Havia uma árvore alta no final da casa. Nela, estavam nomes, uma lista atrás da outra, todos inscritos em caracteres arcaicos e estrangeiros, plenamente visível mesmo pairando parcialmente atrás das frestas do porão. Ainda que sua visão cruzasse uma janela de orifício tão pequeno, Itsuki nunca a viu cicatrizar desde quando a encostou na sua primeira semana de vida. Podia-se imaginar tanto: dizer que ela era imaculada como uma deusa, perfeitamente consciente para proibir sua casca de se restaurar à normalidade do passado. Ninguém, entretanto, podia crer que era possível, mesmo com toda a força de sua luz interior. Nem mesmo Itsuki, que desafiou o senso comum muito antes de se perguntar sobre insanidade.

    Ao olhar de longe, a sensação era única: parecia uma pedra dura atingindo a cabeça. Quantas perguntas morreram ali? E quantas delas escondiam a promessa de uma grandeza implacável dos céus? O mistério do sagrado oculto lhe chamou para estar ao seu encontro, enquanto ele fitava as velas do santuário como se estivessem presas em uma grande candelária morta. Sem sentido, sem valor ou sacrifício.

    A falta de solução a esse mistério, somada aos relatos intensos da vida de um homem profundamente marcado pela guerra, explicava a Itsuki porque tão morta a natureza havia estado, mesmo antes da nevasca sobrepujá-la. Durante toda a sua história, diversos sonhos ficaram lá, de uma vida pacífica moldada ao esforço dos leais seguidores da casa e desejou trazer afeto aos remanescentes. Quanto mais as direções para a metrópole ficavam perdidas e as placas ficavam para trás na jornada, mais a estrada ficava sinuosa e derrotada pelo vigor da serra dos Shirakami-Sanchi, e não haver nenhuma metrópole em seu resgate.

    Os últimos dias de inverno tolerável ficaram temperados com uma dose de um dezembro febril e intenso, atordoado, quase próximo de ficar inconsciente, pela imensa quantidade de visitas incessantes ignorando a crueldade do clima. Para isso, a família temia que esse tempo ruim fosse o espelho do infeliz destrato feito com os espíritos. Era infortúnio suficiente, tristeza e sangue moderadamente congelados a gosto dos suseranos da profundeza para virem até a humanidade sem aviso prévio, estando repletos de malícia e dor violentas que não iriam faltar tão cedo.

    O chão estava arranhado, com muitos passos que se somavam em dezenas no total. Não foi outro o resultado, senão ficar arranhado até doer os olhos. Ainda assim, é lá que a família Oyakawa faz a própria vivência, sem trocá-la. Diziam que não fazia bem para a própria memória de seus habitantes, tanto é que, logo abaixo daquele chão, estavam vários cômodos, um porão erguido com beliches de cima para baixo, suficientes para servir muitas pessoas de uma vez.

    Sempre viam flores para bordá-lo em uma bela decoração. Era bem iluminado, feito um santuário, bem cuidado e valioso. Todos eles foram doados de longe, da China. Não era parte da tradição da família, pelo menos não em seu início. O salto de fé por trás da família se construía, tragicamente, por feitos tão recentes que, mesmo dentro dos olhos da antiguidade, dos espíritos, alicerces do mar, ainda pareciam lendários. Não obstante, mesmo de uma família nascida tão somente aristocrática – ilegitimamente, como insistem acrescentar – na história recente, todos esses espíritos atenderam aos pedidos fervorosos de guardar a família, em troca de promessas de jejum e meditação. Com tantos deuses e espíritos reunidos no caldeirão, a casa os serviu, sem faltar doçura, com uma hospitalidade que era capaz de preencher o altar com uma visão artística com o encanto de um milênio, mas a ambição de duas longas décadas.

    A neve podia dizer o contrário, mas quando se dizia que a casa era bela, dizia que ela era inviolável, fato que era possível por ela estar sempre acesa por sessenta e quatro velas. Mas, hoje, apenas vinte estavam acesas sob o altar. Ora, esse serviço era feito todo dia, sem falta, pela senhora da casa, que nada tinha de idade na aparência. Alguns monges também passavam e pediam para usarem o espaço para descanso, e com gratidão isso é aceito. Era comum que recebesse visitas, mas não do primogênito da casa.

