Capítulo 0115: Uma pequena jornada
O grupo deixou a Vila do Lobo em segredo, horas antes do amanhecer.
— Não tem como os Whitefield saberem da morte do barão — tinha explicado o lorde Kessel. — Até onde lhes diz respeito, ainda somos aliados e não há porquê suspeitarem de suas intenções quando chegar lá. Mas não pense que são idiotas. Aliado ou não, qualquer um entraria em pânico com uma tropa de soldados parada bem na frente dos seus portões. Você vai precisar de uma boa desculpa.
Por sorte, Siegfried já tinha a ideia perfeita:
— Acabamos de derrotar a casa Silvergraft, seria apenas sensato que enviássemos um refém para o Salão Branco.
— E quem você sugere?
— Dedric.
— Um refém e tanto.
— E por isso vai precisar de uma grande escolta. Para o caso de tentarem resgatá-lo, é claro.
— Hum. Não é uma má ideia. Mas eu não posso te entregar o Dedric, nem a Elisa. Seria arriscado demais. Tenho os meus próprios planos pra eles.
— Nesse caso, eu só preciso de uma coisa…
Dedric Silvergraft era um rapaz de quatorze anos, com cabelo loiro-acastanhado, olhos verdes e um rosto manchado por sardas. Allane tinha treze, de cabelos loiros que chegavam aos ombros e olhos verdes, mas nenhuma imperfeição na pele. Fosse como fosse, eram parecidos o bastante.
Depois que Siegfried fez a garota cortar o cabelo e se vestir com as roupas de Dedric, os dois eram quase gêmeos… Se você fosse cego.
Allane não enganaria ninguém que conhecesse o verdadeiro Dedric, mas ainda podia se passar por um garoto nobre, se mantivesse a cabeça baixa e a boca fechada. Seus seios eram pequenos e ela tinha as curvas de uma criança; era praticamente um garoto. Desde que estivesse vestida.
Para acompanhá-los, o barão Kessel enviou seus próprios homens.
— Dez soldados de lealdade feroz. Tenho certeza de que os achará muito úteis.
Mas a relação deles começou mal.
O líder do esquadrão era Ermin, um soldado sério de vinte e poucos anos. O mesmo homem que foi enviado para buscar Siegfried após a tentativa de assassinato. O mesmo homem que aterrorizou as garotas e bateu em Ethel. Parecia confiável, mas o rapaz não gostava dele.
Levou também as escravas.
Allane, para servir como a sósia de Dedric. Ethel, porque a sacerdotisa tinha salvado sua vida. Will, por ser o seu escudeiro. Elsa, para cuidar de Will. E Lavina, porque prometeu que a levaria quando partisse e seria uma atitude mais do que muito babaca deixá-la sozinha para trás logo depois disso.
O Salão Branco e o Castelo Silvergraft não eram muito distantes entre si. Apenas dois dias a cavalo, se tanto. Mas os únicos cavalos que tinham eram as montarias de Siegfried e Ermin, além das duas mulas que carregavam os equipamentos. O resto do grupo vinha a pé, marcando o ritmo.
O barão Kessel também havia alertado Siegfried para se manter distante de batedores. Sir. Edgar era o responsável por patrulhar os arredores da Vila do Lobo e seria um problema se descobrisse a respeito da sua conspiração.
— Pretendo te dar um dia de vantagem antes de mandar chamá-lo — explicou o barão Kessel. — Até lá, não é seguro que ele saiba da sua missão. Se desconfiar do que estamos fazendo, as coisas podem sair de controle bem rápido. Acho que não preciso te explicar isso, não é?
E não precisava.
O baronato Whitefield era a única rota segura que tinham, fosse para trazer suprimentos ou escapar do condado, no caso de uma derrota. Sem ele, o exército do barão Kessel acabaria profundamente preso entre as linhas inimigas e toda a campanha estaria condenada.
