Capítulo 0179: Um bom acordo
Quando Siegfried não disse nada, Melias Kroft repetiu:
— Quero a sua ajuda.
— É, eu ouvi.
— E então?
— Não.
E pela expressão que o Homem de Olhos Amarelos fez, não era bem a resposta que esperava. Ficou sem palavras por um momento e então voltou a dizer:
— Você viu os monstros. Sabe do que aquela bruxa é capaz. A cada dia que passa, ela se torna mais e mais poderosa. Sua ambição não conhece limites. Ela não irá se contentar com estas terras, usará suas feras para varrer o condado inteiro; o reino!
— Não é problema meu.
Melias não teria ficado mais embasbacado nem mesmo se Siegfried tivesse levantado e dado um tapa na sua cara. A conversa não estava indo como queria e isso era óbvio.
Perto de outros nobres, como o conde Gaelor e a baronesa Whitefield, o barão destitulado mais parecia um livro aberto; uma criança incapaz de esconder as próprias emoções. Mesmo o barão Kessel e a condessa Gaelor sabiam como não deixar tão evidente o que realmente sentiam quando a diplomacia se fazia necessária, mas os anos que passou entre a plebe pareciam ter destruído qualquer discrição que Melias Kroft um dia pode ter tido.
O ex-barão também percebeu isso. Acertou a postura, vestiu a máscara de lorde e mudou a estratégia:
— Eu entendo que esteja com medo. Não há vergonha alguma nisso. Ela é realmente muito poderosa. Em seu lugar, qualquer um ficaria assustado.
— Sou jovem, não burro. Pode me chamar de covarde se quiser, já me chamaram de coisa pior. Mas se pensa que pode me enganar apelando pro meu ego, está perdendo o seu tempo.
— Centenas irão morrer!
— Centenas já estão morrendo. Que diferença faz quem os está matando?
Melias estava irritado e, por mais que tentasse esconder, podia ver isso claramente em seu rosto vermelho e a boca tremendo de raiva. Andrella pôs a mão em seu ombro, o acalmando, e então voltou a mudar de estratégia:
— Está certo. Por um momento, me esqueci de com quem estava falando. É ouro o que quer, não é? A casa Kroft é mais rica do que julga, posso dar a você mais ouro do que qualquer batalha jamais te daria. O bastante para se afogar em bebidas e mulheres até a primavera. Ou será que é isso o que quer? Uma mulher? Temos muitas lá fora. Solteiras e viúvas, graças a você. Pode escolher a que mais lhe agradar. Ou mais de uma, se for isso o que quer. Mas não as donzelas. Se quiser uma, terá de casar com ela primeiro.
— Terminou?
Silêncio. Melias já não sabia mais o que dizer, por isso Andrella tomou as rédeas da situação:
— O que meu marido quer dizer é que precisamos da sua ajuda. Por favor. Eu sei que é pedir demais, mas estamos dispostos a recompensá-lo. Diga o que quer e será seu. Tudo o que pedimos em troca é que nos ajude a pôr um fim na bruxa.
Siegfried manteve o contato visual com a mulher por um momento e refletiu:
“Diga o que quer e será seu.”
Mas o que eles poderiam lhe dar?
Não conseguia pensar em absolutamente nada. Naquele momento, a única coisa que queria era completar a sua missão — e nisso eles não podiam ajudar.
O barão Kessel lhe deu uma chance; apenas uma. Tinha de capturar a condessa Essel antes que ela pusesse as suas tropas em campo novamente, mas agora era tarde demais. O inverno estava muito próximo.
Mesmo que conseguisse chegar até o seu castelo, nunca seria capaz de sequestrá-la. Definitivamente haveria muitos guardas e vassalos ao seu redor. E ninguém sairia do lado dela até a primavera. Seriam dúzias e mais dúzias de inimigos que o rapaz sabia que não seria capaz de despistar.
Com o ouro, talvez pudesse contratar alguns mercenários e atacar o castelo, mas onde iria encontrá-los? Se houvesse alguma companhia mercenária no condado, o mais provável é que já tivessem sido recrutados pela condessa ou pelo barão Kessel.
Talvez pudesse contratar alguém para raptá-la. Um membro da guilda dos ladrões, quem sabe. Até que lembrou de Gwen e mudou de ideia. Não eram confiáveis.
A verdade é que não havia absolutamente nada que Melias Kroft pudesse lhe oferecer. Quando a primavera chegasse, a guerra iria recomeçar e sua missão teria falhado. Talvez a baronesa Whitefield conseguisse articular uma saída inteligente para si mesma e a sua filha, mas o barão Kessel cortaria a cabeça de Lavina e Siegfried seria lembrado para sempre como um covarde sem palavra.
“Talvez um pouco de ouro não fizesse mal”, pensou. Ou seria Lili?
De que adiantava permanecer em Thedrit? De que lhe serviria a coroa quando, em seu coração, já havia desistido de Lura? Por que lutava? Pelo que lutava? Todos que conhecia o odiavam, estavam mortos ou estariam melhores se nunca o tivessem conhecido.
Podia voltar para as Terras Verdes; fazer sua vida como mercenário até finalmente morrer em batalha. Ou quem sabe Qaredia; arranjar uma casa no campo e saquear até ficar velho demais, antes de se aposentar.