    Entretanto, enquanto Itsuki reservava nas quintas-feiras sua meditação inquestionavelmente, o clima abissal lhe obrigou a adaptar-se à nova rotina e encontrar paz nesse enigma denominado de santuário. Redirecionando sua concentração ao preâmbulo do altar, tomando coragem para reencarar o diário, estava uma pequena anotação na folha, uma carta escrita, sobre a qual ele colocou num pequeno pote sacro e o fechou, enquanto checava seus lados. Assim que abaixou o rosto, agradecido pela sua missão, ele juntou as mãos e cerrou os olhos.

    Havia nascido um sentimento maior de nobreza mesmo esparramado num vilarejo tão pequeno quanto Hatsuseyamakusawake – Hatsuseyama aos mais íntimos. Um dever que corria além da vontade para cansá-lo. Mas falhar era intermitente, pois se mantinha pensativo sobre como a vida funcionava, e imaginava.

    As figuras do seu passado, presente e futuro se amalgamaram em várias sombras que falavam sobre muitas coisas, que perambulavam pela sala desorganizadas, como se fossem memórias sendo revistas, selecionadas e discutidas. O pensamento dele se perdia, até, lentamente, parte da sombra lhe cair sobre o rosto, formando uma máscara de olhos brancos, que o trajava como um abrigo no qual se colocava em segurança, através da qual todas as obras de sua missão em meio ao inferno de luzes sejam um marco absoluto de sua honra de sangue, consumada no Himalaia.

    No entanto, ao ouvir os passos de alguém entrando ao santuário, ele respirou fundo, e essa interrupção repentina lhe rendeu uma dor de cabeça, como se tivesse colocado os olhos sobre a luz enquanto pensavam sobre a escuridão.

    “Filho? O jantar está pronto! O Senhor Yezi queria encontrá-lo depois quando ele chegasse, “porém, sem resposta, a voz insistiu, “você não está me ouvindo, Itsuki?! Venha logo.”

    Ao encontrá-lo no templo, ela se deparou com a figura do jovem ajoelhado sobre o pequeno santuário da casa, e por aquele momento, ela reduziu seu olhar, tornando-o mais pacífico. Mas de fundo, um berro alto retumbou por toda a casa.

    “Haruka, cadê o Itsuki? Preciso de comer para dar jeito no desafio que esse meu filho está amarelando!”, gritou-lhe uma voz masculina, que a deixou incomodada, ao ponto de fazê-la apenas devolver-lhe a exclamação.

    “Ninguém ensinou você a esperar, Takumi?! Depois reclama de que tem pimenta na comida!”, a voz se calou. Em seguida, a mulher se aproximou, pondo-lhe a mão sobre o ombro do jovem, enquanto erguia o olhar a frente na direção do santuário.

    “Você está sentindo alguma coisa, filho? Venha jantar, a cabeça boa precisa da fortaleza do corpo”, perguntou-lhe, aproximando o rosto para vê-lo melhor.

    “É que me vem à cabeça uma coisa estranha”, disse, levantando-se até se virar na direção dela. 

    O jovem tinha uma postura fechada e pensativa, fazendo-o pensar por um tempo antes de realmente se apresentar. Hesitou uma, até duas vezes para falar, mas não se calou.

    “Os monges não têm ido em casa esses dias, por quê?”, observava para a própria máscara, induzido a crer que não podia escapar dela tão facilmente, ou ainda do significado daquela ausência inestimável desses amados visitantes pelo clã.

    “Eu queria muito dizer que é essa nevasca, mas esses monges andam em qualquer lugar. Não sei dizer. Talvez seja só a época do ano que está deixando-os ocupados demais. Afinal, do jeito que as coisas são, alguns envelhecem e preferem deixar as pernas na própria casa, para que não percam o caminho de volta.”

    “Não devia acabar assim”, retrucou-lhe. “Poxa, que haja paz e princípio no caminho deles, então. São pessoas que admiro muito. Não saber os passos que trilhou meu avô não me faria completo.”

    “Um deles ficou ainda pior nisso quando descobriu que fiz o juramento”, sorriu, “e ele parecia como um tio meu mesmo.”

