Índice de Capítulo

    O tempo seguia seu ritmo tranquilamente. Na escola, a aula de japonês seguia seu ritmo normal. O professor falava mais uma vez sobre a importância de se conhecer a história da língua e como era essencial para a compreensão do presente. Tão essencial que Kamito estava debruçado sobre a carteira, quase dormindo. Akane o olhou de soslaio e sorriu, divertindo-se com o estado dele. Era óbvio que o assunto não era interessante para ele.

    — Professor?! Posso ir ao banheiro?

    Kamito levantou a mão, bocejando levemente. Alguns colegas riram discretamente por conta de sua voz arrastada. O professor, com o cenho franzido, o encarou por alguns segundos antes de dar permissão com um leve aceno de cabeça.

    Ele se levantou e caminhou em direção à porta. Estava prestes a tocar na maçaneta quando sentiu algo em seu ombro direito, o toque firme de uma mão. Assustado, virou-se bruscamente para trás.

    — O que foi, Kamito? Por acaso viu um fantasma?! — ironizou o professor, com os braços cruzados. — Se sua intenção é tumultuar minha aula, aconselho que se sente imediatamente.

    Raivoso, o professor esperava uma explicação. Kamito, sem saber como reagir, apenas desviou o olhar, abriu a porta e saiu para o corredor. Encostou-se na parede, tentando se acalmar.

    — Eu podia jurar que alguém havia encostado no meu ombro… Eu senti uma mão ali. Mas se não foi o professor… quem pode ter sido?

    O garoto pensou enquanto espiava pela pequena janela da porta. Ninguém na sala ria, o ambiente estava em completo silêncio, e as cortinas balançavam levemente com o vento que entrava pelas janelas abertas. Ele parou de espiar e seguiu em direção ao banheiro, ainda tocando de leve o ombro direito.

    — Será que foi apenas a minha imaginação por causa do sono?! — murmurou, tentando não dar importância à sensação estranha que havia sentido.

    Enquanto caminhava distraído, não percebeu que, de outro prédio da escola, alguém o observava com atenção. Era Coiote. Ele já estava em movimento. Assim que se sentiu satisfeito com o que viu, afastou-se da borda do telhado e desapareceu.

    Kamito chegou ao banheiro e lavou as mãos, ainda distraído em pensamentos. Hoje era seu último dia de aula. Tudo acabaria por um tempo, logo todos estariam se despedindo.

    Ao terminar, saiu do banheiro e caminhou de volta para a sala. O corredor parecia mais longo do que de costume, e um silêncio incomum pairava no ar, nem mesmo os pássaros cantavam. Perdido em pensamentos, andava sem pressa. As únicas vozes que quebravam o silêncio eram as dos professores, abafadas atrás das portas das salas. Ele se sentia exausto daquela rotina e, principalmente, daquela solidão persistente.

    Parou diante de uma das janelas e observou a tarde que se desenhava: linda, calma… e, ainda assim, tudo parecia vazio por dentro. Lutar contra Carniceiros e tentar manter uma vida normal, isso fazia algum sentido? Ele realmente conseguia conciliar as duas coisas? Fechou os olhos por um instante e os abriu novamente, voltando o olhar para o corredor à frente. Era hora de voltar. Já havia perdido tempo demais.

    O restante da tarde passou lentamente, como se o tempo tivesse decidido se arrastar de propósito. Cada aula durava uma eternidade, talvez por causa da expectativa pelo fim. Quando a professora de química precisou encerrar a aula antes do previsto, a turma vibrou. Afinal, ela ministrava as duas últimas aulas. Estavam livres mais cedo. Kamito suspirou, aliviado, enquanto se recostava na cadeira. Foi então que Akane se aproximou, com uma expressão preocupada no rosto.

    — Ei, Kamito?! Você está bem? Hoje você passou o dia meio perdido… — ela o fitava com seriedade, sem desviar o olhar. — Fiquei preocupada. Não está escondendo nada de mim, não é?

     Tocou a testa dele com a mão, procurando sinais de febre. Sua preocupação era tão evidente que sequer se importava com os olhares curiosos da turma.

