Capítulo 412: Lance Patterson (2/3)
História Paralela – 7 Lance Patterson
A primeira muralha que Lance encontrou na Academia de Esgrima Krono foi Brett Lloyd.
Ele já tinha ouvido os rumores sobre ele. Diziam que o filho mais velho da família Lloyd possuía um talento extraordinário. Alguns intrometidos até o comparavam diretamente com Lance. Honestamente, Lance não achava que suas habilidades fossem inferiores às de Brett, mesmo que a posição de sua família não estivesse à altura.
Esse foi um erro grave de julgamento.
— Então você é Lance, da família Patterson? Nada mal.
— Sim, Lorde Lloyd.
Ele soube instintivamente que aquela pessoa era diferente.
Brett não era um desses falsos gênios medianos. Ele era um verdadeiro gênio, do tipo que poderia almejar o topo, um nível que apenas uma minoria em cada geração alcançava. Talvez por isso Lance não tenha se incomodado com seu tom condescendente. Pelo contrário, sentiu-se confortável, até seguro, por se tornar parte de seu círculo.
Claro, nem todos sentiam o mesmo. Judith era um exemplo claro disso.
— Tá olhando o quê, otário? — Quando Brett não respondeu, ela exigiu: — Tô falando contigo! Tá olhando o quê?
— T-Tá falando comigo?
Ela teve a ousadia de enfrentar Brett Lloyd sem recuar. Seu talento insano e determinação feroz colocavam a maioria dos aprendizes preliminares na palma de sua mão, mesmo sendo uma órfã. Ela era a segunda muralha.
Lance soube, mais uma vez instintivamente, que Brett não ousaria desafiar Judith sem um bom motivo, não sem se esconder atrás do nome Lloyd. Embora fosse apenas uma plebeia, não demoraria até que a reputação daquela garota ruiva abalasse o continente. Mas ela não era a única…
— Olha lá, é a Illia Lindsay.
— Pensar que a prodígio da família Lindsay veio pra Krono…
— Será que os rumores são verdade?
— Que rumores?
— Aquele, de que ela tá seguindo os passos da Ignet…
Illia se erguia ainda mais alto que Brett e Judith juntos; ela era a terceira pessoa cujo nível Lance jamais poderia sequer sonhar em alcançar. Por isso decidiu mirar em um posto razoavelmente alto. Não sofreria tentando o impossível, mas daria o seu melhor dentro de suas próprias capacidades.
— É, vou dar o meu melhor. Dentro do que é possível pra mim.
Lance não seria tolo como aquele Nobre Preguiçoso ali, que tentava subir a pulso, mesmo sem talento, já aos quinze anos.
Mas ele não fazia ideia, naquela época, de que aquele garoto desajeitado se ergueria da forma como se ergueu.
Um ano se passou, e o número de aprendizes preliminares caiu de mais de quatrocentos para cem. No fim, apenas um terço restou. Isso significava que mais de noventa por cento dos prodígios aspirantes de todo o continente tiveram que voltar para casa, engolindo as lágrimas.
Naturalmente, os trinta e poucos que sobreviveram à competição expressaram seus sentimentos com intensidade. Alguns riram, outros choraram. As expressões eram diferentes, mas a essência era a mesma. Uma alegria imensa transbordava em todos eles.
Claro, nem todos se sentiam assim.
Illia Lindsay, a misteriosa garota de cabelos prateados, deixou a academia de esgrima assim que alcançou seu objetivo. Embora seu rosto expressasse alívio, ela não parecia do tipo que se acomodaria.
Outro mistério era Airen Farreira. Seu esforço era digno de elogios, a ponto de ninguém entender como um dia já o chamaram de Nobre Preguiçoso, e ele ainda superou todos, exceto Illia, em apenas um ano. Terminou em segundo lugar na avaliação final.
Como aquilo era possível? O que ele pensava quando pegou a espada pela primeira vez? E o que passava em sua mente enquanto a empunhava? Por mais que Lance pensasse, não conseguia entender.
Em comparação com esses dois, Lance compreendia perfeitamente os sentimentos das outras duas pessoas que também não se alegraram com a aprovação final. Judith estava furiosa, e Brett em desespero. Ainda assim, eles não desistiram.