Se o conde Essel fosse inteligente, poderia tentar oferecer um perdão ao Sir. Edgar em troca desse bloqueio. E uma conspiração para tomar o Salão Branco seria a desculpa perfeita para o cavaleiro aceitar o acordo e ainda sair com a honra intacta.
Por sorte, não encontraram nenhum batedor.
“Se eu tivesse de adivinhar, ele provavelmente só colocou patrulhas no norte.”
Ao norte, estavam seus inimigos. O conde Essel. A duquesa Greenguard. Se houvesse um ataque, seria de lá que ele viria. Mas ao sul, a única coisa que havia era o baronato Whitefield; e se alguma coisa acontecesse ali, uma ave lhe seria enviada. Não havia motivos para se concentrar no sul.
♦
O primeiro dia de viagem foi bastante calmo.
O verão em Thedrit era quente e o condado, uma grande planície de pouca sombra, então não teve outra escolha senão fazer pausas regulares para o grupo descansar. De vez em quando precisava também ceder a sua montaria a uma das garotas, caso contrário, ficariam muito para trás.
Por sorte, o clima esfriou bastante quando a noite caiu.
Depois do jantar, Siegfried organizou os soldados em três trios posicionados em locais avançados e com turnos de duas horas cada. Não que o rapaz realmente esperasse que fossem atacados, mas tão pouco esperava que o conde Essel mandasse assassinos atrás dele até ontem à noite.
Quem sabe?!
Talvez a Gwen estivesse seguindo o grupo desde que deixaram a Vila do Lobo, apenas esperando por uma oportunidade para entrar na sua tenda e terminar o serviço.
Não que o rapaz estivesse preocupado com isso.
Era em Dara que pensava.
“Você não pode ter todas.”
Tinha de escolher, sabia disso. Por algum tempo, realmente se convenceu de que seria Dara a sua esposa. E como não? Havia prometido para ela. Tomado a sua virgindade. Dado a ela a sua…
Devia ser ela!
“Pode não ser o Draco, mas ela se casará com alguém. E não será você!”
Quando tentou dormir, o sono não veio. Então se deitou e pegou o lenço que Dara havia tricotado para ele, meses atrás. Nunca o usou, por isso o tecido de lã continuava tão quente e macio como no dia em que a garota lhe deu. Branco, com um pássaro negro tecido no centro.
— Ainda acho que parece um corvo…
De repente, Lavina tropeçou para dentro da tenda, as bochechas avermelhadas e o seu vestido de lã colado ao corpo de suor.
— Lavina?
— Milorde…
Por um momento, a garota nada fez além de fixar os olhos em Siegfried, como se não tivesse muita certeza se realmente era ele. Mas quando tentou se aproximar, suas pernas ficaram bambas e teria caído no chão, se o rapaz não tivesse levantado a tempo de segurá-la.
— Você tá bem?
Seus braços envolveram Lavina pela cintura, com o corpo dela firmemente colado ao seu, enquanto sustentava o peso da garota.
— O que aconteceu?
— Milorde? — O hálito dela cheirava a vinho. De repente, a garota pareceu notar o que havia feito e se afastou, ficando de pé sozinha. Embora não sem alguma dificuldade. — E-eu tô bem. Eu tô bem.
— Tem certeza?
— A-anham. E-eu só… E-eu preciso falar com o senhor.
— O que foi?
Ao invés de responder, ela começou a alisar suas saias e passar a mão no cabelo desgrenhado. Se tornando mais apresentável. Até que endireitou a postura, deixando as costas eretas e erguendo os olhos. Quase uma dama.
— E-eu quero dormir com o senhor esta noite!
— Lavina…
— Só dessa vez. Eu juro!
— Não sei se isso é uma boa ideia.
— Por favor! E-eu sei o que parece, mas prometo que não vou tentar fazer nada estranho! É só que eu… Não quero que o senhor fique sozinho. Não depois do que aconteceu ontem…
— Ninguém vai me matar.
— …
— Você devia dormir um pouco. Na sua tenda.
Mas antes que ela tivesse a chance de fazer isso, ouviram um grito vindo do acampamento.

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