    “Deixe de pensar demais, ninguém duvida disso. Algumas estão pensando que você é pai delas quando não deviam tanto”, respondeu Haruka. “Mas, fique feliz por essas coisas, por mais poucas que sejam. Veja bem, eu creio que já sei quem é esse monge silencioso; se você não tivesse dito, não me lembraria de outra forma. Ah, pois é ele mesmo!”

    Ao pensar mais a fundo, de repente ela estalou os dedos e arregalou os olhos em entendimento. Assim que a memória retornou à cabeça, ela acenou delicadamente, até convencer-se de que estava correta.

    “Aquele homem era uma gracinha. Baixo, de pernas compridas dos lados. Esse bobinho sempre foi bem querido aqui, nosso grande amigo”, exclamou alegremente, “é tanta coisa que você me faz pensar que esqueço dos outros. Mas olha bem: não faz tanto tempo que fiquei mais impressionado ainda por causa dele. Descobri algo muito dele. Sabe o quê?” 

    Seu tom de suspense azucrinou o garoto com um semblante de tédio, que cruzava os braços para ouvi-la melhor. Ela, por sua vez, faz uma careta e dá uma leve risada por não ser capaz de pôr em palavras a sua emoção.

    Uma vida pela outra, dia e noite”, apreciou-se, enquanto juntava as mãos, com uma alegria imensa. “Eu era muito nova: não cabia a mim saber de um homem tão misterioso, que não dava satisfação sobre nada de sua vida. É uma pena que aquele Grandes Pernas detestava falar sobre isso por ter vergonha demais. Mas a foto que eu achei fechou essa charada.”

    “Os mestres do Tibete o salvaram de seus descuidos. Não havia jeito”, respondeu Itsuki, “e ele não falava tanto, não é? Silencioso. Sem dizer nada a ninguém, nem para o Tio Han.” 

    Ele se inclinou diante do altar e o encarou por inteiro, contando todas oferendas que haviam sido entregues. Debaixo dele, viam-se alguns pequenos bastões de incenso que queimavam ao redor de uma pequena cápsula preenchida de cinzas.

    “E como será que ele cruza o mar toda vez?”, indagou curiosamente.

    “Ele é humilde, não um tolo!”, riu alto, agarrando-o pelos ombros. “Por isso somente já deixa muito claro que ele consegue cruzar este mar por sua conta. Faltava ser um gigante!”

    “É o que um peregrino sempre deve fazer. Que maravilhoso”, continuou ela, “qualquer um deveria aprender com ele. Não reclama, e quando se sente nesse direito, prefere resolver o problema, e até lá, ele se esqueceu do que iria dizer. Depois de tanta impaciência, ficar calado abençoa.”  

    “Não poderia entendê-lo melhor”, riu Itsuki, “depois de tanta sonoplastia intensa acompanhada de surdez, qualquer calmaria servirá como remédio à alma.”

    “Sim, mas não seja abobado de pensar demais sobre a vida. Não acho que ele seja um filósofo ou um sábio para falar bonito assim o tempo inteiro, Itsuki. Na verdade, tem uma coisa que ninguém conseguiu aperfeiçoar tão bem quanto ele: bom senso. Por isso, ele tem tanto carisma e vive a vida com uma felicidade e tanta. Escuta o que eu lhe falo: não é inteligência que conquista admiração de pessoa qualquer. É sua humildade, nunca a perca de vista,” aconselhou Haruka, ajoelhando-se ao lado esquerdo de Itsuki, observando o altar. Logo em seguida, sua mãe se sentou ao lado dele, abraçando-o.

    “Quais são seus objetivos agora, filho? Afinal, se você quer dar liberdade a todas as pessoas, deverá cuidar de si mesmo até lá.” 

    “É impossível escapar de sentir falta dele quando penso em um”, respondeu Itsuki, em breve inclinação ao altar. Sua mãe ficou em silêncio, vendo-o de relance prostrar-se desconfiado. Depois, riu, negando abrir os olhos para entender sua cegueira, encarando-se entre sua sombra e um livro.

    “Mesmo com tanto esforço, o mundo escolhe apenas errar sem parar. Isso não é suficiente”, disse, apanhando o livro com mais força, “há algum erro que estou cometendo. Ele está aqui dentro.” 

