Olá, segue a Central de Ajuda ao Leitor Lendário, também conhecida como C.A.L.L! Aqui, deixarei registradas dicas para melhor entendimento da leitura:
Travessão ( — ), é a indicação de diálogos entre os personagens ou eles mesmos;
Aspas com itálico ( “” ), indicam pensamentos do personagem central em seu POV;
Aspas finas ( ‘’ ), servem para o entendimento de falas internas dentro da mente do personagem central do POV, mas não significa que é um pensamento dele mesmo;
Itálico no texto, indica onomatopeias, palavras-chave para subverter um conceito, dentre outras possíveis utilidades;
Colchetes ( [] ), serão utilizados para as mais diversas finalidades, seja no telefone, televisão, etc;
Por fim, não esqueça, se divirta, seja feliz e que os mistérios lhe acompanhem!
Capítulo 71 — Dançando Com O Diabo
Na manhã seguinte, Calli caminhava pelas ruas de Ottawa, seus passos ecoando suavemente sobre o asfalto ainda úmido do orvalho matinal. Seus olhos, por mais que tentassem se fixar no horizonte, eram sempre atraídos de volta para o braço, onde a marca dourada insistia em brilhar discretamente, como um segredo que o mundo não estava pronto para entender.
Agora, camuflada em uma tonalidade quase incolor, ela parecia pulsar em sincronia com seus pensamentos, como se guardasse uma memória que ele não conseguia acessar por completo.
“Isso ainda é estranho…”
Os dedos da mão oposta tocaram levemente o local onde a marca repousava.
“Não consigo me lembrar direito de como tudo isso aconteceu…”
As ruas, calmas e serenas, pareciam respirar junto dele. O sol da manhã se derramava sobre os edifícios, tingindo o concreto e o vidro com tons dourados que rivalizavam com a estranha marca em seu braço. Havia uma grandeza ali, uma espécie de majestade silenciosa que ele não notara antes. Cada detalhe, desde o voo gracioso de um pássaro até o reflexo da luz em uma poça d’água, parecia carregar um significado mais profundo, como se o mundo estivesse tentando lhe dizer algo que ele ainda não era capaz de decifrar.
O ar, embora tranquilo, carregava uma energia peculiar.
Um calor que não vinha apenas do sol, mas de algo mais intangível, algo que fazia sua pele formigar e sua mente vagar por territórios desconhecidos. Era como se o próprio universo estivesse sussurrando em seus ouvidos, convidando-o a ver além do óbvio, a enxergar a grandiosidade que se escondia nas entrelinhas da realidade.
Sem rumo definido, Calli continuou a caminhar, seus passos guiados por uma intuição que ele não sabia explicar. Cada esquina, cada rosto que cruzava seu caminho, parecia fazer parte de um quebra-cabeça maior.
“É estranho… Se sentir desconexo do mundo…”
As palavras ecoavam em sua mente como um sussurro distante, mas a sensação era palpável, quase física. Cada rosto que cruzava seu caminho parecia carregar um peso invisível, uma lembrança dolorosa que ele não conseguia nomear.
Era como se o mundo ao seu redor estivesse envolto em uma névoa espessa, e ele, sozinho, tentasse encontrar um ponto de referência que já não existia.
A cada olhar, a cada sorriso casual de um estranho, a desconexão só aumentava. Uma parte dele queria fugir, correr até não aguentar mais, gritar até que sua voz se esgotasse ou fazer qualquer coisa que pudesse preencher o vazio que crescia dentro dele. Mas, por mais que o desejo fosse forte, ele se manteve calmo, preso a uma serenidade falsa que mal conseguia sustentar.
De repente, a multidão ao seu redor parecia engoli-lo.
Rostos desconhecidos se misturavam, vozes se perdiam em um murmúrio indistinto, e ele se sentiu pequeno, insignificante, como se pudesse desaparecer ali mesmo e ninguém notaria. Leonard não dava notícias há tempos, e agora era só ele e James. A ausência de Leonard era como um lembrete constante de que as coisas nunca permaneciam como eram.
Isso o levou de volta a Sophie. Ela havia partido da mesma forma, sem aviso, sem explicações. Um dia, ela simplesmente empacotou suas malas e desapareceu, deixando para trás apenas um silêncio pesado e perguntas sem respostas. E então havia sua avó, cuja morte chegou como um golpe silencioso, algo contra o qual ele não podia lutar, não podia consertar.
