Índice de Capítulo

    A noite tornara-se silenciosa como um cadáver.

    A única coisa que se podia ouvir era o crepitar da madeira, quando a taverna em chamas desabou sobre si mesma. Uma enorme fogueira. Grande o bastante para iluminar a rua inteira e tão alta que parecia arranhar o céu. O ar quente soprando sobre eles. Por sorte, as construções eram afastadas o bastante e o fogo não chegou a se espalhar para outras casas.

    Siegfried olhou ao seu redor, mas a única coisa que viu foram cadáveres.

    Uma dúzia de plebeus havia morrido e as crianças não estavam muito melhores. Tom parara de se mover há um ou dois minutos, embora de vez em quando o seu peito subisse e descesse com dificuldade — ainda respirava, mas por quanto tempo?

    Siegfried tocou os lábios rachados e molhados de sangue do último golpe do garoto.

    “Jogou a vida fora por tão pouco.”

    Agora que a batalha havia terminado, os poderes de Mimosa também chegavam ao fim e a dor que ignorou durante o combate voltava aos poucos. A exaustão, os hematomas. Mas nenhum ferimento fatal. É o que acontece quando os seus inimigos trazem pedaços de pau para uma luta de espadas.

    Ao contrário de Tom, Kira não se movia. A garota estava desfalecida no chão, completamente imóvel e, mais provavelmente, morta.

    Dos poucos moradores que ficaram para assistir à luta, restava agora apenas uma mulher esguia de cabelos negros e outras duas implorando que esta se movesse. Não tiveram sucesso. Ao invés de se esconder com os outros, a mulher lançou a Siegfried um olhar de assombro. Implorando sem dizer uma palavra.

    Foi apenas por um piscar de olhos. Menos do que isso até. Um instante menor do que um instante. Mas ela o lembrou da mulher bonita que via em seus pesadelos. A mulher da cabana. Não era ela e disso tinha certeza, mas…

    Se pareciam, ao mesmo tempo em que não poderiam ser mais diferentes. E sentia uma coceira em sua mente ao vê-la, como se tivesse esquecido de algo importante. Uma sensação desconfortável. Mas continuou a encará-la por mais dez segundos, como se esperando que a imagem voltasse. Esperando que se transformasse nela novamente.

    Até que ouviu um gemido de dor.

    O Homem de Olhos Amarelos ainda estava vivo. Mais do que isso, estava se levantando.

    O cavaleiro usou o bastão como apoio e se pôs de joelhos com esforço. Quatro flechas pendendo das suas costas, como um porco-espinho. A mão esquerda falhando em segurar as entranhas que lhe escapavam pelo estômago, escorrendo pelos seus dedos como vermes fugindo da lama. A boca aberta, tragando o ar ruidosamente, com uma expressão de dor no rosto pálido, empapado de suor e sujo, tanto de lama como de sangue; o lado esquerdo mutilado. Um cadáver. Um cadáver que se recusava a morrer.

    Siegfried se aproximou.

    E assim que o Homem de Olhos Amarelos o viu, resignou-se ao seu destino. Não foi por si mesmo que implorou.

    — M-minha filha — disse. A voz rouca e fraca, tal qual a de um velho. — Ela…

    — Morta.

    E o homem congelou por um momento, como se não tivesse entendido o que havia dito, até que finalmente aceitou e as lágrimas começaram a escorrer. Não que Siegfried se importasse. Já estava prestes a terminar o serviço, quando ouviu a mulher gritar:

    — NÃO!

    As pernas dela estavam bambas e vacilantes. O rosto pálido. Mas manteve o contato visual como se sua vida dependesse disso. Olhando fundo nos olhos de Siegfried. Se aproximando, um passo de cada vez. A respiração pesada. Até que parou a um metro dele e disse:

    — P-por favor, eu imploro. Você venceu. E-ele não é mais uma ameaça, nenhum deles é. Por favor. Imploro que poupe a sua vida. Ainda há tempo. Deixe-me salvá-los.

    A mulher caiu de joelhos e Siegfried lembrou do seu pesadelo. O vilarejo em chamas. A cabana. A mulher bonita implorando. A espada em sua mão. A decisão que tinha de tomar. Era tudo exatamente como se lembrava e, ainda assim, diferente.

    Sentiu um aperto em seu peito.

    “Não é ela!”, rugiu Lili. “Mate! Mate!”

    A casa de Andrella era humilde, mas confortável. Um pequeno braseiro de ferro no canto era o suficiente para manter o quarto quentinho e aconchegante; as paredes de madeira, forradas com peles de animais, mantinham o calor dentro e o frio fora.

    A única cama era espaçosa o bastante para dois adultos, se dormissem agarrados. Feita de lã e forrada com lençóis e mantas de pele de urso. Era onde Kira estava. A mãe da garota pediu e Siegfried a carregou até ali, embora duvidasse das suas chances de sobrevivência — tinha uma flecha cravada no peito e outra entre os olhos, embora ambas tenham atingido o osso e acabado por não penetrar profundamente.

