreja a enviou pra trazer a paz do rei de volta ao condado. Mas eu juro que não sabia que ia ser assim! E-eu nunca achei que ela fosse ajudar os rebeldes, tem que acreditar em mim. Pensei que fosse você. Achei que fossem matar o meu pai juntos, então alguma casa do norte marcharia com seus homens até os nossos portões, nós nos renderíamos e tudo ia voltar a ser como antes. Se eu soubesse… Não quero me casar com Eradan…

    Sem dizer uma palavra, Siegfried se afastou.

    “Uma assassina da igreja.”

    Deuses, isso explicaria tanto. As coisas que sabia, que podia fazer, o porquê nunca fugiu. Ela o estava usando e isso o encheu de raiva.

    — Sieg? — chamou Emelia, levantando a parte de cima do vestido, ainda com uma mão cobrindo os seios, como se o tecido não fosse mais o bastante. — O-o que você vai fazer?

    O rapaz se limitou a dar um breve olhar de relance à garota; não queria assustá-la, mas ela recuou assim mesmo, então ele foi embora.

    Elly o ajudou a fiscalizar a fortaleza e mais tarde levou as crianças para treinarem; Mirabel tinha o melhor jogo de pés, mas seus braços cansavam rápido diante do peso da espada e do escudo, o que dava a Sam uma vantagem.

    O garoto a pressionou com alguns golpes cada vez mais fortes, forçando ela a levantar o escudo e se esconder embaixo dele, até que se distraiu por um momento, olhando para Siegfried, e Sam aproveitou a oportunidade para encaixar um golpe que a derrubou no chão.

    Mirabel caiu de costas na neve fofa, ofegante de cansaço, e Sam fez o mesmo, se jogando para trás. Apesar do frio, estavam ambos empapados de suor e ficaram ali deitados um bom tempo, falando sobre esse ou aquele golpe que deram ou pretendiam dar.

    A condessa apareceu não muito depois e foi só então que o rapaz notou ter anoitecido.

    — Não são eles que precisam treinar — ela disse. — Talvez se seus homens passassem mais tempo nesse pátio e menos no bordel, os rebeldes não tivessem matado tantos.

    Quando Siegfried não respondeu, ela se virou e foi embora com as crianças.

    O rapaz ficou ali por muito mais tempo, parado no meio do pátio de treinamento, enquanto a neve o cobria como um manto de gelo.

    “O que você vai fazer?”, a pergunta o assombrou o dia inteiro. Fez de tudo para não pensar no que Emelia havia dito, fugindo da questão, mas foi só depois de falar com a lady Gaelor que encontrou a resposta.

    O bordel da Elenor estava movimentado como de costume quando chegou. Podia sentir o calor das lamparinas e do fogo na chaminé abraçarem seu corpo, mas não eram os únicos; duas garotas vieram do nada e começaram a beijar seu pescoço. O perfume delas era de rosas, álcool e sêmen.

    Quando uma delas tentou beijar sua boca, o rapaz se afastou e foi atrás de Elenor.

    A encontrou em um dos quartos no andar de cima, debruçada sobre Brynna, enquanto beijava o seu pescoço, descendo até seus pequenos seios e a barriga lisa. 

    A garota mais nova lutou para abafar os gemidos, mas então a cabeça de Elenor deslizou por entre suas pernas; Brynna estremeceu, jogou a cabeça para trás, agarrou os lençóis e deixou o som escapar.

    Quando o viu, já estava ofegante e com o rosto vermelho. Ela tentou dizer algo, mas tudo o que saiu foi outro gemido abafado, então tampou a boca com uma mão e tentou empurrar a cabeça de Elenor para longe com a outra, mas de nada adiantou; a mulher mais velha se limitou a segurá-la com mais força, até que se rendesse. 

    Terminou alguns segundos depois, bem na hora em que o rapaz estava prestes a fechar a porta e esperar do lado de fora.

    — Eu também cobro pra assistir, sabia? — brincou Elenor, com um sorriso lascivo no rosto molhado.

    Brynna se apressou em levantar da cama, mas assim que seus pés tocaram o chão, as pernas dela ficaram bambas e a garota caiu de joelhos, engatinhando até as roupas jogadas ao pé da cama, seu rosto tão vermelho que mais parecia um tomate, mas Elenor não estava nem sequer corada e não fez a menor menção de se vestir, ao invés disso, caminhou até a prateleira e encheu uma taça de vinho:

    — Tá atrasado. Esperei você uma semana atrás, mas acho que cê teve um bom motivo, né? Fiquei sabendo da invasão.

    — É por isso que eu vim.

    — Se for sobre o Dorian, eu já tô na sua frente. Falei com uns caçadores furtivos… Hum, quero dizer, caçadores ‘autônomos’. Enfim, eles já tão procurando o fedelho. Assim que eu souber de algo, te aviso.

    — Eu não dou a mínima pro Dorian.

    — …

    — Estou atrás da Gwen!

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota