Capítulo 088 — Coleiras disfarçadas de laços.
Dentro de Marco, memórias queimavam como brasas.
Mãos corrigindo um centímetro de postura e mudando uma luta inteira. Um olhar que varria um corpo como se fosse diagrama. Uma palavra jogada na hora certa, não para ensinar, mas para abrir uma rachadura.
Clyve andava entre eles nos treinamentos com a calma de quem já sabia o final. Encostava no ombro de um, ajustava a base do pé de outro, apontava um detalhe no pulso, um vício na respiração. A voz vinha baixa e limpa, sempre no mesmo tom, e a frase nunca terminava só em técnica. Sempre tinha um gancho.
— Você é bom.
Depois vinha a lâmina.
Um golpe que fazia o ar travar por instinto. Uma torção que arrancava um som feio. Um impacto que fazia a visão piscar. Quando o corpo cedia e o orgulho abria fissura, vinha a mão.
Clyve fechava feridas com a mesma eficiência com que limpava uma arma depois de usar. Erguia alguém pelo queixo, aproximava o rosto o suficiente para virar confidência.
— Você é especial.
Marco via agora.
As conversas ao lado da fogueira. As risadas que nunca chegavam nos olhos. As histórias de Malrath saíam como se fossem saudade, mas sempre terminavam no mesmo lugar: Império Militar de Taeris. O que derrubar, o que evitar, onde cortar. Os apelidos vinham no timing certo, as promessas vinham logo depois do estrago.
Coleiras disfarçadas de laços.
Para Clyve, eles eram armas. Ferramentas com nome, moldadas para apontar contra o Império.
Ele tinha passado pelos treinamentos de Taeris. Sabia o que o Império fazia melhor do que qualquer outro lugar: formar soldado até o osso, destruir fraqueza na marra, repetir até virar reflexo. E sabia que ainda assim havia falhas. Era nisso que ele batia com os Multiplicadores. Ensinava a ler o padrão do inimigo, a reconhecer a disciplina, e a enfiar a lâmina onde a doutrina deixava espaço.
Ao mesmo tempo, enquanto ensinava, ele anotava o inverso. Observava cada um como quem desmontava peça: brechas, instintos, vícios, o jeito de recuar quando o chão sumia. Guardava na cabeça um mapa de derrota para cada um. Se virassem inconvenientes, se saíssem do trilho, ele já tinha o caminho.
E havia mais um alvo acima de todos. Lou-reen.
Cada treino, cada ajuste de postura, cada “cura” dada na hora certa também era degrau para ele. Ele queria ser o melhor. Queria melhorar até o ponto em que o nome dela deixasse de ser limite e virasse uma marca no chão.
E agora Marco estava ali, com o Cetro preso na mão, o gosto de metal no fundo da boca, o corpo obedecendo com uma eficiência que não era dele.
O pátio tremia.
A poeira pairava sem decidir cair. As pedras rachadas rangiam sob uma força invisível que apertava tudo para baixo. Placas de chão faziam barulho de ossos.
Cedric já estava colado na pedra, peito e ombros esmagados primeiro, as duas espadas largadas ao lado, metal tremendo no piso rachado. Löerg tinha o corpo torcido de lado, um joelho preso, a mão espalmada buscando tração onde não existia; o florete ficara batido sob o antebraço. Pátkos permanecia travado no meio do próprio movimento, rosto a um palmo do chão, dedos cravando poeira achatada sem conseguir levantar o tronco. Serana ainda sustentava o queixo alto por teimosia, fumaça escapando do pulso; o Bracelete de Solun chiava sob a pele, quente demais para esconder, e a garra riscava a pedra quando a pressão puxava o braço de volta para baixo.
Marco os mantinha presos no mesmo lugar com um gesto mínimo do pulso. O som do próprio sangue batendo no ouvido dele vinha abafado, como se a pressão estivesse também dentro do crânio.
A ordem antiga ainda vibrava, mesmo sem palavras.
“Garganta primeiro”.
Marco afrouxou os dedos e a pressão cessou.
O mundo caiu de volta no próprio peso. O ar voltou a ser ar. As placas do chão estalaram como se tivessem sido soltas de uma prensa. Cedric dobrou o tronco e cuspiu para o lado. Löerg precisou plantar o florete como bengala por um instante. Pátkos caiu de joelhos sem querer, depois empurrou o chão com raiva, tentando se erguer. Serana inspirou de uma vez, como se estivesse bebendo o ar, e o Bracelete brilhou, puxando essência do entorno por reflexo.
