Índice de Capítulo

    O cheiro de pão quente e especiarias tomava o ar na ala dos oficiais. O refeitório era amplo, com janelas que deixavam o sol da manhã pintar o chão com reflexos dourados. A agitação do segundo dia das Olimpíadas já se fazia sentir pelos corredores. Risos, apostas e comentários empolgados ecoavam de mesa em mesa.

    Marco mordia uma torrada quando Kalamera apareceu ao seu lado, sorrindo com os olhos.

    — Bom dia, Mestre Astrônomo. — Ela se sentou à frente dele e colocou um embrulho de couro sobre a mesa. — Fiz isso pra você.

    Marco desatou o laço e seus olhos brilharam. Uma adaga elegante, de cabo escuro e lâmina prateada repousava ali. O fio era tão fino que parecia capaz de cortar o ar.

    — Isso é… — Ele quase sussurrou. — Uma peça de competição?

    — Era. Agora é sua.

    — Eu nem sei o que dizer…

    — Diga obrigado. Depois me ajude a testar se ela voa reto — ela piscou.

    Antes que Marco respondesse, Lou-reen, Hamita e Venia se juntaram à mesa. Lou-reen estava com uma bandeja equilibrada cheia de frutas e queijo, Hamita segurava um copo fumegante de chá, e Venia mordia um pão com geleia, o rosto ainda um pouco inchado de sono.

    — Ei, presente de casal? — brincou Hamita, sentando-se ao lado de Kalamera.

    — Não é casal. — Marco e Kalamera responderam ao mesmo tempo, em uníssono e visivelmente desconfortáveis.

    — Claro que não — comentou Hamita, sorrindo com malícia. — Presentear com lâminas é só… um costume milenar entre guerreiros que se respeitam profundamente. Ou se amam. Mas é irrelevante.

    Lou-reen bufou, sentando-se.

    — Vocês são impossíveis.

    — E você é sempre tensa — disse Hamita. — Quando vai se dar ao luxo de gostar de alguém?

    — Quando Taeris parar de correr perigo — Lou-reen rebateu. — Ou seja, nunca.

    Venia deu uma risadinha e corou até as orelhas.

    Foi então que o secretário de Luminor apareceu, impecável mesmo no calor da manhã, com suas vestes alinhadas e expressão preocupada, aproximou-se da mesa.

    — Com licença, generais. Mestre Marco. Senhorita Kalamera. Algum de vocês viu o General Luminor esta manhã?

    Todos se entreolharam. Marco foi o primeiro a falar.

    — Ontem à noite, vi ele saindo da festa com duas soldados. Estava… bastante animado.

    Lou-reen franziu o cenho.

    — Isso é típico dele — disse ela, num tom reprovador. — Um general imperial não deveria se comportar assim em público.

    — E em particular pode? — provocou Hamita. — Vai me dizer que você não aproveitaria uma noite livre com alguém charmoso?

    Lou-reen deu um olhar sério e respondeu:

    — Sou uma general de Taeris. Eu não tenho noites livres.

    Hamita soprou o vapor do chá, como quem não queria nada.

    — Estranho… porque ontem à noite alguém jurou ter visto você dançando com um certo rapaz… sem uniforme. E bem perto, aliás.

    Marco tossiu discretamente. Kalamera ergueu as sobrancelhas.

    Venia parou de mastigar no ato.

    Lou-reen não reagiu de imediato. Depois, calmamente:

    — Ele insistiu. E eu aceitei um círculo. Um.

    — Ah, então foi só um… deslocamento tático no ritmo da música? — perguntou Kalamera, segurando o riso.

    Lou-reen pegou mais uma fatia de queijo e cortou com precisão.

    — Se querem continuar especulando, peçam uma audiência formal.

    A mesa caiu na risada. Lou-reen continuou comendo, como se nada tivesse acontecido.

    Venia tossiu, tentando esconder o riso. Kalamera disfarçou o sorriso servindo mais chá para Marco.

    O secretario suspirou.

    — Se virem Luminor, por favor, peçam para me procurar. Há documentos que precisam da assinatura dele com urgência.

    — Documentos? — Hamita ergueu a sobrancelha. — Ou só quer saber se ele sobreviveu à farra?

    Ele não respondeu. Apenas curvou-se educadamente e saiu, ainda mais preocupado.

    Lou-reen fitou a adaga na mão de Marco, seus pensamentos visivelmente em outro lugar.