Não!
Havia jurado a si mesmo que nunca mais pisaria em Qaredia, a menos que fosse como rei. Sabia que eles o aceitariam de volta, mas seu orgulho não permitiria que passasse o resto da vida como um miserável inútil que partiu cheio de sonhos, apenas para voltar com o rabo entre as pernas alguns anos depois. Nunca mais seria capaz de olhar Thrarim nos olhos, nem Lura, nem ninguém. Seria apenas um verme.
As Terras Verdes não eram muito melhores. Talvez pudesse recomeçar lá, mas se não conseguia fazer seu nome em uma terra isolada como Thedrit, quem dirá em uma que transborda de reis, monstros e reis monstros, para não mencionar os malditos magos e exércitos de elfos perdidos.
“Parece que tô preso aqui.”
Estava imerso em pensamentos e dúvidas, mas, de alguma forma, o casal entendeu errado o seu silêncio. A sua mente estava longe, mas os olhos ainda observavam Andrella, quando Melias disse:
— É ela o que quer?
Siegfried voltou a si por um momento. Melias tinha uma expressão sombria no rosto, cheia de raiva, nojo, desgosto e… Conformismo?! Estaria realmente pensando em lhe dar a própria esposa como recompensa?
Andrella parecia ter pensado o mesmo. Por um momento, pôde ver a tristeza e o medo em seus olhos, antes de apertar os lábios e abaixar a cabeça. Quieta e obediente.
Siegfried sentiu o coração acelerar e a bílis lhe subir à garganta. Estavam assim tão desesperados?
Lembrou dos moradores do vilarejo Frost e de como aceitaram em silêncio durante anos, enquanto as suas mulheres eram abatidas feito gado para alimentar o ogro.
A plebe era fraca e a fraqueza lhe dava nojo. Eles não queriam a liberdade, apenas um chicote mais macio.
“É ela o que quer”, refletiu sobre as palavras por um momento e então:
— E se eu quiser?
Melias nada disse, mas a resposta era clara, por isso pressionou um pouco mais:
— E se eu quiser todas? A sua esposa, sim. E também todas as mulheres desse lugarejo inútil. As viúvas e as donzelas. Cada uma e todas elas. Você me daria?
— …
— A sua filha também?
Melias cerrou os punhos e, ainda assim, nada. Então continuou:
— E não só as mulheres. Também preciso de escravos. Todos os homens que ainda restam. Meus. Todos eles. Sob minhas ordens. Para lutar por mim. Morrer por mim. Posso tê-los também?
— …
— E você?
— Eu?
— Também será meu escravo?
— E-eu não… Isso seria…
— Então vai me dar todos eles. Sua esposa, sua filha e todas as pessoas que diz querer proteger, mas não você?
— Por que está me perguntando isso?
— Porque você é um merda. É um merda e não tem nada. Nem ouro, nem homens, nem honra. Não tem nada que possa me dar e nada que eu queira de você. Se quer mesmo proteger essas pessoas, arranje uma espada, marche sozinho e mate Eroth. Ou melhor, morra. Morra tentando. Fala de honra e cavalaria, mas a única coisa que eu vejo é um verme que passou a última década escondido na lama. Governando sobre covardes em seu pequeno reino de mentiras.
E se virou para Andrella:
— Você diz que precisam da minha ajuda. Eu digo que tem razão e isso é tudo o que terão. Não irei ajudá-los.
Siegfried se levantou e Melias abandonou a compostura, lançando propostas ao vento:
— Espere! Diga o que quer. Ouro? Armas? O cavalo mais rápido do condado? Acha que eu não posso te dar? Diga e será seu. Posso fazer de você um cavaleiro. Posso te dar terras.
Já estava na porta quando, de repente:
— O castelo!
O rapaz parou.
Melias hesitou, como se tivesse acabado de se arrepender do que disse, mas não havia volta, por isso prosseguiu:
— O-o Castelo dos Ossos. É seu. Juro pela minha honra. O título e todas as minhas posses. Seus. Poderá usar meu nome. Será conhecido como lorde Siegfried Kroft, do Castelo dos Ossos.
— Eu já tenho um nome. E mesmo que não tivesse, definitivamente não usaria o seu.
— …
— Você disse que me dará o castelo.
— S-sim.
— E todas as suas posses.
— E-eu… S-sim. Exatamente.
— Incluindo seus homens. Serão meus. E vão lutar por mim.
— Não sobraram muitos… Q-quero dizer: sim. É o dever deles. Lutarão por você.
— Então me dê a sua palavra de que não voltará atrás com o que diz.
Melias Kroft olhou para a esposa por um momento, respirou fundo e disse:
— Eu, Melias Kroft, lorde legítimo do Castelo dos Ossos, lhe dou a minha palavra. Com a minha esposa e nosso senhor, Elyon, o Único, como testemunhas, juro. Ajude-me a proteger o meu povo e pôr fim à tirania da bruxa do pântano, e meus títulos e todas as minhas posses serão suas e apenas suas.
Siegfried sorriu.
Talvez os covardes não fossem tão ruins assim.

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