    Tom também foi trazido para dentro depois de ter perdido a consciência, mas teve de se contentar com o colchão de palha que uma vizinha ofereceu e fora forrado no chão. Tal como o Homem de Olhos Amarelos.

    — O nome dele é Melias — explicou Andrella. — Melias Kroft. Era o lorde destas terras, antes de o filho dele tentar matá-lo.

    Siegfried se manteve em silêncio.

    Seria verdade? Ele definitivamente tinha os traços físicos, mas lorde? Lembrou então da história que o taverneiro do Relicário Perdido havia lhe contado antes de invadirem o Castelo dos Ossos, três semanas atrás. Antes de Mimosa ser transformada. Antes de Eroth. Antes de tudo.

    De fato, Elliot Kroft era o neto de Eroth e havia se tornado lorde do Castelo dos Ossos depois de matar o próprio pai, que anos antes havia feito o mesmo. Duas gerações de filhos matando os pais. Sempre pela mesma razão: a boceta de Eroth. Ao menos essa parte estava certa.

    Andrella continuou a sua história:

    — A família Kroft nem sempre viveu no castelo do pântano. Quando eu era mais nova, havia um grande salão aqui. E eu ouvi os rumores. Todo mundo ouviu. O lorde que tomou como esposa a própria mãe, uma bruxa imortal. Parece até uma história de terror, não é?

    E deu um sorriso constrangido para tentar aliviar um pouco da tensão, antes de seguir em frente:

    — Bem, eu não ligava muito pra essas coisas, sabe? E, depois que fiquei um pouco mais velha, comecei a pensar que era só uma história infantil. Já tinha visto o lorde e sua família algumas vezes e eles eram tão normais como qualquer um. Embora devo admitir que era um pouco estranho a forma como a baronesa parecia nunca envelhecer. Enfim. Eu já tinha quinze anos quando o Grande Salão pegou fogo. Foi tudo reduzido a cinzas e a baronesa fugiu de volta pro pântano com o filho dela. Nunca mais vi eles, mas sei que voltaram pro antigo castelo da família.

    Ela então olhou para Melias Kroft deitado em seu colchão de palha, suado e respirando com dificuldade, antes de prosseguir com um olhar meio triste e meio feliz:

    — Meu pai o encontrou nos destroços um dia depois de a baronesa ter partido. Levou ele pra casa e cuidamos dele. Acho que estava tentando cair nas graças do barão. Me disse pra ser gentil e dar a ele tudo o que pedisse. E dei. Nossa filha nasceu no ano seguinte. O meu pai morreu um pouco depois. E minha mãe, bem antes. Foi uma boa vida. Ninguém aqui falou nada. Nunca.

    Mas a forma séria como ela falou isso, fez Siegfried pensar em outros motivos além da bondade no coração dos moradores para a história não ter se espalhado.

    “É uma comunidade pequena, afinal de contas.”

    E em comunidades pequenas, lealdade é tudo. Ninguém sobrevive sozinho e não existem segredos. Todos são espiões. Todos são carrascos. E, sem um lorde para julgá-los, a vontade da maioria faz a lei.

    Finalmente, Andrella chegou ao que realmente importava:

    — Meu marido é um homem bom. Ele nunca tentou se vingar. Ficou aqui. Ajudou a gente. Se tornou parte da comunidade, como nobre nenhum teria sido capaz. Ele deixou tudo pra trás. Mas o filho dele, o barão… Quando vocês chegaram, pensamos que tivesse sido por causa dele. Que de alguma forma tivesse descoberto que o meu marido ainda estava vivo e então enviado vocês aqui para matá-lo. Ou coisa pior.

    — Não viemos! — disse Siegfried.

    Ela então deu uma olhada em Mimosa, sentada em uma cadeira ao lado de Kira; a mão na cabeça da garota adormecida e os lábios se movendo como se cantasse uma canção, embora não se pudesse ouvir um sussurro sequer.

    Mas Siegfried sabia que não era na música que Andrella prestava atenção, e sim na enorme cauda de cobra que substituía as pernas de Mimosa. Uma quimera. Um monstro.

    — Não devíamos tê-los julgado tão depressa — ela disse por fim. — Peço o seu perdão.

    Siegfried hesitou por um momento, antes de dizer:

    — Precisamos de outro lugar pra ficar. Nossa antiga casa meio que pegou fogo.

    — Mas é claro. Temos várias vazias. Posso conseguir alguns móveis, camas e…

    — Se não se importa, prefiro ficar aqui.

    — C-como?

    — Não é que eu ache que vocês vão pôr fogo na próxima casa também… Mas eu acho. E prefiro ter uma garantia desta vez. Você diz que os moradores gostam dele. Bom. Eu acredito. Espero que isso seja o bastante para desencorajar ‘acidentes’.

    — E-eles nunca…

    — …

    — E-eu entendo. Me desculpe. Tem razão. Adoraríamos tê-los aqui. Podem ficar o tempo que quiserem.

    Ela sorriu.

    E Siegfried a observou em silêncio.

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