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    Fazia apenas duas semanas desde que Kamito e sua mãe haviam se mudado para aquela cidade e, como sempre, ele havia se tornado alvo de piadas e brincadeiras maldosas por conta de sua aparência, considerada estranha pelas outras crianças. Mais uma vez, ele foi até o parquinho próximo de casa para tentar encontrar alguém para brincar. Mesmo sabendo que poderia ser julgado, decidiu ir. Foi então que viu quatro valentões cercando uma garota sentada em um dos bancos. 

    — Ei, vejam só quem está ali! — disse um dos garotos, apontando para ela e rindo. — É a esquisita. Vamos lá zoar com ela, vai ser divertido. Ela é uma chorona e medrosa. Vamos assustar ela! 

    Os garotos se aproximaram em grupo, fazendo a garota se encolher no banco, assustada. Um deles puxou seu cabelo com força, arrancando um gemido dela, enquanto ela tentava se soltar, mas estava completamente cercada. 

    — Você é aquela garota esquisita. — Continuou outro, se inclinando à frente dela. — Cadê a sua irmã, hein?! Por que está sozinha?! Nem ela te aguenta! Ela te abandonou?! — ele ria — Por que tenta escapar?! Tá com medo?! 

    Em meio às risadas e comentários cruéis, a garota não aguentou e começou a chorar. Ela queria fugir, mas não conseguia. Seu corpo tremia, e suas mãos apertavam o banco com força, sem saber o que fazer. Foi então que alguém apareceu. 

    — Ei! — a voz de Kamito soou, trêmula, mas firme o suficiente. Ele deu um passo à frente, com as mãos cerradas. — Por que vocês não a deixam em paz?! Arrumem outra coisa pra fazer! 

    Ele estava com medo, e suas mãos tremiam visivelmente, mas não podia simplesmente virar as costas. Não queria ver alguém passar pelo mesmo que ele passava todos os dias. Mesmo em desvantagem, decidiu confrontá-los. 

    Os garotos se viraram lentamente, analisando-o, até que um deles abriu um sorriso debochado. 

    — Olha só quem apareceu… — disse, aproximando-se.  

    — É o novato. Outro esquisito! — ele riu alto. — Que aparência é essa?! Você é de algum circo?! Uma aberração! Pessoas normais não são assim. 

    Ele deu mais um passo, encarando Kamito de cima a baixo. 

    — E ainda acha que tem o direito de dizer alguma coisa?! Tá bancando o herói pra impressionar a esquisita?! — cerrou o punho. — Você acaba de se dar mal. 

    Antes que Kamito pudesse reagir, os garotos correram em sua direção. Um deles acertou um soco em seu estômago, fazendo-o perder o ar e cair no chão. Os outros riram alto enquanto o levantavam à força e seguravam seus braços, impedindo qualquer reação. Kamito se contorcia, tentando se soltar, mas era inútil. 

    Um dos garotos foi até a garota e a puxou pelo braço, obrigando-a a se aproximar e a assistir. 

    — Olha bem pra ele, esquisita. — disse, segurando o rosto dela para que não desviasse o olhar. — É isso que pessoas como vocês merecem! A partir de hoje, vamos fazer da vida dele um inferno. Seja grata por isso! 

    Naquela tarde, Kamito apanhou enquanto a garota assistia, chorando, incapaz de fazer qualquer coisa. Depois daquele dia, sua vida realmente se tornou um inferno por causa daquela iniciativa, mas ele não se importava. O que importava era que a garota estava segura. 

    Ele se lembrava de estar sentado no chão, machucado, olhando para o nada, quando ouviu uma voz baixa e trêmula. Ela estava se desculpando. 

    Kamito levantou o olhar, confuso. Ninguém, além de sua mãe, jamais havia se preocupado com ele antes. A garota não parava de pedir desculpas, repetindo aquilo várias vezes, com lágrimas escorrendo pelo rosto, enquanto ele apenas a encarava, sem saber o que dizer. 

    — M-Me d-desculpa… — a garota dizia entre soluços, apertando as próprias mãos. — V-Você se machucou por minha causa! Por favor, me desculpa! E-Eu… eu não queria que isso acontecesse!!! 

    Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela não queria que ninguém tivesse se machucado e, mesmo depois de tudo, continuava se desculpando sem parar. Kamito apenas sorriu ao perceber que ela estava bem e sem nenhum ferimento, algo que parecia confundi-la. 

    — N-Não precisa se desculpar. — disse ele, ainda sentado no chão, tentando tranquilizá-la. 

    — O importante é que você está bem! Eu não me importo de ter mais alguns valentões pegando no meu pé. — Ele respirou fundo e abriu um sorriso. — Prazer em te conhecer, eu sou Kamito! 

    Ele sorriu para a garota enquanto se apresentava. Seu sorriso era sincero e contagiante, o que a fez, aos poucos, parar de chorar. Após alguns segundos, ela finalmente se recompôs e se apresentou. Antes de falar, ela o observou atentamente. 

    — Eu sou Akane! — disse, inclinando levemente a cabeça. 

    — Você é novo aqui? Nunca tinha te visto antes. — Seus olhos percorreram o rosto dele, curiosos. — Você é de outro mundo?! Por que seus cabelos são dessa cor? Nunca vi isso antes. 

    Ela o olhava com curiosidade genuína. A pergunta fez Kamito rir, levando a mão à cabeça de forma sem jeito. Akane acabou rindo também, percebendo o quão impossível aquilo soava. 

    — Eu sou novo aqui, me mudei há alguns dias… — respondeu ele, ainda sorrindo — Você quer ser minha amiga?! Podemos brincar sempre… se você quiser, é claro. 

    Kamito estava visivelmente envergonhado e nervoso. Tinha medo de que ela recusasse ou se afastasse por causa de sua aparência, mas, para sua surpresa, Akane aceitou de imediato, abrindo um grande sorriso. Logo depois, os dois já brincavam juntos naquele parquinho, como se nada tivesse acontecido. Como se aquele lugar fosse, finalmente, um espaço de paz. 

    Aquele dia era muito parecido com o atual. O mundo parecia parar sempre que estavam juntos, como se fossem capazes de tudo. Caminhar de mãos dadas com Akane fazia Kamito se sentir em outro mundo, onde ele conseguia esquecer seus problemas. Ele jamais imaginou que conheceria alguém capaz de fazê-lo se sentir assim até o dia em que a conheceu. Antes disso, vivia em um mundo escuro e vazio, e ela o havia tirado de lá. Akane o salvou, e ele era profundamente grato por isso. 

    Com o tempo, tornaram-se muito amigos, quase inseparáveis. Ela era sua vizinha e, graças a isso, suas mães também ficaram amigas. Foram criados praticamente juntos. Certo dia, Kamito conheceu as irmãs de Akane, e tudo mudou. Cresceram juntos, quase como irmãos, até o dia em que sua mãe precisou viajar para fora do país. 

    Kamito não queria se mudar, então a convenceu a deixá-lo ali e partir sem medo. A única condição imposta foi que ele obedecesse à senhora Karin sem reclamar. Às vezes sentia muita falta da mãe, mas esse sentimento diminuía quando estava com Akane e com as outras. Ainda assim, sempre que chegava em casa e não havia ninguém para recebê-lo, aquilo era extremamente deprimente. 

    — Quando seu novo treinamento começa?! — perguntou Akane, quebrando o silêncio enquanto caminhavam. 

    — A Ryruka me disse que você e a Hiena estão treinando bastante o controle de energia no seu tempo livre. — Ela o olhou de lado, curiosa. — Como é morar com ela? 

    Akane falava enquanto tomava sorvete, sem desviar os olhos dele. Kamito respirou fundo antes de responder. 

    — Acho que perto das provas finais. Eu não queria te preocupar, por isso não disse nada. — Ele fez uma breve pausa.  

    — Pedi à Hiena para me ajudar com o controle de energia, já que a Manifestação dela envolve toda uma área, então achei que ela seria ótima nisso. Mas, em troca, ela pediu para morar na minha casa. — Ele soltou uma risada curta. — Ela até que é legal e se esforça bastante para me ajudar, mas exagera demais. 

    Kamito parou de tomar o sorvete enquanto falava. As lembranças da convivência com Hiena passaram por sua mente, tirando-lhe o ânimo de voltar para casa. Ele riu de nervoso, claramente desconfortável com a ideia. 