Tudo em sua vida parecia fadado a desmoronar, como se o universo conspirasse para mantê-lo sempre à beira do abismo.
— Morgiana…
O nome escapou de seus lábios como um suspiro, quase involuntário. Era uma invocação, uma prece, ou talvez apenas um grito silencioso por algo que ele nem sabia definir.
Morgiana. Um farol em meio à escuridão, uma presença que, mesmo distante, parecia manter um fio de esperança vivo dentro dele. Mas seria suficiente? Ou seria apenas mais uma ilusão, mais uma coisa que ele não poderia segurar?
Ele continuou a caminhar, perdido em meio à multidão, carregando o peso de suas dúvidas e o eco de um nome que, por algum motivo, ainda conseguia aquecer seu peito.
Não se sabia há quanto tempo ele estava imerso naquele turbilhão de dúvidas, mas quando Calli percebeu, já estava dentro de um beco escuro, longe do burburinho das ruas e do calor do sol que antes o acompanhava.
As paredes altas e sombrias pareciam se fechar ao seu redor, como se o mundo exterior tivesse desaparecido, deixando apenas ele e a escuridão.
E então, algo chamou sua atenção.
À sua frente, uma borboleta violeta dançava no ar, suas asas delicadas brilhando com um leve reflexo sob a pouca luz que alcançava o beco. Era bela, quase hipnótica, se movendo de um lado para o outro como se estivesse traçando um caminho invisível. Antes que ele pudesse processar o que via, outras borboletas surgiram, uma após a outra, até que o ar ao seu redor parecia pulsar com suas cores vibrantes.
Calli ficou paralisado, seus olhos seguindo o movimento gracioso das criaturas. Era como se o tempo tivesse desacelerado, e o beco, antes sombrio e opressivo, agora se transformava em um palco para aquela dança misteriosa.
— O que está acontecendo? — murmurou, sua voz quase um sussurro, perdida no ar.
Ele estava imerso em um mar de dúvidas, mas, por um instante, aquelas borboletas pareciam carregar uma mensagem, algo além da compreensão humana. Seria um sinal? Uma ilusão? Ou apenas mais uma peça do quebra-cabeça em que sua vida havia se tornado?
As borboletas continuaram a dançar e Calli sentiu uma estranha calma se apoderar dele, como se, naquele momento, todas as respostas estivessem ali, pairando no ar, tão próximas e, ao mesmo tempo, tão distantes.
— É invasivo ficar olhando para partes dos corpos dos outros, sabia? — disse uma voz feminina, carregada de um tom de provocação e um leve toque de ironia.
“O quê?”
Calli mal teve tempo de processar as palavras quando, por trás do véu de borboletas violetas que dançavam no ar, emergiu uma figura inesperada. Era uma garota de cabelo preto, com as pontas desfiadas em um tom roxo vibrante, desalinhado e cheio de personalidade. Ela caminhava com uma postura descontraída, segurando um guarda-chuva preto adornado com detalhes que lembravam borboletas roxas — embora não tão brilhantes quanto as que pairavam ao seu redor.
Mas o que realmente chamou a atenção de Calli foi o que ela carregava no braço direito: uma tatuagem.
Não era uma tatuagem comum. Era como a dele, mas parecia… viva. As linhas e formas pulsavam suavemente, como se respirassem, emitindo um brilho que rivalizava com o das borboletas.
— Perdeu o toba na minha cara? — continuou a garota, erguendo uma sobrancelha enquanto observava Calli com um olhar penetrante.
Seus olhos brilhavam com uma intensidade que deixava o garoto sem palavras. Ou talvez fosse a cor natural deles, um púrpura profundo e hipnótico, que o deixou com aquela sensação estranha, como se estivesse sendo puxado para dentro de um abismo sem fundo.
“Outra pessoa… Com uma tatuagem estranha, mas…”
Antes que ele pudesse terminar o pensamento, uma onda de dor aguda percorreu seu braço direito.
— Argh! — gritou Calli, involuntariamente, enquanto a tatuagem em seu braço começava a brilhar com uma luz intensa, pulsando em sincronia com a da garota. Era como se as duas marcas estivessem se comunicando, ressoando uma com a outra, criando uma conexão incompreensível.
A garota observou a cena com um sorriso largo e despretensioso, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
— Oh, mais um? Puta merda. — Ela riu, balançando a cabeça como se estivesse diante de uma situação engraçada, mas inevitável.

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