Capítulo 33 - Silêncio Vermelho
Saindo do hospital, os primeiros feixes de luz do dia começavam a surgir, alcançando seus olhos cansados.
O excesso de claridade fez com que ela os semicerrasse instintivamente.
Ela sorriu — não pelo ardor da luz, mas por ver que a cidade havia resistido firme por mais uma noite.
Enquanto observava a cidade se iluminando, as pessoas despertando, sorrindo e interagindo umas com as outras, recordou-se do conselho de Beatriz e pensou:
“Uma folga, não é? Até que não seria má ideia.”
Com esse pensamento, seguiu caminhando em direção ao galpão de Pedro.
Fernanda empurrou os dois portões pesados do galpão. O rangido metálico ecoou pelo espaço escuro.
— Pedro? — chamou, a voz firme, mas carregada de expectativa.
O silêncio respondeu primeiro. Então, um clarão súbito rasgou a escuridão, acompanhado de um estrondo que fez o chão tremer sob seus pés. As lâmpadas começaram a se acender uma a uma, revelando o caos: ferramentas espalhadas, prateleiras tombadas, fumaça densa se espalhando pelo ar.
No fundo, entre a névoa cinzenta, a silhueta de Pedro surgiu. A roupa marcada por manchas escuras, queimaduras nos tecidos. Ele caiu de joelhos, retirando o capacete e a máscara com esforço. Tossiu, tossiu mais, abanando a fumaça com a mão.
— Foi uma bela explosão.
— Assim, senhora Fernanda… é você. — tossiu de novo, engasgando-se. — Me empolguei… misturei enxofre demais na pólvora.
Tentou se levantar, mas as pernas falharam. Fernanda estendeu a mão, firme, e o puxou para cima. Ele se apoiou nela, respirando fundo, antes de olhar em volta. O galpão parecia ter sido engolido por um vendaval.
— Meus ajudantes vão me odiar quando virem isso. Passaram o dia inteiro arrumando ontem… — riu nervoso, tentando disfarçar. — Vou dar um jeito antes deles chegarem.
Enquanto erguia uma prateleira caída, perguntou:
— Mas diga, a que devo a honra da visita da nossa formidável líder?
Fernanda cruzou os braços.
— Vim saber como anda a criação da arma.
Pedro assentiu, animando-se:
— Surpreendente, na verdade. Os rapazes aceleraram o projeto. Um deles… é um verdadeiro gênio da engenharia. Se eu cair morto amanhã, ele continua tudo sozinho. Talvez até melhor que eu.
Fernanda estreitou os olhos, mas sentiu o peso nos ombros aliviar quando ele completou:
— Ainda faltam algumas peças, mas se as estimativas estiverem certas, em duas semanas concluímos.
Ela respirou fundo, mais tranquila.
Pedro, porém, sorriu com malícia, limpando a fuligem da testa:
— Mas não pense que estamos de mãos vazias. Ao menos a arma que você pediu recentemente… essa já está pronta.
Fernanda piscou, surpresa.
— Pronta?
O vento soprou sobre eles, carregando o silêncio.
— Sua rotina deve estar bem corrida para esquecer disso, não é mesmo, chefinha? — disse Pedro, caminhando até um baú de ferro no canto do galpão.
O som da tampa se abrindo ecoou pelo espaço ainda cheio de fumaça. Ele puxou algo de dentro e ergueu com certo orgulho.
— Aqui está: seu revólver de pregos, capaz de disparar três de uma vez só, com pentes de cinquenta.
Pedro entregou a arma a Fernanda, que a segurou com firmeza, mas permaneceu confusa. Não se lembrava de ter pedido aquilo.
— Conforme você me pediu, ela tem uma calibragem precisa, é resistente e tem um poder de perfuração impressionante. Pode atravessar o crânio dos mortos-vivos com facilidade, e sem fazer barulho. — Pedro falava com entusiasmo, os olhos brilhando. — Fiz alguns ajustes enquanto trabalhava naquela super arma. Consegui reduzir a pólvora sem perder potência. Ah, e mesmo sua filha não tendo explicado direito como você queria a pistola, eu improvisei uma mira…
Fernanda arregalou os olhos ao ouvir a menção à filha. O sangue lhe subiu ao rosto, os punhos se fecharam com força.
“Aquela menina”, pensou, sentindo a fúria crescer.
— Muito obrigada, Pedro. Era exatamente isso que eu queria… não sei como pude esquecer — disse, interrompendo-o com um aperto firme no braço, impedindo que continuasse a se vangloriar.
Pedro ficou sem palavras, surpreso com a reação. Fernanda guardou a pistola na cintura e virou-se, caminhando com passos firmes em direção à saída.
“Mas eu ainda nem terminei minha explicação”, pensou Pedro, pasmo, observando-a se afastar.
Fernanda, por sua vez, estava tomada pela raiva. A ideia de sua filha usar seu nome para conseguir algo tão perigoso a deixava em chamas. Caminhava apressada pelas ruas, determinada a encontrá-la.
Ao passar pela praça, uma mulher correndo esbarrou nela. Fernanda se desequilibrou por um instante, surpresa. A mulher, sem perceber, seguiu em disparada até uma multidão que se aglomerava mais à frente.
Intrigada, Fernanda avançou. O som de vozes misturadas, gritos e murmúrios crescia conforme se aproximava.
— Mas o que está acontecendo aqui?! — gritou, mas sua voz se perdeu no tumulto.
