Suas emoções se alargam pitorescamente, desconstruindo a voz temerosa e acabada que antes era ouvida. Era como se o sol fizesse o mais novo testemunho da face da antiga terra: um lugar vazio, tão escuro e breve como as pupilas de quem não mais anseia a mundanidade.

    “Eh, lindo! É tão lindo tudo o que está sendo feito aqui. É empolgante, como se valesse de algo a essas mentes frágeis e calculáveis, como números de uma soma. Mas, veja bem: essas mortes não me importam. Para alguns que conheci, é uma divindade, a menos se tiver uma mão boa para usar.”

    Cada vez mais ela se alargava num piscar de olhos, enquanto se rejuvenescia lentamente no ritmo de uma metamorfose violenta. Através dela, o som do rádio permaneceu ainda mais ruidoso, como se de repente o áudio perdesse toda a sua qualidade e envelhecesse décadas num passe de um instante. 

    “Esse cerco? Não importa”, resmungou brevemente. “Na verdade, fiquei agradado de ouvi-lo dizer do bicho-papão, porque o senhor não é o único que se traja assim. E ele virá para cá.” 

    Assim, o ruído estático cresceu, como um chicote dando estalos ensurdecedores ao destino, e uma imponente presença se fez vizinha, como um primeiro trovão de um temporal destruidor e cruel. 

    “Qual o preço de violar corpos também para ser quem quiser…?”, o tom monótono se tornou um pilar, paralisando aqueles incendiados por aquele sentimento. O capitão foi um dos que tiveram este infeliz privilégio, enquanto percebia seus músculos tremularem.

    “Muitas coisas fui e serei, bicho-papão, bem além do tempo”, respondeu. “E muito bem me serviria seus despojos caso eu me embebesse de sua sabedoria. Não cabe a mim desperdiçar meu esforço a um homem tão problemático.” 

    “Os homens que estão ao seu lado são incompetentes como cabeças de ervilha. Não adianta pensar que os convencerá. Jamais, o senhor nunca saberia disso senão por mim.” 

    “Não precisei de aviso algum para dar nojo a sua língua de rato!”, disse.

    “Ah, não era sobre os pirralhos,” retrucou a voz sarcasticamente. “Eles não sabem matar, nem mesmo viver sem alguém para comandá-los. A única coisa que sabem bem fazer é odiar seus comparsas e os demais estrangeiros como escórias.”

    “O diabo quando quer sussurrar vai sempre gritar”, o capitão via a confiança balançar como um edifício, resistindo às mudanças que a hora e a sombra permitiam passar.

    A voz chiou sobre o rádio, como se pedisse apenas para que parte daquele precioso tempo não fosse desperdiçado pelo excesso. Com um gemido leve, acompanhado de risos intercalados por soluços de diferentes tons e alturas, ele bafejou desagradavelmente.

    “Essa missão nunca daria certo, capitão”, sussurrou com enojada leveza, como um sopro devagar que espantava as más sensações, quase ao ponto de pô-lo raivosamente preocupado. Pouco ainda se ouvia a voz daquele velho a quem ele havia jurado o contrato. “Mas alegre-se. A disposição sua e a de seus homens de fazer o que bem entendem nos fará o favor de convocar aqueles que mais admiramos. Pena que há certas coisas que deverão ser saboreadas aos poucos até se achar a cereja. Não é? Eu tenho uma que procuro há muito tempo, e sempre há os melhores confeiteiros às espreitas. Na ponta da língua, eu admito.” 

    “Seja homem e venha nos obrigar!”, o capitão se paralisou, respirando fundo até ouvir uma voz que jamais chegou a testemunhar em vida. Mas de repente, a voz ofegou gravemente, como se um pigarro saísse da garganta e se transformasse. “Nós temos os segredos desse país na palma da mão. Cada detalhe, cada monstro.”

    “Ah! Perdão. Eu só precisava da melhor história e fazer uso dela no momento certo. Não me compare a homens…medíocres; fantasiados”, disse. “Acontece que não estou aqui para resolver política, mas somente para ter certeza de que nada faltaria ao espetáculo. Veja bem: essa operação apenas aconteceu porque esses pequenos idiotas tinham um homem em comando, muito excelente, com o dom do sobrenatural que eles prepararam na delegacia. Aquele velho era muito apto, não podia ser desperdiçado nesse teatro. Ou, pelo menos, com quem você pensava estar aqui, pois ele não está mais entre nós.” 

    Quando disse essas palavras, uma voz bafenta se acumulou, arrastada por uma malícia egoísta, voluntária sempre para ter a maior e melhor audiência.

