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    Eu cabei me despedindo às pressas de Kaori. Não aguentava mais olhar para sua cara, mas não era ódio que eu sentia, era…

    — O que? Você se encontrou com sua amiga de novo? — perguntou a mamãe. Papai cruzava os braços ao seu lado, as duas pareciam estar bravas com minha ação.

    — Acabamos ajudando um gato a sair da árvore e fomos a uma cafeteria logo depois… Por que? Foi errado eu ter feito isso? — disse, tentando entender o mal de minhas ações.

    Se for para dizer o que eu fiz de mal… Foi não ter ajudado Kaori em suas outras tarefas. Eu deveria ter ajudado ela! Tenho que ser uma pessoa boa.

    Mamãe franziu a testa, como se sentisse dor de cabeça. Senti temor por sua resposta, eu sabia que estava encrencada. 

    Por que eu fui abrir minha boca? Por que!?

    Não briga comigo, mamãe!

    — Você tá bem? — Ela colocou sua mão em meu ombro, mostrando uma cara de preocupação. Hesitava em falar algo mais, era perceptível. — Não está doendo em nada, né?

    Uma reação muito diferente do que imaginava. Mamãe estava preocupada com meu estado.

    — Eu tô bem, olha! — Acabei flexionando meus músculos para as duas.

    Papai coçou seus olhos, tirando a mamãe de minha frente. Sentou-se ao meu lado na cama, pegando em meu ombro.

    — Não estamos falando do seu estado físico, Karina. — Ela colocou sua mão, os dedos rangendo pelas juntas de marionete, em meu peito. — Aqui. Você tá bem aqui?

    Meu… coração? 

    É óbvio que ele está bem!

    Porém, as palavras não saíam de minha boca. Era como se tivesse um cadeado tampando minhas cordas vocais naquele momento.

    Meu coração batia lento… Sentia um frio na espinha apenas por pensar nessas coisas.

    — Eu… — Minha garganta fechou mais uma vez. Não conseguia responder… Meu subconsciente não deixava eu responder.

    — Foi o que eu pensei — mamãe disse. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas nenhuma escorreu. Me abraçou, apenas me abraçou.

    Estava carregado de sentimentos, sensações e… principalmente, carinho. Não estava com raiva de mim, pelo contrário, apenas preocupada, muito preocupada.

    Não sabia como reagir. Papai apenas olhava, seu rosto como se entendesse toda a situação.

    Retribui seu abraço, de forma lenta, despejando todos os sentimentos que um dia reprimi. Meus olhos saltavam lágrimas, mas não de tristeza, nunca foram de tristeza.

    Mamãe me derrubou na cama, chorando junto a mim. Eu não sabia por que todo esse alvoroço, só não entendia.

    Mas eu chorei. Chorei como…

    — Vocês duas são duas choronas mesmo — disse Papai, deitando-se ao nosso lado. Mamãe soluçava, e eu respondia seus soluços com mais choro.

    Eu não entendia, mas queria.

    Queria entender o que sentia, entender o que são sentimentos. Meus olhos não suportavam mais chorar, mas eu gostava da sensação das lágrimas caindo, era acolhedor.

    Papai nos abraçou. Ela colocou suas grandes mãos sobre a gente, puxando-nos para perto. Sorria gentilmente, mostrando seus grandes dentes afiados.

    Respondi seu sorriso com um também. Chorava e sorria, tentando entender a explosão de sentimentos que ocorria em meu peito.

    Mamãe não me explicava, papai apenas sorria, então eu aproveitava a situação como nunca. Eu gostava da sensação de ser abraçada.

    Era possível sentir o amor.

    Amor?

    Amor…

    Eu já senti isso antes?

    Eu quero continuar sentindo isso, mesmo que não seja… amor.

    — Por que você tá com esse sorriso bobo? Tira isso da cara agora! — Mamãe bateu nela, ainda chorando. Seus olhos estavam ficando vermelhos de tanto se emocionar, e papai apenas ria disso. — Veja o clima, Gaia! Veja a porcaria do clima! Isso não é hora de ficar rindo.

    Ela estava brava, mas era apenas o calor do momento. Ver esses momentos me fez gargalhar em meio a lágrimas.

