Capítulo 065 — Isso é inesperado.
Marco flutuava, imóvel, enquanto o planeta Asteris girava lentamente abaixo dele. Os contornos de seus continentes brilhavam à luz tênue da Estrela Lauris, um sol esbranquiçado e pulsante, que ofuscava o vazio ao redor com sua presença radiante.
Ele suspirou, maravilhado.
— É lindo…
A voz de Nova surgiu em seus ouvidos, clara como sempre:
“Concordo. Mesmo com uma chance de 92% de morte, as vistas são espetaculares”.
Marco deixou escapar um sorriso leve, ainda absorvido pela imensidão à sua volta.
— Nova… como diabos eu tô usando meu traje?
“No momento exato em que Asora o soltou, analisei a trajetória e percebi que você estava prestes a alcançar velocidade de escape: 11,3 km/s. Isso, somado à ausência de proteção térmica e pressão interna, resultaria em uma explosão biológica lamentável: a sua.
Então, utilizei uma conversão de Essência para gerar um pulso de transferência dimensional e relocalizei o seu traje, que estava em sua mala, diretamente para o seu corpo. Também reforcei sua estrutura molecular com essência para torná-lo resistente ao atrito térmico da saída da atmosfera. E sim, fiz isso tudo antes do seu cérebro processar que estava voando.”
Marco piscou.
— Eu não entendi absolutamente nada.
Nova suspirou, com seu tom característico de impaciência sarcástica:
“Eu teletransportei seu traje da mala pro seu corpo, um milissegundo depois que a psicopata te jogou. E dei um upgrade nele pra você não virar purê de astronauta. Você me deve uns agradecimentos… e talvez um presente”.
Marco olhou para as próprias mãos, depois para a imensidão ao redor.
— Eu tô… no espaço, de novo.
Marco, solitário na órbita de Asteris, girava lentamente, um ponto minúsculo diante do universo.
— Nova… Você consegue me teletransportar de volta pra Ga-el?
“Consigo — respondeu Nova com naturalidade. — Mas precisaria de mais energia do que temos disponível. A quantidade necessária pra romper o campo gravitacional e reverter sua posição atual excede minha reserva em 32%.”
Marco fechou os olhos, tentando manter a calma. Então… ele sentiu um calor leve, uma vibração estranha.
Mesmo no vácuo… ele sentia essência primordial ao redor.
Abriu os olhos, surpreso.
— Espera… Eu tô sentindo essência aqui fora. No espaço.
Nova pareceu hesitar por um microssegundo, o que era raro.
“Hm. Devo admitir: isso é inesperado. Mas teoricamente viável.”
— Dá pra usar isso?
“Sim… Mas vai precisar canalizar essa essência e me entregar como combustível. E acima de tudo… vai precisar pensar em um ponto fixo. Um lugar exato onde quer aparecer. Um erro de cálculo e você pode parar dentro de uma parede, ou no céu de novo, ou no mar, ou… bom, você entendeu.”
Marco inspirou fundo, o máximo que o traje permitia.
— Tá. Um ponto fixo…
Ele fechou os olhos. Viu o brilho dos olhos de Lou-reen, as bandeiras de Taeris tremulando sobre os muros da cidade.
A vibração no peito de Marco ainda ressoava. Aquela sensação estranha que ele sentira antes do ataque… no camarote, enquanto observava as Olimpíadas. Era um ponto fixo. Um lugar gravado em sua mente. Seguro.
Era pra lá que ele voltaria.
Com um estalo silencioso, Marco reapareceu no camarote imperial. O ar ficou imediatamente denso. Explosões e gritos ressoavam da arena abaixo. Ele estava inteiro.
“Bem-vindo à superfície, Marco. — disse Nova. — Pressão estabilizada, gravitacional normalizada e conexão sináptica reconstituída.”
O som da arena bateu nele um segundo depois. As paredes vibravam com os estrondos lá embaixo, um coro de gritos, metal e essência se chocando. O camarote parecia menor do que antes, mais escuro, como se o caos tivesse engolido parte da luz.
Marco apoiou uma mão na mureta, respirando devagar dentro do capacete.
Ok. Eu tô vivo. E agora?
Ele olhou para baixo. A areia da arena estava tomada por pontos de luz, rajadas, grupos em conflito. Não dava pra distinguir quem era soldado, quem era atacante, quem só tentava sobreviver.
— Aonde eu deveria ir? — perguntou, sem tirar os olhos do tumulto.
Nova respondeu sem hesitar:
“Recomendo fortemente que você vá até a sala segura que Hogge mencionou. Corredor interno, dois níveis abaixo, acesso controlado. Lembra?”
A lembrança veio rápido: Hogge à frente, guiando todos pelos corredores, voz firme, falando da sala segura como se fosse apenas mais uma parte da rotina do Império.
“Você ainda é um civil, Marco. — continuou Nova. — Em um império militar, mágico e em plena crise. O encontro com Asora foi um lembrete… digamos, didático.”
A imagem de Asora voltou inteira: o olhar frio, o movimento simples, o cetro arrancado dele como se fosse brinquedo… e o mundo sumindo quando ela o lançou para o céu.