Mesmo diante de duas muralhas gigantescas, que pareciam impossíveis de escalar, mantinham-se firmes na determinação de superá-las de alguma forma. Se não pudessem escalar, encontrariam um caminho ao redor… ou cavariam um túnel. Tinham a vontade de fazer o que fosse necessário para não ficarem para trás. Superariam aquela provação.
— Quinto lugar na avaliação final, Lance Patterson.
— Sim, Diretor.
— Encontrou a resposta para as minhas perguntas? Para que empunhará sua espada? O que irá buscar no futuro?
— Eu…
Lance refletiu por muito tempo sobre essa pergunta, feita pela primeira vez durante sua entrevista inicial com o Diretor Ian. A intenção da pergunta era clara. Primeiro, alguém precisava aceitar suas conquistas atuais e reconhecer seus próprios limites. Precisava continuar fazendo o melhor dentro das suas capacidades.
Em segundo lugar, alguém precisava desejar sem fim e lutar para seguir adiante, negando esses próprios limites. Precisava se esforçar para superar a muralha, mesmo que fosse doloroso, agonizante e humilhante. Talvez essa luta parecesse insignificante para os outros, mas não era algo que podia ser feito pela metade. Era necessário dar tudo de si.
Não era uma decisão fácil. Lance provavelmente não teria conseguido decidir por conta própria. Mas as duas pessoas que conheceu na academia de esgrima balançaram seu coração, e ele disse um dos nomes ao Diretor Ian.
— Mesmo que hoje ele reconheça seu talento, Airen não sabia desde o início que terminaria em segundo lugar… Ele não sabia que alcançaria uma pontuação tão alta.
— De fato.
— Eu não sei que caminho vou trilhar com a espada… nem onde ele vai dar. Se serei capaz de superar essas pessoas inatingíveis. Se vou conseguir vencê-las, nem que seja uma vez. Mas…
— Mas?
— Alguém que ficou entre os cinco melhores da 27ª turma da Krono não deveria viver no automático, certo?
Ele ainda se lembrava da expressão do Diretor Ian ao ouvir suas palavras. Aquele sorriso. Aquilo foi a segunda melhor coisa que Lance fez durante seu tempo como aprendiz preliminar, e também a segunda mais lamentável.
Ao sair da sala do Diretor, Lance procurou por Lorde Lloyd, que superou o desespero e retornou à Krono.
— Lorde Lloyd — chamou Lance.
— Hum? O que foi, Lance?
— Não vou mais usar honoríficos com você. Não com você.
Brett inclinou a cabeça.
— De agora em diante, vou me esforçar sinceramente para te superar.
Lance pensava nisso desde que Brett voltou para a academia. Queria caminhar ao lado dele por muito tempo. Queria ser alguém que colocasse o coração inteiro em escalar aquela muralha. Sofreria e sentiria dor por isso. E, para isso, precisava se esforçar tanto quanto Brett.
Assim como Brett lutava para superar uma muralha aparentemente impossível, Lance precisava enxergar aquele Lorde Lloyd inatingível, não, aquele estudante, igual a ele, como alguém que podia superar. Lance precisava tratar Brett não como alguém a quem servia, mas como um igual. Um amigo.
Claro, a ideia o deixava nervoso. Sabia muito bem, depois de um ano observando Brett, o quão grandiosa era aquela pessoa. Sabia que havia centenas de pessoas que ficariam mais do que satisfeitas apenas em estar sob sua sombra. Sabia que tudo pelo que lutou podia desaparecer num instante por causa de palavras tão presunçosas.
Mesmo assim, não voltou atrás.
E Brett sorriu com o sorriso mais radiante que Lance já tinha visto.
— Demorou, hein.
— Hã?
— Já estava me perguntando quando você começaria a me tratar com mais naturalidade. Tudo bem, sejamos amigos a partir de agora. Na verdade… sempre te considerei um amigo, Lance.
“Por que isso me emociona tanto?”
