Capítulo 68 - Doutrina.
Biblioteca da Mansão Valcrist
Lufadas suaves de vento sopraram pelas janelas altas, percorrendo os corredores formados por estantes colossais.
Feixes de luz pálida cortavam a penumbra, revelando partículas de pó dançando no ar.
Sentado em uma cadeira esculpida que parecia grande demais para o seu corpo infantil, Aspen observava seu professor.
— Eis aqui a sua pontuação deste mês — disse Morvan, entregando um pergaminho enrolado com uma fita vermelha.
Aspen desenrolou o documento com dedos trêmulos.
Seus olhos percorreram as linhas densas de cálculos e história.
Duas questões erradas, marcadas com tinta vermelha.
Preciso obter uma pontuação perfeita da próxima vez…
— Sobre a questão dezessete… — começou Morvan com a voz rouca — Você sugeriu que, após um excesso de autoridade que incitasse uma revolta, o Regente deveria “compensar o povo com grãos e isenção temporária de impostos”.
— Pareceu… lógico — murmurou o garoto. — Se eles estão bravos, dar algo a eles os acalmaria.
Morvan inclinou-se para frente, a luz pálida refletindo em seus óculos, ocultando seus olhos.
— Errado. Dar algo a um povo ferido é admitir fraqueza. Você os ensina que a revolta é lucrativa. — O professor ajustou os punhos da túnica cinza. — A gratidão é uma dívida que o povo esquece assim que a barriga esvazia. Coloque uma única tigela de comida diante de dez homens famintos, Aspen, e você verá a civilidade ser devorada pelas presas.
Aspen olhou para a prova, e depois encarou o seu mentor, absorvendo a lógica por de trás das afirmações.
Ele enrolou o pergaminho devagar.
— Se o amor é tão volátil e a gratidão é esquecível… — Aspen começou, a voz pequena, mas carregada de uma clareza precoce que sempre surpreendia Morvan. — Então talvez seja por isso que nada do que eu faça funcione.
Ele levantou o olhar para o professor, a luz das janelas góticas enfatizando o vazio em suas íris azuladas.
— Acho que minha mãe me odeia.
Morvan não parou de organizar os pergaminhos.
Ele parecia mais interessado na pilha de documentos que precisava organizar.
— Ódio é uma palavra passional demais para a sua mãe, Aspen — respondeu o mestre, sem olhar para ele. — O ódio exige um investimento de energia que ela não está disposta a gastar com você.
Aspen inclinou a cabeça. — Eu não entendo…
Mestre Morvan finalmente parou.
Seus olhos eram de um azul metálico, desprovidos de calor, analisando Aspen como se estivesse diante da anatomia de um inseto raro.
— Se trata de rejeição biológica — explicou Morvan, a voz ecoando levemente nas paredes de pedra. — Para ela, você é a prova irrefutável de que ela foi subjugada. Os elfos veem o próprio sangue como algo sagrado, uma linhagem pura e imaculável. Quando seu pai a comprou para gerar um herdeiro, ele quebrou essa linhagem.
— Mas eu também sou o sangue dela — sussurrou o garoto.
Ele tocou as orelhas levemente pontudas, o único traço que o ligava àquela mulher tão bela e distante.
— Para ela, você é a diluição dele. — Morvan voltou sua atenção aos pergaminhos, o desinteresse retornando como uma máscara. — Como um vinho fino batizado com água do pântano.
Aspen sentiu um aperto no peito, uma pressão fria que subia pela garganta, mas seus olhos, já treinados pela rigidez das aulas de política, não vacilaram.
— Como eu faço para ela me amar?
Morvan soltou um riso seco, um som que lembrava o estalar de galhos mortos.
— Como um elfo amaria uma prole que considera defeituosa? Você tem a fragilidade humana e o estigma élfico, Aspen. É um meio-termo que não agrada a nenhum dos dois lados.
O silêncio voltou a pesar na biblioteca, mais denso do que antes. Aspen abaixou a cabeça.
O sol lá fora se pôs, e a sombra de uma das estantes engoliu o garoto quase por completo.
Os passos do elfo ecoavam pelos corredores da mansão.
Chegou aos aposentos da mãe e, antes mesmo de bater, ouviu risadas delicadas e o som das escovas deslizando pelos cabelos dourados de Lythielle.