    — Espero que seja só ressaca — disse ela, mas o tom estava longe de convicto.

    O silêncio durou poucos segundos, até que um tenente da guarda imperial chegou às pressas, carregando um pergaminho selado.

    — Generais… há um relatório urgente.

    Hamita arqueou a sobrancelha. Lou-reen já estendia a mão.

    O pergaminho foi aberto e lido em voz baixa entre as duas generais. As feições de Lou-reen endureceram. Hamita estreitou os olhos.

    Marco franziu a testa, curioso.

    — O que foi?

    Lou-reen respondeu, seca:

    — Algo… desapareceu da Forja Imperial.

    O impacto da notícia caiu sobre a mesa como uma pedra.

    — O quê?! — Kalamera se levantou tão rápido que a cadeira raspou no chão, quatro mãos espalmando a mesa.

    As duas generais se entreolharam por um segundo.

    — É confidencial — Hamita cortou, sem rodeios.

    — Confidencial? — Kalamera encarou as duas. — Algo some da Forja Imperial e uma Wynrae não tem o direito de saber?

    Hamita e Lou-reen se levantaram quase ao mesmo tempo, ajeitando capas e cintos num movimento automático de quem já saía pronta pra qualquer coisa.

    — Marco — Lou-reen chamou, o tom mais perto de ordem que de convite. — Vem comigo.

    Ele engoliu seco, pegou a adaga no embrulho e já se levantava.

    — E eu? — Kalamera disparou, ainda em pé, o olhar preso em Lou-reen.

    Houve uma hesitação curta. Lou-reen mediu a elfa, os quatro braços, o brilho de quem já estava calculando peça por peça do que teria sido levado da Forja.

    Hamita resolveu:

    — Ela é uma ferreira Wynrae. Certo? — lançou, olhando de lado. — Pode ser útil.

    Lou-reen não discutiu.

    — Então vem também — disse para Kalamera. — Mas sem abrir a boca até eu mandar.

    ***

    O Imperador Ivoney estava no centro da cena, torso nu como sempre, um manto escuro caindo dos ombros até os pés. Ao redor dele, os generais formavam um semicírculo: Aamerta, Grithin de braços cruzados, Hamita, Koopus cheirando a sal e maresia, e Lou-reen um passo à frente, expressão tensa.

    Atrás do Imperador, Hogge Bakalyn, o Primeiro-Ministro, mantinha-se ereto, mãos cruzadas nas costas, o olhar medindo cada rachadura como se pudesse somar tudo em números e relatórios. Venia permanecia próxima de Lou-reen, pronta com pena e tinta. Mavren, secretário de Grithin, tomava notas rápidas. O secretário de Hamita tentava acompanhar, mas o olhar ia e voltava para os destroços com um certo horror.

    Mais ao fundo, dois mestres ferreiros observavam em silêncio, rostos marcados de cinza e olheiras. Alguns oficiais completavam o quadro, todos em postura rígida. O cheiro ali era de incêndio depois da chuva.

    Marco parou ao lado de Lou-reen, Kalamera um passo atrás. Ela deu um passo à frente sem perceber.

    — O que aconteceu aqui? — perguntou, a voz mais alta do que planejava.

    Grithin virou o rosto na direção dela. O olhar pesou.

    — Achei que você não fosse mais militar de Taeris, Kalamera — disse, seco. — Só a ferreira particular da general Lou-reen.

    Ela sentiu o rosto queimar, abaixou a cabeça e recuou meio passo, ficando atrás do ombro de Lou-reen. As mãos de metal fecharam e abriram devagar.

    Aamerta foi quem quebrou o silêncio.

    — Um dos mestres ferreiros chegou ao amanhecer para abrir a forja e organizar a prova de hoje — começou. — Encontrou o galpão nesse estado… e o corpo.

    Um dos mestres ao fundo engoliu em seco; o outro apertou o gorro nas mãos.

    Marco olhou ao redor, tentando adivinhar onde o corpo tinha estado. Havia uma mancha escura perto da base de uma das colunas internas, já coberta com um pano.

    Kalamera, de repente, percebeu o que faltava naquela cena.

    Olhou de um lado para o outro, buscando um ombro largo, a barba rala, o martelo sempre presente nas costas.

    — Onde está o Mestre Gorthen? — ela perguntou, dessa vez intencionalmente alto.

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