Capítulo 26 - Mão estendida.
O clima estava tenso. O olhar delas agora era vazio, suas expressões, traumatizadas. O que aconteceu com toda aquela energia de antes?
As duas meninas que estavam ao lado olhavam para a do meio, esperando que ela reagisse, que fizesse algo para revidar.
Mas, pela sua postura e expressão, não parecia que faria mais nada.
Já perdi muito tempo aqui… preciso acabar logo com isso.
Dei um suspiro de desdém, como se estivesse cansado da conversa.
— Enfim, já cansei de falar com vocês. Eu já mandei chamar o diretor quando vi vocês correndo, e toda essa discussão foi só uma forma de ganhar tempo até ele chegar e ver o que está acontecendo! — disse, com um sorriso de quem tinha o controle da situação.
Foi uma boa mentira. Como elas estavam emocionalmente abaladas, não pensariam na possibilidade de um blefe.
— QUÊ?! O DIRETOR?! O QUE A GENTE VAI FAZER?! — exclamou a garota da direita, o rosto tomado pelo pânico.
A menina do meio, por outro lado, estava furiosa. O olhar dela parecia querer me devorar vivo.
Já a da esquerda apenas suspirou, ajeitando o cabelo.
— Eu preciso terminar minhas unhas. Melhor irmos logo, então.
A garota do meio gritou, tomada pela raiva:
— Você vai me pagar, seu moleque! Vai me pagar por isso!
Ela se virou, marchando como se fosse a líder de um exército, e as outras duas a seguiram como súditas de uma rainha.
Patético… Essa escola está cheia de crianças que se acham superiores. Mas por quê?
Ao menos, isso acabou por enquanto. Cheguei a pensar que elas iriam se juntar para me bater. Por sorte, acertei meu palpite: não eram agressivas a ponto de usar força física.
Olhei para a garota indefesa no chão. Era estranho… por que ela não fugiu?
Estava sentada, escondendo o rosto entre os joelhos, como se aquilo pudesse protegê-la.
Ela devia estar em choque.
Bom, vou ver se está bem.
Caminhei até ela, lentamente. Cada passo fazia o som leve das folhas se mexendo.
Mas, mesmo assim, a menina não se moveu, nem um músculo sequer.
Será que está traumatizada…?
Abaixei-me, deixando meu joelho direito encostar no chão, de modo a ficar na mesma altura que ela.
— Está tudo bem agora… não precisa ter medo, elas já foram embora.
Nenhuma reação. Nem uma palavra.
— Olha, eu sei que não foi fácil… mas você não pode continuar assim. Isso só vai machucar ainda mais.
Toquei sua cabeça, tentando transmitir tranquilidade. Seu cabelo completamente rosa e ondulado, estava exaurindo um cheiro forte de morango, talvez seja algum produto de cabelo. Mas graças a esse meu gesto, ela ergueu seu rosto.
Seus olhos… azuis, cheios de inocência, mas também de solidão, dor e lágrimas.
Meus olhos começaram a marejar junto com os dela, sem que eu entendesse o motivo. Apenas sentia.
Logo depois, ela abaixou a cabeça de novo.
Limpei minhas lágrimas discretamente. Eu não podia deixar isso acontecer, não podia deixá-la se afundar naquele momento.
— Ei, não chora. Você está segura agora. Eu estou aqui com você. — tentei acalmá-la.
Ela continuava em silêncio.
Seus braços estavam cruzados, abraçando as pernas. Segurei uma de suas mãos, para transmitir segurança.
O estranho era a sensação. Quando a toquei, parecia que eu conseguia sentir o que ela sentia, como se estivéssemos conectados. Seria apenas uma sensação… ou loucura?
— Por que… você fez isso?
Finalmente, uma voz baixa, mas audível.
Ainda segurando sua mão doce e macia, respondi:
— Porque era necessário. Ninguém merece algo tão covarde.
— Mas… você não me conhece. E eu… não conheço você. — disse, a voz melancólica.
