Índice de Capítulo

    Mimosa não estava ferida, mas tampouco parecia bem.

    Siegfried não chegou a notar na hora — no calor da batalha —, mas a explosão de frio que Eroth criou teve graves consequências.

    Thomas, que já estava à beira da morte bem antes disso, sobreviveu por pouco e agora se limitava a dormir, tremer e agonizar; para não mencionar o congelamento parcial das extremidades. Embora tenham lhe dado um pouco do elixir de cura da coleção particular de Elliot Kroft, o garoto precisava ver um médico em breve ou teria muitos de seus dedos amputados.

    Mimosa estava um pouco melhor.

    No instante em que foi engolfada pelo frio, a garota imediatamente perdeu a consciência. Sua pele tão pálida e gelada que parecia ser feita de gelo. A princípio, Siegfried pensou que estivesse morta, até perceber que seu coração ainda pulsava — fraco, mas ainda assim…

    — Ela tá em brumação — explicou Melias Kroft. — Já devia tá se preparando pra isso há semanas. Cobras não se dão bem com o frio. Aquela explosão de neve só acelerou o processo.

    Aparentemente, o método para lidar com isso era bastante simples: calor.

    Por isso, Siegfried a levou imediatamente de volta ao quarto antigo dela no segundo andar — confortável e espaçoso, com tapeçarias, tapetes de pele e cortinas pesadas. Pôs a jovem na sua cama de dossel e a cobriu com o máximo de cobertores de lã e pele que foi capaz de encontrar.

    Sem mais o que pudesse fazer, passou o resto da noite observando Mimosa. Sentado ao seu lado em uma cadeira. O conde Gaelor sempre disse que o seu ponto fraco era um rabo de saia; talvez estivesse certo.

    Conhecia Mimosa há menos de dois meses, mas lá estava ele, passando a noite em claro para cuidar da jovem pela terceira vez. Não que isso lhe fosse algo estranho. É fácil fazer amizade em tempos de guerra — basta uma conversa agradável em volta de uma fogueira, uma pequena escaramuça para lutarem lado a lado e pronto.

    “Você não ama ela”, disse a si mesmo. E sabia que era verdade, mas estava cada vez mais difícil de se importar com isso.

    Lura sempre foi um sonho distante; a garota perfeita e sua primeira paixão. Até que Dara veio e roubou seu coração em uma única noite; uma garota linda, gentil e completamente apaixonada por ele — como não amá-la?

    E então a perdeu também.

    Dara se revelou outro sonho impossível. Um pequeno pedaço do paraíso. Um pedaço que nunca seria seu. E perdê-la foi ainda pior do que perder Lura.

    Até que Lavina preencheu o vazio. Nem de longe se comparava a Lura ou Dara, mas era devotada a ele e o rapaz aprendeu a amá-la de uma forma menos intensa. Uma garota humilde e gentil. Seria uma boa esposa. Uma boa mãe. Um sonho pequeno, mas agradável. Até que ela também foi tirada dele. Talvez mesmo já estivesse morta.

    E agora: Mimosa.

    Estava sempre atrás de algo. Sempre atrás de alguém. Uma garota. A garota perfeita. Aquela que seria sua esposa. A mãe dos seus filhos… Sua alma gêmea.

    “Isso não existe.”

    Mas ainda assim, buscava por ela.

    — Milorde — chamou Eva Kroft.

    E Siegfried tomou um susto.

    Não chegou a notar quando a garotinha entrou no quarto, mas lá estava ela. Toda cortesia e educação. Esmond Kroft não era o único que sentia pouco amor por Eroth. Eva também não se importava com a ‘morte’ de sua mãe.

    Na verdade, Eroth ainda estava viva. Presa na mesma masmorra em que pôs Siegfried da última vez. Na mesma cela. Com as mesmas correntes a impedindo de se mover. Mas as crianças não precisavam saber disso.

    — O lorde Melias requisita sua presença — disse Eva. Inexpressiva, como de costume.

    Siegfried deixou Mimosa para trás e seguiu a garotinha até o próximo andar.

    Havia apenas duas portas no terceiro piso. A da esquerda dava para o quarto de Eroth, completamente destruído pela batalha; enquanto a da direita dava para um escritório elegante e sofisticado, com três prateleiras de livros e pergaminhos, para não mencionar as tapeçarias, quadros e a mesa de madeira maciça ricamente esculpida com cenas de batalha em relevo — uma escultura em forma de mesa.