    “É preciso agradar a um duque para a corte toda estar feliz…”

    “Quieto, seu demônio!”, antes que dissesse outra coisa, não bastou mais a verdade, pois a voz lhe cortou uma última vez. “De quem está falando?! Diga logo!”

    “Paciência, homem. A pergunta será respondida em breve pelos seus próprios olhos. Ele deve vir, e no tempo certo, ele será visto”, um ruído baixo de um objeto pesado sendo arrastado ao chão, prensado sobre algo que crescia e estalava cada vez mais. A voz, de repente, se tornou monstruosa, sem dar margem para reação. “Retenha tudo aquilo que nos faz melhor.” 

    “Corra enquanto der, rato imundo, pois dificilmente receberá o perdão.”

    “O quanto você sofrerá na minha mão não está escrito, vagabundo!”, exclamou, atirando as duas mãos sobre o rádio, colapsando os olhos sobre a pilastra enquanto checava seus arredores para que ficasse a sós, somente com ao vislumbre de um perigo indomável.

    Uma série de sons monstruosos se amontoavam num ritmo horrendo e distorcido, rugindo sem parar. Estava quase a caminho de erguer sua língua, pois parecia que uma língua lambia os lábios cada vez mais que se aproximava do rádio. 

    Aquele som infernal silenciava a voz de um idoso que grunhia desesperadamente, prestes a desmaiar de dor. O capitão permaneceu inerte, desentendido do que havia ouvido, sem haver caminho para escapar de seus maiores temores.

    “Toyotomi…tenha piedade! Piedade! Piedade! PIEDADE!”, a mesma palavra se repetia na cabeça dele, mas ela foi incapaz de impedir o provável e infeliz destino que havia vindo à tona.

    A comunicação se encerrou sob o tom desgostoso de medo. Embora o terror conquistasse o outro lado desta operação, os subordinados empenhados a esse serviço sequer sabiam tirar proveito de um caos absoluto. 

    Os homens ao seu redor lhe atormentavam com a imaginação de que fossem traidores, grandes responsáveis por despertar uma loucura tão desprezível para levantarem sua vontade contra o mundo. Um relógio contava, num tique-taque sonoro e controlado, até apitar sobre seu pulso, marcando a chegada da meia-noite. 

    “Psicopata!”, desligou o rádio, enquanto segurava sua voz para que ela não se esbravejasse e alertasse os outros colegas. Ficou aflito, atirado contra a parede por ver que a hora do plano havia chegado. A prontidão de seus aliados não era o que incomodava, mas a disposição deles em seguir ordens, sem mesmo abrir os olhos para enxergar seu superior. 

    Sentiu-se à mercê de um mal incontrolável, como se as correntes da insanidade fossem jogadas na direção de quem interrompesse o caminho. Mas sabia que a obediência tinha um limite, e ele alcançava o ódio mais profundo que remanesce no consciente humano.

    Era como um feitiço jogado sobre ele. O pensamento dele se voltou obcecado. Ele estava procurando por saídas, oportunidades que lhe dessem uma opção. Num breve deslize, escapou de si um pouco daquela coragem tão engrandecedora que tanto prezou.  

    “Ёб твою мать!”, disse, com o coração arregalado. Depois, apoiou-se sobre uma pilastra, para limpar o suor da testa, e aliviar as roupas pesadas que vestia. 

    Mesmo que ponderasse tanto sobre a ocasião, nada lhe explicava aquela presença maligna e impiedosa que lhe fez assinar um contrato. Seus ouvidos eram atacados de todos os lados, enquanto cada um se contorcia doloroso, como seus braços e pernas, trêmulos de medo. 

    Por aquele momento, ele pensava sobre seus colegas, a respeito do mal contado segredo que não lhes conveio no melhor tempo. Depois que passou a descrer do absurdo, ele havia escolhido sempre o mesmo: o silêncio, pelo bem de não saber a verdade.

    “Esses merdas não têm noção da desgraça em que se meteram”, sussurrou para si, segurando-lhe as palavras de raiva que tanto queria gritar. Mordeu a língua, tremendo a mandíbula de receio, até que ela caísse relaxada, depois de encarar o mais profundo horizonte da estação, na direção contrária da estação, com esperança.

    “Acelera essa porra! Vamos embora logo e parar com esse teatro!”, gritou-lhes, “”se não colocarmos fogo em tudo o quanto antes, nós vamos dançar e sermos fodidos até o talo! Achem qualquer um que pareça rico e leve para câmera! Nosso tempo acabou.”



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