Capítulo 50 - Parque das Piscinas.
Após nove dias no quarto da Doutora Purplerine, finalmente estou livre para sair.
Foi aconchegante ficar na cama quente e confortável da Purplerine; não esperava que ela dormisse no sofá, me deixando ficar em sua cama. Muito gentil da parte dela.
Meu corpo ficou misteriosamente cansado e fraco por quase dez dias, devido àquele momento estranho que passei com a Abe.
Como será que ela está? É provável que, quando acabar a troca de cargo da presidência, ela venha quente para cima de mim.
— Já está indo, Yuki? — perguntou Purplerine, segurando um jarro com água.
Ela e sua irmã Pinkrine são pessoas maravilhosas, e fico muito grato por terem cuidado tão bem de mim.
— Sim, doutora, tenho que dar notícias para o Okawara, e já estou me sentindo bem melhor graças a você. Muito obrigado, de verdade!
— Não precisa agradecer, fiz apenas o que precisava. Além disso, fiquei perplexa ao ver como o Okawara estava preocupado com você!
— Ele estava? — perguntei, surpreso.
— Uhum! Ele ficou muito preocupado, veio até mim desesperado pedindo ajuda. Ver ele assim com uma criança me deixou curiosa para saber quem era você.
— Acho que ele só estava assim porque é responsável por mim, né? Se algo acontecesse comigo, sobraria para ele, então esse é o motivo do desespero.
A doutora sorriu, colocando o jarro sobre a mesa.
— Não, meu querido! Okawara não se importa com essas coisas, ele realmente estava preocupado com você! Vou te contar um segredo, mas não conte para o Okawara, tá? — cochichou, aproximando-se.
— Tá bom…
Ela se aproximou do meu ouvido e disse:
— Ele veio aqui todos os sete dias antes de você acordar, só para ver se você estava bem!
— Ham? — murmurei, surpreso.
Ela fez sinal de silêncio e piscou para mim.
Seus olhos roxos claros, quase ametista, com cabelo roxo e mechas rosas na franja, fazem sentido para seu nome ser Purplerine.
Acenei com a cabeça e respondi:
— Entendi… esse segredo não vou contar para a Itsuki, não sabia que ela era assim, hehe.
Tentei fingir que não tinha nada a ver com o Okawara, vai que ele estava vendo pelo relógio; mesmo que não tenha ouvido, foi suspeito.
No final, abracei-a e parti para o quarto do Okawara, que ficava no andar de cima.
Fazia muito tempo que não via ela, e sinceramente, há um motivo profissional por trás das visitas dele.
Duvido que ele estivesse preocupado comigo por amizade.
Bati em sua porta e aguardei alguns segundos.
Com passos leves crescendo até a porta, ela se abriu mostrando meu professor.
— Ah, você acordou! — disse ele, segurando uma xícara.
— Na verdade, estava acordado desde ontem. Dormi sete dias e no oitavo acordei.
— Entendi, que bom! Mas o que lhe traz aqui?
— Quero estudar, né? E também só para ver como você está!
— Estou bem e estamos de férias, não sou mais seu professor! Adeus! — disse ele fechando a porta na minha cara.
— Que? — disse espontaneamente.
Esperei para ver se ele abriria a porta, mas nada; passou um minuto e ele não abriu.
— Que desagradável! — comentei cabisbaixo.
Permaneci, já que não ouvi passos dele se afastando.
De repente, a porta se abriu furiosa.
— Vai embora, não, moleque???
— Uai! Como sabia que eu não tinha ido embora?
— Argh, entra logo. — disse ele se afastando da porta aberta.
— Esquece de fechar a porta, não! — complementou de longe.
Entrei e fechei a porta, sabia que ele não se desfaria de mim tão fácil, até porque sou o carteiro secreto dele.
— Como disse, as aulas acabaram, então não vejo por que está aqui, entendeu?
— Entendi, mas você conseguiu passar tudo que podia para mim? Fiquei a última semana de aula desacordado, né? — disse, sentando na cadeira.
— A última semana não era importante, eram detalhes básicos.
— Entendi, e agora? Ano que vem vou às aulas normais? Como sei qual turma sou?
— Isso você saberá no primeiro dia de aula. Acabou?
— E minha ajuda? Com as entregas secretas para a Emi?
Okawara pegou um livro da estante e sentou.
— Isso será resolvido com o tempo. Quando precisar, entro em contato. Mas sempre em silêncio, não conte para ninguém! — disse, olhando afiado para mim.
— Certo!
— Agora vai embora! Estou ocupado.
— Nossa…
Levantei e fui para a saída lentamente.
Não esperava isso, pensei que pelo tempo juntos ele pudesse, mesmo que pouco, gostar de mim, mas acho que não.
Ele não gosta de crianças.
Como fiquei muito tempo fora, espero que meus amigos tenham sentido minha falta.
