Capítulo 0080: A Revolta das Rosas
Siegfried limpou os dedos na calça e então voltou a tatear sua nuca. Uma faca de pão teria cortado mais fundo, mas não restavam dúvidas. O ferimento estava lá. No mesmo lugar em que sentiu o machado cortar seu pescoço.
Mas aquilo tinha sido apenas um sonho. Como o corte podia ser real?
Então lembrou do que a Irmã Serena havia dito:
— Lorde Dragoslav leva as promessas muito a sério… Assim como aqueles que as quebram.
Seria possível? Tinha ouvido histórias. Quando os homens desagradam aos deuses, os monstros caminham sobre a terra para puni-los. Algo que acontecia com bastante frequência, especialmente nas lendas anãs.
Em algumas delas, Maldrek não era mais que o cão de caça e açougueiro de Dragoslav. Quando os anões lhe desagradavam, o Senhor das Montanhas soltava as correntes e permitia que o seu irmão corresse livremente.
Certa vez, há milhares de anos, um herói anão qualquer assassinou seu rei e tentou assumir o trono. Seu reinado durou apenas dois anos, até que Maldrek enviou um gigante para derrubar a montanha em cima de sua cabeça e esmagar o usurpador.
“E agora enviou fantasmas para cortar a minha cabeça durante o sono”, o pensamento fez subir um arrepio pela sua espinha.
Estava tão perdido em histórias e lendas, que quase não notou os cavalos relinchando em pânico, mesmo que fossem três e estivessem a menos de dois metros dele, amarrados na árvore ao lado.
Ele não era o único acordado.
Na Vila do Lago, mulheres gritavam com toda a força de seus pulmões, quase ofuscando o som de aço e gemidos de dor. O som da batalha.
“Rebeldes!”
Não sabia como, nem o porquê. Nada havia na vila além de mulheres. O acampamento deles ficava mais para oeste, onde a torre estava sob cerco. Todos os seus homens e seguidores de acampamento estavam lá. A única coisa que conseguiriam na vila, seria perder o elemento surpresa e cansar as próprias tropas.
Seja como for, era onde a batalha estava e para onde os recrutas iam, correndo do acampamento para a vila de forma desordenada; sozinhos, em duplas, às dúzias.
“Que merda tá acontecendo?”
Quando viu o conde cavalgando à frente da sua tropa de mortos-vivos, a resposta deixou de ter importância; vestiu a brigantina, pegou o escudo, montou em seu corcel negro e avançou até o vilarejo.
♦
Assim que Siegfried se aproximou da vila, mudou a cavalgada para passo lento; as ruas já estavam enlameadas bem antes da chuva que começava a cair sobre ele, e um manto de neblina cobria os cascos do cavalo. Se acelerasse, o mais provável é que fizesse o animal quebrar a perna.
Tinha dado a volta no lago e entrado pelo lado norte da vila, enquanto os soldados vinham pelo oeste, direto do acampamento.
A chuva nos telhados de sapé atrapalhava, mas o som de aço contra aço era mais forte, e mesmo a lama não conseguia afastar o cheiro de sangue. Ali não havia ninguém além dele, mas se fechasse os olhos, era como se estivesse bem no meio do campo de batalha.
Estava atravessando o beco entre duas casas de madeira, quando viu uma garota cinco anos mais velha correndo em sua direção. Ela parou assim que o viu. Tinha o vestido rasgado, manchado de sangue e lama, com os braços cobertos de cortes e o rosto tão pálido como se tivesse visto um fantasma. Quando ela não se mexeu, disse:
— O que está esperando!? Aqui é perigoso! Vai!
A garota não pensou duas vezes e correu. Mais rápida que uma lebre fugindo de um lobo.
Então desembainhou a espada e foi atrás da batalha; o que não custou a encontrar. Três dúzias de soldados estavam espalhados pelo vilarejo, atravessando suas lanças em mulheres armadas com panelas, pedras e qualquer coisa que pudessem encontrar; algumas até tinham facas, foices e outras lâminas enferrujadas.
“Eles enlouqueceram?”
As mulheres tinham a vantagem por dez ou vinte, e muitos soldados pareciam bêbados, mas elas tinham poucas armas e logo recuaram das lanças. Siegfried pensou que iriam debandar, ao invés disso, formaram uma espécie de círculo ao redor dos homens. Se comparado a eles, as mulheres se moviam em perfeita sincronia.
Mas pouco bem lhes fez.
Os soldados não tinham treinamento, mas tinham lanças e isso bastava. Alguns deles lideraram uma carga e o resto os seguiu, sem pensar muito no assunto.
Elas desperdiçaram uma boa formação por medo e falta de experiência. Se tivessem começado a fechar o círculo, poderiam tê-los pego por trás e pelos lados; perderiam as mulheres na dianteira, mas matariam o dobro, talvez o triplo.
Agora já não tinha mais importância.
Os soldados romperam a formação como se não fosse nada. Suas lanças atravessando pescoços e estômagos com total desapego, matando mulheres jovens e velhas, sem distinção.
Algumas garotas jogaram coisas, outras fugiram, mas a maioria congelou e morreu.
Era uma loucura.
— JÁ CHEGA! — gritou o conde. Estava do outro lado da vila, bem depois da confusão de corpos à sua frente. Nem sequer podia vê-lo, mas sua voz trovejava como se estivessem ombro a ombro.