Eles se levantaram sem entender, só a lembrança do peso esmagando tendões e da garganta fechando sozinha.
Marco pousou.
A sola dele encostou na pedra com estabilidade perfeita. O Cetro ficou alinhado ao antebraço. A escuridão ao redor do corpo dele ondulava em camadas finas, densa perto do peito, mais leve nos ombros.
Então ele abriu a mão livre.
Uma onda dourada saiu dele e atravessou o pátio como vento quente.
Cortes se fecharam, sangue parou de escorrer. Um ombro deslocado encaixou com um estalo baixo. A respiração de um deles endireitou. Hematomas recuaram como se voltassem para dentro da pele.
Cedric olhou para os próprios dedos, confuso. Löerg encarou o próprio braço como se esperasse ver uma costura. Pátkos tocou o peito e encontrou carne inteira. Serana sentiu a ardência diminuir na base das costelas e travou, como se a cura fosse mais ameaça do que alívio.
Marco caminhou um passo.
— Foi assim que ele fez com vocês, não foi?
A voz dele saiu firme e baixa. Pura constatação.
Eles não responderam. Marco ergueu o Cetro um pouco.
— Quebrou vocês, depois curou. Os chamou de especiais. Disse que podia melhorar cada um.
Ele deu mais um passo.
— Vocês acreditaram.
O ar pareceu ficar mais pesado de novo, não pela pressão, mas pelo que a frase arrancava. Cada um deles tinha vivido aquilo. Cada um tinha engolido a mesma mão e o mesmo veneno.
Serana rosnou, mas a garganta não tinha força para virar palavra.
Marco desapareceu.
Serana sentiu primeiro.
Marco surgiu na linha dela, perto demais para ela ajustar.
O Cetro veio de lado e bateu no pulso, bem acima do Bracelete. O impacto estalou seco e empurrou o braço dela para baixo. Antes de ela corrigir, Marco entrou com o ombro e empurrou o queixo dela para fora da linha, abrindo o pescoço por hábito. Não atacou.
Serana tentou girar a garra de volta, mas ele já tinha ido embora.
Cedric reagiu primeiro, lâminas abrindo em arco para cobrir o que não via. Löerg puxou o florete para a linha do peito, tentando achar o ritmo do inimigo pelo som. Pátkos girou o corpo inteiro, buscando contato, pronto para travar o primeiro impacto.
Marco surgiu atrás do ombro de Pátkos.
O Cetro veio baixo, como um martelo curto e direto, e acertou a lateral do joelho. O estalo foi seco. Pátkos caiu com o peso do próprio corpo, a perna dobrando num ângulo que o treinamento não permitia.
Marco já tinha ido embora.
Ele reapareceu na diagonal de Löerg. A ponta do florete tentou subir, mas o braço não chegou. Marco entrou por dentro da linha, bateu com o antebraço no punho do florete e desviou a lâmina para fora. O Cetro subiu em seguida e acertou a base do esterno.
O ar saiu de Löerg num som curto e feio.
Ele dobrou e caiu de lado, os dedos soltando a arma por reflexo.
Marco já estava no alcance de Cedric.
Cedric avançou com as duas espadas ao mesmo tempo, cruzando, tentando pegar qualquer coisa. Marco entrou entre as lâminas como se já soubesse onde elas iam passar. O Cetro bateu na mão direita de Cedric e a espada caiu. O cotovelo de Marco atingiu a garganta.
Cedric engasgou, olhos arregalando.
A segunda espada caiu junto quando o corpo dele tentou proteger o pescoço com as duas mãos. Ele foi ao chão de joelhos e depois de lado, sem ar.
Marco terminou a sequência no centro do pátio, os três no chão em pontos diferentes, cada um tentando entender o que tinha acontecido.
Serana ainda estava em pé.
Cambaleava. O braço do Bracelete escurecia em placas, rachando, e uma fumaça fina subia das bordas como calor preso. O metal avermelhado sob a pele pulsava, e as veias ao redor tinham virado linhas grossas, acesas demais para esconder.
A garra continuava erguida por teimosia, mas o ombro falhava em micro trancos, como se o próprio corpo tentasse largar aquilo. O Bracelete de Solun puxava sem pausa, e o braço dela carbonizava onde não havia mais força para segurar.
Ela deu um passo na direção dele, mais por teimosia do que por força.
Marco foi até ela, sem pressa.
A mão dele fechou no pescoço dela.
Serana tentou reagir no instante do contato. A garra veio para o rosto dele. As pontas bateram e deslizaram, sem achar carne. Ela cuspiu sangue, tentando manchar o visor, tentando roubar visão. O sangue bateu e escorreu.
