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    “Se isso virar hábito, eu vou começar a cobrar adicional por risco.”

    Marco ignorou. Ajustou a sola na pedra irregular e mediu a distância até o parapeito. Seis metros. Asora no meio do caminho, o Cetro na mão esquerda, duas lâminas na direita.

    — Você não precisa morrer por ele.

    Asora não respondeu. O braço dela foi pro lado num movimento simples. O Cetro saiu da mão e bateu na laje com um som seco, rolou uma vez e parou preso numa rachadura.

    A mão dele abriu na direção do Cetro por reflexo. Continuava sem resposta.

    Asora sumiu do campo de visão.

    O primeiro golpe veio no pescoço. A lâmina raspou o visor e soltou faíscas finas. O traje reagiu sozinho, fechando uma placa no limite. Mesmo assim, o estalo atravessou o capacete e fez a imagem tremer.

    “Você está vivo por… dois milímetros.”

    A segunda lâmina já subia pela lateral, mirando a junta da coxa. Marco tentou desviar com o joelho e sentiu metal batendo em metal. A vibração correu pelo traje e balançou os ossos. Asora girou o punho e trouxe a primeira lâmina de volta, agora no ombro. A ponta arrancou material da placa e abriu um risco que expôs fios finos por baixo.

    Ele empurrou com o cabo da espada, buscando espaço. Asora cedeu um passo e voltou na mesma batida. A guarda dela não existia no sentido que ele conhecia; a defesa vinha do fato de que ela já não estava onde ele mirava.

    Marco tentou ler um padrão. Pés leves, peso no calcanhar direito, ombro esquerdo baixo. Ele entrou com a espada alta, mirando o braço dela.

    Cortou apenas o ar.

    A adaga dela passou perto demais e a placa do abdômen recebeu uma pancada seca, sem corte, só impacto. O corpo dele foi jogado pra trás.

    “Esquerda. Dois passos. Agora.”

    Ele obedeceu e quase tropeçou numa lasca de pedra. A lâmina tocou o ombro de novo, agora pela abertura que ela tinha criado. Sangue apareceu e escorreu quente por dentro do traje, seguindo o braço como água num tubo.

    Asora não acelerava por pressa. Ela acelerava porque podia.

    Marco ergueu a espada de novo, tentando impor uma linha de corte pra não deixar ela entrar. A lâmina encontrou a primeira adaga no ar e travou por um instante. O braço dele tremeu. O dela ficou firme. Ela soltou a pressão de propósito, e Marco caiu no vazio do próprio movimento.

    Ela entrou por baixo e a segunda adaga buscou a axila. Marco torceu o tronco. A ponta raspou a junta. A armadura fechou tarde. A dor subiu como fogo e deixou o braço pesado.

    Ele recuou, batendo o ombro numa pedra mais alta. A torre não ajudava. O topo tinha rachaduras, degraus irregulares, e o parapeito estava perto demais pra virar apoio.

    Marco atacou de novo, golpe largo, tentando obrigar ela a sair da linha.

    Asora já estava colada na cintura dele. O punho dela bateu na placa do peito, na mesma área onde as duas partes do traje se encontravam. Pegou no ponto certo e o ar saiu do corpo dele em silêncio e o visor piscou.

    “Integridade do traje: comprometida. Você está sangrando. Pressão em queda.”

    A espada ficou pesada na mão. Marco sentiu a pegada escorregar, úmida. Ele tentou ajustar.

    Asora entrou no ângulo certo e prendeu a lâmina dele entre as duas adagas. Um giro de punho, mínimo, e a espada perdeu alinhamento. Ela bateu com a outra lâmina no antebraço dele, onde a placa encontrava a parte flexível. O impacto quebrou a força do dedo.

    A espada caiu.

    O metal raspou a pedra e deslizou dois metros, parando perto do buraco onde o topo tinha afundado. Ele foi atrás da espada.

    Asora não deu espaço pra ele pensar nisso. Ela fechou a distância e empurrou o ombro dele com a lâmina encostada, guiando, conduzindo o corpo dele como um objeto. Marco tentou girar pra sair do corredor entre ela e o parapeito. A bota bateu numa saliência. Ele perdeu base por meio passo.

    Asora estava ali quando o peso caiu.

    A primeira lâmina encostou no visor de novo. A segunda parou na linha da costela, apontada pra uma fenda já aberta. Ela não precisava perfurar nada ainda. Era só mostrar onde ia entrar.

    Marco levou a mão livre ao chão, buscando uma saída desesperada.

    — Esfera—

    Ele tentou chamar essência. O gesto morreu antes de virar forma.

    Asora mirou o punho. A lâmina entrou na junção onde a placa encontrava o material flexível do traje. O composto cedeu com um estalo e abriu uma fresta. Pele apareceu por baixo, exposta num risco. A mão dele travou no meio do movimento. A essência tentou subir e se espalhou sem fechar circuito, só instabilidade ardendo na abertura.

    Marco tentou recuar. O joelho falhou. Ele bateu no piso e ficou de joelhos, torto, apoiado na mão boa. A pedra estava fria ali, e a sensação atravessou o corpo como se o traje tivesse esquecido uma parte do trabalho.

    Asora se aproximou sem pressa, agora sim, medindo o fim. A adaga gotejava do sangue dele. Marco viu o Cetro no chão, encostado na rachadura, ainda no mesmo lugar. O impulso de estender a mão veio.

    Asora parou a um passo. A ponta da lâmina alinhou na fenda do peito, onde duas placas do traje se encontravam. Era ali que ela tinha batido antes.

    — Vou garantir que o Cetro jamais volte pra sua mão.

    Marco tentou erguer o rosto. A visão falhou em linhas, como erro de transmissão. O som do pátio embaixo bateu de novo, distante, aço e grito cortado. Ele lembrou da Lou-reen no meio daquilo, sem ver, só pela lógica: ela não recuava.

    “Lou-reen…” O pensamento veio seco, sem imagem bonita, só a pergunta que doía mais do que a costela: “ela ainda estava em pé?”

    Asora entrou com a lâmina no ponto exato. O metal do traje cedeu com um estalo abafado. O corpo dele tremeu e a garganta travou. O peito não acompanhou o comando. A mão boa escorregou na pedra e ficou aberta no chão, imóvel.

    O visor piscou. Indicadores saltaram e despencaram.

    “Pulso: caindo.”

    A Nova rodou varredura uma vez.

    “Pulso: zero.”

    Ela rodou de novo, mais rápido, mudando parâmetros, insistindo.

    “Sem leitura. Sem leitura.”

    Marco tombou pro lado. O capacete raspou na pedra e parou com a face virada pro céu. O Cetro ficou no canto do visor, imóvel. O mundo ficou menor, como se alguém estivesse fechando uma porta devagar.

    A voz da Nova perdeu o ritmo.

    “Sem sinais vitais.”

    Ela tentou outro pacote de leitura, outro, e a linha permaneceu reta.

    “Marco…”

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