Ela soltou minha mão após falar isso.
— Bom, você tem razão… a gente não se conhece. Mas agora nos conhecemos! Entendeu?
Tentei animá-la, forçando um sorriso alegre.
— A melhor forma de começar é com os nomes. Eu sou Yuki Hikaru . E você?
Ela levantou o rosto outra vez. Os olhos, antes tomados pelo medo, agora pareciam mais centrados. Seu rosto, vermelho pelo choro, ainda transmitia fragilidade.
— Por que você está sendo legal comigo? Eu não sou ninguém nessa escola… Por que está falando comigo? — perguntou, com a voz rouca.
Sorri, tentando mostrar confiança.
— Que coisa pra se dizer, hein? Se eu te protegi, é porque você é alguém sim. Pelo menos, pra mim.
Ela me olhou, como se tentasse compreender minhas palavras. Mas logo a dúvida tomou seus olhos.
— Você só diz isso porque não me conhece.
Suspirei e me inclinei um pouco mais perto.
— Justamente por isso quero te conhecer. Quero descobrir por mim mesmo quem você é. Tenho certeza de que é alguém incrível. Se não fosse, estaria lá com aquelas meninas patéticas, não acha? — falei, tentando fazê-la rir.
Ela parecia perdida em pensamentos, mas percebi um pequeno brilho de esperança em seus olhos.
— Elas são muito irritantes… mas eu não sei o que fazer para elas pararem de zombar de mim.
Dei uma risada curta.
— São mesmo, né? Péssimas pessoas. — pisquei. — Mas só tem um jeito de pará-las: não deixar que façam o que querem.
Ela assentiu, mas logo abaixou a cabeça de novo.
— Eu não consigo… — murmurou.
— Entendi… Não se preocupe com isso. — respondi, levantando-me.
Estendi minha mão para ela, um gesto sincero.
— Olha, eu estou aqui. Prometo ficar ao seu lado até você conseguir. Olhe pra mim!
Ela hesitou, olhando para minha mão como se não soubesse se podia confiar.
— Vamos ser amigos? — perguntei, animado.
Seus olhos brilharam, de uma forma diferente dessa vez.
— Você… quer ser meu amigo? Mesmo sem saber nada sobre mim?
— Claro que sim! — respondi com um sorriso caloroso. — Vamos ser melhores amigos. Vamos conversar todo dia, brincar todo dia, fazer tudo o que amigos fazem… e eu vou te proteger de todos!
Eu não entendia bem o motivo de estar dizendo aquilo. Apenas sentia que era o certo. Desde que a toquei, parecia que eu podia sentir suas emoções. E isso me motivava a ficar ao lado dela.
Ela me olhou e, pela primeira vez, vi esperança em seu rosto.
Ela sorriu. Um sorriso simples, mas suficiente para me mostrar que havia feito a coisa certa.
Ela segurou minha mão com força, e dessa vez, senti algo diferente: felicidade.
Segurava tão forte que parecia ainda ter medo, como se eu fosse sua única defesa.
— Me chamo… Itsuki. — disse ela, agora com uma expressão mais leve.
— Prazer, Itsuki. Estou feliz de ver seu rosto mais calmo.
— Obrigada… por isso. — respondeu, corando levemente.
— Ah, tudo bem. Bom… pelo visto você gostou de segurar minha mão. Então, que tal voltarmos ao mercado? Aliás, você gosta de sorvete?
— Gosto… gosto muito.
— Ótimo! Vamos tomar, então. Eu estava com um antes de vir pra cá… mas acho que já derreteu todo, haha.
Ela sorriu, agora de forma sincera. Seu humor começava a se recuperar.
Surpresa, mas animada com a ideia, assentiu.
Enquanto caminhávamos de volta ao mercado, percebi que ela não soltava minha mão de jeito nenhum.
Por quê?
Não falei nada… nem soltei. Melhor deixá-la perceber sozinha.

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