    Eva Kroft fez uma pequena reverência para o seu avô e então se retirou, deixando apenas Siegfried e Melias Kroft na sala.

    Mesmo com sua vitalidade élfica e o elixir de cura que tomou, o velho lorde ainda não havia se recuperado completamente da batalha. Parecia um tanto quanto abatido, cansado e velho. Ainda assim, estava muito bem para quem teve o peito perfurado por uma lâmina de gelo que congelou metade dos seus órgãos e devia tê-lo matado.

    Ninguém saiu ileso da batalha.

    Mesmo Siegfried ainda sentia o sangue gelar às vezes. Uma explosão de frio que vinha de dentro, apenas para lhe tirar o fôlego por um instante antes de desaparecer. Um ferimento de guerra ou uma maldição? Era difícil dizer.

    Melias Kroft estava sentado à mesa, quando estendeu a mão, oferecendo o assento à sua frente para Siegfried, e começou:

    — Você parece bem.

    — Você não.

    — Humpf. Vejo que a batalha fez bem pouco para melhorar os seus modos. Pois bem! Que seja! Nunca gostei de formalidades mesmo. Vamos direto ao assunto. Eu queria agradecê-lo pela sua ajuda na retomada do castelo.

    E pôs uma pequena caixa de madeira na sua frente. Bonita. Bem trabalhada. E assim que ele a abriu, Siegfried viu que eram moedas de ouro. O bastante para encher uma caneca de cerveja… Uma caneca pequena. Mas a caixa era bem bonita.

    — Vinte moedas de ouro — disse Melias. — Mais que o bastante para viver como um rei pelo resto da sua vida.

    “Desde que ela seja bem curta”, acrescentou Siegfried em silêncio.

    O Homem de Olhos Amarelos continuou:

    — Se é vinho o que quer, as Terras Verdes têm o que há de melhor. Temo que Thedrit não tenha muitos vinhedos no momento. Mas se prefere mulheres, eu recomendo a Marca de Helder. As melhores escravas de todo o reino vêm de lá. E são mais baratas também. Garotas tão belas que podem derreter o coração de qualquer homem.

    — …

    — É claro que também terá um cavalo. O melhor que tenho a oferecer. Rápido, forte e corajoso. Um animal sem igual para levá-lo até onde quiser. Não lhe faltará nada em sua jornada, isso eu garanto.

    — E por que eu partiria? Esse castelo é meu.

    A expressão descontraída de Melias Kroft azedou de imediato. Raiva. Nojo. Desprezo. Mas Siegfried se limitou a ignorá-lo e prosseguiu:

    — Ou está me dizendo que pretende quebrar a sua promessa?

    — Um cavaleiro não volta atrás com a sua palavra!

    — Então?

    — Por que quer tanto esse castelo? Ele não vale nada. Estamos isolados. Sozinhos neste pântano. Não temos comércio ou alianças com outros nobres. Esse povo é pobre, não lhe trará riqueza alguma. É assim que quer passar o resto da sua vida? Apodrecendo atrás desses muros? Estou lhe oferecendo ouro. Mais ouro do que fará aqui em uma década. Pode viajar para onde quiser. Um lugar mais quente. Mais calmo. Onde nunca mais precisará lutar. Onde poderá passar o resto dos seus dias comendo como um rei em cada estalagem que passar. As mulheres farão fila para ter uma noite com você; e não apenas essas rameiras de esquina, mas verdadeiras cortesãs vindas de boas famílias. Você terá tudo o que um homem poderia desejar.

    — Por um ou dois meses, na melhor das hipóteses. Depois disso, alguém vai cortar a minha garganta enquanto estou bêbado e levar o ouro que eu ainda tiver. Não, obrigado. Prefiro o castelo.

    Melias Kroft hesitou. E podia ver em seus olhos o quanto odiava a ideia de entregar o Castelo dos Ossos para Siegfried, mas também viu um pequeno vestígio de honra… Não. Orgulho.

    “Ele vai concordar”, entendeu. Não por honra ou bondade, mas porque não queria ver seu nome manchado por uma mentira.

    E tinha razão.

    — Se é o que quer — disse Melias, derrotado. — Que seja. O castelo é seu. Vou começar a preparar o casamento.

    — O quê?

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