— Você consegue rastrear o cetro? — cortou, sem rodeios.
Houve um silêncio curto, cheio de processo.
“Consigo sentir o vínculo. Mas está… abafado. Asora usou algum comando vocal quando tomou o cetro. Algo pra ativar um modo de inatividade. Vamos chamar de modo Soneca.”
— Modo Soneca. — Marco franziu o cenho. — Clyve colocou um botão de soneca na arma que matou milhões. Ótimo.
“Não é tão simples quanto um botão. Ela não está desligada. Só… quieta. Os padrões de resposta do cetro estão suprimidos. Eu não consigo acessar as rotinas internas dele, nem puxar a manifestação de essência que ele gerava direto. O que eu tenho é o eco do vínculo entre vocês.”
Marco piscou, devagar.
— Mesmo assim, você ainda tá fazendo magia. Me tirou da órbita de um planeta e me jogou de volta aqui.
“Corretíssimo. Você continua sendo o portador vinculado. O cetro reconhece você, queira ou não. Enquanto o vínculo existir, eu posso usar você como interface.”
Ele ficou em silêncio por um momento, atento ao som da voz dela. Não era um pensamento dentro da cabeça. Era nítido, estalando nos ouvidos.
Marco levou a mão ao capacete.
— Espera. — Ele apertou a lateral. — Você não tá falando na minha mente.
“Não. O canal telepático se apoiava na proximidade direta com o cetro.”
— Então…
“Agora eu estou falando pelo sistema de áudio do capacete. Microfones internos, alto-falantes internos. Você está com um comunicador avançado da Terra, com alimentação mágica de um artefato primordial. Não é exatamente o manual original da NASA, mas funciona.”
Marco respirou fundo.
O vínculo ainda tá aí.
Essa parte importava mais do que qualquer explicação técnica. O bastão não estava na mão dele. Mas, em alguma camada que ele não entendia, ainda era dele.
— Se o vínculo ainda existe… eu posso pegar o cetro de volta.
“Tecnicamente, sim. Na prática, você está pensando em caçar uma Multiplicadora treinada por Clyve, no meio de um ataque coordenado, sem um plano, sem suporte e vestido da pior forma possível pra isso.”
— Já que você tocou no assunto. — Ele olhou para o próprio corpo, para o reflexo alaranjado nas placas do traje. — Não posso sair andando por aí vestido assim.
Nova soltou o que soou muito como um riso curto e descrente.
“Finalmente, um lampejo de bom senso.”
— Não vou me enfiar numa sala segura. — Marco falou baixo, mais pra ele do que pra ela. — Não enquanto alguém tá andando por aí com o meu cetro.
“Você não tem o menor preparo pra enfrentar Asora. Nem metade. Lou-reen treinou você pra aguentar um campo de batalha e não morrer nos primeiros cinco minutos, não pra duelar com uma assassina de elite.”
Ele se afastou da mureta, sentindo as juntas do traje responderem, precisas.
— Eu também não tava preparado pra cair em outro lado do universo. Nem pra matar Clyve. Nem pra descobrir que o céu é o espelho invertido da Terra. — Ele fechou o punho. — Mesmo assim, tô aqui.
“Essa é exatamente a sua pior justificativa até hoje.”
— Eu não vou ficar parado. — A voz saiu firme. — Se eu tiver que sobreviver nesse mundo, eu preciso ser capaz de ir atrás do que é meu. Nem que seja só pra tentar.
Nova ficou alguns milissegundos em silêncio. Ele já reconhecia aquilo: centenas de simulações rodando ao mesmo tempo, todas chegando à mesma conclusão desagradável.
“Ótimo. — ela resmungou. — Sua teimosia subiu 18% desde que começou a treinar com a Lou-reen.”
Ele quase riu. Quase.
— Vamos dar um jeito nesse traje, então. Se eu vou tomar a pior decisão da minha vida, pelo menos quero parecer alguém que sabe o que tá fazendo.
“Pedido aceito.”
O traje de astronauta começou a se reconfigurar.
As placas laranjas e refletivas se recolheram como camadas de metal líquido, escorrendo em linhas controladas, girando sobre os eixos, se encaixando de novo com estalos mecânicos curtos. Partes que antes eram lisas se dividiram em segmentos, formando ombreiras largas e protetores articulados nos braços e pernas.
A viseira espelhada retraiu em duas partes, deslizando para trás até sumir na borda do capacete, revelando o rosto suado de Marco, os cabelos escuros grudados na testa. O ar do camarote bateu no rosto dele como um tapa morno e cheio de cheiro de fumaça.
A nova armadura era laranja com detalhes em azul imperial, o mesmo tom dos uniformes de Taeris. As linhas seguiam um desenho familiar: placas sobrepostas no peito, proteção reforçada nos ombros, antebraços alongados, grevas firmes nas canelas. Tudo elegante, funcional e letal.
“Recriei o padrão de armadura cerimonial de Taeris, com adaptações tecnológicas e reforço estrutural em essência. Agora você está adequado à ocasião.”

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