Lance ficou mais emocionado do que quando o Diretor Ian, o melhor espadachim do continente, o reconheceu. Assentindo com a cabeça, deixou cair lágrimas e brandiu sua espada ao lado de Brett Lloyd, que um dia foi seu superior, mas agora era um amigo.
Aquilo foi a melhor coisa que fez na academia de esgrima, e também a mais lamentável.
Lance não aceitaria seus próprios limites. Tentaria desafiar o talento que o céu lhe deu, buscaria mais, lutaria e seguiria em frente mesmo quando sentisse que seu corpo estava se despedaçando. Nunca havia vivido nada parecido antes, nem física nem mentalmente.
E, aos catorze anos, ainda não compreendia totalmente o peso da frase:
‘Esforço que transcende os próprios limites.’
Um ano se passou desde que Lance se tornou um aprendiz oficial. As habilidades de esgrima de Brett e Judith avançaram a passos largos. A maioria dos veteranos da 26ª turma não era páreo para eles, mesmo sendo também gênios renomados do continente.
E Lance? Os veteranos eram gênios. Ele mal havia alcançado a linha de corte para ser chamado de gênio e não estava num nível em que pudesse compensar os anos de experiência que a 26ª turma já acumulava.
Isso era algo que apenas escolhidos como Brett ou Judith conseguiam fazer.
“Eu sei. Ainda assim, preciso continuar.”
Mesmo assim, Lance brandiu sua espada com todas as forças hoje, como havia feito ontem.
Três anos se passaram desde que Lance se tornou um aprendiz oficial. Agora, ele conseguia derrotar a maioria dos veteranos da 26ª turma. Embora alguns ainda fossem difíceis, ele não era pessimista quanto às chances. Com um pouco mais de esforço, também estariam ao seu alcance. No entanto, a distância entre Brett, Judith e Lance havia se ampliado ainda mais.
Não havia o que fazer. Afinal, o esforço deles não era menor que o dele. Para Lance, às vezes parecia que eles nem eram humanos. Então era possível que, mesmo com o melhor de si, ele ainda não os alcançasse.
Como um esforço assim era possível? Eles também não ouviram que Illia Lindsay atingiu o nível de Especialista apenas um ano depois de sair da academia de esgrima? Tinham que saber que, mesmo com todo o talento brilhante que possuíam, não chegavam ao talento da família Lindsay. Então como conseguiam continuar se esforçando tanto sem desanimar?
Justo quando esses pensamentos negativos ameaçavam consumi-lo, a vice-diretora de Krono, Keira Finn veio até ele.
— Não se deixe consumir pelo sentimento de inadequação. Em vez disso… use isso como combustível para crescer.
E isso não foi tudo o que ela disse. Ela também contou a história de seu marido, Khun, reacendendo as brasas da vontade quase extinta de Lance. Khun era um homem tolo que não viu a luz até os setenta anos. Na época, ele nem era um Mestre Espadachim, muito menos um rival para o Diretor Ian. Mas agora, era uma figura respeitada, uma estrela guia para todos os sonhadores.
Pensando nele, Lance brandiu sua espada mais uma vez, aos dezessete anos. Com vigor, brandiu com todas as suas forças.
Cinco anos se passaram desde que Lance se tornou um aprendiz oficial na Academia de Esgrima Krono. Airen Farreira, que antes era um completo desconhecido, apareceu, lutou e perdeu.
Ele não foi páreo para Airen. Para enfrentá-lo, o Diretor precisou empunhar sua Espada de Aura. Quando a luta terminou, os dois entraram juntos na sala do Diretor com expressões alegres.
— Não se deixe consumir pelo sentimento de inadequação — disse a vice-diretora.
Lance já ouvira essa frase muitas vezes. Ouvira quando perdeu para Brett e Judith mais de cem vezes, e quando eles partiram para a prova final de graduação da Krono. O nó em seu peito afrouxou um pouco, envolvido pela suavidade das palavras da vice-diretora.
Mas por quanto tempo conselhos e palavras de consolo ainda seriam úteis?
Aos dezenove anos, Lance não sabia. Talvez nem mesmo seu eu futuro saberia.
A partir daí, passou-se bastante tempo.

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