Índice de Capítulo

    Serana cambaleava no piso quebrado, um joelho quase cedendo. O peito dela subia e descia em golpes irregulares. Quando ela cuspiu, o sangue saiu grosso e escuro e ficou preso nos dentes antes de cair.

    Os olhos dela não estavam em Hamita. Nem nos três que tinham cercado a general. Estavam fixos adiante, tremendo num ponto vazio do ar, como se esperassem alguém atravessar a poeira.

    A mão dela foi até a boca. Ela limpou com as costas dos dedos e deixou a mancha ali, exposta, sem se dar ao trabalho de esconder.

    — Ele… tá usando o Cetro… e os movimentos do Clyve…

    A voz saiu arranhada. Serana inclinou a cabeça um milímetro, como quem encaixava um detalhe fora do padrão

    — Mas tem algo diferente. Algo novo…

    A poeira se levantou sozinha, empurrada de dentro pra fora, como se uma porta invisível tivesse aberto no meio do pátio.

    Marco surgiu do centro dos escombros com Lou-reen nos braços.

    O corpo dela pendia, a cabeça caía para o lado, o cabelo grudado de sangue e pó. A roupa escura tinha rasgos abertos no abdômen e na lateral; onde a lâmina tinha entrado, o tecido estava duro, colado.

    Hamita se virou no mesmo instante.

    Ela também estava coberta de poeira e sangue seco. O ombro subia e descia com a respiração. A mão direita tremia de cansaço e raiva guardada. Mesmo assim, quando viu Marco, o rosto dela travou num tipo raro de surpresa.

    — Marco…?

    Ele não parou na Serana. Passou por ela em linha reta, sem desviar o olhar do caminho até Hamita, Lou-reen firme nos braços.

    Cedric deu um passo e fechou a passagem, duas lâminas subindo pra cortar o avanço. Marco sumiu no meio do passo.

    Um instante depois, ele já estava do outro lado, a dois passos de Hamita, como se Cedric tivesse tentado segurar uma sombra. O ar perto do lugar onde ele reapareceu ondulou e as bordas do corpo dele ficaram instáveis.

    A voz saiu baixa, contida.

    — Cuide dela.

    Hamita estendeu os braços e pegou Lou-reen com uma delicadeza que jamais mostrava em batalha. Ajustou o peso e firmou a general contra o peito.

    A essência negra rodava ao redor dele sem parar. A luz batia nela e falhava; as bordas do corpo dele ficavam instáveis, tremendo, e o ar perto da pele ondulava como metal quente. O chão perto dos pés dele parecia ceder.

    Na mão direita, o Cetro de Clyve. O cabo de madeira escura tinha ranhuras gastas de pegada e um brilho opaco de suor antigo. As junções de metal cortavam a haste em segmentos, presas por rebites pequenos e riscos de impacto. No topo, a caveira negra, mandíbula entreaberta, dentes lisos como pedra polida. Dois rubis cravados nos olhos devolviam a luz em brasa.

    Hamita recuou com Lou-reen colada ao peito, desviando das pontas de pedra que ainda restavam. O piso estava cheio de tocos e lâminas quebradas: as estalagmites que ela tinha erguido antes tinham virado ruína quando Serana foi arremessada e abriu a cratera no meio.

    O salto do Marco abriu espaço no cerco. Löerg, Cedric e Pátkos hesitaram um meio batimento e recuaram por instinto, indo de volta pra Serana, fechando ao redor dela sem precisar de ordem.

    Serana ergueu o queixo. A garganta dela trabalhou, seca, e ela não tirou os olhos de Marco.

    Pátkos inclinou o tronco, pronto pra desaparecer de novo. Cedric girou uma das espadas na mão, a impaciência tentando virar agressão. Löerg manteve o florete alto, ponta alinhada, procurando linha de peito.

    Marco ajustou a mão no Cetro, um giro mínimo de punho que encaixou a caveira no topo na direção deles. Os rubis pegaram a luz e devolveram um vermelho duro.

    — Olhem pra vocês. Impecáveis… igual ao dia em que ele reuniu cada um pela primeira vez.

    Löerg não tirou a ponta do peito de Marco, mas o pé da frente correu meio dedo, traindo o hábito que ele tentou esconder. Cedric parou de girar a espada e firmou os dois cabos, dedos brancos. Pátkos abaixou o queixo e o corpo dele ficou pronto pra desaparecer, só que a própria postura travou no meio, presa numa ordem antiga.

    Marco deu um passo. O chão perto dele rangeu baixo nas rachaduras, e ele parou ali mesmo, sem avançar mais.

    — Löerg. Tua ponta sempre denuncia teu pé da frente.

    A mão de Löerg apertou a guarda e a ponta oscilou um instante, voltando pro lugar rápido demais.

    — Cedric. Você acelera quando tá com raiva. Sempre.

    Cedric pressionou as duas lâminas pra baixo, como se fosse manter a raiva presa na pedra. O maxilar dele trabalhou uma vez.

    — Pátkos. Você some procurando o mesmo lugar. Ele sabia. Eu sei qual é.

    Pátkos travou o ombro, e a sombra dele não saiu do lugar. O olhar dele fugiu pra lateral e voltou, seco, evitando encarar a caveira no topo do Cetro.

    Serana rosnou. O som veio baixo, raspando, e ela avançou meio passo com o joelho ainda falhando, só pra lembrar quem mandava ali.

    — Vai ficar citando ele e esperar que a gente baixe a cabeça? Nós somos a lâmina do Clyve. Foi pra isso que ele nos juntou. Você não vai tomar isso pra você.

    Marco inclinou a cabeça um milímetro. A voz dele não subiu.

    — “Porque eu gosto de colecionar talentos.” Foi isso que ele te disse, Serana Vaelor.

    Serana piscou uma vez, involuntária. A garganta dela travou. O sangue continuou no canto da boca, e ela não limpou.

    Marco manteve o olhar nela.

    Cedric deu meio passo e segurou no meio do caminho, como se uma corrente invisível tivesse prendido o tornozelo. Löerg não piscou. Pátkos apertou os dedos e soltou, sem fazer som.

    Marco deixou a ponta do Cetro baixar um dedo, só o suficiente pra mostrar que aquilo não era ameaça de golpe.

    — Vocês ainda são fracos. Foi por isso que ele deixou vocês.

    Por um instante, ninguém se mexeu.

    — Foi por isso que ele tentou tomar o Império sozinho.

    Serana moveu o queixo, um comando preso na garganta. A mão dela fechou e abriu, sangue escorrendo pelo nó dos dedos.

    Marco respirou pelo nariz e continuou, no mesmo tom.

    — E ele teria conseguido… se eu não tivesse impedido.

    Serana endureceu o rosto, como se tivesse levado um tapa.

    — Pra ele, vocês eram recurso descartável.

    O trio não avançou. Também não recuou. O ar entre eles ficou cheio de decisão engolida. Marco ergueu o Cetro um palmo, só o bastante pra alinhar a caveira no topo com o rosto de Serana.

    — Ajoelhem.

    Ninguém se moveu.

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