Fui ao dormitório onde estava meu quarto; Itsuki disse que os presentes que comprei para meus amigos estavam lá.
Não comprei para o Arushi, mas ainda dá tempo, já que o Natal é daqui a poucos dias.
Cheguei no quarto e me joguei na cama.
— Que saudade dessa cama, menos aconchegante que a da doutora Purplerine, mas ainda assim gosto dela…
Fiquei cinco minutos deitado olhando para o teto; depois fui ao quarto do Fuutaro.
Bati na porta sem chamá-lo, queria que fosse surpresa.
Aguardei cinco segundos; logo escutei passos vindo até a porta.
Confesso que estava nervoso, minha mão tremia e a respiração estava pesada, por conta do ritmo acelerado do coração.
Quando ele abriu a porta, lá estava Fuutaro, com os cabelos todos para cima, cara amassada e um pouco de baba descendo do queixo.
Perplexo por vê-lo assim, não esperava que aparecesse dessa forma na porta; soltei uma sílaba:
— Ah…
Ele me encarou por alguns segundos, sem reação ou palavra.
Forçou a vista para me ver, com expressão de sono, até colocar os óculos.
— Que?? Yuki!!!
Gritando de surpresa, ele me abraçou e riu.
— Que bom que está bem!! — disse.
— Hehe! Claro que estou bem! Que bom que você também está, Fuutaro.
— Que barulheira é essa?
Uma voz veio do corredor; ao me virar, era Sasori, com short pequeno estampado de números matemáticos e blusa regata preta.
— Sasori! O Yuki está bem, olha! — disse Fuutaro balançando meu corpo.
Fiquei um pouco sonso.
— Oi, Sasori, hehe.
— Ahh, olá, Yuki! Finalmente acordou, como está? — disse Sasori, vindo na minha direção.
Ambos ficaram na minha frente, me olhando felizes.
Nunca vi isso comigo, ter pessoas felizes com minha presença; isso me deixa feliz.
Não aguentei, abracei ambos sorrindo.
— Ficou sentimental, Yuki? Achou que ia morrer e agora está assim?
— Nunca se sabe, né? Se minha vida tivesse acabado, teria ido sem me despedir; seria uma pena. — disse.
— Credo, vamos parar de falar disso, pessoal. — disse Fuutaro ajeitando os óculos.
— Certo, hehe.
— Mas então, Yuki, precisa contar o que aconteceu, e como vou para o parque das piscinas, pode ir conosco e no caminho contar tudo, que tal? — disse Fuutaro.
— Parque das piscinas? — perguntei.
— Sim, tem várias piscinas, rasas e profundas. Mas ficam o ano todo fechadas para quem não está na competição de natação. — disse Sasori.
— Na verdade, abre um dia por mês para os testes escolares; o resto é só para competição. — explicou Fuutaro.
Sasori olhou para Fuutaro sério, como se dissesse ‘Não me atrapalhe’.
— Enfim, é isso mesmo que Fuutaro disse, mas na última semana as piscinas rasas são liberadas para quem não é nadador; as profundas continuam fechadas.
— Que legal, então vai estar cheio de crianças, né? — perguntei, cruzando os braços.
— Sim, vai estar cheio, mas tem sete piscinas rasas ao ar livre e duas dentro do galpão, acho que tem o suficiente para não encher.
— E então, vai com a gente? — perguntou Fuutaro.
— Com certeza, no caminho explico o que aconteceu comigo.
— Certo! Então vamos nos trocar. — disse Fuutaro correndo para o quarto.
— Mas não esquece de usar short e blusa regata, é o ideal para nadar. — disse Sasori, apontando para minhas roupas.
— Certo.
Cada um entrou no quarto para se trocar. Coloquei short marrom e blusa regata branca. Deixei o anel da minha mãe e meu relógio na gaveta ao lado da cama.
— Bora, Yuki!
Gritos do lado de fora, era Fuutaro.
Saímos do dormitório e fomos para o parque das piscinas.
No caminho, Fuutaro perguntou:
— E aí, agora conta o que aconteceu?
Olhei para ambos, que me encaravam curiosos.
— Bem, por onde começar… nem sei o que aconteceu, hehe.
— Ham?
— Que?
— Foi muito estranho, gente.
É um momento difícil para mim, conto ou não a verdade? Mesmo sendo amigos, seria quebrar a promessa da minha mãe de nunca contar sobre o despertar das minhas partículas.
— Estranho? Então conta desde o começo, quero saber.
— Queremos! — disse Sasori, olhando para mim e dando um soco no ombro do Fuutaro.
— Eu estava com a Itsuki no mercado, e na hora de ir embora demos de cara com a Abe e suas amigas.
— Você estava saindo com a Itsuki? Yuki, está namorando ela?? — disse Fuutaro, com olhos vibrantes tampados por corações.