    — Mudando de assunto… — disse, tentando afastar aqueles pensamentos. — Por que você veio antes pra cá?! Fiquei surpreso quando soube que você já tinha saído sem mim. Aconteceu alguma coisa? 

    — Nada de importante. — respondeu Akane, falando mais baixo.  

    — Eu só queria te encontrar em um lugar diferente… algo que namorados fazem. Como somos vizinhos, não dá pra fazer isso sempre, então quis fazer diferente hoje. — Voltou a encará-lo, mais séria. — Já decidimos o que queremos para as nossas vidas, então eu quero aproveitar a minha o máximo que puder… com você. 

    Ela parecia um pouco séria ao dizer aquilo. Kamito entendeu que ela se referia à sua escolha de continuar lutando contra os Manifestadores que ameaçavam a cidade e ao fato de ter deixado sua antiga vida para trás de vez. 

    — Você não precisa mais lutar se não quiser. — disse Akane, falando com calma enquanto caminhava ao lado dele. — Ninguém está te forçando a isso. Nós nos preocupamos com você. Não precisa se forçar a isso se não quiser. 

    Kamito respirou fundo antes de responder. Seu olhar se perdeu por um instante, como se buscasse palavras que nunca conseguia encontrar por completo. 

    — Akane, eu só… — ele hesitou, apertando levemente a mão dela. 

    — Eu só quero achar um propósito maior para minha vida. Eu prometi que protegeria essa cidade e cumpri a minha palavra. Prometi que sempre te protegeria e eu farei isso, mas eu ainda me sinto incompleto. — sua voz saiu mais baixa. — Sinto como se faltasse uma parte minha. Não estou dizendo que lutar faz eu me sentir bem ou mais completo, mas que me falta algo pelo qual eu realmente possa lutar. Eu quero poder me encontrar, e eu tenho você ao meu lado. Você sabe de tudo pelo que eu passei e nunca me deixou. Eu preciso de você aqui, comigo, para me dar forças e para não deixar que eu desista. 

    Ele a olhou seriamente, com determinação. Kamito queria se encontrar, entender o motivo de ainda se sentir vazio mesmo depois de conquistar tudo o que desejava. Ainda faltava algo, e ele estava disposto a procurar por isso a qualquer custo. 

    — É claro que vou ficar. — respondeu Akane sem hesitar, aproximando-se mais dele. — Você nem precisava pedir. Eu sempre estarei ao seu lado. Eu disse que te protegeria e que seria seu escudo, então é claro que eu vou ficar ao seu lado, mesmo que seja apenas nós dois contra o mundo. 

    Akane sorriu com sinceridade e transparência. Suas palavras o confortavam e lhe traziam segurança. Kamito sentia que ela realmente o entendia e que seria capaz de tudo para permanecer ao seu lado, independentemente da situação. 

    — Agora, vamos aproveitar o nosso encontro! — disse ela, tentando animá-lo. — Viemos para nos divertir, não para relembrar o passado ou pensar em coisas futuras. Hoje, você é todo meu. 

    — Você tem razão! — respondeu Kamito, abrindo um leve sorriso. — Desculpa por ter falado essas coisas. Vamos aproveitar esse dia. Agora que tudo acabou, temos tempo de sobra. 

    Ele sorriu novamente e voltou a acompanhá-la. Kamito estava decidido. Caminharam até um banco próximo, onde se sentaram para conversar e apreciar a vista. Ele fechou os olhos por alguns instantes, sentindo a brisa suave, enquanto pensava que toda aquela luta havia finalmente chegado ao fim. 

    — Foi um longo caminho até aqui. — disse, com a voz tranquila. — Mas finalmente podemos descansar. Esses meses foram uma loucura, mas agora podemos respirar aliviados. 

    Aquela era o fim de sua jornada como um herói promissor. Kamito havia lutado para proteger quem amava e salvado sua cidade ao lado de seus amigos. Ele não tinha mais um propósito claro, muito menos um objetivo definido, e ainda assim se sentia vazio. Não importava o que acontecesse, ele sempre lutaria para proteger aqueles que amava e o seu lar. Mesmo que isso lhe custasse a própria vida, não desistiria novamente. 

    Agora, ele tinha alguém que sempre estaria ao seu lado e amigos dispostos a ajudá-lo. Seu nome era Kamito Takeda, e aquela havia sido sua antiga vida como um humano comum. 

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