    — Eu estou bem. Só estava pensando que hoje não tem nenhum daqueles “assuntos” para cuidar, e tanto Yujiro quanto Ryruka estarão ocupados…senti um pouco de solidão. — ele a olhou com esperanças nos olhos. — É a primeira vez depois de um tempo que estamos livres após a aula. Você não quer passear pelo parque ou tomar um sorvete? Eu pago.

    Mais do que um passeio, o que ele queria era um momento de paz. Não queria estar sozinho naquela tarde bonita, queria estar com ela.

    — Desculpa, Kamito. Eu prometi que faria compras com a Suzumi e com a Luise hoje. Você não quer vir comigo? Vai ser divertido.

    Ela estava empolgada, e seu sorriso era tão sincero que fez Kamito sorrir também. Akane esperava uma resposta, mas ele já sabia o que diria.

    — Não quero atrapalhar, é um momento só de vocês. E eu não quero passar o resto do tempo sentado enquanto vocês escolhem roupas.

    — Que cruel! — ela respondeu rindo. — Você passaria o seu tempo acompanhado de belas garotas, Kamito! Assim nunca sairá com uma garota!

    Kamito também riu. Logo depois, ela deu um passo para o lado, abrindo espaço para que ele se levantasse.

    — Mas não se preocupe, eu trago alguma lembrança. Já sei até o que comprar!

    — O que tem em mente? — falou enquanto caminhavam juntos para fora da sala — Assim eu posso comprar algo para você também.

    O corredor estava mais movimentado do que antes. E, ainda assim, com Akane ao seu lado, o mundo de Kamito parecia mais leve, mais colorido.  Como se o sorriso da garota trouxesse mais alegria ao seu mundo.

    — É segredo. Não precisa comprar nada para mim, porque a sua lembrança já vem junto com a minha.

    Akane estava especialmente misteriosa, cantarolava enquanto caminhava em direção ao portão da escola. Quando os dois chegaram à saída, ela parou de andar. Seguiriam por direções opostas, mas, naquele instante, ela hesitou. Virou-se para Kamito, com uma expressão levemente preocupada.

    — Tem certeza de que não quer vir comigo? — perguntou, em um tom doce. — A Luise vai gostar se você for.

    Ele por sua vez negou com a cabeça.

    — Melhor não, ela teria mais motivos para criar confusão para o meu lado. Prefiro não me arriscar dessa vez.

    Akane aproximou-se. Kamito ficou confuso por um segundo, sem entender o motivo, até sentir os lábios dela encostarem em sua bochecha.

    — P-Para você se animar um pouco…  — ela disse já corando de vergonha. — Não vá arrumar confusão, viu? Quando eu voltar, prometo que passo na sua casa para assistirmos algo.

    Kamito tentou estender a mão em direção a garota, mas ela logo se afastou e saiu correndo enquanto sorria. Ele ficou ali, parado, sem saber como reagir. Levou a mão esquerda até a bochecha, onde sentiu o beijo, e tocou o local com delicadeza. Sorria envergonhado. Akane sempre sabia como ele se sentia. Sabia exatamente como fazer a tristeza ir embora. Virando-se, o rapaz seguiu seu caminho em direção à própria casa, ainda com o sorriso no rosto.

    Mas, do outro lado da rua, escondido entre os carros e sombras do fim de tarde, Coiote o observava com atenção. O momento que ele tanto esperava finalmente havia chegado, e a expectativa o fazia vibrar por dentro.

    No caminho, Kamito passou em frente a um antigo parquinho onde costumava brincar com Akane na infância. Parou por um instante e, levado pela nostalgia, recordou-se de lembranças boas: as risadas, os sonhos de criança e de como se conheceram.

    Mas as lembranças foram quebradas por uma presença. Ele sentiu uma sombra se projetar atrás de si. Um arrepio percorreu sua nuca, a mesma sensação que tivera na escola, quando pensou ter sentido alguém tocando seu ombro.

    — Você que é o Kamito Takeda?! Tenho certeza de que é. Seu jeito de idiota deixa isso estampado na sua cara. Principalmente esse seu cabelo azul.