As portas se abriram, e o cheiro de perfume doce invadiu seu nariz.
Lythielle sentava-se diante do espelho, radiante, cercada por empregadas.
Sua beleza estonteante era tão irreal que parecia um quadro pintado a mão.
Os cabelos dourados refletiam a luz do sol, e os olhos, de um azul profundo, traziam um olhar de quem enxergava além de qualquer máscara.
Quando viu o filho, sorriu como quem recebe visitas importantes.
— Como foi, querido? — perguntou num tom caloroso que não pertencia àquela sala.
Aspen cerrou os punhos, encarando o chão.
— Eu.. errei duas questões.
A elfa arregalou os olhos por um instante, antes de o sorriso doce retornar à face.
— Apenas duas questões? Como esperado do meu filho! — ela respondeu, tocando a mão dele com a mesma leveza com que se encosta em uma porcelana cara.
As empregadas sorriram, derretidas.
— Sua bondade é um farol em tempos tão sombrios, Sra. Lythielle — comentou uma das mulheres, ajeitando as sedas do vestido.
— É verdade. Dizem que as ruas do ducado estão perigosas, com um grupo organizado atacando qualquer um que faça parte da nobreza… — a outra suspirou, levando a taça aos lábios. — Mas aqui dentro… graças aos deuses, este lugar é um refúgio de paz.
Lythielle sorriu de volta, uma santa elfa banhada pela luz que filtrava das janelas.
Quando as empregadas saíram, a porta fechou atrás delas e o silêncio se instalou.
O sorriso da mãe evaporou.
— Quer ver as provas? — Aspen perguntou, oferecendo as folhas.
Ela sequer olhou.
— Não é necessário. — A voz carregava o mesmo nojo que se usa ao afastar um inseto. — Tenho certeza de que não é nada relevante.
Aspen baixou o braço sem protestar.
Antes que pudesse sair, passos firmes ecoaram pelo corredor.
As portas duplas do salão se abriram com um estrondo, sem que nenhum anúncio fosse feito.
Cassian Valcrist cruzou o limiar.
Ele tinha a estatura de um monumento esculpido em mármore e autoridade.
Vestia um gibão de veludo negro com fios de ouro e um manto de seda pesada.
Seu rosto era de uma perfeição aristocrática, maxilar marcado, olhos de um cinza tempestuoso e cabelos escuros perfeitamente alinhados.
Em sua mão direita, ele carregava um ramalhete de flores silvestres de pétalas prateadas.
A transformação de Lythielle foi instantânea, quase violenta.
Seu rosto forçou um sorriso calmo, embora o pescoço estivesse rígido.
Cassian a observava com o olhar de um colecionador diante de sua peça mais valiosa. Ele estendeu as flores para ela.
— Para a joia dos Valcrist.
Lythielle aceitou o ramalhete. Seus dedos tocaram as pétalas com uma delicadeza que beirava o tremor.
— Obrigada, meu senhor — murmurou ela, com a voz baixa. — É… impressionante como consegue encontrar flores que me lembram tanto as terras que deixei para trás.
Cassian exibiu um sorriso de satisfação.
Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela com uma naturalidade predatória.
Ele a segurou pelo queixo, forçando-a a erguer o rosto.
— Retribua — ordenou ele, em um tom que não admitia nada menos que obediência absoluta.
Sem esperar, ele a puxou para um beijo firme e possessivo.
Lythielle correspondeu, mas suas mãos, escondidas pelas flores, apertavam o caule das plantas com tanta força que os espinhos começaram a furar a palma de suas luvas.
Aspen assistia a tudo em silêncio.
Havia lido histórias de amor em segredo, e nelas, o amor era sempre puro e incondicional.
Mas ali? A sensação era de que sua mãe estava alimentando uma fera para não ser devorada.
Cassian separou-se dela com um estalo seco e, finalmente, desviou o olhar para o filho, como se lembrasse de que o público daquele teatro estava presente.
— Aspen.
Ele se aproximou e, com mãos fortes, ergueu o filho no ar.
Por um momento, Aspen sentiu-se o centro do universo, olhando o mundo de cima, do alto do ombro do homem mais poderoso que conhecia.
