Capítulo 77 — Estranha Sensação Familiar
No caminho para casa, Lília e Akane não trocaram palavras com Kamito. Podia as culpar por estarem chateadas? Sabia que tinha errado em não ter dito a verdade.
As ruas estavam mais desertas que o comum. Algumas pessoas comentavam que todas as escolas do estado ficariam fechadas até encontrarem os responsáveis pelo atentado à escola onde eles estudavam.
Kamito parou e olhou para o céu; o sol timidamente se escondia atrás das nuvens. Akane e Lília olham para trás, confusas com o comportamento do rapaz. Ele encarava o céu. Do nada, um aperto no peito e toda a sua energia se desestabilizou.
— Ei, Kamito! Sua energia está se desestabilizando! Está me ouvindo?! Kamito?! — Lília o cutucava, preocupada, e logo começou a balançá-lo pelos ombros.
Akane se aproximou, sem saber o que fazer.
— Kamito! Kamito! Acorda! Vamos olha para mim! Droga, isso é ruim! Kamito! — Lília recuou. — Akane, vamos tirá-lo daqui. Precisamos de um lugar seguro.
— O que aconteceu com ele?! K-Kamito, pode me ouvir? Vai ficar tudo bem, vamos estabilizar sua energia! Pode ao menos dizer algo? Ei, por que você não diz nada?! — Akane sentia o coração acelerar.
Às pressas, elas o carregaram até um banco e o deixaram sentado. Manifestando suas energias perto do rapaz, esperavam que a energia dele pudesse se acalmar.
— Lília, parece que não está funcionando. Será que ele perdeu o controle? Será que ele foi puxado para aquele local que ele mencionou?
— Eu não sei… — Lília o segurava pela mão esquerda. — Acho que a luta contra e a pressão de ter escondido a verdade deve ter feito ele entrar em colapso. Mas, como?
Lília fitou Akane e negou com a cabeça. Em seguida, soltou a mão de Kamito.
— Acho que agora só depende dele… Droga! Justo agora?! Por sorte, só partiremos depois de amanhã. Espero que ele acorde logo.
— Espero que ele esteja bem… Kamito, você não pode se dar por vencido. Por favor, acorda logo. Precisamos de você. — Akane apertava as mãos dele. A preocupação da garota era palpável. E se ele acabasse em coma de novo? — Eu vou ficar do seu lado. Talvez você sinta minha energia e acorde. Apresse-se e volte para mim, Kamito.
Enquanto elas o olhavam com apreensão, Kamito estava num local onde o céu e a lua eram vermelhos: a Fragmentação. Mas o local estava diferente. Parecia sem esperança, sem cor, sem vida. Era assim que o Kamito se sentia?
Ele caminhava em busca de um rumo, sem entender por que aquele lugar mudou tanto. Mas sua energia vibrava calmamente; um bom sinal em meio à toda desolação. Então, sua energia começou a ressoar. A sensação era idêntica àquele sonho. Logo à frente, uma pequena colina. Como ele chegou lá?
No topo, se deparou com uma silhueta feminina em chamas. A Manifestação do rapaz agiu por conta própria, indo de encontro a ela. Ao mesmo tempo, ele ouviu uma voz o chamando. Repentinamente, aquela imagem se aproximou, ficando cara a cara com Kamito. Ele tentou recuar, sem sucesso. Aquele calor, aquela intensidade… Eles eram tão fortes que o forçaram a fechar os olhos.
De novo, alguém o chamou. Kamito enfim abriu os olhos, apavorado. Era Akane.
— Kamito! Você está bem?! O que aconteceu? Você parou de andar do nada quando sua energia ficou instável. Eu fiquei muito preocupada. — ela levou a mão esquerda à bochecha do namorado; seus olhares logo se encontraram. — Está tudo bem, eu não ficarei contra você. Não precisa ter medo. Confie em mim.
— E-eu… Eu sei, Akane. Mas não sei mais se consigo resistir a essas instabilidades. Dessa vez foi muito diferente. Eu fui puxado para a fragmentação, mas ela estava estranha. O céu e a lua eram vermelhos, minha energia parecia calma e eu não sentia a presença da Sombra. Mas havia outro ser. Algo coberto de chamas com a aparência de uma mulher. Minha Manifestação a ouvia e me puxava até ela, como se aquela imagem de puro fogo tivesse controle sobre as minhas chamas. Eu só consegui voltar graças a sua energia e a sua voz. — ele explicava com apreensão. Olhou para Lília, esperando por alguma ajuda. — O que acha, Lília? Sabe de algo a respeito disso? Seria um Manifestador do império ou apenas minha mente me pregando uma peça?
— Eu não sei. Sua Manifestação pode estar tentando te dizer algo ou a Fúria tentando fragilizar sua mente. Nunca ouvi falar sobre um Manifestador capaz de fazer o que você disse, mas não tenho certeza… — ela encarava a rua, pensativa. Lília era uma das melhores no controle de energia, por isso se ofereceu para ajudar.
— Sua energia está instável porque você ultrapassou o limite que aguentava. Como você não possui mais um limite específico, ela constantemente aumenta e diminui, causando essas instabilidades. Também sabemos que, por você ter uma Fúria com uma Manifestação própria, ela também te afeta puxando a energia dela. Talvez esses sonhos e visões sejam fruto da mescla das duas energias. Fúrias são a personificação de sentimentos e ambições de um Manifestador depositadas em sua Manifestação. Sinceramente, eu não gostaria que vocês fossem para o Extra-Mundo, principalmente você, Kamito. Sua condição é rara e delicada, mas também é perigoso demais te deixar aqui.
— Entendi… No fim das contas, o problema sou eu. Se minha energia está se misturando com a energia da Fúria, é só uma questão de tempo até que eu perca o controle. Espero mesmo que haja uma forma de mudar isso. — ele cerrou os punhos. Sua condição era delicada, e não poder fazer nada para mudar isso era irritante. — Eu vou encontrar um meio, mesmo que eu precise enfrentar e vencer essa Fúria!
— É assim que se fala, Kamito! Eu também não deixarei nada acontecer com você, eu prometo! — Akane sorriu, segurando nas mãos do namorado. — Eu sempre estarei ao seu lado, não importa o que aconteça. Você, não, nós iremos superar isso juntos.
Seu sorriso era sincero. Akane acreditava num final feliz; Kamito queria acreditar.
— Vai ficar tudo bem. Você não precisa se preocupar em me proteger. Como eu disse, dessa vez eu que te protegerei. Quando você estiver recuperado, eu até deixo você me proteger de novo, então foque em se recuperar até lá. — ela brincou.
— Vamos deixar esse momento fofo para depois, precisamos ir. A cidade ainda está em alerta e só temos até amanhã para nós prepararmos para irmos ao Extra-Mundo. Vocês precisam de tempo para descansarem e para arrumarem uma boa desculpa. — pontuou Lília, o olhar transmitia preocupação. Logo depois, começou a caminhar e nos fitou por cima do ombro. — O que estão fazendo parados aí? Vamos logo embora. A Senhora Karin e as outras devem estar preocupadas.
Eles não tinham tempo a perder. Pelo caminho, Kamito pensava em como lidaria com seu problema. Às vezes se distraía com o som das sirenes das viaturas policiais. As ruas, com policiais em cada esquina, eram um lembrete: nada seria como antes.

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