Os soldados pararam e as mulheres finalmente fugiram, deixando para trás os seus mortos e feridos, enquanto se espalhavam por todas as direções; algumas delas passaram bem ao lado de Siegfried, outras entraram em becos para evitá-lo, mas o rapaz não deu atenção a nenhuma delas e seguiu cavalgando até onde o conde estava, passando pelos cadáveres e moribundos.
Viu uma idosa meio afundada na lama, depois de ter caído no chão e sido pisoteada até a morte. Um recruta teve o crânio esmagado e a barriga esfaqueada meia centena de vezes, mas aquela que o matou também estava morta; uma mulher de vinte e tantos anos com uma lança quebrada atravessada no pescoço, mas que ainda segurava a faca que usou para apunhalar o rapaz.
Haviam mais, muito mais. Dezenas. Quase uma centena, largados pelos becos e ruas, às portas de casa e por cima uns dos outros. Nem todos estavam mortos, alguns coxeavam atrás de seus amigos e outros gemiam de dor no chão.
E para cada homem caído, havia quatro mulheres.
Que merda tinha acontecido?
Foi encontrar o conde montado em seu andaluz branco, à frente dos soldados esqueletos, que permaneciam em forma. O barão Kessel estava ao seu lado, montado em seu cavalo marrom, mas quando Siegfried chegou até eles, já tinha recebido suas ordens e virou a montaria, passando a trote pelas ruas:
— Atenção, homens! — gritou o lorde Kessel. — Comigo! Tragam de volta todas as mulheres que escaparam! Vivas!
Os soldados se reuniram ao redor do barão e ele os liderou em sua caçada. Siegfried considerou ir com eles, até que ouviu o conde chamá-lo:
— Siegfried!
— Vossa graça.
— Humpf. Não me diga que também fez parte dessa loucura.
— Não, senhor.
“Eu acho.”
O barão Dalton chegou logo depois, acompanhado de perto pelo filho. Quando parou ao lado do conde, estava tão vermelho e ofegante que era como se tivesse sido ele quem veio correndo, não o seu cavalo:
— Vossa graça, sinto muito pelo atraso.
— Não se atrasou, chegou bem na hora. Reúna os sobreviventes e leve-os de volta ao acampamento. Prenda todos que fizeram parte nesta confusão, mulheres e soldados. Todos eles. Têm muito a explicar.
O barão parecia confuso, então deu uma olhada na situação ao seu redor; alguns soldados já se adiantavam em ajudar os colegas feridos, outros saqueavam os mortos, feito abutres. Quando se deu por satisfeito de observar, o velho barão fez uma pequena reverência, virou a montaria e se apressou em ladrar ordens aos homens.
Por sorte, havia mais mortos do que feridos e o trabalho foi rápido. Depois que os homens do lorde Dalton levaram os sobreviventes e empilharam os cadáveres todos juntos em um canto qualquer, coube a Siegfried arrancar os moradores de suas casas e reuni-los no centro do vilarejo.
Quando terminou, já era noite cerrada e a chuva não lhes deu descanso, mas pelo menos não se tornou uma tempestade e nem ficou intensa demais.
Estava observando atentamente, enquanto um de seus homens trazia o último casal de idosos até o grupo, quando o barão Kessel retornou com seus soldados, cavalgando à frente das mulheres que tinha capturado na Mata dos Amantes; pouco mais de duas dúzias.
Elas se juntaram a outra centena de mulheres, idosos e crianças que Siegfried reuniu; todos vigiados de perto por cinquenta soldados esqueletos armados com espadas enferrujadas; eram poucos, mas mais do que o bastante para dar conta de alguns plebeus desarmados.
Assim que deixou as mulheres cativas com as outras, o barão Kessel se aproximou:
— Vossa graça. Essas são todas.
— Bom trabalho.
O conde então fez o cavalo avançar, passando de um lado ao outro, observando em silêncio as mulheres de cabeça baixa e as crianças chorosas, até que finalmente perguntou:
— Quem orquestrou isso?
Ninguém respondeu.
— Talvez não tenham me ouvido, vou perguntar mais uma vez: qual de vocês começou essa confusão!?
Por um momento, pareceu que todos ficariam em silêncio novamente, até que uma garota qualquer de dez ou onze anos falou:
— F-foram vocês!
A mãe da garota se apressou em puxá-la pelo braço, como que tentando fazer com que se calasse, mas já era tarde demais e o lorde Gaelor tinha os olhos sobre a menina, que se soltou da mulher e o encarou de volta, irritada:
— Desde que chegaram aqui, vocês só sabem beber e abusar da gente. Nem podemos sair de casa sem sermos atacadas! E vocês nem ligam. Minha irmã tá noiva, disse isso pra eles e… Mesmo assim…
— Estou ciente dos ataques — disse o conde. — Meus homens têm ordens expressas para não se aproximar desta vila ou de vocês e garanto que a punição é severa para aqueles que são pegos descumprindo minhas ordens. Se qualquer uma de vocês sente que a justiça não foi feita, podem vir até mim quando bem entenderem e garanto-lhes um julgamento justo.
— Não queremos sua ‘justiça’! Queremos que vão embora!
— Não abuse da minha leniência, menina! — Por um breve momento, a voz do conde foi como um rugido que fez até mesmo a garotinha valente se encolher de medo, embora fosse um tom leve de raiva para os padrões do lorde. — Não desejo o mal a nenhuma de vocês, mas essas ainda são minhas terras e não permitirei que–
Siegfried sentiu algo passar voando tão perto do seu pescoço que seu coração parou por um momento e seu sangue gelou.
Mas quem caiu foi o conde.

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