— Meu herdeiro — Cassian disse, um sorriso deslumbrante surgindo em seu rosto. — Diga-me. Como foi o resultado das provas com Morvan hoje?
O coração de Aspen martelou. — Eu… eu errei duas questões, senhor.
O sorriso de Cassian não vacilou.
Mas, nos braços do pai, sentiu o súbito resfriamento da pele dele, um endurecimento quase imperceptível nos músculos que o seguravam.
O brilho nos olhos de Cassian tornou-se metálico, desprovido de qualquer calor paternal.
Sem dizer uma palavra de reprovação, Cassian o colocou de volta no chão, o movimento sendo um pouco mais brusco do que o necessário.
Ele limpou as mãos na túnica, como se tivesse tocado em algo que não estava à altura de sua luva.
— Entendo. — Cassian deu as costas, sua voz voltando ao tom de comando que não admitia réplicas. — Termine seus afazeres e prepara-se para a purificação.
Aspen apenas baixou a cabeça, sentindo o peso do silêncio que o pai deixava para trás.
— Sim, senhor…
O vento soprava forte na sacada do escritório de seu pai.
Dava para ver o ducado inteiro dali: telhados amontoados, ruas estreitas, postes de lampiões acesos mesmo em plena tarde.
Pessoas pareciam formigas.
Cassian apoiava as mãos no parapeito de pedra.
— Veja, Aspen… — começou, em tom calmo. — Tudo isso respira porque alguém decide que pode respirar.
O garoto estava ao lado dele, silencioso.
— Governar se trata de necessidade. As pessoas odeiam a dor, mas odeiam ainda mais o vazio. Então você cria escassez, cria medo… e depois vende a solução. Simples. — Ele sorriu de canto. — Funciona há séculos.
Aspen observava a cidade. Não respondia.
Cassian continuou, passeando o olhar sobre o ducado como um artista diante da própria obra.
— É por isso que você estuda geografia. Economia. Política. Pessoas são rotas comerciais disfarçadas de carne. Se entender isso, nunca passará fome em sua vida.
Ele deu um passo para o lado.
As mãos de Aspen estavam amarradas atrás do corpo. Grossas cordas marcavam seus pulsos.
Uma corrente fria envolvia seu pescoço, presa a um anel de metal no chão da sacada.
Ele estava descalço.
Vestia trapos sujos no lugar de suas roupas refinadas.
Cassian puxou a corrente com um tranco seco, forçando o garoto a dar dois passos cambaleantes à frente.
— Você não obteve uma pontuação perfeita na última avaliação.
O chicote cortou o ar.
Slash!
O estalo ecoou alto.
O corpo de Aspen se contraiu no impacto, mas ele não gritou.
Apenas respirou fundo, os dentes cerrados.
— Resultado abaixo do esperado é desperdício de investimento. Se mal consegue atender minhas expectativas, como espera se tornar o senhor destas terras?
Outro golpe.
A pele ardeu.
— Você é sortudo, Aspen. Vai crescer para possuir a ambição humana e a genialidade élfica. Você nasceu para estar no topo.
Ele puxou a corrente de novo, forçando o garoto a erguer a cabeça.
— Isso aqui é o seu futuro. — apontou para a cidade. — E sempre que falhar em merecê-lo…
O chicote desceu mais uma vez.
— Eu vou lembrá-lo.
Aspen caiu de joelhos.
O chão de pedra estava frio.
O vento batia no seu rosto molhado de suor e sangue.
Mesmo assim, ele manteve os olhos erguidos, encarando o ducado inteiro lá embaixo.
Milhares de pessoas viviam ali.
Nenhuma delas sabia que o herdeiro dos Valcrist apanhava como um animal.
Sua utilidade era a única coisa que o mantinha vivo.
Investimentos não questionam a mão que os molda.
Cassian se aproximou, agachando-se ao lado do filho.
— Isso é educação. — disse, baixo. — Faço isso porque te amo, meu filho. Você entende o amor de seu pai, não entende?
— Sim, pai.
Ele se levantou.
— Ótimo. Vamos terminar por aqui. Amanhã, você irá me acompanhar na resolução de um incômodo em nosso território.
O corpo doía. Mas o olhar permanecia atento, fixo na cidade.
Mesmo quebrado, ele observava.
— Sim, senhor…

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