Marco a ergueu.
Os pés dela saíram do chão. As pernas bateram no ar por reflexo. As mãos dela agarraram o antebraço dele, tentando abrir a pegada. O Bracelete brilhou mais forte por um segundo, como se tentasse puxar essência do próprio braço dele.
Serana ficou suspensa, a garganta presa, os olhos abertos.
Marco aproximou o rosto o suficiente para ela ver a escuridão que tinha tomado os olhos dele por trás do visor.
— Você foi a primeira a se curvar.
Serana tentou falar, mas só saiu ar quebrado.
Marco a soltou.
Serana caiu de joelhos com o impacto batendo nas canelas. As mãos foram ao chão. Ela ficou ali, ofegando.
O pátio parecia maior com todos no chão. Ruínas em volta, pedaços de parede pendendo em ângulos errados, telhas quebradas, marcas longas de metal no piso.
Hamita estava mais ao lado, com Lou-reen nos braços. A general tinha o rosto marcado de sujeira e dor, mas o olho ainda trabalhava. Aamerta estava de pé perto delas, alerta, cabeça girando. Ela tinha visto o ataque pelas costas antes. Tinha visto o rasgo de treva cortando o ar e a carne de Hamita. Só não tinha visto de onde.
Hamita ergueu o queixo, seguindo uma linha imaginária por cima dos escombros. Os olhos dela varreram telhados quebrados, arcos partidos, frestas entre pedras. Nada. O lugar era um mar de pontos cegos.
Aamerta chegou um passo mais perto, mão firme na própria arma, sem saber se protegia Hamita, Lou-reen, ou se corria atrás do invisível.
Hamita falou sem tirar o olhar do alto das ruínas.
— Aamerta… foi a mesma magia do roubo no museu.
Marco continuou olhando para Serana ajoelhada.
A escuridão em volta dele tremia em faixas, densa perto do peito. Ele ajustou o pé na pedra rachada e ergueu o Cetro devagar, alinhando a ponta acima dela.
Serana levantou o rosto por instinto, a garganta exposta, mãos trêmulas no chão. O Bracelete ainda chiava no braço carbonizado.
Então uma voz atravessou o pátio.
— Marco…
Ele parou.
Lou-reen tinha se erguido nos braços de Hamita. A mão dela apertava o tecido do ombro da general com pouca força, mais para não cair do que para segurar. O rosto estava pálido. A ferida ainda existia no corpo, mesmo com todo o caos. Ela estava consciente por teimosia e treino.
— Marco… sou eu…
A essência em volta dele vacilou.
Foi um tremor visível, como fumaça tentando manter forma.
Os olhos dele, tomados pela escuridão, tremeram. Ele olhou para Serana, de joelhos, ofegando, o sangue pingando da boca.
Depois olhou para Lou-reen.
E as lembranças vieram em golpes.
Yhe-for, o chão duro sob botas novas. Ayas-kin, feitas de madeira e metal, a sensação de estar olhando para algo antigo e vivo ao mesmo tempo. O calor de metal em forja, o som de martelo acertando sempre no mesmo ponto. Dias de estrada.
As conversas na beira da noite. Lou-reen respondia pouco, do jeito dela, e uma frase bastava para cortar a ansiedade dele e devolver o foco.
Marco soltou o ar pelo nariz.
A mão dele desceu.
A escuridão em volta do corpo perdeu densidade por um instante, como se alguém tivesse tirado oxigênio do fogo.
Ele deu um passo para trás.
A armadura começou a se desfazer, sumindo como fumaça. Placas negras evaporavam das bordas. A linha do ombro desapareceu em partículas. O visor perdeu o brilho por um segundo.
“Você está entrando em colapso.” A voz da Nova voltou com menos sarcasmo e mais precisão. “Suporte motor comprometido. Nível de resposta caindo. Prepare-se para queda.”
Marco tentou firmar o pé. O joelho falhou.
Ele caiu pesado, sem reflexo de defesa, o corpo batendo na pedra com um som que não combinava com alguém que tinha esmagado quatro pessoas um instante antes. A cabeça virou de lado. O braço que segurava o Cetro afrouxou e ficou preso ao lado do corpo por inércia.
Lou-reen tentou avançar nos braços de Hamita. O tronco dela saiu um pouco, como se quisesse alcançar, mas a força acabou no meio do caminho. Hamita segurou mais firme e ficou imóvel, olhos indo de Marco para o alto das ruínas e de volta.

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