Ela se esgueirou entre corpos, empurrando e desviando, até alcançar a frente da multidão.
E lá estava Damon. O sorriso malicioso estampado no rosto, as mãos erguidas como se fosse dono da situação. À sua frente, Madalena. Tremendo, o suor escorrendo pela testa, os olhos fixos nele. Nas mãos, uma arma apontada, vacilante.
Há poucos minutos, Madalena avançava com passos firmes, o olhar fixo em Damon.
— Assuma logo o que você fez! Foi você que o matou! — acusou, a voz trêmula, mas carregada de coragem.
Damon apenas sorriu. Um sorriso malicioso, frio, que parecia zombar de cada palavra.
— Não sei do que você está falando. Eu nunca matei ninguém.
A multidão ao redor começou a murmurar, alguns comentando, outros rindo, desviando o foco para fofocas e suposições. Damon aproveitou o momento, ergueu o queixo e, em um gesto rápido, passou o dedo pelo próprio pescoço, sussurrando baixo só para Madalena ouvir:
— Seu maldito leão-marinho.
Ela engoliu seco. O insulto e o gesto queimavam por dentro, mas em vez de recuar, respirou fundo e avançou contra ele. O público se calou por um instante, curioso.
Com facilidade, Damon a repeliu com um chute certeiro no abdômen. Madalena caiu para trás, tossindo, o corpo curvado pela dor.
— Não faça isso de novo — disse ele, com voz firme. — Da próxima vez não vou reagir com delicadeza.
O público explodiu em risadas.
— Achou mesmo que podia enfrentar o líder dos exploradores? — zombou alguém.
— Mentirosa! — gritou outro.
— Deve estar inventando tudo isso só pra ganhar a pensão dos mortos! — acusou uma voz.
— Nem marido ela tinha! — disseram, negando sua história.
Damon, alimentado pelo apoio, ergueu os braços como se fosse um campeão.
— Viram? — exclamou. — Ela não passa de uma porca mentirosa!
Madalena, caída, tossia e babava, ouvindo os insultos.
— Que nojo! — disseram alguns.
Mas algo mudou. Entre a dor e a humilhação, uma risada começou a escapar de seus lábios. Primeiro baixa, depois crescendo, até ecoar pela praça.
Damon parou, confuso.
— O que você acha tão engraçado?
Ela ergueu a mão.
— Consegui pegar.
O olhar de Damon desceu até a cintura dela. O sangue gelou em suas veias: na mão de Madalena brilhava uma pistola. Ele levou a mão à própria cintura, mas sua arma não estava lá. Ela havia tomado quando correu contra ele.
Antes que Damon pudesse reagir, Madalena se levantou, firme apesar da dor, e apontou a pistola diretamente para o peito dele.
O público silenciou. Alguns gritaram ao fundo, outros recuaram. O clima mudou de imediato.
Ela encarou Damon com olhos ardentes e disse:
— Se qualquer um der um passo, eu atiro.
Damon ergueu as mãos, tentando parecer calmo diante da multidão.
— Madalena, se acalme. Foi só uma brincadeira. O que você está fazendo é muito sério… pode até ser exilada por isso.
Madalena estreitou os olhos, a respiração pesada.
— Eu tô pouco me importando com você.
Fernanda surgiu entre as pessoas, tentando intervir.
— Madalena, por favor… — implorou, mas foi ignorada.
Madalena puxou o gatilho. O disparo ecoou pela praça, atingindo o ombro de Damon. Ele cambaleou, o rosto contorcido de dor, mas avançou contra ela com fúria.
Em um movimento brusco, ele a derrubou no chão. Madalena, desesperada, tentou disparar novamente. O gatilho clicava em falso, sem resposta. Ela puxava repetidas vezes, o pânico crescia em seus olhos.
Damon riu, mesmo ferido.
— Haha… você realmente acha que eu não percebi você pegar minha arma? Não sabia que havia uma munição no tambor, um descuido meu. Mas deixa eu te falar uma coisa… eu não sou tão besta quanto você pensa.
Com um tapa, arrancou a arma da mão dela. Madalena estremeceu. Damon retirou as munições do bolso e, com calma cruel, encaixou na arma.
Madalena começou a gaguejar, lágrimas nos olhos.
— P-p-por favor… para…
Ela colocou a mão diante do cano, em desespero. Fernanda se aproximava, suplicando:
— Damon, pare com essa brincadeira!
Ele riu.
— Brincadeira? — e sem hesitar, disparou, perfurando a mão e atingindo a cabeça de Madalena.
O som seco do tiro silenciou a praça. Ninguém ousou falar. O corpo de Madalena tombou imóvel, e o sangue escorria pelo chão.
Fernanda correu até ela, ajoelhando-se ao lado, segurando suas mãos.
— Por que você fez isso? — perguntou, encarando Damon.
Ele olhou para trás, ainda com a mão no ombro ferido.
— Como, por quê? Ela tentou me matar. Você não viu? — disse com cinismo.
Olhou para o corpo e completou:
— Agora vocês têm uma boca a menos para alimentar. E pelo tamanho da baleia, era uma boca que fazia um belo estrago.
Saiu rindo, mancando, enquanto a multidão permanecia em silêncio absoluto.
Fernanda, de joelhos, segurava as mãos de Madalena, sentindo o corpo baixar a temperatura. Seus olhos se ergueram, cheios de fúria, acompanhando Damon que se afastava.

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