    Ele tinha um tom arrogante e ameaçador, tentando fazer de tudo para irritar o mais jovem.

    — Uau! Olha só o olhar dele, estou morrendo de medo. — Kamito ironizou, com a voz carregada de sarcasmo. — Quem é você? O que você quer comigo? A sua presença não é normal.

    O garoto manteve a expressão séria, tentando entender quem era aquele sujeito e por que ele o abordava daquela forma. Ele aparentava ser mais esperto e mais forte do que um Carniceiro comum, mas era difícil de identificar já que não tinha conseguido sentir sua presença.

                — Isso não é óbvio? Eu vim para acabar com você. Estava esperando o momento certo, em que se separasse dos seus amiguinhos. — disse o rapaz com um sorriso provocador. — Vocês ficam correndo por aí como se fossem heróis, mas eu vim pôr um fim nisso. Não preciso te dizer meu nome, já que eu vou te matar.

    Antes mesmo que Kamito piscasse, o homem desapareceu e reapareceu atrás dele. Kamito tentou se virar, mas ele começou a se mover com rapidez, mudando de lugar a todo instante. Kamito não conseguia acompanhá-lo.

    — É só isso que você tem?! Que patético. Eu achava que você era o mais forte dos quatro, mas pelo visto eu estava errado. — provocou.

    Logo Coiote começou a atacá-lo de raspão propositalmente, apenas para dar a falsa impressão de que Kamito estava conseguindo se esquivar. Era cruel, Kamito não entendia o que ele queria de verdade. Tentou se afastar, mas o inimigo sempre se posicionava em locais que o encurralavam. O Garoto apertou as mãos com força e engoliu o ar, tentando acompanhar os movimentos, mas ele sempre desaparecia.

    Sem perceber, ele surgiu bem atrás e tocou levemente seu ombro direito com a mão esquerda. Kamito sentiu um calafrio familiar e se virou, assustado. O outro sorria com um ar sádico e satisfeito. Antes que o garoto pudesse reagir, ele o agarrou e o levou dali em um único movimento veloz, deixando apenas poeira suspensa no ar.

    Quando se deu conta, já estava sendo lançado contra o tronco de uma árvore. O impacto foi brutal, o suficiente para fazê-lo cuspir sangue. Caiu de joelhos, ofegante, enquanto o oponente se aproximava, rindo como se estivesse apenas se divertindo. Ele não era um Carniceiro comum, e isso ficava claro.

    — Não me decepcione. Vamos, use as chamas. Eu te deixo começar, que tal?

    Ele falava com sarcasmo, mantendo o sorriso debochado. Seus olhos permaneciam fixos em Kamito. Famintos, ansiosos pelo que estava por vir.

    — Desgraçado! Por que não me mata de uma vez?! Pode parar com isso!

    Kamito se levantou com dificuldade. As costas doíam e suas pernas tremiam sem controle. Não tinha saída. Estaria diante do seu fim?

    — Nada disso. Por que acabar com a diversão logo agora?! Que tal fazermos um jogo? Eu te darei cinco minutos de vantagem. — ele falava com seriedade perturbadora. — Você pode fugir, se esconder ou tentar me matar nesse tempo. Eu só vou me mover quando o tempo acabar. Acha que isso é justo?

     Ele estava falando sério. Sua expressão sádica e ao mesmo tempo satisfeita deixava claro. Mantinha aquele tom provocativo apenas para tentar deixá-lo desesperado. E estava conseguindo.

    Kamito não sabia o que fazer. Estava evidente que aquele homem era muito mais forte do que qualquer outro inimigo que já havia enfrentado até então. E agora, tudo o que ele tinha eram cinco minutos… que provavelmente já estavam contando.

    Por um breve instante, sentiu-se aliviado por Akane não estar ali. Uma luta pela sobrevivência estava prestes a começar, e ele sabia que a sorte não estava ao seu lado.

    Aquele dia mudaria sua vida para sempre. O início de algo que ele não poderia mais evitar. O dia em que seu caminho sem volta como um Manifestador Espiritual finalmente começava.

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