— Que? Claro que não, seu bobo, ela é minha amiga e quase irmã.
— Entendi, desculpa!
— Continua.
Sasori parecia mais interessado.
— Bom, nesse encontro a Abe me pegou pela gola achando que eu espalhei um boato sobre ela, fiquei nervoso e olhei nos olhos dela, afirmando que não fui eu.
— Boatos sobre o livro, né? — perguntou Fuutaro.
— Sim, isso mesmo! Mesmo afirmando que não fui, ela persistiu, até que fiquei nervoso e falei para ela me soltar e ir embora, e ela foi.
— Ué, foi isso? Como assim ela fez o que mandou do nada? — perguntou Sasori.
— Não sei, deve ser porque viu que eu ia desmaiar, eu tremia e estava com frio, e tinha gente olhando, talvez isso fez ela sair, não porque mandei.
— Talvez, ela nunca obedeceria assim. — disse Sasori.
— Enfim, deixa isso quieto, é passado e agora estamos brigando para ser presidente do conselho, né, Sasori?
— Isso, somos um partido e temos que dar nosso melhor para ganhar da Abe e da Rita.
— Isso! — disse Fuutaro.
Continuamos o caminho por vinte minutos; ao chegar no parque das piscinas, um galpão com grades, passamos por ele e vimos algumas piscinas ocupadas por crianças.
Fomos para o lado de fora, onde havia mais piscinas ao ar livre.
Fuutaro e Sasori tinham uma mochila com comida, parece que aqui não vendia alimentos.
Nós três ficamos com o pé dentro de uma piscina rasa, a primeira ao ar livre.
Olhei ao redor, procurando aquelas três meninas, com medo de arrumar outro problema, mas não as encontrei.
Nem a Itsuki.
Mas olhando direito, vi os irmãos Kobayashi; fazia tempo que os via, outro problema para mim.
— Tá procurando sua ‘irmã’ por aqui, né, Yuki? — disse Fuutaro sorrindo.
— Por que disse ‘irmã’ assim?
— Não sei, vai saber, né? Hehe.
— Haha, bobo! Não, só estou olhando ao redor, tem rostos que nunca vi, e são muitos diferentes.
— Mas todos são diferentes mesmo, olha aquela de cabelo verde lendo um livro, nome dela é Aikyo, segunda melhor da escola no ranking de dedução e está no mesmo ano que eu, como pode!
— Ranking de dedução? — perguntei.
— Sim, ano que vem verá isso, não esquenta.
Do lado dela, a de cabelo rosa é a Katsu, irmã dela. Minha paixão…
Olhei para Fuutaro, já que é a segunda menina que ele fala que é paixão dele.
— Entendi… você é esquisito, Fuutaro.
— Ham? Por quê? Só porque gosto de garotas? Você vai sentir isso também, viu, e pela Itsuki ainda vai vendo! — disse Fuutaro, cruzando os braços.
— Tira isso da cabeça, ela é minha amiga e quase irmã, seria estranho!
— Certo, certo, se acha isso, então tá bom!
— Certo! E o que mais, quem conhece mais? — perguntei.
Fuutaro se recompôs e ficou procurando rostos.
— Bem, vê aquela de cabelo cinza? Ela é a melhor da escola, está em primeiro em todos os rankings, literalmente todos, menos natação, culinária e artes, mas o resto sim.
— Até no ranking geral?
— Sim, só que ela é muito na dela, sozinha e não tem amigos, não conversa com ninguém, até acham que é muda, haha.
— Dizem que se acha superior a todos e só conversa com quem respeita e acha melhor que ela, e até hoje foi ninguém! — complementou Sasori.
— Também dizem que, quando era rank cinza, descobriram que a velocidade de cura dela era melhor que a de rank azul, tipo??? Que menina bizarra.
Ouvi isso da Pinkrine. Ela disse que apareceu alguém com a mesma velocidade de cura que eu. Deve ser essa menina.
— Ela está em que ano? — perguntei.
— No quinto ano, e mesmo assim já é melhor que os veteranos, loucura!
— Loucura mesmo! — disse.
Enquanto olhávamos para ela, algo chamou atenção no fundo.
Havia sete piscinas rasas, agrupadas em duas colunas, cada coluna com três piscinas uma na frente da outra, e a sétima bem no centro das duas colunas.
A piscina onde estou é a primeira, então no lado esquerdo havia algumas árvores e vi uma garota de cabelos vermelhos entrando nas árvores, será a Itsuki?
— Fuutaro, naquela direção das árvores tem o quê?
— Leva para as piscinas profundas, por quê?
— Entendi, já volto! — disse, saindo apressado da piscina.
Se lá estão as piscinas profundas, por que ela está indo? Duvido que saiba nadar, ficou muito tempo no quarto.
Independente do motivo, vou para ter certeza de que nada acontecerá a ela.

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