    “Itsuki, não imagine demais, isto já passou”, estalou os dedos, puxando-lhe o rosto pelo queixo. Com um sopro leve, ela comandou a sombra ir embora de seus olhos. “Apenas escute: não há problema tão pequeno que as pessoas pensam que é enorme como a vida. Despertar a admiração e o amor de alguém não exige muito! Você fez isso muito bem, apenas veja: o mestre Han, os filhos de Jiang, lado a lado. É enorme a minha alegria por ter arranjado alguém para ficar com você.”

    “Não deveria ser difícil! Dê valor a essas pequenas pérolas do colar de sua vida. Acho que ela só parece assim porque você é fechado demais para os colegas da sua idade. Precisamos das pessoas ao nosso lado. É preciso ter mais fé, deixá-las entrar.” Cruzando os braços, ela não acatou.

    “Já entendi…”, retrucou ele, incrédulo, além de raivoso pela injustiça que passava. “Essa conversa se repete sempre. Eu tenho fé, afinal  de contas, e eu sempre olhei as coisas por esse lado; eu faço isso para que elas não fiquem perdidas e se destruam! Eu sou dedicado, mãe. É errado fazer isso por acaso?” 

    “Não posso sempre demonstrar minha força, por isso quero um dia receber um obrigado de uma pessoa a qual eu salvei. Por isso, às vezes me sinto sozinho, porque eu faço tudo mas nada parece mover um grão de areia desse oceano de sofrimento! A minha cabeça fica pesada enquanto vejo o mundo enxergar absolutamente nada desses problemas que estão nas entranhas de cada cidade, e as pessoas toleram sem mesmo lamentar!”, disse, preocupado pelo impacto de um símbolo ainda fraco. Faltava alguma coisa para fazê-lo ser mais clarividente, e fugaz dos olhos mundanos.

    “É triste pensar que mesmo salvando as pessoas, nada parece inspirá-las.”

    “Impaciência é ingratidão!”, alargou a voz. “Esse é o momento de frear as emoções. Quanto tempo você tem ficado no próprio quarto ou no templo quando não trabalha?” 

    “Não pense que eles querem ser assim, Itsuki. Eles também têm sonhos. Não serão todos que viverão como você.” 

    Tornou-se pensativo depois de esticar seus ouvidos em direção à voz. Suas mãos se apoiaram ao chão, atiradas de pouco propósito tais como suas pernas. Ele encolheu o livro sobre seu peito, abraçando-o verdadeiramente como um sinal de sua fé, dificultosa grandeza que poucos possuem a honra de ter.

    “Há muita coisa que um símbolo tem dificuldade de resolver. Uma delas é competir com a maldade”, respondeu. “Ideias passam, se modificam e são esquecidas: só são lidos por aqueles que pertencem a seu tempo. Isso quer dizer que toda eternidade tem preço: até seu próprio nome.”

    “Isto não vai acontecer”, diminuiu-se, pensativa. “Seu avô deu a mão a qualquer um que pedisse. Seu pai, sim! Queria largar o serviço militar para casar-se comigo. E ele foi prestar contas em pessoa para negociar a saída dele. E ele está lá, bem feliz, embora seja preguiçoso…” 

    “Inclusive, eu já o acho a cara e a gentileza do seu avô, Itsuki. Como eu não poderia saber disso tendo você nascido do meu ventre?! É por essa razão que eu me preocupo com você todo dia e não quero que lhe tirem essa bondade de você, ou que façam algum mal”, ela o abraçou. Por um lado, ele se conformava com aquilo, e era esmagado pela força descomunal que ela possuía.

    “Agora, sabe o que você deveria fazer?”, perguntou-lhe, com os olhos fixados nele, prestes a explodir.

    “Por favor, não me faça ter que lembrar tudo para você”, deduziu Itsuki.

    “Dessa vez você não foge”, concordou, puxando-o pelo kimono, olhando para trás, para o caminho da cozinha. “Chega de conversa antes que a comida esfrie e eu te faça esquentá-la de novo.”

    Assim, foi devolvido o santuário ao silêncio. Não havia lugar a deixar entrar a tristeza, tampouco permiti-la desfazer a harmonia defendida pelos guardiões da casa. Itsuki obedeceu, mas, logo antes de ser levado para cima, ele escondeu sutilmente seu diário debaixo da manga. Ele não queria perdê-lo em meio a pressa e deixá-lo silente antes do momento das grandes perguntas.


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