    Uma risada confortável de se dar.

    — Eu nunca me senti assim na vida — interrompi as duas, da qual olharam para mim. Mamãe limpava suas lágrimas.

    Me sentia mais leve, mesmo sem ter falado nada. Era um peso na consciência tirado, a pedra que eu segurava havia diminuído, se transformado em grãos.

    — Fico feliz — mamãe disse. Ela me abraçou uma última vez, antes de se movimentar para o lado dela.

    — Você nunca lidou com sentimentos, não é mesmo, Karina? — perguntou papai. Mamãe abraçou ela por trás.

    — Sentimentos? Algumas pessoas que matei suplicaram pelos meus em seus prantos de morte — disse. — Talvez eu devesse ter matado elas primeiro para não ter todo esse chororô.

    Papai ficou surpresa com minha resposta. Os olhos arregalaram, mas logo tentaram manter uma expressão calma.

    — Você… Essas coisas que saem de sua boca me assustam. Não consigo diferenciar se é uma brincadeira ou não — respondeu papai, cruzando os braços.

    A mamãe logo começou a cochichar em seu ouvido, seu rosto se aproximando do dela. Assim que parou, papai lhe deu um selinho.

    — Por que vocês sempre fazem isso? Que nojento!

    Ela apenas abriu um sorriso.

    — Então, vai nos contar o que se passa dentro da sua cabeça? — Mamãe apontou, sua mão dando um pequeno peteleco em minha testa.

    — Eu já disse que não sei! — falei rápido, o que deu certo. Saiu pela minha boca a resposta que queria dar, mas, dessa vez, me senti melhor ao dizer isso.

    Não tinha um nó na garganta como da outra vez, apenas saiu de forma fluida.

    — É mais complicado do que parece… — mamãe disse. — Dói?

    — Hm?

    — Estou perguntando se doeu alguma vez.

    — Doer? Ah… sim. Eu lembro de ter tido uma sensação muito ruim. Por que? Eu estou doente?

    Será que eu vou morrer? Eu não quero morrer!

    Já matei muitas pessoas más, mas eu não sou do mal! Quero viver e aproveitar a vida ao lado de meu papai e mamãe.

    E também…

    Ah!

    Pare de pensar nisso! Karina boboca, boboca.

    Elas olharam uma para a outra, pareciam incrédulas com minha afirmação. No final, apenas gargalharam.

    — Não, minha filha, você não está doente. — Mamãe tentou me tranquilizar, seu braço acenando para eu chegar mais perto.

    Assim que me aproximei, as duas me abraçaram.

    — É melhor que aprenda consigo mesma o que sentimentos significam. Mas, saiba que sempre estaremos aqui — mamãe continuou. Seus olhos se enchendo de lágrimas mais uma vez.

    Ela era uma chorona mesmo!

    — O que é amor? 

    Uma pergunta sem nexo, mas que eu desejava resposta. Essa dúvida martelava na minha mente.

    — Assim, de repente?

    — É… Tô com essa dúvida.

    — Amor é quando seu coração começa a errar as batidas na frente de uma pessoa querida, mas não de forma ruim, é claro — disse papai.

    — É você se sentir confortável com alguém, querer ficar com ela para sempre. Um sentimento de vergonha, constrangimento e acolhimento em seu peito. — Mamãe acrescentou.

    — Foi isso que sentiu comigo? — perguntou papai, claramente flertando com a mamãe.

    — Podemos dizer que… sim. — Ela escondia seu rosto com a mão, querendo evitar que vissem a sua visual vermelhidão.

    Papai puxou a mamãe para trás. Suas costas tapando tudo o que estava fazendo… Não me importava mesmo, que se dane.

    Porém, essas situações não são estranhas.

    Já senti elas… mais de uma vez com Kaori.

    Será que?

    Não, não.

    Mas eu senti!

    Não estava com a cabeça no lugar.

    Era evidente o que eu sentia!

    Não! Não era.

    Para, Karina!

    Você não deve pensar nisso!

    Mas…

    Meu coração fica quentinho ao lembrar dela.

    — Eu acho que tô apaixonada…


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