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    — Então, o que você quer comigo, Damien? — perguntei, olhando para o homem à minha frente. — Já não lhe disse que estava atrás de uma forma em que possamos sair desse mundo? 

    Estávamos em uma cafeteria. Aquele local era um meio em que podia marcar encontros com meu companheiro de crime.

    — Você conseguiu? — retrucou com uma pergunta. — Encontrou ela, Annie?

    — Ugh… É pra isso que você me chamou? — respondi, apoiando-me na mesa para aproximar-me de seu rosto. — Já sim. Só que ela tá diferente do nosso mundo.

    — Seu mundo. E eu estou bastante incomodado com você falando que eu lhe chamei para cá, sendo que foi o contrário.

    — É, é. Isso mesmo. — Voltei para minha cadeira. — Só que eu preciso voltar para concluir os objetivos dados por Psyche. Vai ser complicado se alguma pessoa diferente se coroar como herdeira.

    — Só ela pode? — disse Damien, cerrando seus punhos.

    Não respondi. Os meus olhos evitaram os dele.

    — Eu não vou deixar você levar minha irmã embora daqui — continuou, se segurando muito para não criar um alvoroço. — A promessa foi para que você voltasse à sua terra.

    — Ela não é a sua irmã, Damien. Você não tem nada a ver com essa Seven que aqui existe — respondi, bebendo o suco que havia pedido momentos antes. — Não tem memórias e nem mesmo ideia de quem eu sou. Quem dirá você, né? 

    — Difícil aceitar essa resposta. Não quero acreditar que alguém como ela estava fadada a ser uma anomalia.

    — Bem… Scarlett estava. Não há como parar o destino, ele está selado desde o princípio dos tempos.

    O clima havia ficado estranho após minha resposta. Damien, de alguma forma, havia vindo a este mundo junto comigo. 

    Uma terra desconhecida, onde não existem bençãos e nem mesmo viajantes. Um local do qual eu podia desfrutar da paz até que chegasse o meu fim.

    Talvez… Talvez eu pudesse ficar aqui até minha real morte. Com certeza seria mais relaxante do que voltar ao meu mundo, onde a benção da Duquesa existe.

    — Mesmo dentro da mente de Seven, quem sabe o que poderia acontecer se meu desejo for anulado por Psyche — murmurei, mexendo o canudo que se alojava no copo. — Eu não sei mais o que eu quero, Damien.

    — Foi o que imaginei. Você não parece ter um objetivo em mente que seja realmente seu — retrucou, cruzando as pernas, esticando as mãos pelo sofá. — Espero, de verdade, que você encontre essa sua motivação que tanto procura.

    Antes mesmo que pudesse responder, Damien apenas se levantou daquela mesa com uma cara séria, como se eu fosse apenas mais um obstáculo.

    Sentia isso.

    Era fácil identificar esse tipo de sentimento quando se passa a vida toda sofrendo com ele na pele.

    — Vamos? — murmurou ele, parado ao lado da minha cadeira, estendendo a mão. — Temos de passar no mercado antes de tudo.

    — Ah, é…

    Tínhamos de sair juntos por conta de que a casa dele agora é a minha casa também. Foi uma ideia de me abrigar sem que fosse uma sem-teto nesse mundo.

    — Você e suas ideias idiotas — comentou. — Qual é o sentido de sairmos juntos a um café para conversar sobre algo que poderíamos fazer em casa? Ugh…

    — Vi isso num filme… Onde o agente secreto foi a um café para passar informações à sua parceira… — respondi, minha voz falhando. — Achei que seria divertido.

    — Tch! Isso é muita idiotice da sua parte, A— Damien virou-se para o outro lado, evitando olhar pra mim. — Só vamos logo, Annie.


    O dia passou como se fosse nada. Talvez por ter sido cansativo ou por eu estar aproveitando tão bem essa nova vida que nem percebi o tempo rolando. Sendo sincera, era uma ou outra, sem meio-termo.

    Queria voltar para Hektar e conseguir minha vingança. É por isso que sacrifiquei meu ser, mas parece que tudo pode ter sido em vão. Essa realidade não tem monstros para matar, e nem mesmo maldições que me perseguem por toda a vida. 

    É perfeito! 

    Perfeito demais…

    Ah… Que droga. Eu estava me apegando mais e mais a um mundo que não é o meu.

    — É verdade… — murmurei, enquanto segurava a mão de Damien, que guiava o caminho até a casa. — Talvez por estarmos conectados, consigo escutar os pensamentos dela. O que me é bastante estranho para ser sincera.

    — De Scarlett? — respondeu, virando a esquina. — Isso é interessante. Uma confirmação de que essa é a pessoa com quem estávamos.

    — Mas isso significa que os poderes e bençãos ainda estão presentes nesse mundo. — Apertei a mão dele mais forte. — Eu não gosto nem um pouco disso.

    — Você nunca tentou usar sua benção? — comentou Damien, enquanto igualava sua velocidade à minha.

    — Não. Tenho medo de tentar utilizá-la e tudo ir por água abaixo. Até o momento ninguém demonstrou nenhum mísero desprezo por minha pessoa, e esse é um grande indício de que as Consequências não estão sendo aplicadas aqui.

    Ele não perguntou mais nada pelo resto do caminho escuro. Aquela noite era só mais uma noite numa terra que não era minha, mas que daria de tudo para ser.

    Já havíamos passado tantas vezes por esse caminho, mas nunca decorei. Ou melhor, nunca fiz esforço nenhum para decorar.

    E tinha um motivo pelo qual não conseguia admitir naquele momento.

    — Aqui, chegamos — disse Damien, soltando minha mão. — Você tem que decorar esse caminho o mais rápido possível, viu? Não posso ficar lhe levando pra lá e para cá toda vez.

    — Pfft! Não seja assim. Sei que você vai me ajudar sempre que eu precisar — respondi batendo nas costas dele. — Não seja tão mal.

    Era uma casa pequena, mas que conseguia abrigar duas pessoas com facilidade. Não sei que malabarismos ele havia feito para conseguir esse local, mas bem… Não vou questionar muito. 

    Assim que entrei naquela casa, fui direta ao banheiro para jogar uma água em meu corpo. Não tava aguentando mais essa sensação de sujeira impregnada na pele… 

    Foi maravilhoso. Com aquele tanto de produto que ele havia me ensinado a usar, diria que foi muito melhor dos que tinha em Hektar.

    — Cacete! É sério isso? — gritou Damien.

    Já estava saindo do banho naquele momento. A porta dava na sala, o lugar em que ele estava.

    — O que aconteceu? Pra que essa gritaria? — falei, limpando meus pés no tapete. — É algum filme? 

    Damien estava sentado no sofá, e só pude ver as costas dele olhando para a televisão. De alguma forma, ele parecia estar preocupado com alguma coisa.

    Me aproximei com calma, querendo escutar que tipo de coisa ele estava assistindo, e talvez, esse tenha sido o meu erro. 

    — Foi confirmado o massacre que deixou cinquenta e três mortos e oitenta feridos — falou o jornalista como se não fosse nada. — As causas ainda são desconhecidas, mas os depoimentos apontam para uma criatura grande e bestial. Esse…

    — Mas que diabos… 


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